Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

José Meirelles Passos

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

GOVERNO BUSH

“Revista afirma que Bush ignora jornais e TV”, copyright O Globo, 15/01/04

“O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, raramente assiste aos noticiários de TV e não tem o hábito de ler jornais ou revistas. Alguém faz isso por ele: a primeira-dama, Laura. Depois da leitura, todas as manhãs, ela conta a ele os temas que achou mais importantes.

– Quando chega para trabalhar no Salão Oval, ele não está ignorando o que as pessoas estão lendo nos jornais do dia. Ele às vezes dá uma olhada na primeira página. Mas Laura lê os diários e o alerta – contou Andrew Cart, o chefe de Gabinete de Bush.

Este, no entanto, é apenas um detalhe do habitual desdém do presidente americano pela mídia, segundo uma reportagem de 12 páginas publicada na edição desta semana da revista ?New Yorker?. O título do artigo já dá uma pista: ?Fortaleza Bush?. O subtítulo reforça: ?Como a Casa Branca mantém a imprensa sob controle.?

Ken Auletta, repórter da revista, exibe os bastidores da manipulação de informações no governo. Ele conta que Bush classifica os repórteres, de maneira geral, como elitistas ou esquerdistas. E deixa claro que só obtém alguma informação interessante o profissional que tratar os inquilinos e altos funcionários da Casa Branca de forma elogiosa. – Se um jornalista quiser ter um acesso contínuo, como desejam todos os repórteres em Washington, o melhor é retratar o presidente como alguém tenaz e inflexível, decidido e justo -, escreveu Auletta.

Casa Branca pediu substituição de repórter do ?Post?

Peter Jennings, âncora e editor-chefe do principal noticiário da rede ABC, e Ted Koppel, veterano repórter da mesma emissora, são mal vistos na Casa Branca. Bush jamais concedeu entrevista a eles. Jennings contou a ?New Yorker? que se sente intimidado:

– Recentemente fiz uma reportagem sobre um alto funcionário da Casa Branca e me disseram antecipadamente: ?É melhor que seja boa?. Não era uma ameaça, mas tampouco soou como uma piada. Há um sentimento entre o pessoal da imprensa de que você é favorecido pelo governo ou não e que o seu acesso vai depender disso.

Em sua reportagem, Auletta revelou ainda que o governo pediu a cabeça de um dos três repórteres do jornal ?Washington Post? que cobrem a Casa Branca: Dana Milbank. ?Ele não é popular ali?, escreveu Auletta, antes de contar que dois altos funcionários do setor de imprensa do governo, além do principal assessor político de Bush, Karl Rove, queixaram-se de Milbank a Maralee Schwartz, editora de política do ?Post?.

Leonard Downie, editor-executivo do jornal, manteve o seu repórter no trabalho. ?Ele dá furos, explica aos leitores como e por que Bush e a Casa Branca fazem as coisas que fazem; ele dá um contexto político às decisões e ações políticas?, disse ele. Auletta acrescentou que o governo deu o troco: ?Milbank disse que a Casa Branca tentou colocá-lo na geladeira, deixando de responder aos seus telefonemas por um certo tempo?.”

***

“?NYT?: EUA dão mau exemplo”, copyright O Globo, 13/01/04

“O jornal ?New York Times? criticou ontem a política econômica do presidente George W. Bush, sugerindo que enquanto a Casa Branca pressiona os países em desenvolvimento a mostrarem mais transparência, o próprio governo americano não faz isso. O artigo se baseia no recente alerta do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que a economia mundial corre o risco de uma nova crise em conseqüência da má administração econômica dos EUA.

?Quem o FMI está repreendendo? O Haiti? A Argentina? O México? Não. Os Estados Unidos?, dizia um trecho do artigo. O ?NYT? disse que ?há algo de humilhante em ouvir isso de uma organização internacional acusada de monitorar economias à beira da quebra. Em muitos países o FMI é visto como um agente dos EUA (…). Há uma certa rudeza em ter agora o FMI pregando o chamado Consenso de Washington a Washington?.”

“Onde sonhar o sonho”, copyright Folha de S. Paulo, 14/01/04

“O jornal ?Milênio de Monterrey? puxou ontem para sua manchete a frase ?o sonho americano não é para mexicanos?, atribuindo-a ao presidente George W. Bush. Exagero de interpretação. Bush assinalou apenas o que deveria ser normal: o sonho dos trabalhadores (no caso, mexicanos) deveria realizar-se no país de origem em vez de migrar em quantidades industriais para os Estados Unidos.

O normal, e não só para mexicanos, deveria de fato ser a chance de viver seus sonhos em casa. Pena que o normal se tenha tornado crescentemente inalcançável, do que dão provas a imensa comunidade turca que vive na Alemanha, a norte-africana que foge para a França e para a Espanha e até os brasileiros de origem japonesa que inverteram a rota dos pais e avós e tentam a sorte no Japão.

Por isso, a ?over-interpretation? do jornal mexicano acaba sendo cabível. Mais do que nunca, os países em desenvolvimento estão dizendo, por meio de leis restritivas, que o ?sonho americano? (ou europeu ou japonês) não é para mexicanos, brasileiros, africanos, árabes.

Mas nem palavras nem atos bastarão para conter a fuga para sonhar. É óbvio (e é da essência do capitalismo) que, se o dinheiro não vem a mim, eu vou até onde está o dinheiro.

Por isso Bush está certo ao dizer, no mesmo contexto que o levou a ganhar a manchete do ?Milênio?, que é preciso expandir as oportunidades econômicas nas regiões de origem dos migrantes mexicanos.

Tarefa quase impossível: só 93 dos municípios mexicanos não registram emigração para os EUA. Aí você acrescenta os emigrantes brasileiros, africanos, árabes, sul-asiáticos e as comparativamente recentes levas da Europa Oriental e vê que a receita, ainda que correta, será insuficiente, mesmo que fosse de fato implementada -o que não ocorre.

Só há uma conclusão possível: o sonho que resta a sonhar é o de políticas internas que permitam concretizar em casa o sonho americano ou europeu ou japonês.”

“Direita dos EUA monitora acadêmicos ?não-patriotas?”, copyright Folha de S. Paulo, 15/01/04

“Um clima de caça às bruxas ronda os departamentos de estudos sobre o Oriente Médio nas universidades americanas.

Na esteira dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, setores conservadores do meio acadêmico e político dos Estados Unidos têm se lançado à procura de professores e instituições considerados ?não-patrióticos?.

Um exemplo é o Fórum do Oriente Médio, sediado na Pensilvânia. A organização, por meio do site www.campus-watch.org, recomenda uma lista de professores e universidades que, na avaliação do grupo, servem aos interesses da segurança e da política externa americana no Oriente Médio.

O site também recolhe informações sobre estabelecimentos que divulgariam mensagens antiamericanas. Os relatos são fornecidos por alunos.

O criador do Campus Watch, Daniel Pipes, defende a elaboração desse tipo de lista para prevenir a divulgação de doutrinas que pregam o ?extremismo? e a ?intolerância?. Ele argumenta que boa parte dos profissionais dedicados a estudos árabes ou islâmicos nos EUA oferece uma visão distorcida e parcial para os estudantes.

?Acadêmicos [dos departamentos] sobre o Oriente Médio impõem as suas opiniões aos estudantes e, às vezes, esperam que esses alunos abracem esses ideais, punindo aqueles que não o fazem com notas mais baixas?, diz em texto do site Campus Watch.

O que poderia soar como uma iniciativa isolada de identificação de profissionais ?antiamericanos? encontra respaldo em alguns congressistas americanos. Atualmente está em estudo no Senado uma lei que prevê reformas no sistema de regulação dos departamentos de estudos internacionais das universidades.

Um dos pontos polêmicos do projeto é a criação de um comitê para monitorar as atividades desses departamentos. O texto, já aprovado pela Câmara dos Representantes (deputados), diz que o objetivo da criação do órgão é ?fazer recomendações que promovam a excelência dos programas de educação internacional?. Essa e outras propostas podem ser incorporadas ou não ao texto final que o Senado deve apresentar ainda neste semestre.

Pipes é, aliás, um dos maiores defensores desse projeto. Como membro do Instituto da Paz dos Estados Unidos, o fundador do Campus Watch tem grande acesso aos congressistas. O instituto é uma entidade apartidária pertencente ao Congresso dos EUA.

O professor Rashid Khalidi, do setor de estudos árabes da Universidade Columbia, em Nova York, vê a legislação com apreensão. ?Esse comitê tem a intenção de impor uma agenda restrita aos estudos sobre o Oriente Médio. Essa idéia tem sido apoiada por um grupo de macarthistas que se mostram inimigos da real liberdade acadêmica?, disse à Folha.

A referência ao macarthismo diz respeito à política de perseguição aos suspeitos de pertencer ao Partido Comunista nos EUA nos anos 50, liderada pelo senador americano Joseph McCarthy. Um dos instrumentos dessa política era a elaboração das chamadas ?listas negras?.

Khalidi afirma ainda que a criação desse grupo de supervisores seria uma interferência governamental direta que poderia ser usada barrar a liberação de recursos para departamentos considerados ?antipatrióticos?.

Barbara Petzen, do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade Harvard, também critica um monitoramento ostensivo no meio acadêmico. ?Do jeito que está, essa lei é uma tentativa de impor uma visão de direita e pró-israelense nos departamentos de estudos do Oriente Médio?, diz. ?Nosso trabalho é preparar os estudantes para lidar com as nuances das questões do Oriente Médio. A realidade não pode ser só preta ou branca.?”

“Desafinando o coro de guerreiros contentes”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 13/01/04

“Há algum tempo eu perdi as esperanças de encontrar, na mídia dos Estados Unidos, real equilíbrio quanto ao estado de coisas no Império Americano.

Uma peculiar mistura de medo, insegurança e ganância está contribuindo, desde 2001, para criar uma postura não muio diferente da histeria da época da guerra fria. O medo, manipulado habilmente pela Casa Branca, é o de realmente estar falando para uma nação sob ataque. A insegurança é quanto a como o público estaria vendo um veículo de mídia que não parecesse apoiar integralmente aqueles que se investem do manto de defensores da nação sob ataque. A ganância, que complementa tão naturalmente estes dois outros impulsos, leva a não querer contrariar, de forma alguma, os sentimentos de auto-defesa, traduzidos como ?patriotismo?, dos leitores/espectadores/ consumidores.

Junte-se tudo isso e tem-se este volver à direita da mídia americana, da estridência da Fox News à ?cautela? dos grandes jornais.

E eis que, quando já estava certa de que não havia exceções na chamada ?grande imprensa?, vejo-me agradavelmente surpreendida justamente por uma revista com forte presença de conteúdo cultural – a Vanity Fair que, quando passa por um mau período, consegue ser uma verdadeira torta merengue de tão doce e vazia.

A edição de Dezembro 2003 ? agora nas bancas brasileiras ? tem a necessária capa fofinha – a chamada ?onda gay? da TV americana ? mas não se iludam. O tom geral, o conceito mais profundo da edição é um olhar crítico sobre as perigosas fantasias guerreiras da administração Bush.

A começar pela ?Carta do Editor?. Entitulada ?O Presidente? Sabe-se lá!?, ela é menos uma ?carta? e mais uma bem humorada e cortante catilinária expondo o circo de horrores da atual Casa Branca em números. Por exemplo: 127 bilhões de dólares: total do superavit da economia americana quando Bush tomou posse; 374 bilhões de dólares: total do déficit da economia americana em 2003; 28 bilhões de dólares: total de cortes nos fundos destinados aos veteranos militares e suas familias; 5. 3 milhões de dólares: total de fundos levantados por Bush para sua campanha de re-eleição; 200: número de leis de proteção ambiental que Bush vetou ou trabalhou para vetar; 43 milhões: número de americanos sem plano de saúde.

E por aí vai, terminando com a queda da aprovação popular da administraçao, de 90% em setembro de 2001 a 50% em dezembro de 2004.

Graydon Carter, editor da Vanity Fair, sabe o que está fazendo: ele veio da infelizmente finada e satírica Spy, onde listas deste tipo sempre conseguiram provocar o máximo de reflexão com um mínimo de bla-bla-bla.

Mas a pauleira não para aí – nas páginas seguintes, entre uma e outra celebridade semivestida e um ou outro milionário/socialite/cabeça coroada em crise, a VF desnuda as manobras de Bush para implantar a extrema-direita no coração do alto escalão judiciário americano (?Bush?s Court Advantage?), investiga os repetidos casos de estrupro numa das mais prestigiosas academias militares dos EUA (?Code of Dishonor?), pinta um retrato em profundidade da pobreza no país mais rico do mundo (?How the Poor Live Now?) mostra como uma exposição fotográfica no Instituto Smithsonian foi mutilada pelos censores por contrariar as intenções do executivo (?The Smithsonian?s Big Chill?), revela que o racismo ainda está vivo e feliz no sul americano (?Somebody Hung My Baby?).

E, num gesto de completo desafio aos seus colegas da laudatória midia americana, sugere, com todas as letras, que o resgate miraculoso da soldado Jessica Lynch pode não ter sido nem miraculoso, nem mesmo resgate. É uma manobra intensamente diplomática – ao mesmo tempo, a VF coloca Jessica entre os destaques de 2003 (?por bravura?), e mede as palavras ao insinuar que seu heroismo foi mais que maquilado pela máquina de criar heróis da Casa Branca.

Pode parecer pouco – mas, até agora, é a maior manifestação de dissidência que já vi num veículo do establishment americano.”

“Ex-secretário do Tesouro ameniza críticas a Bush”, copyright O Globo, 14/01/04

“Sob fogo cerrado da Casa Branca por ter criticado a liderança do presidente George W. Bush, o ex-secretário do Tesouro Paul O?Neill negou ontem ter tirado documentos secretos do governo.

No domingo, O?Neill mostrou um documento classificado como secreto num programa da rede de TV CBS em que acusou Bush de ter começado a programar a invasão do Iraque logo após assumir o cargo em janeiro de 2001, antes dos atentados de 11 de Setembro. Ontem, no entanto, amenizou suas palavras.

? Na verdade houve uma continuidade do trabalho que vinha sendo feito desde o governo Clinton com a noção de que era necessária uma mudança de regime no Iraque.

Na segunda-feira, o governo anunciou que o inspetor-geral do Tesouro tinha aberto uma investigação e, ontem, O?Neill afirmou que o documento lhe foi dado pelo departamento jurídico do Tesouro para ajudar um repórter a escrever um livro sobre sua passagem pelo governo de Bush.”

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