Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > DEVER DE OFÍCIO

Jornalista pode ter amigo?

Por lgarcia em 05/02/2000 na edição 83

Isak Bejzman


A um rio que tudo destrói, chamam de violento;


Mas ninguém chama de violentas as margens que o aprisionam. [Bertold Brecht]


O melhor texto sobre a verdade que li chama-se Cinco maneiras de dizer a verdade, escrito por Bertold Brecht e traduzido por Florian Gayer. Brecht o escreveu em 1934, para ser divulgado na Alemanha hitlerista, e foi publicado ilegalmente em Paris, na revista Nosso Tempo, pela União dos Escritores Alemães.


Para Brecht, as cinco maneiras de dizer a verdade consistiam, na realidade, em cinco dificuldades em escrever a verdade. “Quem, nos dias de hoje, quiser lutar contra a mentira e a ignorância e escrever a verdade tem de superar, ao menos, cinco dificuldades: deve ter coragem de escrever a verdade, embora ela se encontre escamoteada em toda parte; deve ter inteligência para reconhecê-la, embora ela se mostre permanentemente disfarçada; deve entender da arte de manejá-la como arma; deve ter a capacidade de escolher em que mãos será eficiente; deve ter a astúcia de divulgá-la entre os escolhidos. Estas dificuldades são grandes para os escritores que vivem sob o fascismo, mas existem também para aqueles que fugiram e se exilaram. E mesmo para aqueles que escrevem em países de liberdade burguesa.”


O tema permanece válido. É pressuposto básico de que todo jornalista tem por dever de ofício se defrontar com estas cinco dificuldades no trato da verdade. Seu trabalho será avaliado segundo a maneira como as maneja. Infelizmente, o que se vê na imprensa nacional é que a maioria dos profissionais acredita que a verdade não será eficiente em mãos do povo, e a divulgam só para um grupo de escolhidos.


Walter Lippmann, o decano do jornalismo americano, criou a expressão “manufacturing consent” (construindo o consenso). Baseado no trabalho de Freud intitulado Psicologia das Massas, em que criou a figura antropológica da horda primitiva – segundo a qual as massas humanas sofrem um processo de modificação psicológica que as leva a regredir e funcionar irracionalmente –, Lippmann defendia a idéia de que numa sociedade democrática não se pode controlar o povo pela força. Mas, de alguma maneira, seria preciso controlar o que o povo pensa. Sua idéia básica era: a voz do povo pode ser escutada, portanto deve-se controlar o que o povo vai dizer, pois sendo as massas uma horda primitiva, a maneira de nos proteger de sua irracionalidade é construir o consenso.


O líder moralista americano Reinhold Niebhur, também chamado o “teólogo do establishment”, acrescentou à teoria de Lippmann a idéia “necessary ilusions” (ilusões necessárias), explicando que uma massa popular ou horda primitiva agindo irracionalmente é incapaz de pensamentos racionais. “A racionalidade pertence aos observadores frios; portanto, o que devemos fazer é incrementar as assim chamadas ilusões necessárias e facilitar para o povo potentes simplificações emocionais, de tal maneira que o povo, as tendo, não se meterá em complicações.”


Ignorância e submissão


Qual é a idéia básica de tudo isso? Que o povo não produz saber, coisa que Paulo Freire desmistificou e os trabalhadores em Educação Popular em Saúde pelo Brasil afora, também. Enquanto para Niebhur é imoral o povo se imiscuir em problemas públicos, o povo gaúcho foi capaz de, com o Orçamento Participativo, promovido pelo governo do estado e os deputados da Assembléia Legislativa, participar plenamente da organização orçamentária. No Brasil, não existe uma simplificação emocional maior do que a produzida pelo futebol. Esse esporte é carregado de tal conteúdo agressivo (basta escutar uma transmissão) e irracional que substitui o estouro de massas, e as elites que comandam o país continuam à vontade.


Noam Chomsky defende a tese de que atualmente os jornais americanos deveriam ser distribuídos gratuitamente. São vendidos por pura vergonha de não cobrar, pois de maneira alguma as edições são custeadas pelo que o leitor paga. Para Chomsky, o grande produto do jornal é o leitor. Eu mesmo vivenciei um experiência interessante com o New York Times. Eu pagava 45 dólares mensais para poder acessar o jornal na web. Decidi cancelar e, no dia seguinte, recebi a oferta de acesso gratuito. O que isso significa? É que os jornais americanos – e também os brasileiros, por que não? – aderiram ao “propaganda model” (modelo propaganda), simplesmente o exercício do poder pelo poder econômico. Em 1945, George Orwell escreveu uma novela intitulada Animal Farm (“A revolução dos bichos”, na tradução brasileira), que teve um estrondoso sucesso ao desancar o totalitarismo da URSS. O texto que ele redigiu à guisa de introdução não foi publicado, e só apareceu 30 anos depois, encontrado por alguém entre seus papéis. O texto tratava da censura literária na Inglaterra, um país democrático onde, ele dizia, as coisas não eram diferentes. Orwell afirmou que os inglese não tinham a KGB fungando suas nucas, mas as conseqüências eram as mesmas: na Inglaterra, pessoas que tinham idéias independentes e diferentes das do establishment eram marginalizadas.


Não sei como é no resto do Brasil, mas aqui por essas plagas basta criticar um jornalista para ele abrir o berro, estufar o peito e dizer em tom bem alto e arrogante: a mim ninguém diz o que escrever.


Está certo Chomsky: a audiência, o leitor é que constitui o produto. E tudo começou na Primeira Grande Guerra, com a Inglaterra criando o primeiro núcleo organizado de propaganda de Estado. A Inglaterra e seu Ministério da Informação montaram um sistema de propaganda para convencer o povo americano e o presidente Wilson a entrarem na guerra contra a Alemanha. E conseguiram. Hitler até escreveu em Mein Kempf que a Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial por ter perdido a batalha da propaganda, e prometeu que na guerra seguinte os alemães teriam seu departamento de propaganda.


Depois da Primeira Grande Guerra, o governo americano criou a Comissão Creel, para tratar das coisas da propaganda. Edward Bernays, um dos principais personagens da comissão, escreveu em 1925 o livro Propaganda, e foi aí que tudo começou. Aliás, Lippmann fazia parte da Comissão Creel. Bernays ficou multimilionário com a campanha dos cigarros Chesterfield e o estímulo do tabagismo entre as mulheres.


Escrever sobre a verdade é raro. A repórter Marta Salomon, da Folha, tratou de um assunto já estudado pelo jornalista Aloysio Biondi há mais de um ano: em fins de 1998, as remessas anuais de lucro das empresas desnacionalizadas eram de 700 milhões de dólares; agora, beiram os 7 bilhões de dólares. Um grupo de mídia no Rio Grande está fazendo uma campanha muito forte para provar que seus funcionários são pessoas iguais aos leitores, ouvintes e telespectadores. Mas não é disto que o brasileiro precisa do pessoal da mídia. O brasileiro precisa mesmo é que pelo Brasil afora os trabalhadores na mídia tenham a coragem de enfrentar a verdade. Do contrário, promovem a ignorância, e a ignorância é o alicerce da submissão.

 

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