Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > SALVE JORGE

José Castello

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

SALVE JORGE

"Ele foi o criador de um país fictício e real", copyright O Estado de S.Paulo, 7/8/01

"Enquanto os aspectos literários da obra de Jorge Amado parecem estar, hoje, quase esgotados, destruídos pela ação de uma saraivada de críticas ora apaixonadas e irracionais, ora malévolas e cheias de preconceitos, sobrepostas sem qualquer sutileza a seus livros (análises que afinal não podem sair dessas posições radicalizadas já que refletem o maniqueísmo inerente à própria obra), há, apesar disso, uma série de fatores extraliterários que, se pensarmos bem, tomam hoje a frente da cena.

A assinatura Jorge Amado transformou-se, apesar do escritor Jorge Amado, apesar do comunista que escreveu O Cavaleiro da Esperança, apesar do sensualista que escreveu Dona Flor e Seus Dois Maridos, e apesar do talento raro para contar histórias que encanta leitores em todo o planeta, em uma grife, talvez a única grife brasileira além daquelas produzidas pelo futebol (Pelé, Romário, Ronaldo), marca que hoje ultrapassa em muito o domínio da literatura. O nome de Jorge Amado transformou-se num espelho do Brasil e hoje temos nosso semblante nele colado.

É bom reafirmar logo que a obra de Jorge Amado corresponde, sim, em parte significativa, aos ideais literários da esquerda tradicionalista, ou pelo menos àqueles ideais que, enquanto o mundo soviético sobreviveu, nortearam a estética dos militantes ligados ao comunismo oficial. O Cavaleiro da Esperança, o livro dedicado a Prestes, não é apenas um deslize radical, um intervalo, uma exceção dissonante na grande obra, como parte da crítica prefere, hoje, entender, até para se aliviar do mal-estar que essa relação lhe provoca.

O Cavaleiro… é, na verdade, a ponta mais visível e menos sutil de uma tendência mais geral de Jorge Amado para a literatura populista, libertária e de matiz social, para a linguagem transparente e sem requinte, para as histórias contadas com a simplicidade de uma conversa. Se isso a enobrece, ou a desmerece, é outra discussão, mais adequada a adestradores e policiais, não a comentaristas literários. Nos romances de Amado, os personagens estão entranhados pelo glamour e pelas fantasias do popular ? sua obra é, sim, populista.

Seus livros transbordam em sensualismo e alegria ? ela é vitalista e voluntarista, como se dissesse que basta ser sincero e otimista, para seguir os recados do coração para mudar a ordem do mundo. Eles estão sempre empenhados em algum tipo de luta visceral ? sua obra é, sim, engajada, ainda que isso provoque arrepios de desprezo em certa esquerda ilustrada, que prefere considerá-la primitiva e fantasiosa, cheia de clichês, e desse modo rejeitá-la.

As histórias, apesar do pano de fundo místico e até mágico, arrastam consigo, como um aluvião antropológico, a essência do imaginário popular baiano, ou o que se convencionou considerar que ele seja. Além disso, os romances de Amado são leves, podem ser lidos na praia sob o sol escaldante, ou em posição preguiçosa numa rede, entre uma caipirinha e um acarajé, entre uma risada e um cochilo, pontuadas por um olhar sobre um oceano, outro sobre um biquíni sumário. Apresentam um universo colorido, agitado, prolixo, voluptuoso e propício, em conseqüência, a inesgotáveis adaptações para o cinema e a TV ? isto é, para o espetáculo de massas.

Mais do que qualquer outro escritor brasileiro do século 20, Jorge Amado construiu, para o bem ou para o mal, uma ?arte popular?, vendida em supermercados, rodoviárias, quiosques e jornaleiros, discutida em cabeleireiros, churrascarias e filas de banco com muito mais empenho, é bom dizer, do que aquele que os sábios da academia lhe emprestam.

E é curioso verificar como esses valores de certo realismo populista, que Amado manejou a seu modo, isto é, sem dogmatismo, sem nenhuma reverência programática, sem nenhum espírito de escola, que ele manejou como bem entendeu, terminaram absorvidos pela indústria do lazer, dos enlatados, do misticismo e do turismo. De tal modo, em tal intensidade que se transformaram em elementos de exotismo vendido hoje, em todo o mundo, como a imagem oficial do Brasil. O Brasil exótico apresentado em shows para turistas, as paisagens extravagantes fotografadas por europeus incrédulos, o País exibido nos folhetos coloridos das companhias aéreas e fixado em cartões-postais foi, em parte, e sem que ele tivesse decidido isso, desenhado por Jorge Amado.

Nem mesmo Machado, com todo o cheiro de Brasil (melhor dizer: de Rio de Janeiro) que emana de sua obra, conseguiu produzir uma estética tão permeável à manipulação no real, tão diáfana e verossímil que chega a se colar muitas vezes sobre a realidade de forma tão aderente que nos leva a confundir uma com a outra.

O Brasil oficial, vendido ao longo dos últimos 50 anos por mercadores das mais diversas estirpes ? os ideólogos do Brasil Grande, os utopistas de um socialismo caboclo, os publicitários conectados com Nova York, as grandes agências de turismo ? esse Brasil que habitamos é amadiano, e não machadiano, ou rosiano. A imagem externa do Brasil está impregnada da obra e do espírito de Jorge Amado e, por isso, escritores mais sutis como Clarice Lispector e Guimarães Rosa, ou mais recentemente João Gilberto Noll e Bernardo Carvalho, surpreendem, e até chocam, quando, traduzidos no exterior, desmentem esse país que supostamente somos.

Apesar das enormes diferenças que os separam, eles destoam do Brasil amadiano que se tornou, à revelia do próprio Jorge Amado, aquilo que hoje o mundo entende por Brasil. E, ao que parece, levará muito tempo até que, um dia, deixe de ser assim. Jorge Amado escreveu muitos livros mas, mais que isso, escreveu um país. Desenhou-o, delineou sua face (com verdades e mentiras, já não importa), ofereceu-lhe uma imagem em que se mirar. (E talvez, como ele, talvez só tenha existido um outro, não Machado, mas Gilberto Freyre).

Nesse sentido, vale ainda pensar nas razões que levaram a Bahia, e não mais o Rio, a tomar a posição de frente na composição dessa imagem ideal do Brasil. Mulheres sensuais, ritmos exóticos que evocam a origem africana, comidas temperadas com essências picantes, malandros delinqüentes, mas amorosos, sincretismo não só religioso, mas sobretudo ideológico, um sensualismo que sai da cama para invadir as ruas e os gabinetes, muita eletricidade no ar, compõem a imagem oficial da Bahia vendida nos quatro cantos do planeta, representação que, hoje, está grudada ao retrato externo do Brasil.

Amado tem seus descendentes nobres ? o mais competente entre eles se chama João Ubaldo Ribeiro. Mas produziu também, para além do domínio literário, uma espécie de sombra imaginária que envolve, hoje, a todos nós. Sua obra chegou a uma categoria só atingida, na América Hispânica, por um Gabriel García Márquez ? e isso não diz respeito à contabilidade dos exemplares vendidos, muito menos aos critérios de qualidade literária. O Brasil hoje pode estar hipnotizado por Paulo Coelho, mas nem por isso existe um Brasil à moda do bruxo de Copacabana. No caso de Coelho, a literatura e o País continuam separados, um abismo os separa (já que Coelho, ao contrário, com seu credo da ?lenda pessoal?, empurra o leitor para dentro, e não para fora de si).

Assim como a Macondo de García Márquez parece muito mais concreta e viva que as cidades devastadas pelo narcotráfico da Antióquia colombiana, assim também a Salvador de Amado supera todos os projetos de modernização urbana da capital baiana, supera os novos valores trazidos pelos novos baianos como Caetano Veloso e Gilberto Gil; indiferente às mudanças operadas na Bahia real, ela se transformou em uma máscara que já não se interessa pela realidade, que se descolou da realidade para substituí-la.

Não importa o que a Bahia seja ou deixe de ser; importam, sim, as imagens com que a literatura a encobriu. A Bahia, com seu véu exótico, é noiva de Amado. Ele criou uma obra monumento, que pulou dos livros para se entranhar no real, para ocupar seu lugar.

Jorge Amado, assim como Oscar Niemeyer com seus grandes vãos de cimento e vidro, assim como Pelé com seus dribles, assim como Gilberto Freyre com suas teorias da senzala, assim como Ayrton Senna com seu desamparo, ajudou a criar a embalagem do Brasil contemporâneo. Nós vivemos, hoje, mesmo se não gostarmos disso e ainda que não aceitemos que as coisas se passem assim, em um país amadiano.

Quando se fala do estilo de Jorge Amado, já não falamos apenas de uma literatura, de um atributo literário, mas de algo que ultrapassou as páginas dos romances para se espalhar pela vida brasileira. É preciso aceitar ainda, por fim, que foram os preceitos realistas e populistas de Jorge Amado, inspirados em seu nascedouro na estética socialista, foi seu sensualismo, seu vitalismo, sua visão inocente, quase pueril do País, que criaram a imagem folclórica que o mundo cultiva, hoje, do Brasil. Levará muito tempo até que a sombra de Jorge Amado, estendida às costas do País como um manto de nobreza, venha a se apagar.

Já não importa saber se seus romances continuarão a ser lidos com a mesma voracidade de hoje, nem se eles mereceram ou não o Nobel que jamais lhes foi dado. Muito menos saber em que medida Jorge Amado, para além das listas de mais vendidos, para além das traduções no exterior, para além do mito, é ou não um grande escritor. Muito além das páginas impressas, muito além das palavras, há um homem que, suave, bonachão, quase inocente, construiu a terra que nos cabe habitar. Um homem que, lidando apenas com palavras, não importa se isso nos enche de prazer e orgulho, ou se nos faz remoer indignação e fúria, um homem que, só com seus livros, nos construiu."

"Jorge?", copyright Folha de S. Paulo, 10/8/01

"Reavivo lembranças. Um primeiro almoço de sábado, há mais de trinta anos, na rua Áurea, em Santa Teresa, no Rio, onde conheci Jorge Amado, na casa do ?ultraboagente?, santo de minha devoção, Odylo Costa Filho. Presentes Manuel Bandeira, Drummond, Guimarães Rosa, Afonso Arinos, Peregrino Júnior e outras iconográficas figuras da história da inteligência brasileira. Tímido poeta da província, recolhi-me no silêncio: eles existiam, e eu tinha a glória de vê-los.

Ainda não vencera a idade da emoção, as inquietudes da mocidade. Jorge Amado era um deus da minha geração, aquele que escrevera e recriara o mito do ?Cavaleiro da Esperança?, livro disfarçado em embrulho tosco, passando de mão em mão para não ser descoberto pela polícia de Vargas. O ?ABC de Castro Alves? nos revelava um espaço épico do poeta romântico e condoreiro das ?Vozes d’África?. Depois, mergulhamos no ?Mar Morto?, em ?Capitães da Areia?, em ?Terras do Sem Fim? e entramos fundo no universo de sua obra de muitos mundos, heróis, santos, pulhas, boêmios, belas e fascinantes mulheres, que povoavam o paraíso de suas histórias -novelas e novelos a se desdobrarem numa renovação contínua-, esperadas e imaginadas em novos livros.

A personalidade de Jorge Amado não se esgotava no genial escritor. Era um admirável contador de ?estórias?; eternas na palavra escrita, passageiras no gosto da conversa. Ele amava a cultura da alegria, o sabor da picardia, da malícia e dos relatos fesceninos de coisas impuras, mas sem pecado, no gozo e no gosto da roda de amigos, em que corria o rio tranquilo do ?causeur?, desde o recriar as lembranças da crônica de sua família, tendo a figura central de dona Lalu, sua mãe, até a ação dos jogos de peças e chistes, em que se divertiam e reciprocamente se gargalhavam com Calazans, Caribé, James, Mário Cravo, Caymmi e tantos que habitavam o seu generoso coração no viver baiano.

São lembranças. Nele, tudo era unidade: juntos, indissolúveis, o talento e a simplicidade. O Jorge Amado raro, em que se fundiam o riso, o olhar, o levantar delicado das sobrancelhas, com o brilho da malícia, da inteligência, da perspicácia e do saber ler e escrever a alma das pessoas. Jorge, na coroa de sonetos de uma mesa farta, ávido por descobrir sabores e perfumes. Não posso esquecer o seu jeito muito pessoal de pegar o pão, molhar no copo de vinho e, através do pão, degustar o vinho.

Morre com Jorge Amado um espaço na literatura brasileira que não se repetirá. Até porque o barro das raízes populares, onde garimpou para construir sua obra, mudou e vai mudar. Escritor universal, seu mundo e o Brasil começavam na Bahia.

Um mês antes de sua última internação, estivemos juntos na casa do Rio Vermelho, em Salvador. Ali, mais de 30 anos de uma convivência dele com o leitor, amigo e devoto. Jorge jogava paciência. Já estava liberto de todas as atribulações da alma. Conversou pouco. Quis saber de Roseana, sua constante parceira do ?jogo do dicionário?, de que ele tanto gostava. Seus olhos, já murchando, de visão baça, não tinham perdido, todavia, a inteligência e o brilho da vida. Mas já estava liberto da alegria e da tristeza. Vestia a roupa da eternidade, guardado pela deusa Zélia Athenéia.

Quando o grande pintor Floriano Teixeira morreu, Jorge lembrou-me seu encontro com Pablo Neruda, em que procurou saber notícias dos velhos companheiros comuns do exílio. Neruda respondeu-lhe: ?Não me pergunte por ninguém, todos já morreram?.

E agora, Jorge, a quem perguntar?

Rilke, quando soube da morte de Rodin, escreveu: ?Todos os grandes homens já morreram?."

    
    
              

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