Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > momento

Jornalismo light e Copa fake

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

MÍDIA NA COPA

Ivo Lucchesi (*)

Fim de jogo. Deu Nike na "cabeça". De um modo ou de outro, a "dívida" da misteriosa final de 98 foi paga. A disputa na alternância das marcas está uma vez mais preservada: Adidas em 90, Umbro em 94, Adidas em 98 e Nike em 2002. Seja como for, em meio a traquinadas daqui e dali, o Brasil obteve o "penta", enquanto, curiosamente, no calor das decisões esportivas, quatro marinheiros sul-coreanos morreram e outros 22 resultaram em feridos num "inesperado" confronto entre navios de guerra das duas Coréias. Por sua vez, o governo da Coréia do Norte não informou se houve vítimas em sua frente de combate. Salvo qualquer equívoco, parece que os bastidores da Copa tiveram mais tarefas que as seleções em campo, no curso de intermináveis jogos, em sua maioria, inexpressivos.

A julgar pelo comportamento adotado no "jornalismo oficial", nada a noticiar para além dos fatos em si. Ao leitor desavisado, resta sempre a leitura desconectada: a derrota da Coréia para a Turquia na definição dos terceiro e quarto lugares, nos cadernos dedicados à Copa; a notícia do conflito entre as Coréias, nas páginas de política internacional. Nada de especulações; menos ainda, arriscar correlações entre os acontecimentos. O "jornalismo oficial" apenas permite desvirtuamento da realidade crua dos fatos, em caso de interesse comercial ou ideológico.

Assim, em questão de dias, o mundo foi apresentado ao "fantástico e portentoso gigante Khan" que, no jogo decisivo, fez o que fez (ou seja: abriu o caminho para a vitória brasileira). Quanta baboseira! Também, em questão de dias, o Brasil foi transformado, segundo avaliações da ciranda financeira, em país de altíssimo risco para efeito de investimentos e aplicações. Quanta armação!

Idolatria ilimitada

Há algo de comum entre o incidente militar da Coréia e a crescente e elevada taxa de risco do Brasil. Tais ocorrências vão de encontro ao fortalecimento da auto-estima tanto de coreanos ? dada a "gloriosa" condição de semifinalistas num evento a mobilizar o mundo ? quanto de brasileiros na sua obstinada conquista do "penta". A propósito, bem recordava Emir Sader, em artigo publicado no Jornal do Brasil (29/6/02), a pretexto da final entre Brasil e Alemanha, o real significado embutido nessa disputa. Ali, no gramado, o país periférico pode ganhar do G-8. Lá, para os coreanos, não custa deixar o "sustinho" de uma promessa de guerra, em nome da unificação da Coréia dividida. Afinal, a Coréia do Norte representa um entrave para a escalada da "Globalização" no Oriente.

Também foi sintomática a notícia divulgada em vários jornais quanto à disseminação, em dimensões catastróficas, da Aids na China. A edição do Jornal Brasil (já citada) alardeava em sua manchete: "Aids põe China à beira da catástrofe". Em meio à matéria, destacava-se: "China pode ter 20 milhões de infectados no fim da década". Claro, a informação pode até estar correta. O ponto, porém, a acentuar-se aqui diz respeito ao momento dessa informação, como também o momento do incidente militar na Coréia, além do momento afirmativo e hegemônico do Brasil no âmbito do futebol. As três situações expõem dois quadros nos quais o sentimento de autoconfiança das respectivas populações vem contaminado com temas rebaixadores dessa afirmação. Nada disso, todavia, toca a sensibilidade do chamado "jornalismo oficial".

Bem, a novela onírica do "penta" cumpriu seu último
capítulo. Agora, vivida a euforia, retorna a realidade crua
e cruel, com problemas avassaladores paras os quais o "fenômeno",
com seu novo modelito em versão "filho de samurai",
nada tem a oferecer. Afinal, para os aficcionados da ilimitada idolatria,
a "chuteira prateada" tudo já fez pela nação.
Enfim, a heróica "família Scolari", terminada
a "batalha" e vencida a "guerra", se desfaz.
Cada um, após um adeusinho, tratará de faturar o título
na bolsa dos negócios, enquanto a "galera" volta
a gingar nas ruas, tentando escapar (pela direita ou pela esquerda)
das "balas perdidas" e de outros tantos assédios
ameaçadores…

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá)

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