Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES >

Jornalismo marrom em revistas

Por lgarcia em 20/03/1998 na edição 41

Victor Gentilli

 

U

ma das características de nosso mercado de comunicação é a inexistência de revistas regionais. O monopólio dos grandes grupos é tão forte e a ausência de uma segmentação regional para a publicidade nacional terminam por fazer com que as poucas experiências de revistas terminem sempre em alguma coisa muito parecida com um balcão de negócios. Há exceções, louváveis. Mas não há exceção capaz de sobreviver como a regra.

O prefeito de Vitória, Luís Paulo Velloso Lucas, em atitude corajosa, ousou ir à Justiça enfrentar uma dessas revistas. Pelo que tudo indica, livrou-se de problemas e chateações.

O ex-prefeito e candidato a governador, Paulo Hartung, preferiu dar uma longa entrevista a uma outra revista, da mesma laia. A edição mereceu publicidade. Ganhou um outdoor enorme, com foto do candidato e frase destacando sua disposição de ir a convenção e governar o Estado.

A Justiça Eleitoral entendeu tratar-se de propaganda eleitoral e manteve apenas o nome da revista e um inexpressivo texto: “entrevista imperdível!”

  • Imprescindível deixar de anotar que o ato da Justiça Eleitoral constitui-se em censura inequívoca.
  • Forçoso igualmente observar o ineditismo de uma pequena publicação divulgar sua edição com enormes outdoors coloridos. Mesmo que com uma entrevista exclusiva de um dos favoritos na campanha eleitoral que se avizinha.

 


V.G.

 

F

az muito poucos anos que os dois diários do Espírito Santo circulam sem interrupção no Carnaval. A prática era sair a última edição no sábado; a seguinte, com cobertura exclusiva de Carnaval e Polícia, só na quarta-feira.

Agora os jornais circulam todos os dias. Registre-se, senão o mérito, ao menos a ausência do demérito. Mas o burocratismo das edições carnavalescas alcança o paroxismo. Aquele que lê seus textos destes dias parece que se contamina com o mau humor ostensivo com que foram produzidos.

Mas encontra, aqui ou ali, algumas exceções e curiosidades:

· Uma boa cobertura de saúde: a epidemia de dengue na Grande Vitória agrava-se a olhos vistos, mas os jornais acompanham com atenção. As edições de Carnaval não falharam aí.

· A publicação na íntegra de uma carta de Nahum Sirotski, de Tel Aviv, na edição de segunda-feira, em A Gazeta, com mais de dois meses de atraso. Incompreensível (nos dois sentidos) publicar um texto com tanto atraso. (Ver remissão abaixo.)

· O desabamento de um edifício de 22 andares no Rio de Janeiro foi tratado como episódio banal. Chegou o material das agências e os jornais fecharam, mas não editaram.

 

Na quinta e sexta-feira, A Tribuna, um pequeno mas valente tablóide, se redimiu:

· Na quinta, em reportagem especial, apurou a relação entre a queda brutal da violência do trânsito no Carnaval com o novo Código. Parece pauta óbvia, o que efetivamente é, mas até então A Gazeta não a fizera.

· Na sexta, nova reportagem especial, ouvindo Conselho de Engenharia, Corpo de Bombeiros e órgãos de defesa do consumidor com dicas para evitar novas tragédias como a do edifício que desabou no Rio de Janeiro. No mesmo dia, o Bom Dia ES, da TV Gazeta, publicava a mesma matéria, parecendo que a pauta foi oferecida pela assessoria de imprensa do Crea. Mas mesmo assim A Gazeta comeu mosca.

 


V.G.

 

A

edição de A Gazeta do ES na sexta, 27 de fevereiro, marca uma mudança no tratamento do jornalismo da violência, também chamado impropriamente de policial. A Gazeta, como há muito não se via, trouxe para a manchete do dia a morte de um traficante que dominava o trafico num morro da cidade. Igualmente surpreendente: o jornal recusou a unanimidade da versão policial e destacou também a versão de familiares de que ele foi fuzilado enquanto dormia.

Aqui ou ali, já se via na surrada editoria de polícia de A Gazeta sinais de busca de novos caminhos. Algumas matérias vinham mais elaboradas, com mais versões, com algum tratamento humano. Mas continuava prevalecendo, no noticiário do dia-a-dia, o jornalismo declaratório, apenas a versão policial.

O movimento parece indicar que o jornal apurou um interesse dos leitores pelo tema da violência e da segurança pública e faz sugerir que A Tribuna procura um novo tratamento editorial para o assunto. Não há saída fora da extinção da editoria de polícia. Os repórteres especializados continuariam seu trabalho, mas com mais liberdade e com um editor (de Cidades, por exemplo) mais aberto e disponível a equilibrar o tratamento, a dividir melhor os espaços, a selecionar o noticiário com outros critérios, etc.

A Tribuna, que sempre se destacou por uma cobertura mais intensa e mais visível dos temas da violência (a editoria de polícia fica lá na frente, depois apenas da cidades – o que uma consultoria de Navarra não faz!?) perdeu a oportunidade de contar duas boas histórias. Primeiro, deu a morte do traficante apenas na versão policial. Depois, desperdiçou a chance de contar uma boa história numa matéria exclusiva, mas mal contada. A prisão de um rapaz de classe média, 23 anos, cocainômano desde os 12, que roubara uma casa num bairro de classe média alta para adquirir a droga. Ele trabalhava com o pai, perdeu a família e o emprego onde ganhava R$ 600,00 quando se tornou evidente o vício.

Era pauta para reportagem. Não se fez sequer matéria. Fez-se apenas boletim de ocorrência.

 


 

D

e 13 a 15 de setembro realiza-se em Recife o IV Congresso Latinoamericano dos Pesquisadores da Comunicação (ALAIC), junto com o congresso da Intercom.

Como coordenador do Grupo de Jornalismo e Imprensa da Associação, até 30 de marco estou recebendo inscrições de papers (estudos sobre jornalismo e imprensa na América Latina) para apresentação no grupo. Por enquanto é necessário apenas um resumo de cinco linhas e, uma vez que o trabalho venha a ser selecionado, o texto total (10 a 20 laudas) deve ser entregue até 30 de maio.

 

Eduardo Meditsch
Coordenador do Grupo de Jornalismo e Imprensa
Associação Latinoamericana dos Pesquisadores da Comunicação – ALAIC
Caixa Postal 5099
88040-970 – Florianopolis SC
Fax 48-3319988
e-mail:
meditsch@cce.ufsc.br

 

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