Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > FHC 3

Juliane Zaché

Por Istoe em 07/02/2001 na edição 107

MÁRIO COVAS

"Escolhido como porta-voz do tratamento de Mário Covas, David Uip cria polêmica ao se expor na mídia", copyright IstoÉ, ed. 1635

"Desde o ano passado, quando a saúde do governador de São Paulo, Mário Covas, se agravou, uma outra figura tem aparecido tanto quanto o drama do político. Trata-se de seu médico particular, o infectologista David Uip, 48 anos. Quase todos os dias, ele está nos jornais e tevês informando sobre a evolução da doença de seu paciente. Na verdade, os holofotes já disparam sobre a figura do especialista há cerca de dez anos. Na época, ele apareceu na imprensa defendendo uma tese segundo a qual os homens têm mais chances de contaminar as parceiras com o vírus da aids do que o contrário. A afirmação caiu como uma bomba. Uip foi acusado de irresponsável e preconceituoso. Hoje, quando é questionado sobre o assunto, continua defendendo sua posição. ?Um dos motivos disso é que, no momento da ejaculação, elimina-se uma quantidade de HIV maior em relação à que poderia ser encontrada na vagina de uma mulher infectada?, explica o médico. ?Atualmente, em mais de 232 municípios brasileiros o número da doença é maior no sexo feminino?, garante.

O envolvimento na luta contra a Aids no Brasil é uma das principais razões que levaram o médico a ganhar fama. Seu primeiro contato com a doença foi em 1981. Depois, cada vez mais, ele foi se especializando no assunto. Desde 1994, dirige a Casa da Aids, uma instituição ligada ao Hospital das Clínicas de São Paulo que atende cerca de quatro mil pacientes carentes por mês. Formado em medicina pela Faculdade do ABC, na região da Grande São Paulo, em 1975, fez mestrado na Universidade de São Paulo (USP) em leptospirose e doutorado na mesma instituição em infecção em transplante cardíaco. Hoje, acumula os títulos de professor de infectologia da USP e presidente da subcomissão de infecção hospitalar do Instituto do Coração (Incor). ?Ele é um dos melhores médicos do Brasil e por esse motivo o governador está recebendo um excelente tratamento?, diz Antônio Buzaid, oncologista do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

A fama lhe rendeu bons frutos. Fazem parte da sua clientela, por exemplo, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, e o cantor Fábio Jr, que desembolsam cerca de R$ 330 por uma consulta. Mas o sucesso tem seu preço. E Uip sabe disso. O médico anda irritado com as críticas de que estaria querendo se projetar com a doença de Mário Covas. Os dois se conheceram em 1987, quando Covas foi internado no Incor para se submeter a uma cirurgia cardíaca. Iniciou-se mais do que uma relação de médico e paciente. Eles começaram uma grande amizade, estendendo o convívio formal do consultório para a vida social. Vão ao teatro e costumam sair para jantar. Talvez a afinidade que os uniu seja reflexo de uma característica comum aos dois: a transparência. Um exemplo é que Covas não escondeu sua doença. Uip também não costuma esconder o que pensa.

Esses atributos fizeram com que o médico fosse escolhido pela família do governador para ser o porta-voz sobre o estado de saúde de Covas. Mas, para alguns especialistas, as justificativas não convencem. ?Ele está usando essa situação para aparecer. No nosso meio, costumamos defini-lo como um pavão?, conta um renomado infectologista de São Paulo. ?Ele não precisa colocar a cara na imprensa a toda hora. Basta divulgar boletins médicos assinados por ele e pelo diretor do Incor, conforme a norma do Conselho Regional de Medicina?, diz um respeitado cardiologista de São Paulo.

Imprensa – De acordo com Uip, esta era sua intenção inicial, mas divulgar apenas boletins tornou-se impraticável. ?Os jornalistas querem entender melhor o que está acontecendo e o comunicado não permite, por isso fui autorizado pela família do governador, pelo diretor do Incor (José Ramires) e pela equipe médica a falar?, defende-se. ?Quando disseram que queria aparecer, parei de falar e a imprensa foi atrás de outros médicos. Eles deram palpites sobre a saúde de um paciente que não conhecem e foi um caos.?

Por outro lado, o cardiologista Whady Hueb, médico do governador há 14 anos, admira a conduta de Uip. ?Ele é fundamental porque consegue lidar com a imprensa, o que para nós médicos é complicado, pois não temos esse costume?, comenta. Para o médico Marco Segre, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, Uip está certo ao atender o desejo do seu paciente. ?Ele está apenas respeitando o que o cliente dele deseja?, observa. ?David Uip está cumprindo um papel importante ao fornecer com seriedade e competência informações sobre a saúde de um homem público para a sociedade.?

Ambição assumida

Casado com a socióloga Maria Teresa Tolomeo Uip, 42 anos, e pai de três filhos com idade entre 20 e 9 anos, Uip tem ascendência italiana e libanesa. Talvez essa mistura explique o temperamento de dizer o que pensa sem medo de ser polêmico.

David Uip – As pessoas não conseguem ver o que está por trás do fato de ser porta-voz da saúde do governador. Na quarta-feira 10, por exemplo, quando ele falou frases desconexas num evento, aconteceu um caso com meu filho Rafael, de 9 anos, que reflete bem minha vida atualmente. Ele estava sentado com o pé apoiado numa porta de vidro e a cadeira escorregou. Ele rompeu o tendão do pé e teve de fazer uma cirurgia. Meu filho disse que não ia chorar, mas queria que naquele momento eu não o abandonasse. Durante a operação, jornalistas me ligaram no celular perguntando sobre o estado de saúde do governador, que tinha se sentido mal pela manhã. Foi uma loucura.

Uip – Não é isso. Fico feliz de estar realizando o desejo dele. Isso não me traz benefícios como dizem por aí. Ao contrário. Vários pacientes estão inseguros e reclamam, pois estou passando muito tempo com o governador. Estou exercendo um dever público.

Uip – Não quero aparecer. Estou exposto. Preciso falar sobre o caso de um paciente em estado grave que ninguém sabe com certeza como vai evoluir.

Uip – É mentira. Quando Serra visitou o governador, não comentei com ele sobre o estado de saúde do meu paciente.

Uip – Não descarto nenhuma possibilidade. Mas nunca me sondaram sobre isso.

Uip – Sim. Só que não passo por cima de ninguém para atingir meus objetivos. Também estou envaidecido de ocupar a minha posição. Trabalhei muito para conseguir isso."

FHC 3

"FHC em alta", copyright Folha de S. Paulo, 31/01/01

"?Na coluna ?FHC em alta? (pág. A2, 29/ 1), Fernando Rodrigues afirma que ?basta a economia dar um sinalzinho de melhora e o responsável principal pela administração do país é logo absolvido de tudo?. Não creio que seja bem assim. O que se verifica neste primeiro mês do novo milênio é um bombardeio diário, em todos os telejornais, mostrando que a taxa de desemprego vem caindo, que o país está crescendo como nunca etc., numa máquina de propaganda que daria inveja a Goebbels. A continuar assim, teremos FHC reeleito pela terceira vez.? Ricardo Luiz Rocha Cubas, Taguatinga, DF"

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