Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > RIO GRANDE DO NORTE

Jornalismo, ética e elogio fácil

Por Francisco Duarte Guimaraes em 20/06/2001 na edição 126

RIO GRANDE DO NORTE

A imprensa, como já dizia Rui Barbosa, é a vista da nação. Sem ela a sociedade fica órfã de informação e carente do debate, oxigênio e sangue da democracia moderna.

Já se disse até que é preferível que não haja governos, mas que haja a imprensa. Ou ainda que não existiria a sociedade civilizada sem a presença da imprensa para registrar e, mais que isso, acompanhar os passos da nação rumo ao futuro.

É imperioso, porém, que para exercer seu trabalho com dignidade, o jornalista tenha liberdade e procure agir com ética. A ética do jornalista é a mesma do cidadão, já nos ensinou Claudio Abramo, um dos maiores profissionais de Jornalismo que esse país já teve, e que por anos comandou redações importantes como as do Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo.

Parece não haver dúvidas de que um médico, por exemplo, sendo de determinada facção política, possa "segurar" a informação sobre um iminente golpe de Estado, mesmo que este golpe possa fazer o país mergulhar num caos tremendo, sendo ele partidário do golpe por convicções pessoais e políticas e sendo esta sua atitude a garantia do sucesso do intento golpista.

Mas não se pode dizer o mesmo do jornalista, que por dever ético e de ofício teria a obrigação de divulgar a verdade escondida e que, por isso mesmo ? ou seja, por ser verdade ? é um direito de qualquer cidadão tê-la em consciência em todas as suas dimensões e debate, inclusive o da iminência do caos.

No dia-a-dia das redações nem sempre esses preceitos são cumpridos. Em maior ou menor grau, aparentemente inofensivos, não são levados a sério ou plenamente praticados. Falta-nos a liberdade necessária, que passa por uma série de fatores internos e externos ao profissional ou à empresa, mas sempre ligados à liberdade.

Talvez isso explique o fato de alguns veículos de comunicação do Rio Grande do Norte não divulgarem determinadas informações nem levarem ao debate com o leitor reflexões acerca desses mesmos fatos para que os leitores possam formar a sua opinião da maneira mais ampla, profunda e livre possível.

Muitas vezes é preciso que os grandes veículos de comunicação do país, como Veja, IstoÉ, Folha de S.Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Jornal Nacional e outros divulguem coisas sobre o Rio Grande do Norte para que saiam algumas linhas, não raro até mesmo como reprodução, nos jornais locais ? aí incluídas emissoras de rádio e de televisão.

Não é difícil, porém, o leitor encontrar, onde deveria haver informação, análise e reflexão, notinhas de titulares de colunas afagando o ego de amigos, donos de restaurantes, proprietários de hotéis e pousadas, de empresários que são sempre, para esses colunistas, "de sucesso", "grandes líderes" ou "capitães-de-empresas", da maneira mais descarada e cínica possível.

Não é de se estranhar que apareçam também, de vez em quando, nessas e noutras partes dos meios de comunicação, derretidos elogios a representantes do povo, aos políticos desta ou daquela agremiação partidária, aos ocupantes deste ou daquele cargo público. Uma prática que, de tão repetida, parece ter virado regra no Rio Grande do Norte.

Isso não quer dizer que não se possa registrar o trabalho que deu frutos positivos para a sociedade e, desta forma, incentivar o empenho e a dedicação pelo reconhecimento. Não. Até porque isso também faz parte do fazer jornalístico, tendo-se o cuidado de saber diferenciar aquilo que é notícia daquilo que é apenas uma obrigação de qualquer ocupante de cargo público. Afinal, como diria Millôr Fernandes, jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.

O que se questiona é que, como já foi dito, parece que a prática do elogio fácil virou regra na imprensa do Rio Grande do Norte.

É necessário, portanto, que façamos uma reflexão acerca das atitudes e da responsabilidade social da imprensa frente à realidade do mundo.

Os tempos mudaram e, apesar de o jornalismo ser uma profissão relativamente nova, na concepção e na formação do exercício profissional é preciso saber exatamente o que a sociedade quer e espera de nós ? e não e somente os detentores transitórios do poder.

(*) Jornalista e professor da UFRN; e-mail: <fguimaraes@ufrnet.Br>

    
    
                     

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