Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > REPÚBLICA TCHECA

Juarez Fonseca

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

MONITOR DA IMPRENSA

REPÚBLICA TCHECA

"Revolução agora é na TV", copyright ABC, 21/01/01

"Você sabe o que significa funcionários de uma TV pública (como a nossa TVE) recusarem-se a aceitar a nomeação política de um novo diretor geral, entrincheirarem-se no Departamento de Jornalismo e, a partir dele, mobilizarem um país inteiro para sua causa? Foi o que aconteceu há poucos dias na República Tcheca. Durante minhas férias nessa encantadora e surpreendente nação do leste europeu, entre 21 de dezembro e 13 de janeiro, tive a sorte de acompanhar de perto o processo, destacado por toda a imprensa da Europa e alguns jornais dos Estados Unidos.

Como a imprensa brasileira ignorou o episódio – que o New York Times classificou de Revolução de Veludo 2 -, vou registrá-lo aqui. Para os menos informados cabe antes lembrar que o nome Revolução de Veludo foi como passou à História o movimento de resistência e ativismo pacífico que, em 1989, levou à queda o regime comunista tcheco e, em seguida, elegeu para a presidência do país o escritor Václav Havel. Vale lembrar também que na República Tcheca vigora o sistema parlamentarista, o que quer dizer que Havel é chefe de Estado, e não de Governo.

Por que a Revolução de Veludo foi usada como referência? Porque, como em 1989, a desobediência civil, a não-violência e as grandes mobilizações foram as principais características daquilo que os jornais tchecos batizaram de Crise CT – a Ceská Televize, altamente qualificada e de alcance nacional, tem dois canais, conhecidos como CT1 e CT2. São 6 mil funcionários no país, 3 mil deles atuando na capital, Praga. A greve dos funcionários pela preservação da TV pública e contra sua manipulação política levou às ruas da cidade 150 mil pessoas no dia 3 de janeiro e 100 mil no dia 11.

Esse povo todo, reunido na histórica e gelada Václavske Námesti (a Praça Venceslau, palco das manifestações de 1989 e, antes, de 1968, contra a invasão da então Tchecoslováquia pelas tropas soviéticas) e gritando slogans como liberdade, liberdade, é pressão para ninguém botar defeito. Uma pesquisa de opinião mostrou que 89% dos tchecos apoiavam os rebeldes da CT. O principal alvo dos funcionários e dos manifestantes era Václav Klaus (já se vê que Václav é um dos nomes mais comuns por lá), líder da ODS, o Partido Democrático Cidadão, espécie de PFL deles.

Tudo começou quando Klaus, político neoliberal de perfil muito semelhante ao do baiano Antonio Carlos Magalhães, usou sua enorme influência no governo para nomear o jornalista Jiri Hodac, ex-correspondente da BBC inglesa, como diretor geral da CT. Para entronizar Hodac, Klaus manipulou também o Conselho de Televisão, tradicionalmente integrado por personalidades e representantes de várias entidades (artistas, jornalistas, professores etc) que, em sua última renovação, passou a contar com pessoas indicadas pelos partidos políticos, com predominância da coalização governista.

No dia 20 de dezembro, o diretor da CT foi demitido. No dia 22, diante da nomeação de Hodac, sabidamente íntimo dos esquemas de Klaus, a equipe do Departamento de Jornalismo revoltou-se e liderou uma assembléia que reuniu 2 mil pessoas. Na assembléia, decidiu-se pela colocação no ar, durante o principal jornal da noite, de uma nota de protesto contra o novo diretor, com a justificativa de que sua indicação era política e escondia um dos objetivos dos aliados de Klaus: a privatização da Ceská Televize. Na nota, os funcionários declaravam-se também em estado-de-greve.

Na mesma noite de 22, os jornalistas resolvem permanecer na redação e no estúdio dia e noite, para impedir que Hodac assumisse de fato a TV com sua equipe. O jornal do dia 23 inaugura uma nova forma de protesto: atrás do casal de apresentadores, diante das câmeras, aparecem, em pé, algumas das mais conhecidas personalidades da vida tcheca – diretores de cinema, escritores, músicos, atores etc. Isso se repetiria nos dias seguintes, com outras personalidades. E na parte de fora do prédio, centenas de pessoas aglomeravam-se diariamente em apoio, sob um frio de 5 graus negativos.

No dia 24, a hostilização a Hodac é acrescida de um nome de mulher: Jana Bobosikova, jornalista casada com um grande empresário e também ligada ao famigerado Klaus (foi responsável pela criação da página dele na internet) é nomeada por Hodac como diretora de jornalismo. Uma antiga foto de Bobosikova e Klaus, juntos, é mostrada nos noticiários, que continuam revelando aos telespectadores detalhes das injunções, além de manifestos de apoio vindos de vários países, como o da Federação Internacional dos Jornalistas, que define a revolta como um momento de verdade”.

Bobosikova assume dizendo que os noticiários são ilegais e, enquanto o resto da programação segue normal, coloca no ar, sobre os noticiários rebeldes, noticiários paralelos. Explica-se: Hodac controlava os equipamentos de transmissão normal, via terrestre; já os noticiários rebeldes somente chegavam às casas que dispunham de recepção a cabo ou por satélite. No dia 25, Hodac tira do ar os dois canais. Uma ilegalidade, pois o povo tcheco paga para ter a sua TV (a taxa vem na conta de luz). Os protestos vêm também dos anunciantes, que alegam não ter nada a ver com a crise.

Os noticiários comandados por Bobosikova são gravados nos estúdios da TV Nova, privada e líder de audiência – 50%, contra 30% da CT1, o segundo lugar. A TV Nova tem, obviamente, interesse na privatização da CT. No dia 26, Hodac consegue que a polícia se interesse pelo caso (é, a polícia tcheca é assim). E conta também com a ajuda de segurança privada. Agora, ninguém entra no prédio sem passar pelo controle. As personalidades não podem mais chegar ao estúdio onde os jornalistas estão acampados. Políticos simpatizantes e imprensa internacional, idem.

No dia 27, com a CT de volta ao ar e as demissões de 20 jornalistas anunciadas por Hodac, os funcionários se declaram em greve real. Cartazes de stávka (greve) cobrem as fachadas dos modernos prédios da emissora, que ocupam um quarteirão. Cada vez mais hostilizados verbalmente, Hodac e Bobosikova são dirigentes que não mandam em ninguém. Nós não os reconhecemos como nossos chefes, diziam, desde o primeiro dia, os funcionários. A TV paralela ganha o nome de Bobovisão (a palavra bobo tem quase o mesmo significado que em português).

Os policiais não reprimem, mostram até certa simpatia pelos rebeldes. Apenas cumprem ordens: ninguém sai, ninguém entra. As ordens são para controlar a porta da frente. Então, os policiais fazem vistas grossas para o que acontece nas janelas. E só entrarão em ação se houver violência. Mas apesar das provocações dos seguranças de Hodac, tudo o que os grevistas não podem fazer é revidar, justificando assim a intervenção policial. Sempre que Hodac e Bobosikova aparecem, ouvem que seu modo de atuar (e o de Klaus), lembra o antigo regime comunista, dos fatos consumados.

Os jornais tchecos abrem manchetes diárias para a crise e seu impasse. Para Klaus, não há negociação: os grevistas devem abandonar o prédio e obedecer a lei. Os grevistas pensam diferente: precisam resistir. Os tchecos sempre resistem e resistem, fazem corpo mole, costumam vencer pelo cansaço do adversário. Mas a todas essas, o que pensa o presidente Havel que, objetivamente, não pode tomar partido? Mostra simpatia pela causa. Diz que a lei existe sim, mas que embora esteja dentro dela, a nomeação de Hodac vai contra o espírito da lei e que isso é muito perigoso.

Klaus contra-ataca. Diz que Havel é padrinho dos revoltosos. E estes, que paradoxalmente trabalham mais do que nunca em plena greve? Bem, o centro da questão, como já ficou claro, é o Departamento de Jornalismo. Umas 30 pessoas que, desde o início do movimento, não saem da meia-dúzia de salas, bloqueados pelos policiais nas portas das duas extremidades. Fizeram subir por cordas, pelas janelas, quatro WCs químicos colocados em duas salas. A sala de reuniões foi transformada em refeitório (e a comida, ofertada por simpatizantes anônimos, também sobe por cordas).

Mas vamos encurtar a história. Na redação, em que o cheiro azedo do suor é potencializado pela calefação e pela falta de banhos normais (a única água disponível está em garrafas), os jornalistas seguem trabalhando normalmente ao correr dos dias. Põem no ar os noticiários (a equipe de repórteres e cinegrafistas que ficou no lado de fora manda as fitas pela corda) e articulam os contatos pelo telefone, que não foi cortado. No dia 8 de janeiro, vem a notícia de que Hodac sofrera um problema de saúde. Estresse, infarto ou álibi para renunciar? Em casa, sob assistência médica, ele não dá declarações.

No dia 10, véspera da segunda manifestação na Praça Venceslau, os jornais noturnos, produzidos pelos rebeldes, voltam a ser apresentados para todo o país. Um sinal de capitulação. Os noticiários da Bobovisão já haviam saído do ar, pois os jornalistas da TV Nova, onde eram gravados, pressionaram a direção da empresa, e o estúdio privado, onde passaram a ser realizados, também se recusou a continuar a operação, temendo represálias. Outro sinal. O movimento grevista parece caminhar para a vitória.

Nesse dia 10, Fabiano Golgo, jornalista gaúcho que vive em Praga há quatro anos e vem acompanhando pelo lado de dentro (e ativamente) todo o processo de independência da CT, me convidou para visitar a redação, já livre das barreiras policiais. Vi jornalistas trabalhando febrilmente, em meio a sanitários químicos emoldurados por resmas de papel higiênico, toalhas de banho penduradas em divisórias de salas, colchões infláveis espalhados pelos cantos dos estúdios, roupas em cabides improvisados, garrafas de água mineral dividindo espaço com ilhas de edição.

E pessoas felizes por estarem defendendo uma causa. Três semanas sem sair do mesmo lugar, fedentinas e felizes. Produzindo, em nome da liberdade e contra os esquemas políticos mafiosos, uma crise governamental como poucas. Mandando informes para o New York Times, Fabiano deixou de lado a sempre discutível imparcialidade jornalística para se tornar uma daquelas pessoas. Na manhã do dia 11, ele ligou para contar que Hodac havia pedido demissão. Mas que a manifestação da tarde (ou noite, porque nessa época do ano cinco da tarde é noite alta em Praga) estava confirmada.

Uma história que deixa ensinamentos e perguntas

Depois de participar da segunda manifestação, saí da simultaneamente medieval e cosmopolita Praga, que pra mim é a cidade mais bonita do mundo. O parlamento estava discutindo uma emenda à lei da televisão pública, para mudar a forma de eleição dos membros do Conselho da CT. Na última sexta-feira, pedi a Fabiano que me atualizasse a história. Seu relato, minucioso, por e-mail:

‘Hodac renunciou naquela tarde da manifestação. Só que se achou no direito de passar seus poderes a sua advogada, sra. Vera Valterova. Os rebeldes seguiram não aceitando ordens de quem quer que seja ligado ao time de Hodac. O caso mais sério é de um certo Jindrich Beznoska, nomeado por Hodac para ser o diretor geral de finanças. Acontece que Beznoska é um dos principais envolvidos na falência do banco IPB. Ele, entre outros amigos de Klaus, pediu empréstimos no valor de vários milhões de dólares e nunca pagou. Pois exatamente esse cara foi nomeado para cuidar da grana da CT!

Na última quarta-feira, o ex-diretor geral de finanças, Ladislav Paluska, invadiu a sala de Beznoska, depois de ter ficado sabendo que ele havia sumido com 13 documentos importantes (o parlamento ordenou, a pedido de Klaus, uma auditoria na CT. Beznoska, aparentemente, tem a missão de criar alguma coisa errada com as finanças da CT). Além disso, cancelaram a entrada de Valterova na CT, baseados no simples fato de que ela não tem nenhum papel provando que é substituta de Hodac.

Então, resumindo: a turma do Hodac não entra na CT e vive em um vácuo judicial. Nenhum juiz sabe dizer se a mera nomeação vale, uma vez que a posição de Hodac era legal e lhe imcumbia a decisão sobre seus cargos de confiança. O Senado retornou à lei criada às pressas pelo parlamento para resolver a situação. Voltou, porque a turma do Klaus conseguiu fazer um remendo de última hora (às 3 da manhã de sexta para sábado), com o qual o congresso acaba com mais poder ainda sobre os destinos da TV. Havel prometeu vetar. Ou seja, a coisa não vai ser resolvida em menos de três meses.

No meio tempo, a CT fica sem diretor geral oficial, sendo administrada pelos antigos funcionários, mas com um desfalque enorme, uma vez que não pode fazer novos contratos nem tomar decisões importantes. Fora isso, os 20 jornalistas mais conhecidos do país estão sem salário (os que foram demitidos por Hodac, embora continuem trabalhando). A intenção de Klaus, já que perdeu a parada, agora é destruir as finanças da CT, assim tirando-a do caminho e preparando-a para a privatização.

O que Fabiano não disse acima, digo eu: isso não vai ser fácil. Mais manifestações deverão ocorrer, até que a crise política acabe levando Havel a convocar novas eleições para a formação de um novo governo. Do episódio, que há um mês eletriza a República Tcheca (às vésperas de ingressar na União Européia), ficam vários ensinamentos e perguntas para quem, no Brasil, preocupa-se com a manipulação política, a qualidade e o destino de nossas TVs públicas. A TVE gaúcha, por exemplo, como vem comentando Luís Augusto Fischer, precisa ser muito discutida."

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