Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > EDUCAÇÃO E VIOLÊNCIA

Jornalismo, globalismo e a nova estrutura de poder

Por lgarcia em 05/05/1999 na edição 66

Sheila Grecco (*)

 

Se é possível dizer que foi competente a cobertura da Folha de S.Paulo sobre o assassinato do estudante Élcio Clêmio de Souza, 18 anos, morto com 13 tiros numa escola pública de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, o mesmo não se aplica às análises de Gilberto Dimenstein e às notícias da atuação do ministro Paulo Renato.

No caderno São Paulo (1º/5/99, pág. 4-3), há um retrospecto da explosão da violência nas escolas, notícias de explosão de bombas de fabricação caseira e dados sobre o número de mortos em instituições públicas de ensino da periferia de São Paulo. O jornal traz depoimentos lacônicos como o da secretária estadual da Educação, Rose Neubauer, que limitou-se a lamentar a morte do garoto e a jogar a responsabilidade na sociedade. “A escola é vítima de um problema maior que não pode resolver sozinha. É preciso que a sociedade se organize e que seja criada uma legislação mais rígida, que controle a venda de armas”, disse a secretária.

Curiosamente, parece que os editorialistas da Folha compactuam com essa transposição de responsabilidades. Gilberto Dimenstein, que tem momentos de lucidez dizendo que a escola concentra raivas e frustrações sociais, tem outros de extremo simplismo: “A escola reforça a frustração quando faz o aluno se sentir incompetente, ‘burro’, obriga-o a humilhação da repetência, numa punição diária; a professora e o colega são apenas mais um adversário de sua existência, num círculo vicioso da marginalidade”.

Errôneo pensar que o problema está na concentração de poderes por parte do professor, até porque este não concentra poder algum atualmente no Brasil. O educador virou mero joguete do governo. É, na visão dos alunos, um pobre coitado mal remunerado, que trabalha muito e só ouve desaforos. Nunca na história da educação brasileira houve uma política tão agressiva de desvalorização da imagem do professor. Este é obrigado a aprovar todos os alunos, mesmo que estes não apresentem quaisquer condições para tal. Há toda uma pressão, inclusive, da diretoria da escola para que o aluno seja aprovado a qualquer preço. O professor que porventura quiser manter esse aluno em recuperação deve preencher uma série infinita de fichas – explicando o porquê de seu ato – e ser interrogado pela papelada burocrática, como se a deficiência fosse de sua prática pedagógica. As aulas de recuperação, por sua vez, são uma farsa: basta o aluno estar presente, mesmo que escutando walkman ou jogando baralho, que o professor é coagido a aprová-lo. É certo que não se consegue respeito a partir das ameaças das avaliações, mas, por outro lado, esse sistema de avaliação contínua não funciona na rede pública do país. Com um salário de 2 reais por aula é mais vantajoso ser flanelinha do que educador.

Esse professor impositor de tarefas, que obriga a uma humilhação diária – conforme descreve Dimenstein –, só pode pertencer a algum modelo de escola européia. Basta visitar qualquer escola pública para verificar que o professor é humilhado, isto sim, pelos alunos, pela burocracia da escola e pela Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Deveria, sim, estar ao lado dessa reportagem da Folha de S.Paulo um belo destaque para a manifestação que estudantes da Unicamp fizeram em protesto à visita do ministro Paulo Renato na universidade (na mesma edição, pág. 6-3, no canto inferior direito da página). Isto é digno de nota, pois mostra a revolta dos estudantes para com o sucateamento maciço dos recursos das universidades públicas, o corte do corpo docente, das verbas de pesquisa em pós-graduação e assim por diante.

Ao abolir a repetência, ao negar programas de qualificação contínua aos professores e o mínimo de infra-estrutura e segurança para que o professor saia com vida da sala de aula; ao gastar verbas para a instituição do provão, que constata o óbvio e dá status de “universidade” a faculdades sem a menor experiência e qualidade em pesquisas, o ministro Paulo Renato só pode fazer parte da ilha utópica de Tomas Morus, na qual o presidente Fernando Henrique Cardoso, com seu discurso otimista estilo Lair Ribeiro, pensa que o Brasil se encontra.

(*) Jornalista, professora e pesquisadora da USP

 

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