Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > OS SERTÕES, 100 ANOS

Jurandir Freire Costa

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

OS SERTÕES, 100 ANOS

"Psicanálise do Messias", copyright Folha de S. Paulo, 1/12/02

"A cem anos da data de publicação, ?Os Sertões? ganha uma atualidade surpreendente. O interesse pelos chamados ?fanatismos religiosos? voltou à tona, após os atentados terroristas de 11 de setembro. Desde então, muito se discutiu sobre as origens do sectarismo e sobre os traços psicológicos de seus seguidores e mentores.

O relato da Guerra de Canudos e do papel que teve nela Antônio Conselheiro lança uma luz particular sobre o fenômeno. A matéria-prima da narrativa é a mesma dos clássicos estudos do gênero, mas a interpretação sugerida foge do habitual. Os líderes, as massas e a crença ?fanática? estão lá, assim como estão, por exemplo, em Freud ou em Elias Canetti. As conclusões a que chega Euclides da Cunha, todavia, são originais e merecem uma atenção renovada.

Cada ser humano, diz ele, é uma súmula de seu tempo, e cada tempo é a extroversão sociocultural dos caracteres psicofísicos de indivíduos pertencentes às diversas ?raças?. Antônio Conselheiro foi o ponto de contato de uma vida com uma época. Suas idiossincrasias se associaram à desorganização social que se seguiu ao advento da República, permitindo o surgimento de Canudos, resposta religiosa ao desmoronamento da ordem monárquica.

?Só se pode avaliar a atitude [do Conselheiro]?, diz o autor, ?considerando a psicologia da sociedade que o criou?. O ?infeliz, destinado à solicitude dos médicos, veio, impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma civilização, indo para a história como poderia ter ido para o hospício?.

A face da criatura revela o método do criador. Antônio Conselheiro, em ?Os Sertões?, é um personagem híbrido, com um pé no ?hospício? e outro na ?história?.

Nisso reside o vício e a virtude da alquimia euclidiana. O Conselheiro ?de hospício? é uma alma entrevada, rabiscada de forma a realçar as marcas da ?degenerescência?, da ?regressão? e do ?atraso? civilizatórios produzidos pela malfadada miscigenação ?racial? brasileira.

O livro, sob esse aspecto, obviamente caducou. Euclides da Cunha, como tantos outros, sucumbiu à sedução teórica do evolucionismo social e psicológico do século 19 e começo do 20. Outra coisa é o Conselheiro ?da história?. Diferente do primeiro, este último não era uma coleção inerte de estigmas raciais ?degenerados?. Era uma vida singular, tecida na história de maneira irrepetível. Euclides da Cunha, aqui, se livra do entulho evolucionista e dá asas ao engenho e à arte.

Em primeiro lugar, ele passa da história pessoal do líder para a do povo brasileiro sem pedir licença aos guardiões da pureza epistemológica. A desenvoltura é salutar. O mais íntimo e o mais público, o biográfico e o sociológico, são descritos como pausas provisórias, instantes condensados do contínuo e móvel bloco de estímulos que afetam a sensibilidade do sujeito.

A fina lâmina da existência ignora as fronteiras acadêmicas. Ora pende para o externo, o coletivo, o social, ora para o interno, o psíquico, o pessoal, segundo as oscila&ccedilccedil;ões, pressões ou solicitações do entorno. Líderes religiosos ou loucos de ?hospício? não têm ?intrinsicalidade? transistórica. Ambos são produto do olhar, da força ou da violência dos que podem fixá-los em uma ou outra posição do espectro sociocultural. Para uns, o Conselheiro era um louco, para outros, um santo e um sábio. Tudo dependia da visão de mundo dos praticantes da razão ou da religião.

Profusão da vida Em segundo lugar, a perspectiva histórica euclidiana expõe a tensão entre a economia intelectual do especialista e a prolixidade do mundo. Para explicar e predizer, queremos o simples, o linear, o estável. A vida, entretanto, é barroca ou rococó. Ela não poupa, não calcula e não se contenta com o mínimo, se pode esbanjar. O ornamental e o funcional, o antigo e o recente, o sinuoso e o reto, o belo e o feio, tudo é bem-vindo na criação incessante de novas formas de ser.

Euclides da Cunha embarca sem receio na profusão da vida. Suas explicações das características mentais, morais e espirituais de Antônio Conselheiro, apesar dos cacoetes evolucionistas, nunca recorrem ao determinismo surrado do tipo ?isso foi causa daquilo?. O visionário messiânico não estava em estado latente no passado genético ou familiar do ?tranquilo e tímido? menino Antônio Vicente Mendes Maciel. Em matéria de comportamento humano, gene nenhum tem penetrância completa e expressividade constante -e ninguém é puro replicante das neuroses dos pais.

Somos o conjunto de nossas ações possíveis ou reais sobre o mundo confrontado com os obstáculos que se opõem à nossa criatividade. Um ambiente receptivo ao risco da experimentação e à variação das individualidades incentiva a pluralidade expressiva da vida; um ambiente estreito, rígido, conservador tende a frear a liberdade com que a vida se reinventa.

A metamorfose de Antônio Vicente em Antônio Conselheiro se deveu à resistência que o ambiente ofereceu ao ímpeto criador do primeiro, forçando-o a se converter no segundo. A pobreza do sertão nordestino; o adultério da mulher; a ganância dos negociantes; a cultura dos jagunços; a religiosidade popular; a mesquinhez invejosa de certos párocos; a prepotência das autoridades eclesiásticas; a leviandade das elites políticas do Rio de Janeiro; a ?opinião pública? mundana e europeizada da rua do Ouvidor etc., tudo isso fez de Antônio Vicente o Antônio Conselheiro. Tudo isso empurrou o pacífico construtor de capelas e o humilde fazedor de milagres para fora da República brasileira, que já nasceu excluindo a maioria do seu círculo de eleitos.

Não existe um perfil psicológico do ?fanático?, conclui Euclides da Cunha. Existem condições que não deixam outra saída ao indivíduo, exceto o ?fanatismo?. ?Fanatismo? é a réplica dos que encontram na seita o lugar que o mundo lhes negou; dos que refazem do zero a própria filiação porque foram deserdados pela tradição; enfim, dos que se mostram na fúria ou no escândalo para não morrerem como se não tivessem existido.

Eixos do mal Antônio Vicente, sem a dureza do ambiente, talvez tivesse continuado a ser o pacato vendedor de loja que sempre foi, e sua memória, hoje, estaria perdida em algum arquivo empoeirado de paróquia ou cartório de interior. Quis a fortuna que tudo fosse diferente. As ?potências superiores? levaram-no a ?bater de encontro? a uma civilização que só lhe acenou com a alternativa ?hospício? ou ?história?. Foi para a história. Não sem antes ter a cabeça decepada, depois de morto, e o crânio dissecado, de forma a mostrar ?no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura?.

Dor de uns, bálsamo de outros. Graças a Antônio Conselheiro e a Euclides da Cunha, conhecemos um pouco mais como a ?civilização? fabrica ?eixos do mal? coalhados de bandidos, marginais, fanáticos, rebeldes e ?loucos criminosos?. A lição dos erros é amarga, mas é a que menos esquecemos.

(Jurandir Freire Costa é psicanalista e professor de medicina social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autor de, entre outros, ?Sem Fraude nem Favor? e ?Razões Públicas, Emoções Privadas? (ed. Rocco). Escreve regularmente na seção ?Brasil 503 d.C.?.)"

"Revolução mexicana na caatinga", copyright Folha de S. Paulo, 1/12/02

"Os Sertões? teve diversas traduções, nem todas na íntegra e algumas delas sem ter tomado por base o original português. Os títulos que receberam e suas capas acabaram dando um perfil de recepção da obra em cada país.

Das cinco edições argentinas, país onde pela primeira vez foi traduzido ?Os Sertões?, 36 anos depois da primeira edição brasileira, quatro delas reproduzem a versão de Benjamin de Garay. A edição de 1942 da editorial Claridad coloca como subtítulo ao livro ?la tragedia del hombre derrotado por el medio?. O sertanejo é representado por um mestiço, com feições indígenas, de lenço no pescoço e chapéu, mais parecendo um peão dos pampas argentinos.

A última edição argentina, de 1982, da editorial Plus Ultra, publicada graças ao apoio da embaixada brasileira, modernizou a capa com uma xilogravura de Walderedo Gonçalves representando Antonio Conselheiro como uma espécie de emissário do apocalipse, cercado por sete candelabros, com uma longa língua, provavelmente relacionada com a ação missionária do líder de Canudos. No ano anterior saiu a edição venezuelana que fez parte da Biblioteca Ayacucho com prólogo, notas e cronologia de Walnice Nogueira Galvão e tradução de Estela dos Santos. Na capa, um cangaceiro estilizado, desenhado por Juan Fresán.

A edição norte-americana é de 1944, no auge da política de boa vizinhança do presidente Franklin Roosevelt sob os auspícios da Universidade de Chicago, com tradução de Samuel Putnam e uma introdução de Afrânio Peixoto intitulada ?O Maior Livro do Brasil?. O livro saiu com o título de ?Rebellion in the Backlands?, acrescido de uma chamada: ?Brazil?s greatest classic?.

Na ilustração temos três combatentes a cavalo, armados; um deles com um sombrero. Cactos, montanhas e um grosso rolo de fumaça ao fundo dão uma imagem típica da Revolução Mexicana, associando o imaginário do cinema americano com o muralismo de Diego Rivera. A edição americana teve várias impressões, mas também saiu três anos depois uma edição inglesa com a mesma tradução e com o título ligeiramente modificado: ?Revolt in the Backlands?.

Na Suécia a tradução é de 1945 e de autoria de Thomas Henry Warburton, que usou provavelmente a edição norte-americana. Na capa, três camponeses bem vestidos e com longas botas. Três anos depois foi publicada a edição dinamarquesa traduzida por Richard Wagner Hansen: é a mais bela, com excelentes ilustrações coloridas de Ib Andersen, que acabou também sendo reproduzida em preto-e-branco na edição brasileira do cinquentenário, em 1952. Mesmo assim, na capa temos a reprodução de uma igreja em Salvador, isso quando a guerra foi travada a centenas de quilômetros da capital baiana. Em 1954 foi publicada a edição holandesa com tradução de M. de Jong, diretamente da edição norte-americana.

Em 2001 editou-se nova tradução holandesa, de August Willemsen, utilizando-se desta vez as edições brasileiras de 1968 e 1982. A capa mostra um sertanejo morto ao lado de cacto com um leve tom de realismo socialista. A primeira tradução francesa é de 1947, de Sereth Neu, com um prefácio de Afrânio Peixoto e o título ?Les Terres de Canudos?; a segunda edição, com nova tradução, de Jorge Coli e Antoine Seel, é de 1993: ?Hautes Terres (la Guerre de Canudos)?.

A versão italiana é de Cornelio Bisello e saiu em 1953 (?Brasile Ignoto?), com uma capa sóbria e elegante (assim como a edição alemã com tradução de Berthold Zilly, considerada pelos especialistas como a melhor versão de ?Os Sertões?). Em 1959, ano do cinquentenário da morte de Euclides da Cunha e comemorativo dos dez anos da Revolução Chinesa, foi publicada a versão chinesa com o título ?Terra do Interior?, traduzida por Pei Chin em 597 páginas. Na capa temos um sertanejo a cavalo observando o semi-árido.

Mas, sem falso ufanismo, nenhuma delas foi tão bem ilustrada quanto a 27? edição, com os desenhos de Aldemir Martins."

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