Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > PRESOS E AGREDIDOS

Jornalistas da RTP detidos

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

PRESOS E AGREDIDOS

Ana Sofia Figueiredo (*)

O jornalista da RTP Luís Castro e o repórter de imagem Victor Silva foram detidos e agredidos, terça-feira, por tropas norte-americanas, sob a acusação de espionagem. Os dois enviados especiais da televisão pública portuguesa encontram-se já em liberdade no Kuwait.

Em directo para o Telejornal, Luís Castro relatou ao mundo a situação "humilhante" pela qual passou. Lembrando que já foi preso mais vezes e chegou mesmo a ser expulso de alguns países, o jornalista garantiu: "Nunca fui sujeito a tal humilhação".

A equipa de jornalistas entrou, no passado domingo, no Iraque e na terça-feira seguinte, entre Karbala e Najaf, foi confrontada pelas autoridades norte-americanas por os dois jornalistas franceses que os acompanhavam não possuírem máscaras de gás. Sendo que as hipóteses eram deixar os franceses no meio do deserto e sem transporte ou voltar atrás em busca das máscaras de gás, os dois jornalistas acompanharam os colegas de profissão até à cidade mais próxima. Já na localidade encontraram outros dois jornalistas norte-americanos que também não tinham o equipamento e, por isso, iam voltar ao Kuwait. Entre todos decidiram encontrar-se no dia seguinte, altura em que Luís Castro e Victor Silva voltavam à linha de ataque e os restantes regressariam ao Kuwait.

De manhã, os quatro jornalistas dirigiram-se ao posto onde estavam os colegas norte-americanos. Aqui foram parados pela polícia militar, que lhes pediu identificação. De seguida revistaram o material que transportavam, obrigaram-nos a deitarem-se no chão e alertaram-nos para que não se mexessem, pois estavam na linha de fogo.

Passada meia hora deixaram-nos sentar-se de frente para um muro. Luís Castro refere que estava frio e que a tempestade de areia era constante. Entre os norte-americanos levantava-se a suspeita de que se tratariam de espiões do regime iraquiano.

Mais tarde, mandaram-nos entrar no jipe, apreenderam todo o material electrónico, retiraram a chave e proibiram-nos de falar uns cons os outros. Duas ou três horas mais tarde, Luís Castro pediu para que os deixassem contactar as famílias, pois estariam preocupadas pelo seu desaparecimento. Perante o escárnio dos militares, o jornalista frisou que eles não eram soldados e apelou mais uma vez para que lhe permitissem contactar alguém. Nessa altura, os militares norte-americanos obrigaram-no a sair, agrediram-no, algemaram-no e arrastaram-no para o interior das instalações. Ameaçando os quatro jornalistas, os soldados deixaram Luís Castro entrar de novo no jipe. Seguiram-se 24 horas sem trocar uma palavra.

Passadas essas mesmas 24 horas, os soldados regressaram, pediram desculpa pelo incidente e serviram café. Foram transportados por helicóptero para o Kuwait, onde ficaram mais uma noite à espera dos agentes especiais da CIA que iriam revistar o material que continuava apreendido. Os militares temiam que os jornalistas tivessem captado alguma imagem que manchasse a reputação do exército dos EUA.

Enquanto esperava, a equipa da RTP relatou os factos à 101? brigada das tropas aerotransportadas, que, perante factos tão humilhantes, devolveu os telefones aos jornalistas e transportou-os para o centro do Kuwait.

No final do relato, Luís Castro acrescentou ainda que um dos oficiais da 101? brigada se despediu deles afirmando que os soldados implicados no incidente são "a vergonha dos EUA e do exército norte-americano".

O Sindicato e a Federação Internacional dos Jornalistas já manifestaram o seu repúdio perante a situação e garantiram que vão pedir explicações às autoridades norte-americanas e exigir "um inquérito exaustivo sobre mais este grave atentado à integridade física dos jornalistas e à liberdade de informação".

(*) RTP Multimédia <http://www.rtp.pt/index.php?article=50722&visual=5>

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