Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES >   SARS NA MÍDIA

José Paulo Lanyi

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

ECOS DA GUERRA

“Jornalismo de Guerra (II)”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 22/05/03

“Vamos, pois, à seqüência de ?Jornalismo de Guerra? – uma série de quatro entrevistas com profissionais que debateram o tema ?Mídia e Guerra: Cobertura Imparcial?? (14/05), na sede do Itaú Cultural, em São Paulo. A estréia coube a Carlos Fino, jornalista da Rádio e Televisão Portuguesa (RTP) – leia ?Jornalismo de Guerra (I)?. Hoje é a vez de Sérgio Dávila, correspondente da Folha de S. Paulo em Bagdá (com o repórter fotográfico Juca Varella), durante a invasão do Iraque. A Folha foi o único veículo brasileiro a enviar correspondentes à capital iraquiana.

Nada de resumo, aqui em cima. Ao colóquio:

José Paulo Lanyi – Cê tá feliz?

Sérgio Dávila (ri)- Tô feliz. Sobrevivi… Aliás, essa história é boa, foi o conselho que o meu sogro me deu. O meu sogro é o José Hamilton Ribeiro, jornalista muito conhecido. Cobriu a Guerra do Vietnã para a Revista Realidade. Durante a cobertura, ele pisou numa mina e perdeu parte da perna esquerda. Eu falei ?Olha, me convidaram para ir para Bagdá. O que você acha?? Ele falou: ?Vai. Se você não quiser ir aonde está a notícia, devia virar médico?. ?Qual conselho o senhor me dá?? ?Eu vou dar um conselho só: o bom jornalista é o que vai e volta vivo para contar a história. Então, por favor: volte vivo?. Eu estou feliz porque eu cumpri o conselho dele.

JPL – Quais foram as maiores dificuldades lá em Bagdá?

SD – (…) A principal: a tentativa de controle do governo para o que a imprensa via, falava, escutava e perguntava. A ganância financeira do ex-governo iraquiano, também. Eles cobravam muito caro para trabalhar. Eu e o Juca tínhamos de pagar, entre todas as despesas fixas diárias, só para o governo – não de subsistência – 800 dólares. Mais hotel, mais comida, aí você vê quanto ia por dia. Por isso que a certa altura acabou o nosso dinheiro. E você trabalhar levando bomba na cabeça, isso é muito complicado. Foram 13 mil viagens de avião. Eles [americanos e britânicos] soltaram no mínimo 13 mil bombas e mísseis, se não mais, porque cada avião às vezes soltava mais do que uma. Então você imagina como era estar andando de ônibus e cair uma bomba perto, todo mundo ter que aparar e se abaixar, dormir durante o bombardeio. Isso é inesquecível.

JPL – Durante um bom tempo você fez jornalismo cultural, também, lá em Nova York, e acabou indo cobrir uma guerra. Já se julgava preparado psicologicamente para enfrentar uma cobertura como essa?

SD – Eu acho que 11 de setembro me deu uma boa preparação psicológica porque foi uma prévia do que eu veria em Bagdá, exacerbado. Eu cheguei aos escombros do World Trade Center meia hora depois de ter caído a segunda torre. Da minha casa até o World Trade Center – eu fui a pé – fui vendo o primeiro prédio caindo, o segundo prédio sendo atingido e, quando eu cheguei, tinha acabado de cair a segunda torre. Então, eu vi os bombeiros tirando pedaços de gente dos escombros. Tudo isso criou a tal da segunda pele que o Moisés Rabinovici falou, que te deixa meio com uma couraça sentimental. Eu me julguei preparado para o que eu fosse ver em Bagdá, e realmente consegui trabalhar sem problema.

JPL – Como era conseguir informações exclusivas sem ter a sombra do governo iraquiano?

SD – Só burlando e só subornando. Você tinha que ser malandro, não tem outra palavra. Os furos que a gente conseguiu dar a gente teve de subornar motorista, subornar o guia – porque eles eram espiões do governo também -, a gente teve que fugir do comboio dos jornalistas, a gente teve que fingir que estava indo embora e não ia…Então, você tinha que burlar esse controle.

JPL – É como um 007?

SD – Sabe que até teve alguns lances de 007? Por exemplo: nós entramos escondido com o telefone por satélite e o link por satélite, de Internet. Como estava escondido e se fosse descoberto isso, a gente seria preso e expulso, a gente escondia todo esse material no duto do ar-condicionado. Então, o Juca ia todo dia, desatarrachava o duto e colocava isso dentro. E para saber que era ele ou eu que estávamos chegando no quarto – a polícia secreta visitava o quarto para checar, sem aviso prévio -, a gente combinou uma batida própria. Ele dava três batidas longas na porta e eu respondia com três batidas longas. Aí eu abria a porta.

JPL – Qual foi o momento mais crítico – se é que é possível distinguir um momento mais crítico de tantos outros?

SD – Toda a cobertura foi crítica, mas acho que teve três momentos que eu falei ?dessa a gente não escapa?. A primeira vez que a gente saiu de Bagdá, no meio do conflito, para voltar para Amã [Jordânia]. Foi uma travessia de 12 horas numa estrada que estava sendo bombardeada pelos americanos. Quando a gente passou pela segunda ponte que tinha acabado de ser bombardeada, eu falei: ?A terceira a gente não consegue escapar?. E no meio a gente ainda foi parado por um comando marine que não costumava parar, eles atiravam primeiro e depois iam ver quem eles tinham matado. Desta vez, a gente deu sorte. Quando a gente desceu, a gente falou que era brasileiro e deu tudo certo.

JPL – Eles tinham medo de carro-bomba?

SD – Esse era o medo. Os carros que a gente usava para essa travessia eram iguais aos dos homens-suicidas…

JPL – Não tinha um carro diferente, não?

SD – Não, porque eram as caminhonetes, as tais das caminhonetes GMC. Esse carro era muito visado pelos marines. Eles mandavam você parar a léguas de distância e vinha um com arma te examinar, e todos os canhões, enquanto isso, apontados para você…

JPL – Então era um ?carro-suicida? com ou sem bomba…

SD – Exatamente, suicida de qualquer maneira… A outra situação foi quando a gente voltou a segunda vez para Bagdá, já sem o regime. Era uma terra de ninguém. Eles estavam parando os jornalistas nas estradas e assaltando. Alguns foram linchados, ou tentativa de linchamento, como aconteceu com o Carlos Fino. Roubaram passaporte, dinheiro, equipamento, e a gente passou por situações próximas disso. E a terceira foi toda a segunda estada em Bagdá sem o governo iraquiano. Era uma cidade de ninguém, o mais próximo do Velho Oeste que eu fiquei na minha vida.

JPL – Por causa dos saques?

SD – Por causa dos saques, dos linchamentos, dos incêndios. Você andava no meio duma cidade com grupos que estavam linchando uma pessoa aqui, saqueando um prédio ali, incendiando um prédio na frente, e atrás de você um outro prédio já pegando fogo. Era um inferno dantesco que a gente passou por lá.

Cheerleaders

JPL – Você chegou a comentar que havia um clima de torcida dos jornalistas americanos e britânicos. Como é que você define isso?

SD – Os britânicos até que eram os mais imparciais entre os dois. Mas os americanos quase se seguravam para não torcer. Os que estavam em Bagdá, não, eram os mais sérios, os mais profissionais. Mas os que estavam ?embutidos? e depois chegaram a Bagdá eram quase cheerleaders, quase torcedores… Principalmente os embutidos da TV. Parece que a gente está falando de salame [risos], tem os embutidos da imprensa e os embutidos da TV. Essa parte de frios dos embutidos da TV… Não era só Fox News, não. O cara da CNN falava ?nós fomos?, ?nós invadimos?, ?nós vencemos a batalha?, na primeira pessoa do plural.

JPL – E os jornalões tradicionais?

SD – Os jornalões tradicionais são muito competentes. O New York Times fez um trabalho ótimo. O John F. Burns está lá até agora [14/05] e estava lá desde dezembro. O cara vai completar seis meses de Bagdá. Esse é um jornalista sério e sem part pris. Ele é o mais próximo de um jornalista imparcial que a gente pode ter nos Estados Unidos. O Washington Post também fez um trabalho muito importante de denúncia. Os jornalões foram mais imparciais do que a TV.

JPL – E havia embutidos dos jornais também…

SD – O New York Times tinha, cobrindo a guerra, ao todo, 25 pessoas. Só de embutidos acho que eles tinham dez. Em Bagdá eles tinham um. Depois, chegaram mais dois. Mas o tempo todo que a gente estava lá era só o John F. Burns. Mesmo os embutidos dos jornais se portavam [com equilíbrio]…

JPL – New York Times, Washington Post…

SD – …Los Angeles Times, também. O USA Today um pouco menos, também era um pouco clima de torcida…

JPL – Até pela própria linha do jornal…

SD – Exatamente. Mas esses três [New York Times, Washington Post e Los Angeles Times] fizeram direitinho.

JPL – São exceções?

SD – São exceções, esse entusiasmo contaminou a mídia como um todo nos Estados Unidos. Eu digo que o Brasil fez a melhor cobertura porque a gente via tanto – na TV – o lado americano quanto o lado europeu, e os europeus fizeram uma cobertura muito imparcial do conflito. Mesmo os britânicos, com algumas exceções.

******

Na próxima Link SP, ?Jornalismo de Guerra (III)?, com Carlos Eduardo Lins da Silva, diretor adjunto de redação do Valor Econômico.”

“Repórter de guerra reencontra Humvee”, copyright Folha de S. Paulo, 25/05/03

“Da primeira e única vez em que eu e o repórter fotográfico Juca Varella andamos num High Mobility Multi-Purpose Wheeled Vehicle, conhecido pela sigla HMMWV, mas popularizado pelo apelido Humvee, estávamos na alameda principal do Complexo Presidencial de Saddam Hussein.

Foi em abril, em Bagdá, durante a guerra do Iraque. A cidade já tinha caído e virado terra de ninguém, e um dos lugares mais cobiçados pelos jornalistas era justamente o equivalente à Casa Branca do ex-ditador.

Naquele dia, nós conseguimos burlar a barreira dos marines à área simplesmente falando que éramos brasileiros -depois de brecar todos os nossos colegas e nos mandar embora, numa segunda tentativa o tenente local se revelou um apreciador de pernambucanas, e o resultado é que só nós entramos no complexo.

Horas e quilômetros depois, após visitarmos a pé uma dezena de prédios e palácios, num calor de 40 graus, sem água e carregando no corpo os 15 quilos do colete e do capacete à prova de balas, resolvemos sentar no meio-fio e esperar que algo acontecesse.

Sinal da carona

Foi quando virou um Humvee marrom-claro, versão usada pelo Exército americano para operações no deserto, com metralhadora externa. Trazia dois fuzileiros. Fizemos o sinal universal da carona. Eles pararam.

Já empoleirados nos dois bancos de trás, recebendo um mínimo vento pela mínima abertura da janela enquanto o tenente dava velocidade máxima, eu e Juca pensamos que a vida até que era boa. E foi a última vez que ouvi falar daquele tipo de veículo.

Até que Veículos nos convidou para avaliar um Humvee que descansava na garagem de uma fábrica de blindagem paulista, em Barueri (SP). Aceitamos o desafio e fomos levados até um barro no meio do nada, em Alphaville.

Ao volante

Ali, tirei o recalque de anos e anos de moleque obrigado a dirigir de maneira bem-comportada, respeitando as regras do trânsito:

Subi paredes de terra de quase 45 de inclinação sem que os 195 cavalos do motor turbodiesel V8 do bichão desse qualquer sinal de fraqueza, enquanto Juca tentava fotografar a manobra toda;

Juca passou por um lamaçal de quase meio metro de profundidade a 60 km/h sem que o veículo nem sequer engasgasse;

Fizemos manobras literalmente sobre pedras, e até a cadeira velha que dava sopa no meio da trilha foi atropelada sem pena.

Saímos de lá com vontade de invadir, se não um país, pelo menos o terreno do vizinho, só para continuar testando o monstro…”

***

“O dia em que atolei um 4×4 militar”, copyright Folha de S. Paulo, 25/05/03

“?Posso subir ali?? ?E descer de ré?? ?E andar de lado no barranco?? Quem fazia as perguntas era eu, agora ao volante do Humvee. A meu lado, paciente, Riccardo Furlan, 35 anos de experiência com veículos militares, só dizia ?sim?.

Até que eu virei à esquerda num atoleiro primeiro e perguntei depois. ?Acho melhor você não…?, começou a responder ele. Tarde demais. As quatro toneladas do monstro já estavam sendo engolidas por uma argila mole, e eu não dei a velocidade necessária no acelerador para que ele passasse ileso pelo obstáculo.

Começou uma novela que só terminaria duas horas depois, quando Furlan voltou em um trator, que por sua vez trazia um cabo de aço. E não é que o trator também atolou? Mas era uma escavadeira, e o motorista foi ágil o suficiente para sair.

Enquanto esperávamos, porém, no meio daquele mato, fomos visitados por dois maratonistas, que passaram correndo por perto e deram um clima das produções do grupo britânico Monty Python à história toda, e uma suspeita picape com dois sujeitos, que ficaram examinando tudo à distância.

?Só faltava não termos morrido no Humvee de Bagdá para morrermos no de Barueri?, brinquei com Juca Varella. Ele não achou muita graça.”

 

SARS NA MÍDIA

“Epidemia e censura: perigosa combinação”, copyright Folha de S. Paulo, 26/05/03

“Entre as muitas coisas que emergem neste nosso mundo de emergentes estão as novas enfermidades: a doença dos legionários, a doença pelo vírus Ebola, a Aids, a infecção pelo hantavirus, a hepatite C, e, agora, a síndrome respiratória aguda grave, Sars, uma doença viral de transmissão respiratória com uma letalidade relativamente alta e capaz de se disseminar pelo planeta.

Como ocorreu com outras viroses que passam de animais para os seres humanos, a presente epidemia teve origem na China. E isso representa um duplo problema. Em primeiro lugar, a enorme população em risco. Em segundo lugar, a política do governo chinês em relação ao assunto.

Epidemias são embaraçosas para governos. E causam grandes dificuldades. No final do século 19 o Brasil não podia exportar seu principal produto, o café, porque os navios estrangeiros aqui não aportavam. E não aportavam por causa das pestilências, sobretudo a febre amarela. Contra a qual, contudo, havia o que fazer: o combate ao mosquito, objeto de uma campanha desencadeada por Oswaldo Cruz (que enfrentou a oposição de muitos médicos).

Quando se trata de administrações autoritárias a situação é diferente. Em 1974 o Brasil viu-se às voltas com uma epidemia de meningite meningocócica que, nos primeiros momentos, semeou o pânico. Notícias a respeito foram censuradas, o que só resultou em boatos, em desorientação e em mais pânico.

Na China, uma lei de 1996 classifica doenças altamente infecciosas como segredo de Estado.

Quando surgiram os primeiros casos, na província de Guangdong, o Departamento de Saúde da área recebeu do governo central mensagem a respeito. Como tal mensagem vinha com o rótulo de ?altamente confidencial?, ninguém pôde abri-la nem tomar providências.

A isso, acrescenta o ?Washington Post?, seguiram-se as férias do Ano Novo chinês e, sobretudo, a posse de uma nova direção do Partido Comunista, caracterizando um período de transição no qual notícias da epidemia seriam ?desestabilizadoras?. Felizmente um alerta aos jornalistas partiu do respeitado médico Jiang Yaniong, antigo diretor de um hospital que trata sumidades como o premiê Deng Xiaoping, que escreveu a respeito a jornalistas. O próprio Comitê Político do Partido exigiu um ?relato honesto? da situação, e aí as providências começaram a ser adotadas, com um atraso que, segundo a OMS, pode ter sido bastante deletério.

Conclusão: em matéria de epidemias, como de resto em tudo que interessa ao público, o segredo pode não apenas ser contraproducente, como perigoso. As pessoas têm o direito, e o dever, de se proteger. As pernas curtas da mentira, neste caso, conduzem, e com rapidez paradoxal, ao desastre. (Moacyr Scliar, escritor e médico especializado em saúde pública, é autor, entre outros, de ?A Paixão Transformada -História da Medicina na Literatura? (Companhia das Letras))”

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