Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > PROTEÇÃO DA FONTE

Jornalista ou cidadão?

Por lgarcia em 31/07/2002 na edição 183

RESPONSABILIDADE & ÉTICA

O jornal Chicago Sun-Times está sendo criticado por analistas de mídia e professores de ética por ter entregado à polícia um videotape que supostamente mostra o cantor R. Kelly fazendo sexo com uma garota menor de idade. A evidência levou ao indiciamento do artista por pornografia infantil.

Steve Rhodes, editor sênior da revista Chicago, diz que tal cooperação voluntária "desafia uma longa tradição jornalística", e os repórteres foram censurados pelos colegas porque estariam agindo como policiais. Philip Meyer, professor de Jornalismo da Universidade da Carolina do Norte, contesta a acusação: para ele, o crítico Jim DeRogatis e o repórter Abdon Pallasch estavam simplesmente agindo como cidadãos, "algo que todos deveríam fazer, especialmente quando manter segredo pode levar a um dano à sociedade" [USA Today, 16/7/02].

"De onde vem a noção de que jornalistas devem manter uma indiferença arrogante daquilo que investigam?", questiona. Independência e objetividade são necessárias, "mas isto não significa ser insensível". Além do mais, argumenta Meyer, definir policiais como "caras maus" era algo predominante nos movimentos pelos direitos civis dos anos 60, quando se questionava todo tipo de autoridade. Era uma reação à passividade dos jornalistas diante do governo autoritário da década anterior.

Outra reação, no entanto, foi a criação do "jornalismo cívico", que tinha como premissa a preocupação com o que acontece em sua comunidade. O Sun-Times defendeu sua decisão dizendo que jornais "não são inimigos naturais da imposição da lei" e que não vêem o crime de forma indiferente. Meyer elogia a posição do diário e convoca: "Repórteres, cumpram seu dever cívico".

PROTEÇÃO DA FONTE

A fabricante de cerveja Interbrew desistiu de processar o Independent por matéria, baseada em documentos vazados, que previa a aquisição da South African Breweries. A companhia belga retirou a ação contra o jornal depois que ele confirmou não ter o original dos documentos, que a Interbrew alega terem sido forjados. Informa a Associated Press [22/7/02] que o processo contra o Guardian, no entanto, permanece, enquanto Financial Times, Times e Reuters têm prazo para enviar os papéis à agência britânica Financial Services Authority.

Apesar da ordem judicial, os veículos se recusam a entregar os documentos, temendo que a fonte anônima possa ser identificada. Bill Goodwin [The Guardian, 19/7] comenta que vazamentos deste tipo são fundamentais para a imprensa, pois "desempenham um papel crucial ao contrabalançar um poderoso exército de firmas de relações-públicas, que são regiamente pagas para plantar matérias favoráveis na mídia e certificar-se de que histórias inconvenientes, não importa o interesse público, não vejam a luz do dia".

Goodwin revela que o direito dos jornalistas de proteger suas fontes, embora previsto na lei americana e na de países europeus como Alemanha e Suécia, não encontra o mesmo respaldo na Inglaterra. A seção 10 do Contempt of Court Act (Ato de Desobediência à Corte) é comumente usada pelos veículos para manter o sigilo, e este só poderia ser quebrado em nome da segurança nacional e da justiça, ou para evitar crimes. Infelizmente, observa Goodwin, os tribunais mostraram que a cláusula "pelo bem da justiça" pode significar qualquer coisa que o litigante quer que seja. Segundo o autor, até mesmo a corte de apelações que julgou o caso da Interbrew reconheceu que não é possível saber se os documentos foram mesmo falsificados ou se a companhia está negando a autenticidade para obrigar os veículos a entregá-los.

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