Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > QUALIDADE NA TV

Jotabê Medeiros

Por lgarcia em 05/05/1999 na edição 66

 

“Aquelas normas éticas de jornalismo que pareciam condenadas ao limbo dos congressos de comunicação agora viraram lei numa solitária emissora brasileira. A Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) resolveu criar o próprio ‘manual de conduta jornalística’ para nortear a atuação dos profissionais da emissora. Isso implica a extinção de programas, a reformatação de jornais e a criação de outros, processo que está sendo posto em prática gradualmente.

Como é uma TV de caráter público, a Cultura quer também ter um jornalismo de caráter público. Para definir como será a mudança de posição e editorial da emissora, Marco Antonio Coelho, diretor de Jornalismo da TV Cultura, exemplifica com um caso recente do noticiário. ‘A notícia do brasileiro que foi assassinado no Waldorf Astoria, em Nova York, nos interessa porque se trata do assassinato de um brasileiro no exterior, mas não nos interessam as preferências sexuais dessa pessoa’, diz. ‘Assim como não nos interessam casos como o da briga de Glória Pires com seu marido’, afirma.

Segundo Coelho, a questão de mudar a abordagem jornalística em uma emissora é mudar os hábitos dos jornalistas. O modelo utilizado nas TVs comerciais, de grande sucesso, é seguido mecanicamente há décadas, com raras exceções. Foi então que a emissora resolveu convocar os 120 profissionais do seu departamento de jornalismo para discutir uma nova ordem no setor.

Divididos em 12 grupos de dez profissionais, sem restrição de área ou especialização, eles fizeram reuniões, diagnósticos, discussões, workshops e chegaram a uma espécie de manual de princípios – que Coelho espera transformar em breve no primeiro Manual de Redação da TV Pública.

Coelho vai atacar o problema no que considera seu nascedouro: o pauteiro (profissional a quem cumpre selecionar os assuntos que serão objeto de reportagem). Função geralmente considerada quase burocrática nas redações das emissoras de televisão, a pauta deverá ter salário e status especial na Cultura. ‘De preferência, queremos profissionais com mais de 40 anos e com experiência na área; não pode ser uma criança, um estagiário mal remunerado, porque é ele quem vai fazer o roteiro do nosso jornalismo’, diz Coelho.

Além desse brainstorm da equipe, a TV Cultura também pediu reforço externo e contratou como consultor o jornalista Washington Novaes, de 64 anos, há 42 anos na profissão. Novaes, ex-Última Hora, Correio da Manhã, TV Rio, Globo Repórter, Folha de S.Paulo e diretor de especiais como Xingu, Quarup e Pantanal, fez a crítica do modo de produção atual na emissora que foi incorporada à conclusão final.

Uma das mudanças que o telespectador já poderá notar é o incremento da cobertura de outros Estados na rede pública de televisão, capitaneada pela TV Cultura. ‘Ainda que isso possa significar num primeiro momento alguma perda de qualidade’, assinala o documento.

Um dos primeiros programas da emissora que sofrerão modificações é o Repórter Eco. Também já está em andamento o projeto da Revista da Cultura, que irá ao ar aos domingos, antes do Cartão Verde. Esse programa faz parte do projeto do “Domingo Melhor na TV Cultura”. Os programas consagrados, ‘que já têm caráter de reflexão’, como o Opinião Nacional e o Roda Viva, não deverão sofrer mudanças.

O leitor mais cético deverá perguntar-se: mas como uma emissora que depende fundamentalmente da verba do Estado para se manter vai conseguir fazer um jornalismo voltado ao interesse público? ‘Não tenha a menor dúvida: vamos criticar quem quer que seja: mantenedor, anunciante e mesmo a sociedade’, diz o presidente da Fundação Padre Anchieta, Jorge da Cunha Lima.

Historicamente, o jornalismo da TV Cultura não se tem pautado por manter uma atitude vigilante em relação ao governo estadual. ‘Eu acredito que, se você tem uma atitude ética, se critica as coisas que não estão certas, não vai ter maiores problemas’, diz Cunha Lima. ‘Todo mundo comete equívocos; por que um governo não há de cometer?’”

“Cultura propõe adoção de novo modelo jornalístico”, copyright O Estado de S. Paulo, 27/4/99

 

“O secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, disse que, se até o final da primeira quinzena de maio as TVs abertas não apresentarem um manual de controle de qualidade da programação, o governo vai criar mecanismos para exercer fiscalização e punições. ‘A intenção não é fazer censura, mas a Constituição estabelece obrigações para quem tem concessão pública, que não estão sendo respeitadas por causa da disputa pela audiência.’

Até agora, segundo Gregori, apenas a Bandeirantes fez um manual, mas sem especificar as sanções no caso de não cumprir as regras, como foi pedido pelo governo.

As TVs públicas e educativas, que se reuniram de 7 a 9 deste mês, no Rio, para elaborar um código de ética, optaram por fazer uma carta de princípios que devem nortear suas ações, mas não enviaram nenhum documento ao governo. ‘Se nesse prazo as emissoras não tomarem providências, seremos obrigados a incluir na lei para as comunicações dispositivos de fiscalização e sanções, que preferiríamos que viessem delas.’

Desde novembro, Gregori vem conversando com as emissoras sobre uma forma de rever sua programação. De acordo com o secretário, a iniciativa foi tomada ‘por causa de reclamações de pessoas inconformadas com o baixo nível da programação das TVs abertas, pedindo ação do governo’.

Entidades como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) vão receber as queixas dos telespectadores e verificar se é caso de punição. ‘Vamos estabelecer multas salgadas e destinar esse dinheiro à produção de programas educativos’, afirma Gregori

“Gregori ameaça multar emissora que não elaborar código de ética”, copyright Folha de S.Paulo, 22/4/99

 

“Enquanto a televisão comercial e o seu mercado se embalam no suspense da novela do momento – ‘O Destino de Ana’ –, com Ana Maria Braga no papel principal e a trama centrada no seu rumo profissional depois da saída da Rede Record, movimentos importantes acontecem no campo da TV pública, com perspectivas muito mais relevantes do que a mudança de endereço de uma apresentadora bem patrocinada. São movimentos que apontam para um novo cenário das emissoras educativo-culturais, de menos dependência do financiamento estatal e de abertura para o investimento privado, mas com a tradicional pretensão, agora revigorada, de competir pelo interesse dos telespectadores e servir-lhes um padrão alternativo de qualidade e ética. A TV pública sonha cada vez mais alto, embora em chão firme o seu caminho ainda esteja juncado de contradições e dificuldades.

Na semana passada, a Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec) reuniu-se no Rio de Janeiro para examinar uma idéia que já completa três décadas na televisão comercial, mas ainda não foi testada para valer no campo estatal: a operação centralizada em rede nacional. É claro que há vários anos a TV Cultura de São Paulo e a TV Educativa do Rio de Janeiro já distribuem a sua programação nacionalmente, abastecendo estações educativas de diversos Estados, que têm recursos limitados para produzir o seus próprios programas. No entanto, essa oferta de programação nunca foi amarrada a uma obrigatoriedade de exibição. As educativas regionais podem escolher os programas que oferecerão a seu público e fazem-no, em muitos lugares, mesclando atrações da Cultura e TVE com produtos locais. Isso inviabiliza uma grade de programação educativa efetivamente nacional, sintonizável indistintamente no Rio Grande do Sul ou no Amazonas. E se não há grade nacional, não há como atrair anunciantes de grande porte, interessados em se comunicar com o país inteiro.

A busca do financiamento privado é o ‘x’ da questão para as educativas públicas, nesses tempos em que o enxugamento da máquina do Estado tornou-se imperativo de competitividade do país no mundo globalizado. As emissoras sabem que mal se manterão, e jamais crescerão, se permanecerem dependentes dos repasses de verbas dos governos federal e estaduais. Esse dinheiro mingua ano a ano e, na luta pela sobrevivência, a Cultura e a TVE trocaram uma velha rivalidade pela cooperação, pregando em uníssono a favor de uma abertura controlada da televisão educativa para a publicidade comercial. Os primeiros resultados dessa política são animadores, mas ainda insuficientes. Daí a proposta da Rede Pública de Televisão, com uma programação efetivamente nacional, que permitirá racionalizar os recursos de produção e ampliará as possibilidades de captação de publicidade. Essa rede deverá começar com uma faixa noturna, de uma hora diária, estendendo-se aos poucos para outros horários e ampliando o seu tempo, sem obstruir o espaço da programação regional e local, que cabe a qualquer estação pública manter.

Tudo muito interessante e conveniente, a não ser pelo detalhe de que a publicidade comercial continua legalmente proibida na televisão educativa pública e é apenas tolerada pelo governo, que prefere fazer vistas grossas do que repassar dinheiro grosso. É uma situação não apenas precária, mas também contraditória, na forma como se pretende resolvê-la. Enquanto o Ministério das Comunicações prepara o anteprojeto da nova Lei de Comunicação Eletrônica de Massa, que, espera-se, derrubará o veto à publicidade nas educativas, tramita na Câmara dos Deputados desde 1o de abril um instrumento que propõe exatamente o contrário. Trata-se de um anteprojeto de consolidação da legislação de comunicações, formulado por um grupo de trabalho que tem à frente o deputado mineiro Bonifácio de Andrada, que retorna à pré-história da TV educativa no país e impede-a de receber qualquer tido de patrocínio comercial, além de obrigá-la a transmitir apenas aulas, conferências, palestras e debates.

A Abepec já repudiou o texto de Andrada e é bastante provável que ele não dê em nada, até porque tenta consolidar uma legislação anacrônica, que a Lei de Comunicação Eletrônica de Massa procura justamente substituir. A julgar pelas posições do secretário de Comunicação da Presidência da República, Andrea Matarazzo, o posicionamento do governo na questão é fracamente privatista e com certeza orientará a votação de sua bancada. Convidado ao encontro do Rio, Matarazzo chegou a defender que as emissoras educativas façam campanhas de publicidade na mídia privada (jornais, revistas, rádios e televisões), para convencer os anunciantes do seu potencial de atração de um público qualificado. E, dando o exemplo, garantiu que as agências de publicidade que atendem o governo serão orientadas a programar as emissoras educativas, nas campanhas que fazeres para a administração direta ou indireta. Até agora, o governo não faz publicidade paga em canais públicos. Manda apenas filmes de campanhas educativas para serem exibidos gratuitamente – e o dinheiro de suas mensagens institucionais vai engordar o caixa das emissoras privadas.

Se isso de fato acontecer, será uma revolução no financiamento da televisão pública e, possivelmente, no próprio mercado publicitário. A Abert e suas emissoras associadas não vão gostar nada de dividir o bolo com os ‘arrivistas’ e deverão resistir, o que promete uma boa polêmica. E este será apenas um dos obstáculos que a publicidade terá de driblar, para enfim instituir-se como uma realidade na televisão pública. Além das complicações legais, enfrentará restrições éticas das próprias emissoras educativas, quanto ao tipo de produto que pode ser anunciado (cigarros, bebidas alcoólicas e armas estão proibidos de saída) e à forma que os comerciais podem assumir (não se aceita referências a preços e condições de pagamento de produtos ou serviços, por exemplo). Se deseja muito atrair as verbas dos anunciantes, a TV pública teme ainda mais descaracterizar-se nesse contato e evita render-se ao que chama de ‘lógica do mercado’ – as agruras da competição intensa, que eventualmente levam aos Ratinhos, Leões, banheiras do Gugu e outras contingências perversas na programação.

O caminho para o financiamento privado da televisão pública de qualquer forma está aberto e vai se alargando. Essa televisão que se preocupa com a formação ética e intelectual de seu público, que valoriza a cidadania, que acredita em educação e cultura, que quer instruir e informar enquanto entretém, terá a seu lado, cada vez mais, os empresários conscientes, os empreendedores que querem construir riquezas não só para si mas para o país, os investidores que querem alavancar a produção e não a especulação. Essa televisão precisa – e vai – se fortalecer, para fazer o contrapeso indispensável aos excessos e descaminhos da TV comercial.

E levará consigo, no seu crescimento, os anunciantes que tiverem o descortino de apoiá-lo agora. Quem investir verá.”

‘Cenário favorável’, copyright Gazeta Mercantil, 16,17,18/4/99

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Justamente agora, nos últimos dias de 1903, Gaumont e Decaux acabam de achar uma engenhosa combinação do phonographo e do cinematographo – o chronophono –, que talvez ainda venha a revolucionar a indústria da imprensa diária e periodica. Diante do apparelho, uma pessoa pronuncia um discurso: o chronophono recebe e guarda esse discurso, e, d’ahi a pouco, não somente repete todas as suas phrases, como reproduz, sobre uma tela branca, a figura do orador, a sua physionomia, os seus gestos , a expressão da sua face, a mobilidade dos seus olhos e dos seus lábios.

Talvez o jornal do futuro seja uma applicação dessa descoberta… A actividade humana augmenta, n’uma progressão pasmosa. Já os homens de hoje são forçados a pensar e a executar, em um minuto, o que os seus avós pensavam e executavam em uma hora. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro, e de rufos de lebre no sangue. O livro está morrendo, justamente porque já pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, à leitura de cem páginas impressas sobre o mesmo assumpto. Talvez o jornal do futuro, – para attender á pressa, á anciedade, á exigencia furiosa de informações completas, instantaneas e multiplicadas, – seja um jornal fallado, e ilustrado com projecções animatographicas, dando, a um só tempo, a impressão auditiva e visual dos acontecimentos, dos desastres, das catastrophes, das festas, de todas as scenas alegres ou tristes, serias ou futeis, d’esta interminavel e complicada comedia, que vivemos a representar no immenso tablado do planeta…’

O trecho acima é um excerto de ‘Chronica’ de Olavo Bilac, publicada na edição inaugural da revista Kósmos, em janeiro de 1904. Coletada por professores do Colégio Logos, de São Paulo, está servindo à reflexão de estudantes secundaristas, num projeto de mapeamento e análise da televisão, particularmente a brasileira, nos seus diversos aspectos e contradições. O que brota do texto à parte as flores contidas na iluminura que o ilustra, é uma intuição notável para as decorrências da modernização das comunicações e uma percepção cristalina do futuro, que o anacronismo da grafia não consegue ocultar. E é, ainda antes, um atestado de esperança, de otimismo mal disfarçado no poder regenerador e criador que a mídia audiovisual pode ter sobre a difusão das informações e o estreitamento das relações sociais.

Esse mesmo sentimento pode ser encontrado, com palavras menos carregadas de consoantes e crases já acentuadas na direção oposta, nos textos que auguram uma nova revolução comportamental e o advento de uma era de mais consciência e felicidade, a partir das mutações tecnológicas que se vislumbram nesta outra transição de séculos. Se a utopia de Bilac era lastreada na eletricidade e na mecânica, a atual é calçada na linguagem digital, nas redes de informação, na TV de alta definição, na fusão das mídias sob o lume do silício. Sonha-se hoje, como há cem anos, que um novo meio técnico de comunicação possa levar a mais entendimento, mais compreensão, mais civilidade entre os homens. E o curioso é que, se os extremos do século XX igualam-se no otimismo, ao longo dele alternaram-se dramaticamente os estados de espírito. As mídias – sobretudo a televisão – foram tão satanizadas quanto endeusadas.

O pessimismo na análise das comunicações inaugurou-se na década de 30, quando a TV ainda engatinhava, mas a imprensa e o rádio já eram indústrias poderosas – e ainda assim, incapazes de evitar a ‘catástrofe humanitária’ da Segunda Guerra Mundial. Filósofos alemães, fugidos do nazismo, criticaram profundamente a noção rósea que os capitais investidos na mídia procuravam disseminar, de que a tecnologia de informação produziria um mundo prodigioso. A Escola de Frankfurt vislumbrava antes a incomunicação, a vulgarização do conhecimento, o abastardamento da arte, a depauperação dos saberes num caldo grosso de cultura populista. E, à medida em que evoluía, atravessando as décadas, a televisão foi se convertendo, em sua análise, no altar-mor onde se sacrificava a sensibilidade humana.

Veja-se, por exemplo, este fragmento de Theodor Adorno, em ‘Televisão, Consciência e Indústria Cultural’, artigo publicado em 1963: ‘Ao invés de dar ao inconsciente a honra de elevá-lo ao consciente e com isso, simultaneamente, atender ao seu ímpeto e satisfazer à sua força destruidora, a indústria cultural, tendo à frente a televisão, reduz os homens a formas de comportamento ainda mais inconscientes do que aquelas suscitadas pelas condições de uma existência que ameaça com sofrimentos aquele que descobre os seus segredos, e promete prêmios àquele que a idolatra’.

Não eram muito mais alentadoras as conclusões que o italiano Umberto Eco tirava dessa ‘máquina de produzir inconsciência’, no Brasil mais conhecida pelas definições de Sérgio Porto (‘máquina de fazer doidos’) ou de Henfil (‘máquina de chupar cérebros’). Em ‘Apontamentos Sobre a Televisão’, texto de 1966, dizia ele que ‘a televisão tem (…) a capacidade de tornar-se o instrumento eficaz para uma ação de pacificação e controle, a garantia da conservação da ordem estabelecida, através da reproposta contínua daquelas opiniões e daqueles gostos médios que a classe dominante julga mais próprias para manter o ‘status quo’. Por isso, acreditava Eco, ‘uma civilização democrática só se salvará se fizer da linguagem da imagem uma provocação à reflexão crítica, não de um convite à hipnose’.

Também por essa época, o utopismo passava longe das análises do francês Abraham Moles, outro crítico rigoroso da TV. Em entrevista à Salomão Amorim, da revista Veja, em maio de 1970, ele contrariava o chavão clássico usado pelos apologistas do veículo para defini-lo: ‘A televisão não é uma janela aberta para o mundo, mas uma pequena fresta aberta para alguns pontos deste mundo, que os jornalistas escolhem para mostrar. Quando se faz a análise psicológica dos fenômenos da televisão, constata-se que o indivíduo familiarizado com aquilo que se passa no Japão, na Sibéria, na Oceania, não importa onde, não importa quando, se torna superficial. Ele reage de maneira passiva, exatamente o contrário do que seria de esperar (…). Em lugar de se abrir para o mundo, na verdade ele se fecha sobre si mesmo, pois, já que pode ter tudo na hora em que quiser, tudo se torna para ele sem importância e sem interesse. Só o que é interessante é a diversão (…). A televisão não é uma janela para o mundo, mas apenas um periscópio que as pessoas tiram de seu submarino pessoal para mergulhar no oceano social’.

Breve teremos televisores digitais, com imagens de altíssima definição, em telas planas e gigantescas, como se fossem quadros vivos na parede. Breve eles estarão conectados aos nossos computadores domésticos, à rede telefônica, à Internet, permitindo-nos novas formas de acesso e uso da informação. Breve estaremos diante de outras maravilhas da eletrônica, ainda não inventadas e tão embasbacantes quanto o ‘chronophono’ de Gaumont e Decaux terá sido aos seus contemporâneos. Devemos sonhar que elas redimirão o mundo medíocre e imperfeito em que vivemos? Devemos descrer seus poderes transformadores? Ou devemos pagar para ver? ‘Por agora – enquanto não chega essa era de supremo progresso, contentemo-nos com o que temos, que já não é pouco…’ É a sugestão de Bilac, agora curtida em um século de sabedoria.”

“Futuro cristalino”, copyright Gazeta Mercantil, 30/4/99

 

“Estão prestes a entrar em rota de colisão o ministro Pimenta da Veiga e a Anatel, que, vale registrar, nunca se deram muito bem. O anteprojeto da Nova Lei de Comunicação de Massas, ainda inédito, preparado pelo Ministério das Telecomunicações, prevê que a agência reguladora dos setores de rádio, televisão e TV a cabo volta para o comando do ministério. Trata-se do resultado de um trabalho desenvolvido pelo ministro, que resolver recuperar o poder perdido depois que a nova Lei Geral de Telecomunicações foi promulgada. Caso essa lei seja aprovada como foi apresentada, a Anatel ficaria limitada à fiscalização do setor de telefonia. Não se sabe se a atitude do ministro tem o apoio do presidente FHC – a história mostra que é mais acertado dar a técnicos este tipo de poder –, mas, certamente, está em desacordo com os preceitos da Anatel.

Os primeiros passos nesse sentido estarão sendo dados em um seminário especial , que o MC está organizando, dias 10 e 11, para discutir o anteprojeto de Lei. Os que já puseram os olhos sobre o texto, no entanto, notaram a sutileza do ministro na sua ânsia por abocanhar o setor de comunicação de massa. A proposta vai contra as idéias defendidas pelo ex-ministro Sérgio Motta que, na sua concepção do setor, sempre se bateu por um só órgão regulador, a exemplo que ocorre no mundo inteiro. Será que a velha rixa entre os dois continua viva?”

“Direto da fonte”, copyright O Estado de S. Paulo, 29/4/99

 

“Nos EUA, as redes abertas vêm perdendo feio dos canais de notícias, na guerra da Iugoslávia. A maior derrotada é a CBS, cujo telejornal viu a audiência cair 15% desde o início do conflito. A CNN, um canal de cabo, cresceu 30%.

A CBS reagiu. Uma afiliada entrevistou Milosevic, em inglês. O líder iugoslavo atacou menos a Otan e mais a CNN. Disse que era a chance de contar a verdade à ‘audiência americana’:

– São duas guerras contra a Iugoslávia. Uma é militar, a outra é a guerra de mídia, de propaganda… Nós vemos a CNN. Todos podem assistir a CNN o tempo todo. A CNN é paga para mentir.

E concluiu:

– Eu acredito que hoje a mídia é uma arma ainda mais perigosa do que as bombas e mísseis.

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Nada mal, para o que também era, obviamente, parte da mais recente batalha na ‘guerra da mídia’.

A batalha começou terça, quando a CNN, segundo o New York Times, foi avisada pela Otan e saiu às pressas do prédio das emissoras de TV de Belgrado, a capital. A Otan atacou horas depois. Tirou do ar três emissoras privadas iugoslavas, Pink, Wind e BK, e destruiu mais de cem episódios de ‘Os Simpsons’, sem contar episódios inéditos de ‘Friends’.

A réplica iugoslava foi a entrevista de Milosevic à CBS. A tréplica da Otan foi um ataque à residência, ou melhor, ao quarto de dormir de Milosevic, que rendeu imagens e manchetes até para os telejornais brasileiros.

No fim da tarde de ontem, Milosevic respondeu uma vez mais, com o anúncio por um enviado da Rússia, noticiado com má vontade pela CNN, de que a Iugoslávia aceitou uma força da ONU em Kosovo. Da ONU, não da Otan.

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Essa interminável guerra de mídia começa a cansar a própria televisão. A revista Variety já fala em ‘fadiga de guerra’, menciona o massacre na escola de Denver e diz que CNN, CBS e demais estão todas em busca de outro assunto, qualquer um, para a vaga.

Depois de um mês, é uma chance para a paz.

“Fadiga de guerra”, copyright Folha de S.Paulo, 23/4/99

 

“Jornalista adora falar mal de programas jornalísticos de TV. Tenho evitado este assunto porque sinto que assim que começar não conseguirei parar. Talvez nem consiga manter-me dentro de padrões aceitáveis e acabe mergulhando naquela linguagem aética e rasteira de alguns programas ‘jornalísticos’ de TV. Viram? Já comecei.

Por isso tratei de sempre fazer vistas grossas quando encontrava algum noticiário. Ainda mais porque eles estão ficando recheados de receitas de bolo, música, dicas de extração de cravos e outras utilidades. Só que, no feriado da semana passada, surpreendi-me não só prestando atenção mas também – o que foi mais grave – pegando papel e caneta e anotando algumas observações sobre jornalismo na TV.

O papel com as anotações foi deixado de lado, tentei esquecê-lo, tentei perdê-lo. Cheguei mesmo a escrever uma crônica inteira sobre o novo corte de cabelo do Guga (o tenista catarinense que ganhou o aberto de Montecarlo no fim de semana, lembram?) para preencher este espaço. Mas qual. Na undécima hora acabei recuperando as anotações do local ermo onde jaziam e acabei caindo na terrível tentação de falar mal de outros jornalistas. Então lá vai.

Tudo começou quando a Sandra Annemberg encerrou o jornal Hoje, da rede Globo, no dia 21 de abril de 1999, comentando que a matéria que acabáramos de ver, sobre um CD com a voz de Oswald de Andrade e alguns de seus poemas era (sic) ‘uma dose cavalar de cultura’. Foi isso que me acordou. Diria mesmo que fui despertado por um coice.

Rapidamente revi na memória o mesmo noticiário e percebi como a companheira olhava nos ‘olhos’ dos telespectadores e, tal qual atriz de novela, indignava-se com a violência da guerra, alegrava-se com múltiplos casamentos e sorria com a inacreditável ovelha azul. Nem Boris Casoy faria melhor. Não, nem a Lilian Wite Fibe do confisco da poupança seria mais convincente. Uma verdadeira ‘dose cavalar’ de jornalismo interpretativo.

Saí rapidamente dali e parei no Canal 21, onde a apresentadora, diante de um fundo extremamente vermelho, entrevistava o autor de um livro. Na capa do livro estava o nome desse único autor. Pois a moça teve coragem de perguntar: ‘E você fez tudo isso sozinho?’ Era um livro de humor, o autor riu, todos riram, a companheira, é claro, tinha entrado no clima. E ele respondeu que sim, tinha feito tudo sozinho.

Já acordado e agora meio hipnotizado pelo vermelhão que dominava a cena ainda pude ouvir a frase de introdução da matéria sobre a conformação judicial da proibição do fumo em aviões no Brasil, antes de arremessar o controle na tela da TV e provocar uma pequena pane: ‘É proibido fumar e voar ao mesmo tempo’, disse sem o menor pudor a coleguinha.

Apesar da fumaça que saiu da TV, ela voltou a funcionar poucos minutos depois (sem controle remoto) justamente quando o repórter, direto do Salão Internacional do Livro, explicava as vantagens do tal Cheque Livro. Não sei exatamente o que ele queria dizer quando afirmou que a pessoa poderia, até mesmo, ‘comprar um livro na sua íntegra’. E não se referia a fascículos ou folhetins. Assustado, desliguei a TV.

Só voltei a ter coragem de enfrentar jornalismo na TV novamente na noite de domingo, já no finalzinho do Fantástico, quando Pedro Bial anunciou que os telespectadores tinham escolhido ‘dicas de paquera’ como assunto a ser aprofundado domingo que vem. Ora, ora, senhoras e senhores, vão cachimbar formigas!”

“O telejornalismo que merecemos”, copyright Gazeta Mercantil, 27/4/99

 

(*)

“Até há pouco tempo, escutávamos a expressão ‘crise do futebol carioca’. As fracas apresentações das equipes do Rio de Janeiro no Campeonato Brasileiro de 1998 intensificaram esta afirmação, como se os problemas do futebol no país estivessem restritos somente ao Estado. Os confrontos entre os times do Rio e de São Paulo – usados como parâmetro de comparação – não indicam superioridade de equipes. Podemos falar em crise quando verificamos uma queda de público nas partidas. Aí, sim, o Rio de Janeiro poderia estar em um momento mais delicado, com média de público em torno de cinco mil nos últimos campeonatos. A iniciativa da Rede Globo de patrocinar o campeonato deste ano sinaliza o potencial do futebol no Estado e estimula o debate sobre as relações entre esporte, negócios e televisão.

A expressão ‘crise do futebol brasileiro’ – e não carioca – é antiga e intensificou- se a partir da década de 80, quando a presença dos torcedores nos estádios começou a diminuir. A desorganização dos campeonatos, a comercialização do espetáculo, o baixo nível técnico das partidas, o êxodo de jogadores e a crise econômica do país eram citados como razões para esta queda. Estas hipóteses relacionam-se à tensão entre modernização e tradição no Brasil. Por um lado, a modernização – ‘comercialização do espetáculo’, ‘profissionalização dos atletas’ e ‘racionalização’ do esporte – destruiria a ‘paixão’ e o ‘futebol-arte’; por outro, o tradicionalismo desorganizaria as competições, enfraquecendo financeiramente os clubes. Neste sentido, gostaria de apresentar alguns pontos que merecem uma reflexão mais cuidadosa.

1. Supunha-se que a propaganda nos estádios e nas camisas dos times, assim como a transmissão de jogos pela TV, destruiria a ‘aura’ do futebol, desencantando os torcedores. No entanto, os torcedores acostumaram-se às mudanças e continuam louvando a camisa de seus clubes. A hipótese de que a televisão tira o torcedor dos estádios precisa também ser investigada. A queda de público começou antes da introdução das transmissões dos jogos ao vivo.

2. A freqüência de jogadores trocando de clubes por melhores salários e a recusa a jogar sem contrato fizeram os torcedores perceberem que eles não jogam somente por ‘amor a um time’, mas por dinheiro, pois são profissionais. Com o sucesso econômico do futebol na Europa, vários craques deixaram o país. Isto ocorreu principalmente devido ao calendário mal planejado e à desorganização dos campeonatos. À medida que se davam conta da brevidade das suas carreiras e das vantagens de se jogar na Europa, aumentava o número de atletas que deixava o país.

3. O celebrado estilo criativo e espontâneo do futebol brasileiro teria sido substituído por um outro mais ‘burocrático’, reduzindo o nível de identificação dos torcedores com sua cultura. Essa tendência pode ter crescido também por causa da ida de jogadores para o exterior. Em outras palavras, o jogo teria ficado mais ‘padronizado’ porque os mais talentosos estavam fora do país.

4. A desorganização dos campeonatos engloba o grande número de times nas competições, provocando jogos deficitários; a falta de planejamento na elaboração do calendário, interrompendo competições; e as mudanças dos regulamentos no meio das competições, ‘quebrando a magia’ do ritual esportivo, gerando desencanto e um sentimento de ausência de normas e regras.

5. A crise econômica do país deixou a maioria sem dinheiro e contribuiu para o aumento da violência. Apesar de ser um importante aspecto do ‘declínio’ do futebol, a crise econômica não é uma variável ligada diretamente ao seu mundo, pois mesmo após a estabilização da moeda o nosso futebol continuou ‘em crise’.

6. A introdução de publicidade nas camisas dos times em 1983, o início das transmissões ao vivo a partir de 1987, a contratação de gerentes profissionais e a parceria com empresas foram modificações que ocorreram na organização do futebol. A tendência a modernizar a máquina administrativa é um processo inexorável. Para ser bem-sucedida, é necessário reorganizar a atual estrutura de poder, governada pelo poder das relações interpessoais e da troca de favores e não pelas regras, regulamentos e leis impessoais.

7. A ‘crise do futebol’ não se restringe ao Rio de Janeiro. As recentes discussões em torno da Lei Zico e da Lei Pelé denunciam uma crise na estrutura do esporte. O que está subjacente nestes debates é a necessidade de ‘modernizar’ a administração para resgatar elementos ‘tradicionais’ do espetáculo: estádios cheios e ídolos em campo. O investimento das empresas no esporte pressiona a adequação dos clubes à Lei Pelé e à organização de campeonatos que estimulem o sentido ritualístico. A participação da Rede Globo no campeonato do Rio de Janeiro ‘forçou’ a elaboração de um regulamento simples e uma tabela definida. O resultado tem sido positivo com a volta dos torcedores ao Maracanã, que por sua vez reforçou o policiamento e organizou promoções. O retorno do torcedor ao estádio, mesmo com transmissão ao vivo dos jogos, é um indicativo de que a televisão pode ser uma forte aliada para revitalizar o espetáculo do futebol no Brasil.”

(*) Professor da Faculdade de Comunicação Social da Uerj.

“Futebol, negócios e televisão”, copyright O Globo, 19/4

 

The Guardian

“LONDRES – Descrença, mais do que raiva, caracterizou inicialmente a reação do magnata da mídia Rupert Murdoch e de seus executivos na BSkyB (voltada para transmissão de TV por satélite) em relação à decisão do governo inglês de bloquear os US$ 996 milhões da empresa destinados à aquisição do maior time de futebol da Inglaterra – e possivelmente do mundo –, o Manchester United Football.

O mesmo pode ser dito a respeito da reação em Londres, onde a aplicação do dinheiro havia recebido ‘razoável’ aprovação, e entre a maioria das advogados da área de esportes, que não conseguiam ver nenhuma razão plausível para a rejeição.

O governo inglês, que foi obrigado a aceitar uma recomendação veemente da Comissão de Monopólios e Fusões, causou perplexidade em todos e encurralou Murdoch no processo. E um Murdoch contrariado é um animal perigoso, até mesmo vingativo. Conforme declaração dessa fera da mídia, não deve haver nenhuma ‘guerra santa’ contra o governo inglês. Mas a vingança pode vir de diversas formas, principalmente no mundo dos negócios. Murdoch não vai ficar furioso; ele só vai ‘descontar’.

Esse revés põe em questão a extensão do controle da BSkyB sobre os esportes mais populares na Inglaterra e a forma da TV digital na virada do milênio.

A decisão pode ser também um sério golpe nas ambições de Murdoch na Europa, já que a propriedade do Manchester United lhe teria dado um lugar na mesma mesa ocupada por Silvio Berlusconi (dono do Milan) na Itália e por Pierre Lescure (diretor-geral do Canal Plus, proprietário do Paris St. Germain) na França.

E agora, Rupert? Primeiro, um pouco de perspectiva. É bastante fácil esquecer que, apesar de seu enorme poder, as coisas nem sempre ocorrem do jeito que Murdoch quer. Agentes reguladores expulsaram a BSkyB da British Digital Broadcasting, o consórcio que veio a lançar a primeira plataforma séria que pode competir com o império dos satélites Murdoch, a ONdigital. Suas tentativas de entrar na França, Itália e Alemanha foram todas sem sucesso até agora.

Mas o ‘impedimento’ marcado no caso do Manchester United, por menor que pareça quando comparado a seus outros interesses comerciais, é bastante sério, pelo menos por ser amplamente inesperado e porque sugere uma atitude decidida por parte dos agentes reguladores (que podem muito bem vir a interferir nas decisões sobre esportes e transmissões na Inglaterra no futuro).

A dependência da Sky em relação aos esportes pode diminuir com o tempo, à medida que for introduzida uma programação mais original, que sejam oferecidos melhores filmes e serviços interativos. Neste momento, entretanto, a TV por assinatura ainda se concentra basicamente sobre o futebol (e em menor escala sobre filmes). Para definir a situação de uma maneira simples, a BSkyB continua a ser uma pirâmide invertida: todos os seus multibilionários negócios continuam precariamente equilibrados sobre o controle dos dois líderes da TV por assinatura. Retirem esses dois e todo o edifício desaba.

Para complicar as coisas, uma segunda ameaça específica está aparecendo agora: o caso das altas apostas no futebol, que está sendo discutido na Corte de Práticas Restritivas da Inglaterra (corte de esportes), que pode determinar em junho ou julho que a Primeira Divisão (Liga Profissional de Futebol da Inglaterra) seja desfeita e os direitos de transmissão sejam ‘desempacotados’ para garantir uma maior competitividade. (…)

Foi essa possibilidade de reestruturação radical da Primeira Divisão e a introdução de uma grande incerteza no processo de licitação dos direitos do futebol que levaram à tentativa, por parte de Murdoch, de lançar mão de uma política precavida, por meio de sua oferta de compra do Manchester United.

Caso a Corte de Práticas Restritivas determinasse o fim da divisão do futebol inglês e insistisse que os direitos de transmissão teriam de ser imediatamente renegociados individualmente pelos times e não pelo cartel, Murdoch teria pelo menos garantido o controle dos principais times e, portanto, uma participação no pagamento dos direitos de transmissão e de pay-per-view, mesmo que a BSkyB perdesse parte ou todos os direitos de exclusividade dos jogos ao vivo da Primeira Divisão. (…)

E agora? Poderia a Sky investir em um clube de futebol europeu? Isto daria a Murdoch um lugar à mesa quando o futuro de uma Superliga Européia de Futebol for decidido. Se os legisladores permitirem, Murdoch pode até mesmo tentar assegurar a posição digital a Sky comprando mais canais no Reino Unido e outros locais. (…)

Hoje, a BSkyB tem provavelmente 470 mil assinantes digitais. (…)”

“Inglaterra restringe controle da TV sobre esporte”, copyright O Estado de S. Paulo, 17/4/99

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