Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > WATERGATE, 30 ANOS

Juan Luis Cebrián

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

WATERGATE, 30 ANOS

"O ofício de jornalista", copyright Correio Braziliense, 21/06/02

"Completou 30 anos no dia 17 de junho – e não no dia 16, como alguns jornais mais interessados na pirotecnia do mercado proclamaram – que uma patrulha da polícia local de Washington descobriu uma operação de espionagem no escritório eleitoral do Partido Democrata. Com esse episódio, a princípio de menor importância, começava o que provavelmente constitui o confronto mais claro que aconteceu entre o poder político e um meio de comunicação: Watergate. Desde que o presidente Nixon se viu forçado a pedir demissão em agosto de 1974 como conseqüência dos escândalos posteriores ao acontecimento, o nome desse hotel no distrito de Columbia ficou registrado de maneira indestrutível na história, mas também na mitologia do jornalismo mundial. Watergate é o símbolo da independência da imprensa diante do poder político e uma advertência sobre o papel dos jornais em uma democracia, que são responsáveis também por desvendar corrupções e jogos sujos. Desde então, se afirmou a posição do jornalismo como um ??poder paralelo??.

Durante três décadas, a imprensa de modo geral, e a norte-americana em particular, experimentaram uma transformação importante. Desde as mudanças tecnológicas às implantadas na estrutura dos jornais, tudo ou quase tudo parece diferente. A concorrência com os novos instrumentos de comunicação eletrônicos fez com que os jornais diminuíssem o peso de suas reflexões ao mesmo tempo em que aumentavam o número de suas páginas e potencializavam a inclusão da cor em suas fotografias, primeiro nos anúncios, mais tarde na informação. Algumas publicações míticas, como o Times, de Londres, mudaram sua séria aparência de qualidade pela vestidura alegre do sensacionalismo, enquanto a imprensa vespertina se afligia em muitos países, vítima das horas dedicadas por seus eventuais leitores à televisão. Mais tarde apareceram os suportes digitais, com a conseguinte fragmentação da audiência, e a Internet, com sua vocação de universalidade individualizada.

Tudo isso levou a uma acelerada e crescente concentração das empresas jornalísticas, que ultrapassou em seguida a propriedade dos meios de comunicação para misturar-se, de forma desordenada, com a dos sistemas de lazer e entretenimento. O tamanho começou a ser uma condição de sobrevivência, e a tradição de propriedade familiar no setor se perdeu com a inclusão dos mais importantes jornais do mundo na lista das empresas cotadas. O Washington Post acabava de sair ao mercado de capitais precisamente na mesma data em que sua acionista de referência, Katherine Graham, que tinha herdado o diário do marido, teve que enfrentar numerosas pressões tendentes a frear os repórteres do jornal responsáveis por investigar práticas de delitos na Casa Branca. Os advogados e gerentes do Post não deixaram de avisar sobre os perigos que trazia um confronto aberto com o poder, que acabaria ocasionando prejuízo aos acionistas, afetando o mercado publicitário e arriscando a renovação das licenças de televisão que a empresa mantinha.

A senhora Graham, que vinha enfrentando há mais de um ano as decisões referentes aos famosos papéis do Pentágono, não duvidou, mesmo assim, em apoiar as teses do diretor Ben Bradlee e sua equipe de redatores de continuar com a investigação e publicação dos fatos. O argumento que sustentava sua decisão era bem simples: um jornal é uma empresa mercantil, e como tal tem um dever para com seus clientes, mas também é um órgão de opinião pública, e sua obrigação é servir, antes de mais nada, aos cidadãos. Essa a filosofia que então triunfou, da qual se orgulharam milhares de jornalistas de todo o mundo durante estes trinta anos e sobre cujo transcorrer nos obriga a perguntar hoje, diante das modas em voga, as novas realidades e as diferentes ameaças que sobre a liberdade de expressão se impõem – não poucas delas em nome da guerra sem quartel contra o terrorismo.

Bill Kovach e Tom Rosenstiel são dois jornalistas e experts em comunicação que se dedicaram durante os últimos cinco anos a estudar essas questões. Conversaram com centenas de colegas, leitores, empresários, anunciantes e cidadãos comuns, recolhendo opiniões, impulsionando debates e tratando de descobrir, em meio à polêmica, quais seriam os elementos do jornalismo, a matéria-prima fundamental que, como o fogo, a água e a terra para os mais antigos, resumem os fundamentos da existência da nossa profissão. Sua experiência, recolhida em um livro publicado há alguns meses, realça que o jornalismo de hoje, incluídas as transformações que a Internet oferece, continua tendo princípios básicos que o identificam como profissão. Afastar-se deles é desertar da própria condição de jornalista.

Essas normas estão recolhidas em um decálogo de nove itens que não resisto em reproduzir aqui: ??1. A primeira obrigação do jornalismo é a verdade. 2. Sua primeira lealdade é com os cidadãos. 3. Sua essência é a disciplina da verificação. 4. Seus profissionais devem ser independentes dos acontecimentos e das pessoas sobre as que informam. 5. Deve servir como um vigilante independente do poder. 6. Deve outorgar um lugar de respeito às críticas públicas e ao compromisso. 7. Tem que se esforçar para transformar o importante em algo interessante e oportuno. 8. Deve acompanhar as notícias tanto de forma exaustiva como proporcionada. 9. Seus profissionais devem ter direito a exercer o que lhes diz a consciência??. Seria difícil citar mais frases sobre os direitos e deveres do jornalismo profissional nos nossos dias. Claro que esses nove mandamentos se resumem facilmente em dois, pois desde as tábuas de Moisés não existe decálogo com o qual não se possa fazer algo do estilo; o jornalismo deve ser verídico e independente.

Nessa frase tão simples se resume toda a essência do nosso ofício. Ser verídico significa que efetivamente os jornalistas têm que contar os fatos tal como aconteceram, não devem manipular os dados, nem ressaltá-los de acordo com seu desejo; têm que ser rigorosos na verificação, exaustivos nas provas, exigentes nos matizes. E têm, principalmente, que saber reconhecer seus erros e enganos, e estar dispostos a padecer por eles. Serem independentes equivale a que tenham consciência do papel social que seu trabalho implica; a não manipular a verdade que conhecem devido a pressões ou conveniências do poder; a não misturar suas opiniões ou interesses pessoais com os dos leitores; a não mudar sua condição primária de testemunhas pela de juízes; a ser críticos, debatedores, polêmicos e brilhantes sem que a paixão pelas palavras lhes distancie da primeira paixão pela verdade, devendo usá-las para as iluminar melhor e com mais luz.

O aniversário de Watergate é uma festa para todo democrata, e uma boa oportunidade para refletir sobre os pontos aqui mencionados. Tanto ou mais que os partidos políticos e a representação parlamentar, a liberdade de expressão é condição básica para o estabelecimento de democracias prósperas e sólidas. Essas são questões óbvias muitas vezes esquecidas pelo poder, que tende à auto-satisfação e ao onanismo, se resguardando nos votos recebidos antes que honrando o livre arbítrio daqueles que os proferiram.

Eu estive com Nixon anos depois do escândalo, quando ele publicou um livro de sua autoria na Espanha. Pareceu-me um homem amargurado, rancoroso e rústico, incapaz de entender que a glória do êxito da sua política exterior poderia ter se manchado pelas sujas manobras que usou para ganhar e desacreditar seus adversários políticos. Jantei com Ben Bradlee e uns amigos semana passada em Paris. Com seus 80 anos, estava radiante de juventude e felicidade e brincava como um garoto quando nos falava sobre a verdadeira identidade do garganta profunda, a fonte primordial das revelações do caso. Algum outro entre os presentes comentou o destino pessoal dos dois heróis da história, os jornalistas Bernstein e Woodward. O primeiro chegou a ser o pop da profissão, dá conferências e escreve livros, alguns tão apaixonantes como Su Santidad, a biografia do papa Wojtyla, texto no qual submergi por recomendação de Gabriel García Márquez e que recomendo a todo aquele que se interesse pelas misérias do poder temporal da Igreja. Woodward continua trabalhando como repórter, aparentemente com o mesmo entusiasmo e decisão de jovem, o que lhe converte em um dos mais temidos e apreciados jornalistas da cidade.

Durante muito tempo, sendo muito importante a contribuição do Caso Watergate à história da imprensa e da liberdade em geral, pensava na sua mitificação, que havia gerado muitas desgraças. Entre as maiores está a obsessão de alguns colegas meus por derrubar e eleger presidentes a seu gosto, missão do jornalismo que não encontrei escrita no código moral incluído acima. A decidida vocação de grande parte da imprensa espanhola em intervir ativamente nas brigas e conspirações do poder, colocando em jogo, de forma descarada, interesses da empresa ou dos jornalistas que tomam as decisões, é o que permite que se mantenha seu caráter provinciano e atípico, marginal, no panorama geral dos meios de opinião pública europeus. Outra marca não menos importante é a perversão não justificada que acabou por se desenvolver no jornalismo de investigação e de que as cadeias de televisão nos mostram diariamente exemplos lamentáveis.

O jornalismo de investigação não pode transformar os jornalistas nem em espiões, nem em acusadores. Muito menos em ladrões. A invasão indiscriminada e abusiva da vida privada que muitas vezes se comete jurando falso em nome da livre expressão, o recurso à utilização de métodos que em uma democracia sadia devem estar reservados à prevenção e decisão judicial, como são as gravações clandestinas, a provocação de cometer irregularidades e corrupções para assim demonstrar sua existência, a utilização do engano e da mentira como métodos de trabalho, são coisas que permitem supor que alguns jornalistas, desses que se tornam até agressivos, estão convencidos de que o fim justifica os meios. Essa é a raiz e a essência do pensamento totalitário, de que, se queremos que o jornalismo do futuro siga cumprindo o seu papel social, devemos fugir como se fosse a peste de semelhantes aberrações profissionais.

A história de Watergate, a de seus protagonistas, deve nos ajudar nisso também: apreciar a difícil humildade com que é preciso exercer nossa tarefa, aprender a nos separar dos ocupantes dos palácios e descer dos balcões e tribunas de onde nos acena o poder. No final das contas, o êxito do Washington Post, sua contribuição a uma mudança de rumo na história política da humanidade, se deve em grande parte à perspicácia e à persistência profissional de um repórter dedicado à informação local com bons contatos na delegacia de plantão. Seguir observando isso é a primeira obrigação de todo aquele que desempenhe o ofício de jornalista. Tudo mais – a grande filosofia deste tema, o das importâncias e reverências, a vaidade do triunfo e a pretensão do pensamento – vem depois, a reboque de uma sucinta nota policial. (Juan Luis Cebrián é conselheiro delegado do jornal espanhol El País e foi seu primeiro diretor.)

 

"Quem contou tudo?", copyright Veja, 26/6/02

"No dia 17 de junho de 1972, cinco homens usando terno e gravata, óculos escuros, luvas cirúrgicas e com os bolsos forrados de dólares arrombaram o Comitê Nacional do Partido Democrata, localizado no Edifício Watergate, em Washington. Chamada por vigias, a polícia os prendeu às 2h30 da madrugada, quando tiravam fotos de papéis e checavam aparelhos de escuta instalados anteriormente. Os grandes jornais americanos publicaram reportagens logo em seguida ao arrombamento, mas o caso foi, aos poucos, perdendo espaço no noticiário por falta de fatos novos. A exceção foi o diário The Washington Post. Com base em informações fornecidas por uma fonte anônima, dois jovens repórteres do jornal, Bob Woodward e Carl Bernstein, descobriram que o presidente republicano Richard Nixon estava envolvido até o pescoço na espionagem do comitê do partido rival, o Democrata. Quanto mais tentava obstruir as investigações, mais Nixon se afundava no escândalo Watergate, até a humilhante renúncia, em 1974, para escapar do impeachment.

Nixon, que morreu em 1994, elegeu-se pela primeira vez em 1968. Foi na campanha pela reeleição que ele decidiu espionar e desestabilizar a campanha da oposição democrata. Um esforço que agora se sabe desnecessário, pois foi reeleito de forma espetacular, com 47 milhões de votos contra 29 milhões do adversário. Trinta anos depois, o grande mistério que persiste é a identidade da fonte anônima do periódico The Washington Post, conhecida como Garganta Profunda. É assombroso que se tenha conseguido manter nas sombras o nome do homem cujas revelações levaram à maior crise da história presidencial dos Estados Unidos. Só três pessoas poderiam identificá-lo. São os dois repórteres e o editor do Post Ben Bradlee, hoje aposentado. Na semana passada, Woodward reiterou que só dirá quem é o Garganta Profunda quando ele morrer ou permitir a divulgação. Periodicamente, surgem novas especulações sobre a identidade do informante.

Na semana passada, o anúncio de que o advogado John Dean, que foi assessor de Nixon na Casa Branca, iria revelar a identidade da fonte causou grande expectativa. Não foi desta vez, contudo, que se esclareceu completamente o mistério. Num livro publicado apenas em formato eletrônico, chamado Desmascarando Garganta Profunda, Dean diz ter reduzido o número de suspeitos a quatro nomes. Dois deles, Ray Price e Pat Buchanan, eram redatores de discursos do presidente Nixon. Buchanan, que fez carreira como comentarista político, é o mais conhecido e até foi candidato à Presidência com um programa ultraconservador, nos anos 90. Os outros são Steve Bull, assistente de Nixon, e Ron Ziegler, seu assessor de imprensa. John Dean foi um personagem importante no escândalo Watergate. Ele depôs contra Nixon – que o chamou de traidor – e passou 127 dias na prisão por ter ajudado a acobertar a conspiração. Entende-se, por isso, a busca obstinada do advogado pela identidade do Garganta Profunda. Esse personagem misterioso não apenas mudou a história dos Estados Unidos como também a própria vida de Dean. E, apesar de tudo, o mistério continua."

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