Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > OMBUDSMAN

Jornalismo e pistolagem

Por lgarcia em 20/06/1998 na edição 47

Lira Neto, Ombudsman de O Povo, de Fortaleza

 

“Só existem duas maneiras de fazer carreira em jornalismo.
Construindo uma boa reputação ou destruindo uma.”

(Tom Wolfe, jornalista e escritor, citado no site do Instituto Gutenberg)

 

O

comerciante Antônio Farias tomou um susto quando abriu a edição do O Povo da última quarta-feira, dia 3 de junho. Afinal, era a foto dele que estava ali, na página 17A, ilustrando uma notícia policial, intitulada “Polícia revela nome dos suspeitos na morte do prefeito”. A matéria tratava do assassinato do prefeito de Acaraú, João Jaime Ferreira Gomes, morto há exatamente um mês, com um tiro de revólver. No jornal, logo abaixo da foto do comerciante, a legenda: “Antônio Filho é um dos suspeitos”.

Tudo não passara de um terrível engano. Ao contrário do que dissera O Povo, o comerciante não era um dos suspeitos do assassinato de João Jaime. Na verdade, o jornal estampara o rosto de Antônio Farias no lugar da foto de um outro Antônio. No caso, Antônio Ferreira Filho, que, junto com o irmão Francisco de Assis Alves Ferreira, está sendo procurado pela polícia como um dos prováveis assassinos do prefeito de Acaraú. No dia seguinte, quinta-feira, veio o desmentido. O Povo tentava esclarecer o grave equívoco. Afirmava que a foto do comerciante Antônio Farias havia sido entregue ao jornal por um coronel da Polícia Militar. O coronel, que não responde oficialmente pelo inquérito, teria informado que havia recebido a fotografia das mãos de um “informante”. O motivo da confusão: na foto original, o comerciante Antônio Farias apareceria ao lado do suspeito Francisco de Assis Ferreira. Segundo a matéria, o tal “informante” teria errado ao recortar a fotografia, deixando apenas o rosto de Farias, excluindo o verdadeiro acusado. Foi aquela foto, já recortada, que O Povo publicou na quarta-feira.

 

Desmentido escorregadio

No desmentido do dia seguinte, em vez de assumir abertamente que havíamos engolido uma trapalhada provocada por uma fonte da polícia, tentamos minimizar nossa própria falha de apuração. Em primeiro lugar, a informação repassada à reportagem pela “investigação paralela” do coronel deveria ter sido devidamente checada antes da publicação. Não o fizemos, abrindo espaço para o erro.

Depois, deveríamos ter informado aos leitores, com todas as letras, que havíamos cometido uma falha grave ao publicar a foto de alguém que, até que se prove o contrário, não possui nenhuma relação com o crime. Mas o jornal preferiu afirmar, em manchete de página, que “Delegado esclarece que foto publicada não é de suspeito”. Ou seja, tangenciamos o problema e tiramos o foco sobre o erro do jornal. Praticamente o jogamos sobre o delegado Wilder Brito, que responde oficialmente pelo inquérito sobre a morte de João Jaime.

Na sexta-feira, dois dias depois da publicação da foto do comerciante Antônio Farias, O Povo parece ter se dado conta de que, com aquele tipo de procedimento, apenas insistia no erro. Naquele dia, uma nota na seção “Erramos” assumia que a manchete do desmentido de quinta-feira (“Delegado esclarece que foto publicada não é de suspeito”) não era fiel aos fatos. O “Erramos” afirmava que teria sido mais “adequado” se o jornal afirmasse que “Foto publicada no O Povo não é de suspeito do crime”. Uma manchete realmente mais direta, mais clara e menos escorregadia.

Mas por uma questão de precisão semântica, poderíamos ter ido ainda mais além. O enunciado do desmentido, na verdade, deveria ter sido outro: “Foto publicada pelo O Povo não é de suspeito do crime”. Entre ser “publicada no O Povo” e “publicada pelo O Povo“, convenhamos, há uma diferença aparentemente sutil, mas indiscutível. Mais que isso: o jornal não fez nenhuma reflexão sobre a publicação de fotos de suspeitos antes deles serem considerados culpados pela Justiça.

 

Todo jornalismo é investigativo

O assassinato do prefeito de Acaraú demonstrou que o “jornalismo investigativo” está em baixa na imprensa cearense. Aliás, todo jornalismo deveria ser, por essência, investigativo. Mas desde que João Jaime Ferreira Gomes foi morto, os jornais locais têm se resumido a noticiar, a conta-gotas, o que a polícia divulga a respeito do episódio. Nesse caso específico, ninguém até agora ousou fazer jornalismo de verdade. A imprensa local limitou-se, na maioria das vezes, a reproduzir as declarações do delegado e a copiar os boletins de ocorrência. Quando resolvemos sair desse trilho e apostamos em “investigações paralelas”, não tomamos o devido cuidado de checar minuciosamente as informações, cometendo erros graves, como o daquela foto publicada pelo O Povo na quarta-feira passada. Na sexta-feira, dia 5, nosso principal concorrente também deu sua cota de antijornalismo em relação ao material publicado sobre o assassinato do prefeito de Acaraú. Estampou, em primeira página, as fotos dos suspeitos da morte de João Jaime, sob um título bombástico e taxativo: “Os assassinos do prefeito”. Isto é, nosso concorrente já julgou e condenou, por antecipação, sem qualquer chance de defesa, os dois acusados.

 

Pistolagem impressa

O assassinato do prefeito de Acaraú apresenta todos os indícios típicos de um crime de pistolagem. Há algum tempo, o discurso oficial do governo do Estado tem insistido na tecla de que os pistoleiros foram “erradicados” do Ceará. Mas tão difícil quando acabar com a pistolagem tem sido romper com o vício de um jornalismo que se contenta com declarações oficiais. Um jornalismo declaratório, bem comportado e que, quando resolve sair da rotina, decide-se também pela velha regra da pistolagem: atirar antes para perguntar depois.

Copyright O Povo, 15/6/98.

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