Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CÂMERAS OCULTAS

Jornalismo investigativo a qualquer custo?

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

CÂMERAS OCULTAS

Antônio Brasil (*)

Caríssimos Dines e Rosental. Permitam-me, com todo o respeito, discordar dos artigos sobre a morte de Tim Lopes e prosseguir no debate sobre o jornalismo investigativo [veja remissão abaixo]. Aproveito para recomendar a leitura da entrevista da ex-produtora de jornalismo da Globo, Cristina Guimarães para o portal Comunique-se <www.comunique-se.com.br>, publicada em 20/6. Nessa entrevista, fica ainda mais clara a função de jornalistas anônimos como os "produtores" na televisão brasileira. Eles, obviamente, não têm uma função muito reconhecida pelo público. Fazem parte da legião de jornalistas que recebem as pautas e têm que torná-las viáveis, de qualquer maneira. Infelizmente, nem todo mundo é experiente, famoso ou rico no "novo" jornalismo brasileiro de televisão. Alguns têm que trabalhar muito para deixar de ser anônimos e passar a receber salários um pouco melhores. Muitos têm que trabalhar bastante para que os famosos sejam ainda mais famosos no "novo" jornalismo investigativo da TV brasileira.

Tento pensar com a cabeça de gente como os produtores de telejornalismo, um simples repórter ou um jovem futuro jornalista, e confesso que fico muito preocupado. Pelo jeito, jornalismo investigativo tem que continuar de qualquer maneira, com ou sem câmeras ocultas ? talvez devêssemos somente acrescentar um pouco mais de prudência. Os fins, afinal, justificam os meios. Temos o direito sagrado de decidir quando e onde vamos atacar com as nossas poderosas câmeras, gravadores, disfarces, mentiras ou quaisquer outras técnicas legítimas e aceitáveis de investigação jornalística. Pobre das Cristinas da vida. Se algum dia forem juradas de morte, podemos sempre considerá-la "maluca" ou, com um pouco mais de sorte, enviá-la para um exílio no exterior. Não faltam candidatos a Prêmio Esso ou a emprego na Globo em Londres ou Nova York.

Não consigo acreditar que o debate sobre ética ou câmeras ocultas seja supérfluo ou "velho" (sic).É claro que tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, mas na terra do vale-tudo, mata-se jornalista por muito menos e não temos como reclamar, a não ser que ele trabalhe para a Globo. Quantos jornalistas do interior são ameaçados diariamente pelos nossos coronéis da comunicação e, nada fazemos a respeito?

Temos, sim, de pensar numa garotada que está muita atenta às nossas opiniões a respeito de práticas jornalísticas não possuem limites claros e consensuais. Repito: nem todo o repórter acredita que temos de ser mais corajosos do que qualquer outro trabalhador. Nem todo mundo acredita que podemos mentir sobre a nossa identidade ou nos disfarçar para obter um furo de reportagem. Muita gente pode morrer nesse caminho. Mas também podemos sempre organizar mais uma passeata com direito a cobertura jornalística.

Jornalista poderosos

Investigar traficante em favela com câmera oculta, pode. Mas também posso entrar em casa de estudantes ou jornalistas que promovem festinhas inocentes com drogas compradas de forma nada inocente? Como um jornalista pode estar escrevendo sobre uma atividade criminosa que mata colegas mas com a qual ele mesmo compactua? Logo, tenho permissão da minha chefia de reportagem para entrar na casa de qualquer jornalista com a melhor das intenções. Estarei denunciando uma prática perigosa para toda a sociedade. Tenho inúmeras outras pautas, igualmente polêmicas que renderão altos índices de audiência e inúmeros prêmios. São todas perigosas, mas também são relevantes e não atingem somente os moradores de favelas ou políticos de partidos que não estão alinhados com a nossa linha editorial, ou seja, os interesses do patrão-editor.

Seguindo essa linha de raciocínio, terei sempre o direito de decidir o que é pauta para entrar com a minha câmera oculta em qualquer lugar que considere jornalisticamente relevante. Sou editor de televisão e isso me basta. Não tenho que me justificar a ninguém, muito menos à sociedade. Os erros de percurso serão considerados meros acidentes. Nada que um bom pedido de desculpas ou texto em tom melodramático não remedie. Se alguém morrer no caminho, poderemos sempre culpar a "violência" ou o "descaso" das nossas autoridades. Aquelas mesmas autoridades que elegemos e reelegemos com tanta competência jornalística durante tantos anos.

Esquecemos muito rápido um passado ainda tão recente. Nada contra perdoar, dar uma nova chance, mas esquecer? Jamais. Já que estamos em clima de eleições, também vamos colocar câmeras ocultas em todas as reuniões de campanha dos candidatos à presidência para investigar as fontes de renda e as estratégias de campanha? No caminho, faremos o mesmo no Planalto, que a tudo observa imparcialmente.

Câmera oculta nos nossos candidatos, pode? Ou seria somente em "alguns" candidatos?

Afinal, o importante é, enquanto jornalistas poderosos, prosseguir no nosso destino de consertar o mundo, buscar a verdade e, se possível, no caminho, ganhar alguns prêmios. Discordar da Globo é sempre muito perigoso em nosso país. Não é à toa que ninguém se arrisca a pautar uma matéria investigativa sobre os seus procedimentos e sobre o seu passado. O jornalismo investigativo deve continuar sempre para os outros. Mesmo que para isso tenhamos que mentir ou nos disfarçar de qualquer coisa, para comprovar denúncias anônimas ou qualquer denúncia que nos agrade.

Profissionais anônimos

O debate sobre as câmeras ocultas é pequeno se comparado com as intenções ocultas de alguns dos nossos jornalistas e dos donos de nossas TVs, mas não é menos relevante. Cristina deixa bastante claro que as pautas perigosas não surgem simplesmente. Elas são impostas, sim, por aqueles que decidem o que vale a pena no país do vale-tudo.

Acredito que temos que nos impor limites, sim. Um erro não justifica um erro ainda maior. Ao perder a nossa principal função de "mensageiros" para nos tornar "protagonistas", estamos comprometendo todo o nosso futuro. Já temos "estrelismos" demais nessa profissão e, principalmente, na nossa televisão. Se não discutirmos esses limites de forma mais clara estaremos condenando garotos sem experiência a outra mortes ainda mais violentas e, sinto muito, ainda mais desnecessárias.

Jornalismo investigativo já foi melhor ? com mais tempo, dedicação e objetivos mais claros ? do que a televisão de hoje nos impõe. Tentam nos convencer que só eles investigam e que esta é a única maneira de mostrar o que está errado no mundo. Quem investiga o jornalismo? Ao se recusarem a ser investigados em suas práticas mais simples. ou criticados em seus erros, dão uma lição de como não fazer jornalismo. Pimenta e câmeras ocultas nos olhos dos outros é sempre refresco. Vamos demandar uma transparência maior do telejornalismo e dos seus objetivos, sim, e não só das autoridades que elegemos e que não cumprem suas promessas. Exigimos um novo reality show: "Casa dos jornalistas de TV", aqui e agora! Já que estamos em clima de "cobrança", deveríamos cobrar mais participação e transparência nos nossos noticiários de TV.

Jornalismo já é perigoso demais. Temos que pensar que nossas opiniões e nosso exemplo podem condenar aqueles que irão nos substituir no presente e no futuro. Discutir a responsabilidade de editores que pautam essas técnicas investigativas é uma questão de sobrevivência tanto para os profissionais como para os nossos objetivos.

Assim como cobramos das nossas autoridades mais "responsabilidade", também devemos cobrar a mesma coisa de profissionais que decidem a vida ou a morte de jornalistas. Nem todos têm a coragem de dizer não a uma "sugestão de pauta" de um editor. Existem diversas formas de se convencer ou pressionar jornalistas em tempos de crise e desemprego. É tudo uma questão de sedução, de vaidade pessoal, ambição profissional ou simples sobrevivência. Injustamente, nas guerras quem costuma morrer não são os generais, mas os soldados. Na guerra da audiência das TVs, quem morre não são os editores ou os repórteres famosos. São os profissionais anônimos como os cinegrafistas ou produtores de jornalismo que têm que se disfarçar de prostitutas ou funkeiros para ser tratados como jornalistas.

(*) Jornalista, coordenador do Laboratório de TV, professor de telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ.

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