Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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PRIMEIRAS EDIçõES > OLHO DO FURAÇÃO

Jornalista brasileira invade o Afeganistão

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

OLHO DO FURAÇÃO

Antônio Brasil (*)

Como era de se esperar, centenas de jornalistas do mundo inteiro estão a caminho da zona de guerra do Afeganistão. Eles são os "correspondentes de guerra", e seguem, mais uma vez, em busca de imagens e notícias dos grandes conflitos internacionais. E como também era de se esperar, já tem jornalista brasileiro seguindo nesta mesma direção. Porém, para surpresa de muitos, este jornalista brasileiro não é um homem, não é famoso e não trabalha para a Globo ou para qualquer outro veículo da imprensa brasileira. Afinal, mesmo se quisesse, não poderia! Cristiana Mesquita, a primeira e única correspondente de guerra brasileira na atualidade, não pode trabalhar para nenhuma dessas empresas. Apesar de um currículo profissional internacional invejável, por um desses acidentes do destino ela não tem qualquer diploma e muito menos de jornalismo!

E foi dessa forma, discretamente, "sem lenço e sem documento", que Titi Mesquita, como é conhecida lá fora, mais uma vez partiu, semana passada, para outra grande aventura. Experiência não lhe falta. Afinal, passou anos cobrindo a guerra na Bósnia, onde chefiou as operações de uma das maiores agências internacionais de notícias, a APTN, o braço televisivo da Associated Press, além de participações recentes na guerra de Kosovo e principalmente da luta do dia-a-dia de violência aqui mesmo no Brasil, como correspondente da CNN. Na luta pela oportunidade de fazer jornalismo, ela continua em busca da notícia onde ela é mais quente, no meio das guerras. E mais uma vez, Titi Mesquita foi convocada pela AP para estabelecer as principais ligações televisivas do mundo com a "Guerra total dos americanos contra o terrorismo!"

Para quem gosta de geografia e jornalismo de verdade, seu destino é, primeiro, o Tajiquistão ? ou algo parecido ?, a caminho da fronteira norte do Afeganistão, onde deve estabelecer contato com a mais nova invenção da tão desastrada política externa americana: "os guerilheiros da Aliança do Norte". Esses "bravos combatentes da liberdade" (sic) ou, simplesmente, "os neotalibãs", deverão abrir o caminho para as gloriosas tropas americanas e para alguns poucos jornalistas, nos próximos dias. Em algum lugar ainda não bem definido, essa nossa colega brasileira deverá se juntar a uma verdadeira elite de jornalistas de todo o mundo. Profissionais da área especializados em capturar imagens e notícias que serão utilizadas por todos os demais correspondentes internacionais de TV. Esta também é uma outra elite do jornalismo que, pelos mais diversos motivos, insiste em cobrir os eventos internacionais "confortavelmente" das ruas de Londres, Nova Iorque ou até mesmo Brasília. Mas sempre com as últimas imagens daquelas agências "sem nome" que cobrem convenientemente as últimas "notícias" de todos os fronts.

Estranha confraria

De lugares com nomes estranhos, aqueles crazy journalists ou "jornalistas loucos" ? como se autodenominam com um senso de humor negro típico ? vão tentar mostrar o que poucos querem ver mas que todos precisamos saber: um pouco mais de verdade e um pouco menos de especulação. Com muito profissionalismo, tecnologia de ponta e uma imensa curiosidade, esses "jornalistas da guerra" arriscam suas vidas diariamente e se reencontram ? infelizmente, com uma freqüência sempre maior ?em mais um de seus grandes eventos internacionais.

Estes reencontros não acontecem em seminários ou congressos de televisão. Não são nunca festivos. Muitos desses jornalistas não voltam mais. Muitos morreram, outros estão com graves problemas psicológicos, outros, simplesmente, desistiram. Mas, mesmo assim, há sempre uma nova geração de intrépidos voluntários tentando provar que são ainda melhores do que os veteranos de guerras passadas.

Eles se arriscam sempre mais do que o bom senso recomendaria, mas todos têm o mesmo objetivo: alcançar um lugar de glória nessa reservada e estranha confraria. E como eles mesmo dizem e insistem: "enquanto houver guerras, alguém tem que fazer este trabalho"! Eles são os profissionais que continuam invadindo o terreno minado dos bloqueios das notícias apesar dos esforços em contrário dos verdadeiros donos da festa: os militares!

Desmaio no ar

Nesse cenário de guerra, a tecnologia também segue firme com os jornalistas, invade o Afeganistão e cria novos desafios. Outro dia, ao assistir a uma transmissão da CNN com o correspondente Nic Robertson "do Afeganistão, ao vivo" via videofone ? aquele pequeno computador acoplado a uma câmera digital e a uma linha celular via satélite que transmite tudo pela internet de qualquer lugar do planeta ? foi possível testemunhar uma dramática demonstração do potencial do novo equipamento e dos perigos do jornalismo participativo.

Numa cena bizarra e inusitada, para surpresa de milhões de telespectadores, inclusive da própria apresentadora da CNN, assistimos de casa ao experiente jornalista americano cambaleando, pálido, cada vez mais "amarelo" durante um "flash ao vivo". Primeiro, parecia que era algum problema com a transmissão. O videofone ainda é uma tecnologia experimental com enorme potencial jornalístico, mas diversos problemas técnicos. Numa questão de segundo, Nic Robertson simplesmente desmaiou em frente a sua câmera automática.

Do outro lado do mundo, em Atlanta, ninguém ousava dizer nada. Mas todos já imaginavam o que poderia estar acontecendo com o experiente correspondente americano, numa situação tão difícil e num lugar tão remoto. Suspense geral! Após aproximadamente longos 10 minutos, o velho Nic, dessa vez sentado e visivelmente abatido, reapareceu tranqüilizando a todos e dizendo que estava bem. Era só mais um mero caso de "food poisoning" ou "envenenamento alimentar". Este é só mais um exemplo dos pequenos problemas que os correspondentes internacionais enfrentam quando decidem ir atrás das notícias. Principalmente aqueles que decidiram acompanhar pequenos bandos de guerrilheiros desnutridos e miseráveis numa tentativa nem sempre bem-sucedida de mostrar e contar a todos nós, durante alguns poucos minutos, como é uma guerra de verdade.

No entanto, apesar dos grandes riscos e da importância do seu trabalho, a grande maioria desses jornalistas não é formada de nomes famosos, não distribui autógrafos e não se preocupa sequer com a aparência antes de falar frente às câmeras. O grande contingente deles é formado por grandes profissionais sem nome e, algumas vezes, sem diploma ? nem todos tiveram o privilégio de estudar em prestigiosas e muitas vezes caras instituições de ensino ? mas todos têm um elemento em comum: muita garra!

Hoje, mais do que nunca, a cobertura de televisão internacional é feita com equipes mínimas, muitas vezes até mesmo de maneira solitária. Jornalistas têm enfrentado os novos donos do poder nas redações: os administradores financeiros e suas "sérias restrições orçamentárias". Dessa forma, o correspondente de guerra, mais do que qualquer outro, jornalista, se expõe cada vez mais. Por outro lado, ele passou a conviver, de forma cada vez mais próxima, com seus próprios personagens. Tudo isso para satisfazer uma necessidade crescente de vermos aquilo que insistimos em dizer que não queremos e não devemos ver. Mas que, certamente, entendemos cada vez menos!

(*) Jornalista e professor de telejornalismo da UERJ

    
    
                     

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