Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ECOS DA GUERRA

José Paulo Lanyi

Por lgarcia em 20/05/2003 na edição 225


ECOS DA GUERRA

“Jornalismo de Guerra (I)”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/05/03

“Esta Link SP apresenta, a partir de hoje (14/05), uma série de entrevistas sobre a cobertura jornalística da invasão do Iraque. A coluna ouviu quatro profissionais que participaram, em São Paulo, do seminário ?Mídia e Guerra: Cobertura Imparcial??, promovido em conjunto pelo site Globo.com, o Itaú Cultural, a CBN e a Rede SescSenac de TV. São estes os nossos convidados: o então correspondente da Rádio e Televisão Portuguesa (RTP) em Bagdá, Carlos Fino, primeiro jornalista a noticiar e a mostrar ao mundo o início dos ataques ao país (as reportagens foram exibidas no Brasil pela TV Cultura e pelos canais fechados DirecTV e Sky); o correspondente da Folha de S. Paulo em Bagdá, Sérgio Dávila; o superintendente de comunicação da Associação Comercial de São Paulo, Moisés Rabinovici; e o diretor adjunto de redação do Valor Econômico, Carlos Eduardo Lins da Silva.

Comecemos com o jornalista português. Ao longo de sua carreira, Carlos Fino cobriu quase uma dezena de conflitos armados, como os que decorreram do desmembramento da União Soviética: a ameaça de guerra civil em Moscou, com a ascensão de Boris Ieltsin; as escaramuças na Geórgia, na Moldávia, na Chechênia, no Nagorno-Karabagh (território disputado pela Armênia e pelo Azerbaijão). Depois, a queda do comunismo em países do Leste Europeu, como a Albânia. Fino reportou a entrada dos muhajedin em Cabul, no Afeganistão; a reocupação da Palestina pelos israelenses; os combates entre a Aliança do Norte e o regime Talibã, no Afeganistão. ?Apesar disso, continuo a não me considerar um correspondente de guerra. Sou um repórter que tem ido a algumas situações de guerra. Não sou nenhum especialista nisso, não?.

José Paulo Lanyi – Os correspondentes dos outros veículos demoraram a ?acordar? diante da iminência do conflito?

Carlos Fino – Eu acho que eles não demoraram. Deixaram-se dormir um pouquinho mais. Agora, a reação acabou por ser rápida. Nós nem chegamos a dormir. O nosso mérito foi esse. Nós persistimos mais na espera. Havia a expectativa de que a guerra poderia começar. Depois começou a haver a sensação de que já não seria nessa noite (…) e nós mantivemos essa expectativa mais tempo. Foi isso que nos permitiu reagir mais rápido.

JPL – O senhor acabou dando essa informação em primeira mão. Os outros foram pegos de surpresa? Foi assim que eles reagiram?

CF – Não…Surpresa, não. Era a guerra que se esperava. Portanto, ela aconteceu. Houve foi a adaptação à nova situação, o antes e o depois. Depois dessa noite já nada ia ser igual. O que houve foi o sentido da adaptação e ver como as coisas iam passar. E passavam de forma estranha porque os bombardeamentos tinham lugar à noite. De dia, os jornalistas voltavam ao centro de imprensa (…), emitiam durante a manhã e depois regressavam ao hotel. Era uma situação algo dúbia que depois se degradou ainda mais. Depois de certa altura, os bombardeamentos já não eram horas certas. Podiam ocorrer em qualquer momento. A situação piorou em termos de segurança. Até que depois o conflito se resolveu com a vitória dos americanos.

JPL – Como é que se comportavam os jornalistas americanos e britânicos? Havia uma atmosfera de torcida ou eles conseguiam manter os nervos no lugar?

CF – Não, as cadeias americanas de televisão foram muito parciais, sobretudo a Fox. As outras todas também comungaram um pouco desse espírito, que era o espírito do patriotismo, e de que toda gente tem de estar ao lado dos ?nossos homens?. Essa palavra ?nós?, a importância do ?nós? foi determinante. Eu acho que o esquecimento do certo equilíbrio que o jornalismo tem que ter- eu não digo imparcialidade, mas equilíbrio- foi-se longe demais. Acho que a operação dos ?embedded? [?embutidos?] foi conseguida do ponto de vista do Pentágono, mas não foi conseguida do ponto de vista do jornalismo. Mas isso não foi atitude geral, sobretudo da imprensa. A imprensa foi mais reservada na maneira como cobriu os acontecimentos. O New York Times não teve esse comportamento, o Los Angeles Times, também não. Os jornais, digamos, mais liberais foram mais equilibrados do que os jornais mais francamente apoiantes do Bush, mas não foi todo igual. Temos de fazer distinções.

JPL – Quais foram os momentos mais críticos da sua cobertura no Iraque?

CF – Eu acho que foi o tanque, objetivamente, quando o tanque americano se voltou contra o hotel. Eu não me apercebi disso logo na altura. Mas olhando agora à distância, foram esses dois momentos, o tanque…

JPL – O senhor estava no hotel nesse momento…

CF – Claro, (…) estávamos todos trabalhando na varanda, filmando o que estava a acontecer. O projétil atingiu o décimo quinto piso. O décimo sexto e nós ainda recebemos os efeitos disso, os vidros partiram, houve estilhaços na varanda…

JPL – O senhor estava em que andar?

CF – Décimo sétimo, portanto é uma diferença de dois andares.

JPL – Além desse momento do tanque…

CF – Fomos apanhados [por milicianos] (…) e queriam matar-nos. Foi no mesmo dia da chegada dos americanos, dia 9 de abril. Só que foi de manhã e os americanos chegaram à tarde. Mas era já a expressão da degradação acentuada da situação. (…) Eram milícias do partido que tinham sido preparadas para resistir aos americanos, mas face ao desagregar do Estado (…) essas milícias transformaram-se rapidamente em grupos armados. Não havia lei, não havia controle. Portanto, eles nessa altura, por um lado, roubaram-nos, e por outro, quase exerceram sevícias e vinganças sobre nós. Nós, para eles, éramos a cara do inimigo, a cara do infiel, éramos o bode expiatório fácil.

É isso. Lamento não ter conseguido fazer mais algumas perguntas. Saber, por exemplo, a opinião do repórter sobre a intenção dos americanos ao atacar o hotel. Carlos Fino teve de interromper a entrevista, logo embarcaria para Brasília. Na próxima coluna, a conversa com o Sérgio Dávila.”

“Imprensa ajuda ou atrapalha?”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 13/05/03

“Imprensa ajuda ou atrapalha? Lá

Cinquenta e três por cento – a maioria absoluta – do povo americano acreditam que Saddam Hussein esteve envolvido no ataque terrorista de 11 de setembro. Uma percentagem ainda maior – 62% – está convencida de que Osama bin Laden e Saddam Hussein eram fortes aliados, embora isso nunca tenha sido dito por qualquer especialista, nem mesmo a CIA ou o supermentiroso serviço secreto inglês, que fez Tony Blair anunciar ?relatórios de inteligência? simplesmente plagiados de antigos textos de um estudante americano. E a aprovação a Bush, após a tomada de Bagdá, subiu para 73% (tinha chegado a 50% em fevereiro), mesmo sem qualquer evidência de que o governo americano tenha dito a verdade ao justificar a guerra pela existência no Iraque de armas de destruição em massa.

O pior (e mais irresponsável) jornal dos Estados Unidos – New York Sun – é o diário de grande circulação que mais aumentou suas vendas nos últimos 12 meses. Dilema Tostines: o povo americano está mal informado sobre o que acontece no Oriente Médio por culpa da imprensa ou a imprensa americana sofre porque a maioria dos leitores prefere não ser bem informada?

Sem Tostines: a imprensa americana ajuda ou atrapalha a opinião pública na identificação de seus melhores interesses?

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Imprensa ajuda ou atrapalha? Cá

O comunicador da Rádio Tupi (Rio) Pedro Augusto fez exatamente essa pergunta aos ouvintes, em seu programa de 08/05. Araújo disse que sua pauta fora inspirada pelo ?Fantástico?, cuja reportagem havia acompanhado diligências, com câmeras dentro dos carros da polícia.

A produção do programa disse que a grande maioria dos 439 ouvintes que telefonaram manifestou-se contra ?a ação conjunta de polícia e imprensa?. O principal argumento era o de que os criminosos poderiam ser avisados com antecedência. A matéria do ?Fantástico? no dia 04/05 incluiu tomadas de uma câmera de dentro um carro blindado que faz rondas noturnas nas comunidades mais violentas. Para os ouvintes, a presença da imprensa inibe a ação dos policiais e não é vista como um agente protetor e fiscalizador do trabalho policial.

Pedro Augusto tem uma audiência concentrada nas classes D e E, segundo o produtor Fernando Fraga, e se dedica a apresentar histórias de crime a seus ouvintes. No dia 08/05, uma das mais interessantes foi a de um candidato a estuprador que desistiu da façanha ao descobrir, chocado, que a vítima estava menstruada.”

“As armas assinaladas”, copyright IstoÉ, 18/05/03

“Eram 5h30 do dia 20 de março em Bagdá quando o repórter português Carlos Alberto Gonçalves Fino, da emissora pública Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), obteve um ?furo? jornalístico mundial ao se tornar o primeiro a transmitir o início dos ataques das forças da coalizão contra o governo de Saddam Hussein. Nem a poderosa CNN, que estava no mesmo hotel – o Palestine -, foi capaz de transmitir o primeiro ataque, chamado ?janela de oportunidade?, porque pretendia cortar a cabeça da liderança iraquiana atingindo edifícios onde supostamente estaria o ditador. Fino, junto com o cameraman Nuno Patrício, estava no quarto 1.705 do hotel Palestine, onde se hospedavam quase todos os jornalistas estrangeiros. O repórter só veio a saber do furo através da TV Cultura de São Paulo, que comprara os direitos de retransmissão para o Brasil. ?Houve uma dança dos hotéis, uma espécie de manada em direção ao Palestine comandada pela equipe da CNN, já que o Hotel Al Rashid era extremamente perigoso por ser alvo dos americanos, assim como o Al-Mansur, onde estava a Reuters. Foi pura sorte, porque ninguém mais esperava um ataque àquela hora da madrugada. Nós simplesmente não fomos dormir, porque havia um programa de debates na RTP?, contou o jornalista português a ISTOÉ.

Aos 52 anos, Fino é um veterano de coberturas de conflitos armados, desde as repúblicas da ex-União Soviética, nos anos 90, passando pela segunda intifada no Oriente Médio até o ataque de tropas americanas no Afeganistão, ano passado. Baseado nessa experiência, ele acredita que, nas guerras, ?o mais provável é que aconteça aquilo que ninguém previu?. Para ele, o ataque da coalizão ao Iraque trouxe inúmeras surpresas, entre elas a batalha que não houve, que deveria ser a ?mãe de todas as batalhas?, a ?batalha de Bagdá?, pela falta completa de resistência da Guarda Republicana, as tropas supostamente mais preparadas e equipadas de Saddam. Outro episódio ainda não totalmente esclarecido, para Fino, é a misteriosa visita do embaixador russo Eugeni Primakov a Bagdá para organizar um comboio de mais de 100 pessoas, que acabou bombardeado pelas forças da coalizão.

A cobertura da guerra no Iraque quase custou a vida ao veterano repórter. Era a manhã do dia 9 de abril e ele, o câmera da RTP, e uma jornalista da tevê búlgara estavam num Land Rover a cerca de quatro quilômetros do Hotel Palestine quando se viram envolvidos em meio a um tiroteio entre milícias iraquianas, que, àquela altura, já estavam se transformando em meros bandos armados. ?O fato de sermos brancos, ocidentais, foi uma justificativa para nos atacarem, embora soubessem que éramos jornalistas?, relata o repórter. A equipe foi levada à sede do partido Baath, e no caminho atacada e assaltada por uma multidão enfurecida, que levou dinheiro, passaportes e cartões de crédito. O próprio veículo ficou em poder dos milicianos. Eles só foram libertados com a chegada de um chefe, possivelmente um oficial, cuja presença intimidou os demais milicianos.”

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