Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Jornalista, gestor da informação

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

DIPLOMA E CONHECIMENTO

Tina Andrade (*)

Nós estamos todos sentados à porta da Era de Aquário onde reinam soberanas a comunicação e a tecnologia, discutindo singularmente o "papel" do jornalista. Não o papel no sentido de sua atuação, mas sua habilitação.

Estou diante de universitários à beira de um ataque de nervos, preocupados essencialmente com o investimento de tempo e dinheiro feitos até aqui, para acabarem se transformando em "profissionais dispensáveis".

Sim, na cabeça destes formandos (mesmo na cabeça dos veteranos) acaba de cair o pesado sino da inoperabilidade. Tudo por conta da não-obrigatoriedade do diploma. Mas isso porque o jornalista está com a visão turva e só consegue enxergar parte do que é. Ele é um "gestor de informação" por excelência, e não se deu conta disto.

Para cruzar o portal que separa o jornalista do "gestor de informação" é necessário romper velhos paradigmas e olhar o jornalismo com os olhos da inovação tecnológica e da gestão do conhecimento.

Como proceder diante da avalanche de informação que invade nossa área de trabalho? Como apurar toda esta informação e transformá-la em conhecimento, em notícia genuína?

Antes de responder a estas perguntas é preciso relacionar os níveis de conhecimento.

Conceitualmente há dois níveis: o conhecimento a priori e o conhecimento a posteriori. O primeiro independe da experiência, da vivência, é perceptível, intuitivo; já o segundo requer experiência, experimentação na prática.

Contudo, em ambos os níveis, o fator determinante será sempre o discernimento. Eu ouso classificar ainda alguns subníveis de conhecimento além do tácito (que se deduz) e do explícito (expresso formalmente, que tem explicação) que merecem discussões mais amiúde: o tático (que se põe em prática, ordenado); lícito (admissível, permissível); ilícito (inadmissível); estéril (improdutivo) e estratégico (direcionado ao objetivo).

Da banca ao botequim

O conhecimento é volumoso, tem diferentes aspectos, características e especificidades. À medida que o esmiuçamos e desmembramos estamos gerando mais e mais conhecimento. E é justamente isso que nós, jornalistas, fazemos na prática.

É difícil caracterizar um conhecimento que adquirimos sem saber exatamente quando, onde e como. Por isso não sabemos explicá-lo. Muitas vezes não temos consciência do conhecimento que temos. Ele é dinâmico, está em constante mudança, sendo aperfeiçoado, crescendo e se modificando a cada instante.

No Brasil, apesar dos altos investimentos nas telecomunicações e na privatização da telefonia estatal, apenas 3% da população têm acesso à rede mundial de informações. Mesmo assim, nós jornalistas, os considerados "incluídos" ? por termos acesso à tecnologia de informação ?, recebemos uma chuva de bytes diariamente: correios eletrônicos, websites, newsletters e outras formas de comunicação tecnológica despejadas, ao contrário do que dizem, com a nossa total permissão.

Sim, porque a partir da hora em que aceitamos estar "plugados" com o global estamos liberando o acesso a todo tipo de informação. Mantê-la ou não já é outro processo: o verdadeiro processo de gestão da informação.

Enquanto isto, ainda há o grupo dos "naturalmente excluídos". Este resiste bravamente ao uso da TI, tem antipatia por máquinas e "focas", mas vai buscar informação em outras fontes: bancas de jornais abarrotadas de publicações cada vez mais focadas em segmentos específicos, rádios, programas de TV em canais abertos ou por assinatura, o cartaz na traseira do ônibus, a bula do medicamento, o maço do cigarro, a escola, o botequim onde se encontra com lobistas e "coringas"… Há mais fontes de informação do que podemos imaginar.

Pré-seleção e pré-disposição

Mas para a construção do conhecimento, é necessário desenvolver uma metodologia própria, mais adequada a seu modus vivendi, para que a assimilação se dê por um processo seletivo, prático e, sobretudo, aplicável.

Não há vantagem no "conhecimento estéril" (como classificado anteriormente). De que adianta saber "quantos alevinos vão morrer pela utilização de jet skis", se isso não puder ser aplicado de alguma maneira? Deve ter representação robusta, permitindo a sua utilização mesmo que não aborde todas as situações possíveis.

O conhecimento é a informação transformada em moeda forte. Não é nenhum absurdo, nada ilógico, aplicar informação como se aplica dinheiro. Mas o princípio não é quantitativo, é qualitativo: aplicações variadas, a curto, médio e longo prazo. É importante reconhecer os excessos de informação a fim de administrar melhor o tempo e o volume de dados que nos chegam pelos diversos meios.

Muita informação pode levar à dispersão. Deve-se realizar a busca ordenada da informação, considerando a qualidade e os meios. Filtrar estes canais e conteúdos considerando: a) se a fonte é confiável; b) a tendência de quem produziu (se é política, ideológica, comercial); c) a metodologia que dá base à informação; d) o sentido lógico do contexto; e) a utilidade e o grau de aplicabilidade da informação em relação àquilo que estamos desempenhando.

Para se manter bem-informado não é necessário quantificar. Aquela prática da leitura de dois, três jornais diários da capa à última página há muito não é mais sinônimo de absorção de informação, mas de desperdício de tempo.

A gestão da informação na era do conhecimento considera a pré-seleção e a pré-disposição (biológica inclusive). Regra número um: delimitar o tempo que deverá ser dedicado à busca dos dados, considerando seu próprio biorritmo. Exemplo: uma pessoa vespertina jamais assimilará conteúdo ou o produzirá no mesmo ritmo das matutinas ou das notívagas; segundo: selecionar os dados que estarão sendo buscados por palavras-chave, códigos, ícones, temas ou quaisquer referências claras; terceiro: definir o volume dos dados necessários ao seu melhor desempenho; quarto: selecionar o(s) local(is) da busca mais adequado(s) a esse volume; e por último: eliminar os excessos, dados duplicados, redundâncias, a fim de não tornar a informação prolixa.

Auto-avaliação

A gestão da informação é, de fato, o grande desafio deste século, pois já estamos falando não mais em megabytes ou gigabytes, mas em yottabytes: a informação multiplicada aos setilhões e espalhada pelos provedores, fórums, chats, instant messengers, lojas, bancos online ? que são as referências mais simples do nível do que conhecemos hoje na internet.

Estudo desenvolvido pela School of Information Management and Systems (SIMS), da Universidade da Califórnia, revelou que a humanidade vai produzir, nos primeiros três anos deste novo milênio, mais informações do que o volume gerado nos 300 mil anos anteriores. E que, em futuro próximo, essa quantidade de dados deve dobrar a cada ano.

Mudança de paradigma: jornalista é, de fato, "gestor de informação". Posso arriscar dizer que este é segundo momento mais importante para o jornalista brasileiro nesta virada de século: o primeiro foi há cerca de quatro anos, quando surgiu o "conteudista de web" ? uma avalanche de sites corporativos seguia espantosamente pela infovia, cheios de recursos em flash, formulários, bancos de dados poderosos, mas… conteúdo que era bom, nada. Um fracasso. Então o jornalista forçosamente retomou seu status e cresceu no mundo tecnológico. Assistimos colunas inteiras saltarem dos jornais impressos para os eletrônicos sem perda de prestígio, ao contrário, tomando emprestada a velocidade da internet para se propagar, da mesma forma que hoje contamos com veiculações exclusivamente "on the web".

Nas empresas, a ascensão das intranets, extranets, das comunidades de prática (networks), do trabalho associado viabilizado pelas ferramentas de workflow, enfim, um momento ímpar. Agora, apesar de todo o desespero estampado não apenas na classe universitária, formandos, recém-formados e mesmo profissionais, com a queda econômica dos titãs da imprensa gerando demissões em massa e mais recentemente com a polêmica do diploma, este segundo momento é importante porque nos dá a chance de fazer rigorosa revisão de processos. Sim, fomos obrigados a parar e nos auto-avaliar sob o ponto de vista da qualidade, da técnica, da eficiência.

Reaprendendo tudo

Há uma visão obtusa de jornalista como "homem de redação". Que tal uma olhada ao redor? Com um computador, uma linha telefônica, conhecimentos básicos de internet e, principalmente, uma boa idéia na cabeça, a partir de um único jornalista podemos ver nascer uma redação virtual, uma mídia vertical, direcionada, uma espécie de "zine". O jornalista criativo pode voar "solo" ou carregar com ele toda uma equipe atuando autonomamente e abrindo frentes. No mercado corporativo, áreas ou departamentos específicos para gestão da informação e do conhecimento serão o "fígado" ? ou o principal órgão ? das empresas, e o jornalista que estava limitado às relações com a imprensa vai passar a participar das tomadas de decisão junto das diretorias pelo simples fato de ser um profissional do conhecimento, o tal "GI".

Não hesito em dizer que a profissão de "jornalista", tal qual conhecemos, vai se extinguir. E por mais traumático que possa parecer este profissional está se transmutando. O jornalista é, de fato, um profissional híbrido: misto de gestor de informação, tecnólogo, educador, formador de opinião… Que avanço! Faltou apenas acrescentar "empreendedor", mas isso não demora.

Devemos questionar, sim, um melhor preparo técnico. Compreender melhor o processo desde a captura dos dados, a apuração da informação à publicação da notícia; o caminho que esta notícia percorre; as interferências e mutações que ela sofre. Enriquecer o vocabulário, estilizar o texto, compreender melhor os anseios de quem consome a informação que produzimos, sua mudança de hábitos, de cenário.

Tão ou mais importante que a obtenção da informação e a sua transmutação em conhecimento (a priori ou a posteriori) é saber como e quando aplicá-lo. De nada serve saber muito e não poder fazer nada. É como saber aviar uma receita quando o momento pede que se aplique uma injeção ou vice-versa.

O conhecimento implica administração do tempo de busca da informação, mais o valor que esta informação agrega, mais sua prática. E a gestão implica essencialmente estar-se aberto às mudanças conceituais e, se necessário for, reaprender tudo aquilo que se pensa que já é sabido.

(*) Jornalista, gestora de informação e conteúdo

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