Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES >   TV DIGITAL

Jotabê Medeiros

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

CASSETA & PLANETA

“O surpreendente final de ?Mulheres Recauchutadas?”, copyright O Estado de S. Paulo, 9/10/03

“Quem acompanhou a novela sabe que a professora Carquel usava um collant amarelão extremamente sexy, uma malha justíssima e uma barba cerrada que desorientava até seu fiel escudeiro, o aluno gaúcho Freud. Que a enlouquecida Helouquísa sempre invadia o set com um facão nas mãos, procurando um caminho para encurtar os recursos do maridão jogador de vôlei. Mas mesmo quem nunca perdeu um capítulo de Mulheres Recauchutadas não podia prever tal desfecho – o humorístico perdeu para o seu modelo de paródia.

Morto, o espancador de mulheres Sopapos chega ao Paraíso e é recebido com festa por São Pedro. ?Tom Hanks, que bom que você chegou! Sou seu fã!?, diz São Pedro. O raqueteiro se defende: ?Eu NÃO sou o Tom Hanks, sou apenas um cara muito parecido com ele. Quantas vezes terei de repetir??. São Pedro, enfurecido com a descoberta, puxa uma alavanca e o manda para o inferno.

Tradição do humorístico Casseta & Planeta, a sátira da novela das 8 seduz pela grotesquerie, pela caricatura disforme e cheia de pêlos (como os que saem até pelo saxofone do músico Téo). Bussunda como uma Vera Fischer rebobinada em Esculachos de Família foi um dos grandes clássicos da TV brasileira em todos os tempos.

Mas, como aconteceu com Mulheres Apaixonadas, às vezes os comediantes do Casseta reconhecem que é duro ser mais ridículo que a novela das oito. A concorrência dessa vez foi braba.

Mulheres Apaixonadas é uma novela que usa os figurantes da mesma maneira que aqueles humorísticos tipo Zorra Total ou Praça da Alegria – um monte de gente que fica mexendo a boca e fazendo caras de desaprovação ou espanto ao fundo da cena. Nada mais ridículo do que as moças do Hotel Praia do Leblon ?surgindo? ao fundo de uma cena para comentar os dotes físicos do Santoro ou a telefonista desocupada Xuxa Lopes tentando evitar – com o freio de mão puxado – que a doida da Heloísa saísse para a rua.

A professora Santana (Vera Holtz) adicionando uma dose extra de pinga no seu cafezinho é de morrer de rir, ainda mais com sua cara na hora do flagrante.

Ela é muito mais do que uma simples adepta cabocla do Irish Coffee; é uma versão letrada do Mussum, dos Trapalhões, sempre em busca do mé eterno.

A versão cassetística de Santana foi a professora SóCana, que termina a novela no aeroporto, indo tratar-se de seu alcoolismo num lugar onde não possa encontrar cachaça: a Escócia.

No humorístico, não teve muita graça o final do affair entre o Padre Pedro (Reinaldo) e a fútil profissional Estela (Hélio de La Peña). Mas, na novela, foi impagável o napolitano padre tentando segurar a maravilhosa Lavínia Vlasak na praia, argumentando que tinha de ?amadurecer sua decisão?. Foi de rachar o bico.

E o gordinho ajudante de Estela matou a pau, mantendo a escrita que começou lá com o Sardinha, na novela Vale Tudo, o valoroso ajudante (ainda no armário) da Lídia Brondi. Quem se esquece? Uma mulher com equipamento completo é uma mulher com uma biba a tiracolo, diz o ditado.

Téo (Tony Ramos) passou a novela inteira com cara de Madalena arrependida.

Seu final não podia ser mais adequado na paródia. Péssimo saxofonista, vira músico de rua, vivendo dos trocados que a menina Salete (de novo De La Peña) recolhe no chapéu. O segredo é que Salete promete, num cartaz, levar o pai saxofonista para longe dali se o transeunte contribuir com a coleta.

Na novela de verdade, Téo é ainda mais castigado. Ele deve terminar com a médica de cara compungida Laura, que passou a novela inteira correndo atrás do cirurgião-garanhão César.

O taxista Caetano (Cláudio Manoel), atleta sexual de aluguel, se dá bem no final do humorístico. Ele compra um carro novo, um utilitário, para carregar a clientela, que aumentou – agora, em vez de uma perua só, ele atende uma kombi cheia delas.

Mulheres Apaixonadas é uma novela que ainda vive nos tempos de Casa Grande & Senzala, onde os meninos de classe média fazem a iniciação sexual com a empregada negra. Ou seja: um texto que força a mão para abraçar as grandes causas, como o desarmamento, mas ainda confina todos os negros na cozinha ou na cama do patrão.

Foi uma novela sexista, o que nem é novidade no horário. O problema é que, como se dispôs a tratar do assunto ?mulher?, a novela merecia uma sonora vaia. Não existe uma única mulher feliz no reino encantado de Manoel Carlos – a não ser a sua própria filha, a Vidinha (Júlia Almeida). Todas são ou neuróticas, ou obcecadas por sexo, ou passivas, principalmente passivas, vivendo à sombra dos homens.

E suas cenas mais festejadas nem mereceram a distinção. Aquele tiroteio em que a Fernanda (Vanessa Gerbelli) foi morta não foi uma cena de ?bala perdida?. A mulher foi executada, ao som do grupo-pastiche Linkin Park.

Provavelmente ela levou tantos tiros porque sabia demais sobre o terrível mundo das novelas, do qual somos todos reféns.”

 

SEXO FRÁGIL

“?O homem está disposto a discutir a relação?”, copyright O Estado de S. Paulo, 9/10/03

“Dramaturgo, compositor, autor e diretor de TV, o pernambucano João Falcão, de 45 anos, foi convocado para preparar uma série para substituir Os Normais a partir da próxima semana. Assim, sai um casal e entra em cena um quarteto masculino disposto a discutir a relação homem e mulher. De acordo com seu criador, Sexo Frágil vai brincar com o comportamento do homem diante da nova mulher ?que está mais à frente e mandando na gente?. Nesta entrevista, Falcão avisa que há muito espaço a ser ocupado pelo humor de qualidade na TV e muitos profissionais maravilhosos para fazer isso.

Estado – A ?Comédia da Vida Privada? saiu do ar porque perdeu audiência para programas populares. Qual é a conjuntura em que ?Sexo Frágil? estreará?

João Falcão – A Comédia durou três anos, mas era um programa difícil de fazer. Eu, o Guel Arraes e o Jorge Furtado dirigíamos, trabalhávamos com uma câmera só e dávamos tratamento de cinema. Estava pesado, mas tem sim a história do ibope alto dos populares. Não sei qual é o cenário agora, pois passei cinco anos fazendo teatro. Isso não havia passado pela minha cabeça… É tão difícil fazer coisa com qualidade na TV.

Estado – O que é qualidade na TV?

Falcão – Inovar é complicado, é mais fácil vender algo já testado. A gente experimenta mais no teatro porque não tem compromisso de atingir milhões de pessoas. A TV é uma coisa muito grande, para o bem e para o mal. O bom é a possibilidade de atingir milhões de pessoas e interferir de alguma forma na vida delas. O difícil é encontrar um denominador comum que interesse o largo espectro do público, que vai da classe A à E. Em se tratando da Globo, a expectativa é de grande audiência. É um fator importante porque é do ibope que depende a sobrevivência de qualquer programa.

Estado – O que ?Sexo Frágil? tem em comum com ?Homem-Objeto?, visto no ?Fantástico??

Falcão – O tom, o elenco e o assunto. Sexo Frágil tem uma história e quatro personagens fixos. Trata do comportamento do homem em relação à nova mulher.

Queremos brincar com isso, fazer humor sobre esse ponto de vista. Parto do princípio de que as mulheres estão à nossa frente. Estão mandando na gente e nós estamos precisando. Hoje em dia, o homem está disposto e precisando discutir a relação, procura também um relacionamento mais estável, coisa que, até pouco tempo, era uma característica feminina.

Estado – Como você avalia o humor na TV?

Falcão – Faltam programas de qualidade não só na área de humor. Isso por causa do imediatismo, a TV parece uma quitanda, que tem de vender rápido para girar o dinheiro. Existem programas de humor (poucos) interessantes como A Grande Família, Os Normais e Casseta & Planeta. Há muito espaço a ser ocupado e tem redatores e atores maravilhosos para isso. Há espaço também para a música, que como a TV, é uma das coisas mais importantes que o Brasil produz. Não entendo porque a música sumiu da TV.

Estado – Você é músico.

Falcão – Sou o autor da trilha sonora do filme Lisbela e o Prisioneiro, com pérolas da MPB. Compus uma delas: O Amor é Filme. Hoje mesmo a Globo está gravando um programa especial com essa trilha.

Estado – O cinema está em seus planos?

Falcão – É tudo o que eu gostaria de fazer, mas cinema é para quem tem muito dinheiro ou é muito mais jovem. Eu tenho de ganhar dinheiro todo mês.

Estado – Como a TV ganhou você?

Falcão – Guel Arraes me chamou. Eu morava no Recife e algumas pessoas mostraram meus textos para ele. Comecei a colaborar de lá, mas quando comecei a dirigir, mudei para o Rio.

Estado – O que dá mais dinheiro: TV ou teatro?

Falcão – É difícil teatro dar dinheiro. Não é pelo dinheiro que faço. Não ganho esse dinheiro todo na TV, ainda não. Sou privilegiado de trabalhar com o Guel, estou onde gostaria: no circuito mais alternativo da TV.

Estado – Você não quer fazer novela?

Falcão – Muito. Sou fã de Janete Clair e Bráulio Pedroso. Mas não estou batalhando por isso agora, tive mais vontade quando mais jovem. Tenho uma família com um monte de filhas, gosto da minha vida como está e escrever novela me obrigaria a abandoná-la. Uma minissérie estava de bom tamanho. A peça A Máquina, escrita pela minha mulher, Adriana, pode dar uma minissérie bacana.”

 

TV DIGITAL

“?Novo sistema não vai garantir inclusão social?”, copyright O Estado de S. Paulo, 13/10/03

“Para o sociólogo Bernardo Sorj, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro Brasil@povo.com: A Luta contra a Desigualdade na Sociedade de Informação (Jorge Zahar Editor), a TV digital pode ser útil para ampliar o acesso à internet das pessoas com menor poder aquisitivo, mas está longe de ser uma solução para o problema. ?A TV digital, sem dúvida, pode ser mais um instrumento, mas não é a solução para a inclusão digital.? O governo definiu, em sua política para o novo sistema de TV, a inclusão digital como um dos principais objetivos a serem alcançados.

Em seu livro, Sorj afirma que o acesso físico à rede mundial é apenas um entre vários fatores essenciais para a inclusão digital. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Estado – Qual é sua opinião sobre o uso da TV digital como instrumento de inclusão?

Bernardo Sorj – A tecnologia existente de TV digital não é interativa. Portanto, não substitui a conexão telefônica à internet ou da TV a cabo. Nos sistemas atuais, o que poderia ser feito é substituir a tela do computador pela televisão.

Estado – Como o senhor vê a possibilidade de combinar a TV digital com uma linha fixa ou celular para ter a interatividade?

Sorj – No celular já se tem acesso à internet. Não precisa mais de linha fixa. O telefone celular, como conexão à internet, já é possível hoje e será mais barato no futuro. É mais um instrumento. Agora, a inclusão digital é muito mais complexa que o simples acesso à infra-estrutura material das redes. Mais importante, para usar a internet, é saber usar o computador, o que implica em leitura e alfabetização. Entre 30% e 40% do povo brasileiro é tecnicamente analfabeto.

Estado – Quais outros fatores, além da educação e do acesso, são importantes?

Sorj – A inclusão digital passa pela criação de conteúdo. É importante criar conteúdo para os setores excluídos da população. Do que adianta ter um computador se a maioria do conteúdo está em inglês ou foi desenvolvido para a classe média?”

“TV une-se à internet e ao celular”, copyright O Estado de S. Paulo, 13/10/03

“A nova televisão combina radiodifusão, internet e celular. Enquanto o governo discute qual tecnologia de transmissão será adotada no Brasil, as grandes emissoras já digitalizaram a maior parte da produção. Na Rede TV!, as fitas foram abolidas. Serviços que estarão disponíveis na TV aberta após a digitalização, podem ser experimentados em outros meios. A Globo.com, o vídeo no celular da Vivo e os serviços interativos da Sky e da DirecTV são exemplos do que o espectador poderá ter, em alguns anos, na TV aberta.

?O objetivo é estar em todas as mídias?, afirma o presidente da Rede TV!, Amilcare Dallevo Jr. ?Já trabalhamos com a Vivo para levar nosso conteúdo ao celular.? A emissora investiu US$ 2,5 milhões na digitalização da produção.

As fitas do arquivo foram substituídas por DVDs de dados. Os câmeras levam um notebook quando vão filmar cenas externas, onde gravam as imagens e já podem fazer a pré-edição. Parte dos sistemas necessários, como o de exibição e o de controle do armazenamento, foi desenvolvida pela Tecnet, empresa de software do grupo. ?Temos 20 anos de experiência em software para telecomunicações.? As 30 ilhas de edição da emissora são computadores Macintosh, ligados numa rede de fibra óptica a um sistema de armazenamento de 8 terabytes, o que equivale a mais de 600 horas de vídeo, disponíveis online. O restante está indexado no sistema, mas offline. Ou seja, é preciso colocar o DVD na máquina para acessar o conteúdo. ?Mesmo nos Estados Unidos, não existe um sistema integrado como o nosso?, afirma Dallevo.

A digitalização da Rede TV, que completou um ano, não foi feita sem resistência. ?No começo, o pessoal não queria, achava que não ia funcionar?, conta o presidente da emissora. ?Diziam que, se fosse bom, a Globo já teria feito.? Hoje, segundo Dallevo, a digitalização permite mais agilidade na produção e menor custo de armazenamento. Uma fita, que armazena uma hora de programação, custa US$ 35. Um DVD, que guarda 20 minutos, US$ 1,60.

Existem duas possibilidades de parcerias entre emissoras de TV e operadoras de telecomunicações. Em uma delas, já disponível hoje, o celular, o telefone e a internet tornam-se meios de distribuição de conteúdo televisivo e, conseqüentemente, novas fontes de receita.

Quando for implementada a TV digital no Brasil (segundo as previsões do governo, em 2006), o celular e o telefone serão canais de interatividade da TV.

?Caso não se quisesse usar a rede de telecomunicações para fazer o retorno, seria preciso instalar pequenos transmissores nos terminais do usuário, o que exigiria do usuário investimentos adicionais?, diz Liliana Nakonechnyj, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET).

?Ou seja, parece fazer bem mais sentido promover o tráfego bidirecional da internet através de rede, fixa ou celular, desenhada para comunicações ponto-a-ponto.?

As Organizações Globo já começaram a transformar o acervo televisivo em negócios na internet, com a Globo.com. Em seu serviço de acesso rápido à internet, a Globo.com oferece conteúdo de televisão exclusivo ao assinante, como forma de se diferenciar dos concorrentes.

Para as empresas de TV, a recepção móvel, em celulares ou computadores de mão, serão essenciais para seu modelo de negócios futuro. Elas trabalham com a premissa de que, em uma década ou mais, todas as casas estarão conectadas por cabo ou satélite. ?O único diferencial da TV aberta em relação a esses meios pagos seria a possibilidade de ser recebida sem fio em qualquer lugar?, diz o responsável pelo Departamento de Projetos de Transmissão Digital da TV Globo, Paulo Henrique Castro. O vice-presidente de Marketing e Inovação da Vivo, Luis Avelar, enxerga grande potencial de integração da TV digital com o celular. ?As próprias emissoras já começam a vislumbrar a importância da sinergia, chegando mesmo a procurar a Vivo para instigar a operadora a já começar a desenvolver serviços possíveis, como download de filmes e jogos.?

Os serviços de TV paga via satélite, como a Sky e a DirecTV, já são digitais e interativos. Quando a TV aberta for digitalizada, os serviços disponíveis via terrestre serão muito próximos aos que existem hoje por satélite, como jogos pagos, comércio, banco e correio eletrônicos. Dependendo das regras impostas pelo governo, as emissoras abertas poderão lançar serviços pagos, que seriam transmitidos com o sinal gratuito.”

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