Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Jornalismo, guerra e coca-cola

Por lgarcia em 16/04/2003 na edição 220

ARMA DE DESTRUIÇÃO

Marcio Varella (*)






"Jornalismo é a arte menor de se escrever nas costas de um anúncio".






Nunca, em mais de 25 anos de existência, esta frase, cunhada pelo grande jornalista Cláudio Abramo na Folha de S.Paulo, foi tão atual. Assim me senti quando vi os americanos tomarem Bagdá: um profissional menor, desprovido e despido de qualquer sentimento humanitário, como se os meus 30 anos de profissão tivessem sido jogados no lixo por colegas ainda menores do que eu, como se a censura da época da criação desta frase ainda subsistisse, como se eu não tivesse condições de mostrar a verdade aos leitores, ouvintes e telespectadores brasileiros. Como se o ser humano não tivesse direito à verdade, doa a quem doer.

Os dependentes de droga, principalmente os de álcool, conhecem bem este sentimento que aparece quando decidimos parar de beber: um vazio imenso, uma falta de chão para pisar, uma solidão enlouquecedora. Foi isto o que senti, novamente. Uma indignação inédita na minha memória, uma ira santa, uma revolta imensa contra os currículos das escolas de Jornalismo.

A imprensa forma opiniões. Mas quando as opiniões se formam à revelia da imprensa é porque nós, jornalistas, nos desviamos do caminho da verdade.

Os jornalistas brasileiros dos grandes meios de comunicação, responsáveis pela formação da opinião pública nacional, responsáveis diretos pelas eleições de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, nos fizeram de palhaços, mais uma vez. Entraram como coadjuvantes no show armado pelo Pequeno Bush, chamado "Choque e Pavor", com a missão de enganar a distinta platéia. Nos sentimos como bêbados de chapéu coco, fazendo irreverências mil no solo do Brasil.

Preço da gasolina

Em brilhante artigo na Folha de S.Paulo do dia 10 de abril, a jornalista Eliane Cantanhêde pôs a verdade nua e crua pra fora. E pergunta: cadê as armas químicas (fabricadas por ingleses e americanos e vendidas a Saddam) terríveis que poderiam destruir o mundo? Cadê o exército de terroristas poderosíssimo que ameaçava a humanidade? Cadê as imagens abertas que poderiam mostrar um diminuto grupo de saqueadores iraquianos saudando os americanos? Cadê os 5 milhões de habitantes de Bagdá?

Por ironia do destino, o jornal onde Eliane trabalha publicou, naquele mesmo dia, três fotos fechadas da "tomada" de Bagdá. Tudo não passou de grande palhaçada, de uma armação combinada com os subservientes países dependentes do FMI. Pareceu-me que as matérias mostradas nas emissoras de TV foram editadas em Washington.

Quando o jornalista é impedido de fazer uma matéria, seu meio de comunicação publica o fato, reclama, protesta. Neste caso, ninguém protestou quando o comando militar americano impediu os jornalistas de trabalharem direito. Mesmo assim, 11 jornalistas perderam a vida nesta invasão. E nós, cidadãos comuns, e os livros de história ficarão sem saber como os EUA promoveram o fim de uma civilização, de uma cultura milenar, como humilharam uma religião sem o menor constrangimento. Não sabemos quem é o pior: se aquele que destruiu as torres gêmeas ou se o aquele que ordenou a invasão ao Iraque. Dois podem ser um.

O que é que está havendo com o jornalismo brasileiro? Com qual cor devemos qualificá-lo agora? Já foi verde-oliva, depois collorido", mais tarde "marrom". E hoje, devemos adotar as cores da bandeira americana? Não me lembro de uma linha sequer sobre a guerrilha no Sudão, que já matou dois milhões de pessoas nos últimos cinco anos. Não me lembro de uma linha sequer, naqueles quadros que nos remetem à memória, sobre a atuação de EUA, França e Inglaterra na África, na Ásia e na América Latina, quando dezenas de culturas foram dizimadas em nome de uma suposta democracia, que escondia por trás a ambição pelo lucro fácil.

A história está sentindo falta das imagens das centenas de crianças iraquianas mortas sob as bombas e os tiros disparados à queima-roupa por soldados psicóticos, a história está sentindo falta das imagens dos hospitais e das escolas e mesquitas transformadas em hospitais para atender feridos e amputados. Como será o futuro deste país, agora um protetorado americano? Qual será o futuro cultural de uma criança sobrevivente, que viu seus pais serem mortos e o país bombardeado até hoje não se sabe por quê? Seu coração será transformado em pedra ou em ira? Como elas recuperarão seu equilíbrio emocional? Daqui por diante, a velha dicotomia, o bem e o mal, terá um só caminho, o da vingança?

Matar crianças é mais do que um crime contra a humanidade. É um crime contra a Criação, é o maior dos desrespeitos a uma obra divina, o Homem.

O colunista Paulo Santana, do jornal gaúcho Zero Hora, nos lembra que 40 litros de gasolina, no Iraque, custam hoje US$ 1. Ou seja: é o mesmo valor de um litro de água mineral, que custa aqui no Brasil R$ 0,50. Resultado: o preço da gasolina no Iraque custa a metade do que custa o litro de água no Brasil. Mas até quando? Estarão os jornalistas atentos para o preço da gasolina no Iraque a partir do momento em que um senhor de pijama assumir a chefia do mais novo protetorado americano?

Conversinha no céu

Outra coisa: já é assunto velho essa história
de americano fabricar armas químicas de destruição
em massa. Com base em relatório divulgado recentemente acuso
George W. Bush de derramar sobre a humanidade uma arma química
de destruição maciça chamada coca-cola.

Leiam uma parte deste relatório:


"Em muitos estados americanos os patrulheiros rodoviários carregam dois galões de coca-cola no porta-malas para serem usado na remoção de sangue na pista depois de um acidente. Se você puser um osso em uma tigela com coca-cola, ele se dissolverá em dois dias. Para limpar privadas: despeje uma lata de coca-cola dentro do vaso e deixe a "coisa" decantar por uma hora e então dê descarga. O ácido cítrico da coca-cola remove manchas na louça do vaso.

Para remover pontos de ferrugem dos pára- choques cromados de automóveis: esfregue o pára- choque com um chumaço de papel de alumínio (usado para embrulhar alimentos) molhado com coca-cola. Para limpar corrosão dos terminais de baterias de automóveis: despeje uma lata de coca-cola sobre os terminais e deixe efervescer sobre a corrosão. Para soltar um parafuso emperrado por corrosão: aplique um pano encharcado com coca-cola sobre o parafuso enferrujado por vários minutos. Para remover manchas de graxa das roupas: despeje uma lata de coca-cola dentro do tanque com as roupas com graxa, adicione detergente e bata em ritmo regular. A coca-cola ajudará a remover as manchas de graxa. A coca-cola também ajuda a limpar o embaçamento do pára-brisa do seu carro.

Para sua informação: o ingrediente ativo na coca-cola é o ácido fosfórico. Seu PH é 2.8. Ele dissolve uma unha em cerca de 4 dias. Ácido fosfórico também rouba cálcio dos ossos e é o maior contribuidor para o aumento da osteoporose. Há alguns anos, fizeram uma pesquisa na Alemanha para detectar o porquê do aparecimento de osteoporose em crianças a partir de 10 anos (pré-adolescentes). Resultado: excesso de coca-cola, por falta de orientação dos pais.

A coca light tem sido considerada cada vez mais pelos médicos e pesquisadores como uma bomba de efeito retardado, por causa da combinação coca + aspartame, suspeito de causar lupus e doenças degenerativas do sistema nervoso".


Segundo estudo da Universidade de Washington, 75% dos americanos são cronicamente desidratados. Em 37% deles, o sentimento de sede é tão fraco que é freqüentemente confundido com fome. Mesmo uma desidratação média diminui o metabolismo de uma pessoa em 3%. Um copo de água corta a sensação de fome durante a noite para quase 100% das pessoas em regime.

Ainda segundo a pesquisa, falta de água é o fator n? 1 da causa de fadiga durante o dia. Estudos preliminares indicam que de 8 a 10 copos de água por dia poderiam aliviar significativamente as dores nas costas e nas juntas em 80% das pessoas que sofrem desses males. Uma mera redução de 2% da água no corpo humano pode provocar incoerência na memória de curto prazo, problemas com matemática e dificuldade em focalizar uma tela de computador ou uma página impressa. Beber 5 copos de água por dia diminui o risco de câncer no cólon em 45%, pode diminuir o risco de câncer de mama em 79% e em 50% a probabilidade de se desenvolver câncer na bexiga.

Então, aqui fica uma perguntinha básica: você prefere um copo d?água ou uma coca-cola?

E ao Pequeno Bush, um recado de todas as crianças do mundo: obrigado por realçar, ainda mais, o papel de vítimas a que nós, povos humildes do planeta, sempre fomos submetidos. Nos encontraremos no céu, para uma conversinha com seu superior.

(*) Jornalista em Brasília

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