Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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José Marques de Melo

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

ROBERTO MARINHO (1904-2003)

"Timoneiro midiático", copyright Valor Econômico, 8/08/03

"A morte de Roberto Marinho, aos 98 anos, encerra capítulo importante na vida jornalística brasileira, simbolizando um divisor de águas no panorama da nossa indústria midiática.

O capítulo por ele protagonizado refere-se à saga dos jovens herdeiros que foram capazes de continuar e consolidar os empreendimentos recebidos como legado paterno, transferindo às novas gerações patrimônio sólido e projetos viáveis. O império comunicacional que ele entrega aos filhos e netos tem todas as condições para superar as dificuldades conjunturais, trilhando o caminho do sucesso até agora logrado pelo seu timoneiro.

O divisor de águas encontra-se na sua precoce compreensão de que o negócio midiático é regido por engrenagens multinacionais, embora seus conteúdos possuam forte conotação nacional/regional. Sua convicção a respeito do papel do capital estrangeiro nas economias emergentes e sua cruzada para torná-lo fator de crescimento das empresas midiáticas sem dúvida influíram na recente mudança do artigo 222 da nossa Constituição.

Quando ousou, nos idos de 60,associar-se ao conglomerado Time- Life, assimilando conhecimento e tecnologia testados no país que sempre esteve na vanguarda da indústria cultural, Roberto Marinho enfrentou a exacerbação irada dos movimentos nacionalistas. Obrigado a rescindir contratos e reformular metas, demonstrou, com o tempo, que tal estratégia não continha ingredientes antipatrióticos.

Sua empresa televisiva, ancorada no aprendizado com os assessores estrangeiros, foi capaz de modernizar-se e dinamizar-se, sem perder sua fisionomia brasileira. Ao contrário, perfilou um modelo de difusão cultural que nos fez resgatar as raízes populares da nacionalidade, propiciando uma maior sintonia entre o país e suas tradições simbólicas. Além disso, contribuiu para cimentar o processo de integração nacional que havia sido iniciado pelas vias costeiras, no regime imperial, e intensificado através das estradas de rodagem ou das linhas aéreas, durante a fase republicana.

Mais recentemente, depois de haver conquistado a hegemonia no mercado nacional, sua indústria de entretenimento potencializou a inserçccedil;ão da cultura brasileira na aldeia global. A exportação de telenovelas, musicais e espetáculos desportivos tem propiciado a expansão das nossas fronteiras intelectuais, dando visibilidade ao país e ao seu povo. Nesse sentido, as organizações de Roberto Marinho fizeram, em pouco mais de uma década, aquilo que o Itamaraty não logrou, durante quase dois séculos da nossa vida independente.

Ao fazer o inventário da saga midiática de Roberto Marinho torna-se necessário destacar sua concepção jornalística, eivada de princípios liberais e compromissos democráticos. Desde que assumiu a direção do jornal ?O Globo?, na década de 30, ele se mostrou fiel ao ideário do pai, Irineu Marinho, imprimindo uma linha editorial marcada pela objetividade informativa e pelo pluralismo de opinião.

Não obstante o jornal tenha sido concebido como veículo politicamente independente, isso nunca significou a sua abstenção diante das grandes questões nacionais. Coube a Roberto Marinho definir com argúcia, serenidade e determinação os rumos a serem assumidos nos editoriais e na política institucional. Mesmo tendo optado pelo endosso aos regimes autoritários instaurados pelos movimentos militares de 30 ou 64, nunca claudicou diante da censura. Manteve sempre um comportamento de defesa da liberdade de expressão, condenando a ingerência do aparato governamental nos conteúdos a serem difundidos e na composição das suas equipes profissionais.

Momentos houve em que suas empresas sofreram represálias políticas e danos econômicos. A proibição da telenovela Roque Santeiro durante o regime militar foi emblemática, contabilizando prejuízo material e frustração psicológica. Por isso mesmo é que seu remake converteu-se em símbolo da reconquista das liberdades públicas na alvorada da Nova República, talvez para compensar a falta de sensibilidade da TV Globo ao negar legitimação ao movimento popular pelas diretas-já, quando a ditadura já exibia evidentes sinais de esgotamento.

Acertando o passo com a reconstrução da vida democrática, em nosso país, as organizações de Roberto Marinho respaldaram os governos vitoriosos nas urnas, de Collor a Lula. Seu termômetro tem sido a opinião pública. Elas perfilaram também uma trajetória de expansão convergente dos seus negócios no setor midiático, até mesmo pela necessidade de enfrentar a concorrência que se fortalece no segmento televisivo (Grupo Silvio Santos e Rede Record) ou engendrando estratégias de cooperação empresarial, seja com parceiros nacionais (Valor Econômico) ou multinacionais (TV por satélite).

Qual a fórmula responsável pelo êxito de Roberto Marinho como timoneiro midiático? Ela reside na gestão profissionalizada das suas empresas. Essa opção ele adota ainda muito jovem, quando após a morte do pai, confia a direção de ?O Globo? ao jornalista Euricles de Mattos. Ele sempre procurou cercar-se de profissionais competentes, como Herbert Moses, Walter Poyares ou Walter Clark, aconselhando-se antes de tomar decisões de peso ou transferindo-lhes responsabilidades executivas em unidades do conglomerado.

Sua longevidade garantiu a preparação dos filhos para assumir o comando dos negócios e a operação das empresas, da mesma forma que ele aprendera precocemente com seu pai o ofício jornalístico.

Em se tratando de organizações profissionalizadas, seus herdeiros terão mais chance de êxito do que os sucessores daquelas empresas nutridas segundo padrões estritamente familiares. (José Marques de Melo é professor emérito da ECA-USP e titular da cátedra UNESCO de comunicação na Universidade Metodista de São Paulo)"

 


"Correspondente iG: Adeus a Roberto Marinho, o generoso, jornalista e amigo", copyright iG (www.ig.com.br), 7/08/03

"Eu acredito que seja um dos últimos sobreviventes dos anos heróicos de ?O Globo?. O jornal herdado de Irineu Marinho, o primeiro jornalista na família, o pai. Trabalhava-se num velho casarão, no Largo da Carioca, com escadarias que rangiam assustadoramente.

Havia um restaurante interno com alimentos vendidos a preço simbólico. A comida cheirava gráfica, da qual fazia parte o ambiente de camaradagem que não existe mais. Eram os tempos em que as ordens eram gritadas, de poucos aparelhos telefônicos, do linotipo, da impressora que sacudia tudo com barulho infernal do jornal quentinho, com o cheiro da tinta, e dos meninos jornaleiros que saíam gritando: ?Olha O Globo. Matou cinco?.

O chão da redação era de pontas de cigarro. Havia um horário. Mas para todos era difícil sair. O jornal era a casa, o divertimento, o trabalho, o passatempo, os amigos e os inimigos, aventuras sem fim.

Os repórteres estavam sempre prontos para irem lá. Nos locais agradáveis e perigosos. Alves Pinheiro, o maior dos chefes de reportagem, não admitia fracasso. ?Não venha sem o ?boneco?. Não vá perder para os outros?. Havia mais de 20 diários no Rio.

Pinheiro chegava às três da manhã. Tinha gente dele esperando na boca da máquina dos matutinos. Ele não hesitava em acordar as maiores figuras da república para pedir informação ou mais detalhes do que saíra. Era a suíte, a continuação.

Logo chegava Roberto, que se sentava à sua mesa e começava a corrigir textos ou escrever outros. Tinha o instinto da notícia que interessaria. Os textos sobre temas mais sensíveis passavam por ele. Não demoravam e chegavam Ricardo e Rogério. Os irmãos trabalhavam mais horas que qualquer um de nós.

Não havia dinheiro. Éramos pagos semanalmente. Saíamos para reportagens de ônibus ou de bonde elétricos. Tínhamos de prestar contas na volta. Quando saía a edição, todos corríamos para ler, comparando com os principais concorrentes.

Eram os momentos de alegria por vitórias e tristezas. Cada edição era dar à luz. Todos tínhamos diversos outros meios de ganhar. Os salários eram pequenos. Faltava um foca. Me pegaram na hora e pouco depois estava na rua fazendo o que nunca fizera: uma reportagem. Deu certo porque o entrevistado escreveu tudo.

Acho que Roberto notou que havia me apaixonado pela profissão; 1945 ainda se estava em guerra. Ele me mandou para os Estados Unidos, como correspondente e para aprender. Um garoto. Foram dois anos que mudaram a minha vida. Na volta me deu novas funções, como a de começar uma redação especializada em notícias de rádio na Globo. Fui para outros cargos. Nunca perdi contato. Ele tinha orgulho de seus meninos.

Era mesmo um colega. A carteirinha de ?O Globo? era para ser respeitada por todos, de presidente a bandido. Trabalhar com ele era sentir confiança. Ele nunca abandonava um companheiro em situação alguma. Fazia tudo com discrição. A redação era abrigo de comunistas e integralistas. Tudo o que exigia era saber a verdade.

Em ?O Globo?, nos piores anos de Felinto Muller, trabalhavam como redatores líderes do PC. Eram intocáveis. Eram de ?O Globo?. Ele ensinava jornalismo com modéstia. Era um bom caráter. Nunca deixou de ser. Roberto Marinho recebia os velhos companheiros com a simplicidade de sempre. Ia visitá-lo na rua Irineu Marinho ?só para matar saudades?.

Ele me educou, me formou como profissional, influenciou muito do meu comportamento.

O grupo Globo se espalhou pelo mundo. As novelas ensinam português; novela da emissora já fez suspender sessões do Parlamento. Os documentários são a maior propaganda do País. Eu sempre me orgulhei de dizer ?sou cria do Globo?. Só quem trabalhou com Roberto e seus irmãos sabe que exemplo eram.

Espero que ele não seja esquecido. Nome de rua é coisa passiva, ele merece uma cadeira na escola com seu nome para que viva para sempre."

 

"O drible da notícia", copyright O Globo, 8/08/03

"No dia 27 de junho de 1979, O GLOBO deu um dos grandes furos da história de seu jornalismo político. Publicou a íntegra do projeto da lei de anistia que o governo estava pronto para remeter ao Congresso. Segundo o ministro da Justiça, Petrônio Portella, dois jornalistas (Etevaldo Dias e Orlando Britto), aproveitando-se de um descuido, o haviam furtado da mesa de seu gabinete.

A contrariedade do governo foi tão grande que o furto foi denunciado publicamente e chegou a ser noticiado no ?Jornal Nacional?. Sabia-se que o papel tinha sumido, mas não se sabia quem o tinha levado.

Petrônio não se opunha a que alguns jornalistas conhecessem o texto do projeto. O que ele não queria era a sua divulgação. (Ele próprio remetera, dias antes, pelo menos uma cópia ao ?Jornal do Brasil?.)

Publicado o texto, abriu-se a discussão: é lícito furtar papéis? Não é, mas a discussão era falsa. O que estava em questão não era a posse do texto, era a publicação de seu conteúdo. Como um texto furtado não pode ser colocado sob a proteção das regras de sigilo, Petrônio sabia que passariam poucas horas entre o sumiço do papel de sua mesa e o seu aparecimento nas bancas de jornais.

Confusão de bom tamanho. O presidente da República e o ministro da Justiça acusavam dois jornalistas do GLOBO de terem furtado um papel no gabinete de Petrônio.

Roberto Marinho achou conveniente explicar o que sucedera. Escreveu a seguinte carta ao presidente, general João Batista Figueiredo:

?Meu caro João:

?Desde que caíram as últimas chuvas os meus telefones 205-3788, 285-3511 e 265-0335 e as linhas diretas com O GLOBO e a TV Globo emudeceram completamente.

?Ontem, às 7h da manhã, tive um sobressalto quando li O GLOBO. Principalmente porque havia visto na TV Globo o hilariante episódio do desaparecimento de uma cópia do projeto de anistia no gabinete do ministro Petrônio Portella.

?Às 9h, já no meu gabinete, convoquei os responsáveis mais diretos da redação. Deram-me as seguintes explicações: que nem por um momento eu imaginasse que o redator do GLOBO presente no gabinete ministerial houvesse se apossado do documento desaparecido; que por volta das 24h o chefe da sucursal de Brasília havia sido procurado por um rapaz que pretendia interessar O GLOBO na posse do documento; que, verificada a autenticidade, imediatamente passou os seus termos pelo telefone para O GLOBO.

?Quem chefiava a redação, já com o jornal praticamente fechado, procurou falar comigo ao telefone. Verificada a impossibilidade, resolveu assumir a responsabilidade de publicar o projeto.

?Ante a minha reação desfavorável, chegada ao seu conhecimento, escreveu-me uma carta pedindo demissão do GLOBO, o que não aceitei. Isso é tudo quanto posso dizer.

?Com um abraço muito afetuoso do Roberto.?

Salvo os números dos telefones e o fato de ter chovido no Rio, nenhuma das informações contidas nessa carta era verdadeira. O tal rapaz ?que pretendia interessar O GLOBO na posse do documento? nunca existira.

Etevaldo e Britto haviam furtado o papel. Horas depois, contaram ao chefe da sucursal, Merval Pereira, que tinham consigo o texto do projeto da anistia. Para evitar a censura telefônica, Merval foi para o Hotel Nacional e de lá comunicou-se com o diretor de redação, Evandro Carlos de Andrade. O texto foi passado para o Rio por telefone.

Roberto Marinho não teve sobressalto, mas satisfação.

Sua carta a Figueiredo relata uma situação implausível. Revela que antes de repreender um profissional que traz uma notícia para a redação, Roberto Marinho estava disposto a tudo, até a contar uma história sem pé nem cabeça ao presidente da República."

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