Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Juremir Machado da Silva

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

ENTREVISTA / DOMINIQUE WOLTON

"Wolton fala sobre o valor da mídia e da diversidade", copyright Trópico, 13/1/02

"Inquieto, irreverente e disposto a andar na contramão do discurso crítico oficial sobre os meios de comunicação de massa e também sobre a endeusada internet, Dominique Wolton, pesquisador do CNRS (o prestigioso Centro Nacional de Pesquisa Científica da França), 56 anos, é um homem que acredita no Iluminismo, na democracia, nas concepções republicanas de organização social e no papel da mídia como fator de vínculo social.

Em quase três décadas de reflexão e de pesquisa sobre a ?comunicação política?, Wolton publicou 16 livros importantes, entre os quais Terrorismo e Mídia (1988), War Game – A Informação e a Guerra (1992), Elogio do Grande Público (1990), A Última Utopia (1993), Pensar a Comunicação (1997) e Internet, e Depois? (1999).

Dos desgastes do progresso às ilusões ecológicas, passando pelas redes de telecomunicação e as relações entre velhas e novas tecnologias de informação, tudo é motivo para Dominique Wolton descarregar as suas baterias de argumentos pesados contra a mercantilização da vida.

Em Elogio do Grande Público, teve a ousadia de defender as televisões abertas, consideradas por ele como construtoras de laço social, contra os ?guetos? das televisões por assinatura. No mesmo impulso, bombardeou o elitismo intelectual que nunca enxerga o papel democratizador exercido pela mídia. Com uma artilharia desse calibre, Wolton, evidentemente, soube arranjar seus inimigos, mas não deixou de obter aliados.

Com os atentados de 11 de setembro de 2001, Wolton voltou à carga para dissecar o par terrorismo/mídia. O homem que, sem rejeitar o grande salto de comunicação instaurado por internet, atreveu-se a mostrar que a técnica não substitui a política, apontou seus mísseis na direção da fábrica explosiva de estereótipos representada pela mídia globalizada.

Nesta entrevista exclusiva, Dominique Wolton prova que é possível ser crítico sem cair no apocalipse e denunciar os Estados Unidos sem mergulhar no ressentimento ou no antiamericanismo vulgar. Para ele, o 11 de setembro dobrou os sinos pela etapa neoliberal e selvagem da globalização. A queda das torres do WTC, assegura, é o símbolo de um problema maior de comunicação, o da incapacidade de compreensão entre as culturas, ou simplesmente o da incompetência dos Estados Unidos para aceitar e respeitar a diversidade cultural.

– Como se pode analisar as relações atuais, depois dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, entre mídia e terrorismo?

Dominique Wolton: O objetivo do terrorismo é semear o pânico e levar ao desequilíbrio político mundial através da mídia. Na medida em que a mídia desempenha um papel importante nas sociedades democráticas e que a informação, hoje, funciona em escala mundial, os terroristas jogam também com a mídia, fazendo dela um amplificador.
Prova de que a mídia e a internet podem fazer o melhor e o pior. Isso reclama uma visão política, no sentido amplo da comunicação, ou seja, é preciso uma orientação, um projeto para os midia clássicos e novos. A mídia, ao contrário do que diz um poderoso estereótipo, é frágil e pertence ao patrimônio da democracia, assim como a escola, a justiça e as liberdades fundamentais.

Por isso, não se pode deixá-la entregue somente às leis da concorrência. Não se pode impedir os terroristas de utilizar a mídia, mas é possível dar contornos à liberdade fundamental da informação e da comunicação. A existência de lei não contraria a liberdade de comunicação, mas a protege. Deve-se rejeitar a ideologia liberal que, em nome de uma suposta apologia da liberdade da informação e da comunicação, sem controle, entrega, em realidade, esse setor essencial da democracia e da cultura aos ditames das leis do mercado e da globalização. Sim à economia da informação e da comunicação, mas à condição que simultaneamente se defenda também a informação e a comunicação como valores fundamentais da democracia.

– Nesse momento, por toda a parte, existe um forte sentimento antiamericano. Intelectuais puderam, novamente, disparar toda uma gama de argumentos contra os Estados Unidos. Trata-se de uma postura legítima ou de um acerto de contas um pouco vulgar que contesta tanto os Estados Unidos quanto à democracia?

Wolton: Os intelectuais não são responsáveis pelo antiamericanismo. Com o fim do comunismo, só há uma superpotência econômica, técnica, militar, financeira. É normal que ela suscite oposição. Ainda mais que, e nisso reside a grande fraqueza dos Estados Unidos, trata-se da potência número um, mas de uma potência sem nenhuma curiosidade cultural por outra coisa que não seja ela mesma.

Como dirigir o mundo não querendo conhecer nada das civilizações, culturas, ideologias, representações, da Ásia, da América Latina, da África ou da Oceania? Os americanos crêem que o mundo pensa como eles e deve evoluir como eles. É nessa incapacidade de compreender os outros, nessa boa consciência e nesse espírito, pelo qual o dólar-rei tudo decide e determina, que reside a causa do antiamericanismo.

Para além das desigualdades entre Norte e Sul, das quais os Estados Unidos são o principal beneficiário, penso que a causa profunda do antiamericanismo não é econômica, mas política e cultural. Está nessa indiferença dos americanos pelas outras culturas. A CNN, rede que não é mundial, como pretende, dá o ponto de vista americano sobre o mundo, de forma caricatural.

De resto, os americanos devem refletir sobre este paradoxo: eles são favoráveis à globalização da informação e da comunicação porque a dominam, mas não percebem que, ao cristalizarem essa visão tão estreitamente americana da sociedade, da cultura e da política, com tão pouco interesse pelos outros, suscitam violentamente o antiamericanismo.
Na era da globalização da informação, os povos e as culturas querem ser reconhecidos. É o bumerangue da informação e da comunicação. Feito com base no modelo americano, com tão pouco espaço deixado às culturas do Sul, provoca, de parte das sociedades menos ricas economicamente, mas culturalmente ricas, um fenômeno de rejeição ao Ocidente.

– Vejamos as relações entre mídia e representações sociais. Busca-se com freqüência culpar os meios de comunicação de massa pelas situações explosivas. Por exemplo, o papel da rede árabe Al Jazeera tem sido muito contestado por quem viu nela um instrumento do terrorismo, a serviço de Bin Laden. Os ocidentais conseguem fazer melhor ou apenas de comportam como instrumentos dos Estados Unidos?

Wolton: Os meios de comunicação desempenham um papel, no conjunto, positivo e democrático na informação, em nível mundial, denunciando ditadores e regimes autoritários. Se o modelo cultural da globalização da comunicação está muito marcado pela americanização, a informação globalizada, em contrapartida, especialmente graças ao papel fundamental das agências de notícias, é um fator de democracia.

Contudo, ainda é a visão ocidental da informação que predomina, o que explica a rejeição dos receptores, ou seja, da opinião pública, principalmente árabe, contrária à nossa visão de mundo. Desse ponto de vista, a dependência da CNN, depois de 11 de setembro, das imagens da Al Jazeera, é uma boa coisa. Serve para ensinar um pouco de modéstia.

– Muito se falou, depois do choque de 11 de setembro, que o mundo nunca mais seria o mesmo após a destruição do World Trade Center. Agora, com a guerra vencida no Afeganistão, pode-se dizer que foi um exagero típico da mídia ou uma realidade compreendida imediatamente por jornalistas e observadores da cena política internacional?

Wolton: O mundo nunca mais será o mesmo depois do 11 de setembro de 2001. Ficou demonstrada a fragilidade americana. Atacou-se o símbolo do poderio técnico total dos Estados Unidos. Descobriu-se que o mundo ocidental é frágil e pode ser atingido no coração por militantes mais inteligentes do que todos os sistemas de informação automáticos.

A internet nada pode fazer contra os aviões suicidas, o que mostra também o nível de desespero exigido para aceitar o suicídio como forma de ataque. A violência do atentado reflete a violência da sociedade capitalista e a sua dificuldade para conviver com outras culturas. O terrorismo é inaceitável. Mas é preciso compreender o desespero que o gerou.

As desigualdades sempre existiram, mas a mudança, graças à globalização da informação, se tornou agora mais visível. Todo o mundo vê a desigualdade. Em resumo, a democracia fala de igualdade enquanto o capitalismo cria desigualdade. Para além da desigualdade econômica, o mais grave, sem dúvida, é a falta de comunicação entre as culturas.

Se o fundamentalismo islâmico é condenável, isso não elimina o problema do respeito à diversidade cultural e da convivência de diferentes religiões no mundo. O Ocidente rico, aparentemente tolerante, respeita as culturas que o atacam?

– Há quem pense que os intelectuais têm a mania de pôr a culpa de tudo na mídia e de querer sempre andar na contramão da opinião dominante. Há verdade nessa suspeita ou se trata apenas de mais uma tentativa de tirar a responsabilidade dos meios de comunicação em relação à vida social?

Wolton: Os intelectuais continuam a não gostar da mídia, pois, em geral, consideram que os meios de comunicação manipulam as opiniões e os indivíduos. Entretanto, em 50 anos, viu-se muito mais o contrário disso. O público é, em geral, crítico em relação às imagens e nada passivo.

Além disso, os intelectuais, com freqüência de esquerda, que defendem a emancipação do povo, deviam perceber que o rádio e a televisão são instrumentos de emancipação de massa. Resultado: faz mais de 50 anos que os intelectuais não conseguem pensar o estatuto dos meios de comunicação de massa, contentando-se em repetir os mesmos estereótipos sobre o ?povo manipulado pela mídia?, sem ver que, ao contrário, o público é mais inteligente do que parece, pois permanece crítico em relação às mensagens recebidas.

Os meios de comunicação informam, criticam e distraem. Se queremos que sejam melhores, é preciso que os intelectuais, mais do que criticá-los, lutem para melhorá-los.

– Fala-se, novamente, muito de ?sociedade do espetáculo?. As idéias de Guy Débord sobreviveram à queda de quase todas as previsões dos pensadores dos anos 60 ou se está tentando explicar o novo com velhos conceitos?

Wolton: O tema da ?sociedade do espetáculo? remete à desconfiança e à crítica dominante entre os intelectuais em relação à mídia, em especial à televisão. Não concordo com esse pessimismo justamente por saber que nos últimos 50 anos se detectou que o público, o receptor, é, no fim das contas, muito mais crítico do que se imaginava.

Estamos numa sociedade na qual a imagem desempenha um papel muito mais importante do que há 50 anos. Mas o espetáculo não transforma tudo, não dirige toda a sociedade. Ocupa um lugar cada vez mais destacado do que há meio século, porém existem outras dimensões sociais relevantes, econômicas, culturais e políticas. Haverá um retorno a outros valores, pois o indivíduo não pode viver somente na imagem.

– Os atentados de 11 de setembro, para ancorarmos a análise em fatos recentes e extraordinários, se inscrevem numa lógica da ?sociedade do espetáculo??

Wolton: Sim, se pensarmos que os terroristas quiserem fazer um espetáculo de morte e de medo. Não, se compreendermos que esse não era o único objetivo. Por trás da imagem espetacular, havia a vontade de destruir seres humanos, de estabelecer uma guerra de ?religião?, de desestabilizar o Ocidente. Em outras palavras, a intenção era claramente política, antes de ser espetacular.

Os ocidentais enganam-se quando falam da política midiática de Bin Laden. Se Bin Laden é popular, não é por causa de sua estratégia de mídia. Mas por causa do combate político que representa, o qual encontra eco na população. O tema da ?sociedade do espetáculo?, com freqüência, economiza as causas políticas, sociais ou culturais que explicam o sucesso do espetáculo. Simplifica. Em suma, o espetáculo é uma conseqüência, não uma causa.

– A propósito das duas idéias sobre a mídia: o seu ponto de vista sobre a televisão aberta é, em geral, bastante otimista. Em contrapartida, o senhor parece muito reticente em relação à internet. Por quê?

Wolton: Não, não sou tão otimista em relação à televisão aberta, nem tão pessimista quanto à internet. Trata-se de duas formas de comunicação diferentes e complementares. A televisão, para a cultura de massas, está ligada ao extraordinário projeto de democracia para todos.

A internet está voltada aos serviços individuais de informação, ao lazer etc. Hoje, os mercados temáticos vinculados à internet estão em expansão. Por que não? Nada contra, mas sob a condição de não esquecer o papel essencial de laço social desempenhado pelos meios de comunicação de massa.

– Mas, em O Elogio do Grande Público, o senhor faz o elogio da televisão aberta, não segmentada. Não se trata de uma posição na contramão? Todos viram na televisão por assinaturas uma chance para programas mais aprofundados e menos vulgares. Não é assim?

Wolton: Redes temáticas e não segmentadas são complementares. Umas se dirigem a todos, para além das classes sociais, das regiões, das idades, e contribuem para o vínculo social; esquece-se que há um projeto de emancipação e de igualdade no conceito de sociedade de massa, ou seja, de progresso para todos. Mas, com freqüência, isso não ultrapassa o consumismo.

Os meios de massa, ao menos, recolocam a questão política: que informações, que educação, que divertimento fornecer para todos? A rádio e a televisão devem ser entregues exclusivamente às leis de mercado? Com a explosão das indústrias da comunicação, haverá cada vez mais contestações políticas: para que servem todos esses canais? Para que projeto?

Em outras palavras, a televisão geral é um projeto político; antes de ser uma técnica, permite recolocar todas as questões pertinentes a uma visão humanista e democrática da comunicação, à qual eu me filio. Os meios gerais não correspondem, em princípio, a esse estádio técnico, mas a um projeto político. A globalização das indústrias da comunicação vai fazer da comunicação um dos objetos de disputa mais importantes do século 21.

Quanto aos meios temáticos, eles são um progresso no sentido em que aumentam a escolha. Mas reforçam também a individualização das relações sociais e a comercialização da comunicação. A televisão segmentada supõe telespectadores pagantes. Isso é uma barreira econômica.

Sobretudo, a soma das televisões segmentadas não dá uma televisão generalista, pois o projeto de comunicação dos dois é diferente. Para a televisão aberta, parte-se da oferta de um projeto, enquanto que para a televisão segmentada parte-se da demanda.

– Vive-se um momento de medo, de expectativa e de surpresa. Fala-se em nova fratura social: o Oriente contra o Ocidente. O senhor acredita na teoria do ?choque de civilizações??

Wolton: Não. Não há guerra de civilizações. Nem se deve desejá-la. Simplesmente as desigualdades Norte/Sul tomarão, cada vez mais, uma ênfase política. Por duas razões: a globalização da comunicação permite ainda mais facilmente que antes ver as desigualdades econômicas e sociais. E as torna ainda mais insuportáveis.

Por outro lado, a dimensão cultural (língua, religião, tradição) tomará, cada vez mais, lugar na reivindicação dos países do Sul. Eles não lutam apenas em função da desigualdade econômica, mas também pelo direito à dignidade e ao reconhecimento.

Amanhã, os desafios culturais desempenharão um papel essencial na globalização, entre a economia e o político. Se as reivindicações culturais não forem, de maneira legítima, tomadas em consideração, isso poderá acarretar uma guerra de civilizações. Esta seria o sintoma da incapacidade dos países a ceder espaço às outras culturas.

– Outra hipótese sobre o terrorismo atual remete a uma nova guerra de religiões. Trata-se de fato de um conflito, no caso do confronto entre Estados Unidos e talibãs, entre islamismo e cristianismo, ou de uma luta entre terrorismo e democracia?

Wolton: É, fundamentalmente, uma guerra entre terrorismo e democracia, mas as democracias ocidentais precisam ouvir a crítica aos seus modelos embutida no surgimento do fundamentalismo religioso. Foi porque o Ocidente não respeitou as outras culturas e que em seu próprio campo os valores econômicos, aos poucos, tudo esmagaram que isso provoca um certo fundamentalismo religioso.

Este é até certo ponto o espelho de um modelo cultural ocidental demasiado materialista e pouco respeitoso das outras culturas. No lugar de apenas condenar esse fundamentalismo religioso, seria o caso de também se refletir sobre o fato de que ele é uma reação ao materialismo cultural do Ocidente. Materialismo cultural fortalecido pela queda do comunismo que, ao menos, mantinha um conflito de valores entre várias concepções de mundo.

Foi o capitalismo, mais do que a democracia, quem ganhou a luta contra o comunismo. E a democracia, em vez de destacar as suas diferenças em relação ao modelo capitalista, cada vez mais se identifica com ele. A ausência de crítica à ascensão esmagadora das indústrias mundiais da comunicação ilustra essa confusão entre economia, democracia e cultura.

Não é surpreendente que a cultura se torne um tema de confronto entre o Norte e o Sul. Se o Norte não ouve essa crítica, ela pode alimentar um fundamentalismo religioso que o Ocidente, também com razão, condenará. Mas é preciso não esquecer a sua responsabilidade na relevância do aspecto conflitual dos fatores culturais.

– A esquerda gosta de atacar o imperialismo americano e de mostrar que a democracia liberal é muito limitada. Em contrapartida, não se conhece nenhuma democracia muçulmana. Não se estaria assistindo, mesmo que o conflito pareça se aproximar do fim, a um combate entre duas hipocrisias políticas?

Wolton: Não há relação direta entre capitalismo e democracia, assim como não há, diretamente, entre islamismo e democracia. Isso significa que os vínculos entre economia, religião e política são complicados. Mesmo se historicamente, na Europa, o desenvolvimento do capitalismo, entre os séculos 16 e 17, foi uma condição favorável para o nascimento da democracia.

Essa confusão entre os três, portanto, tem registro histórico. Caso se queira ter democracia, precisa-se regular o capitalismo. De resto, os que lutaram, na Europa, entre 1800 e 1950, por democracia não eram necessariamente defensores do capitalismo. Em outras palavras, o crescimento econômico não leva necessariamente à democracia. Pode ajudar, mas é apenas uma variável. O mesmo vale para a religião.

Não há ligação direta entre o islã e a democracia, tanto quanto não havia antes entre o catolicismo, ou cristianismo, e a democracia. Existem laços, mas eles não são necessariamente automáticos. Sobretudo, existem muitos exemplos em contrário. Houve muitos regimes capitalistas autoritários, assim como existem muitos regimes católicos ou muçulmanos autoritários.

Qual é a lição do século 20? Não há relação direta entre economia e democracia, assim como não há entre religião e democracia. Na realidade, é preciso separar essas lógicas e manter-lhes a autonomia. A economia, a religião e a política devem conservar as suas lógicas próprias. Se a democracia implica uma certa concepção da cultura e da religião, não se deve entrelaçar as três em demasia.

– O senhor defende que deve existir um vínculo entre democracia, identidade, cultura e mídia. Ainda é possível crer no papel do Estado-nação na organização da vida social republicana? Como dar um verdadeiro sentido à ação da mídia na formação de uma consciência política sem cair na propaganda e sem afugentar a audiência?

Wolton: Quanto mais avança a globalização econômica, mais importante se torna o papel do Estado-nação, pois é necessário conservar um fator de regulação e um quadro de referência. Em contrário, a lógica econômica esmaga tudo. Para que a política preserve a sua força, ela deve apoiar-se em estruturas nacionais e culturais. A economia pode ser mundial. Não os cidadãos.

É como a internet: os mercados podem estar ?online?, mas não as sociedades. Quanto mais há abertura, mais os meios de comunicação nacionais desempenham um papel importante, pois são um fator de identidade coletiva e de laço social, pela língua, pela informação, memória, cultura.

Ontem, o Estado controlava, às vezes, excessivamente a mídia. Hoje, é a economia que controla tudo. Vamos recuperar a virtude do serviço público ligada a uma certa concepção de interesse geral. Em síntese, a mídia precisa, atualmente, evitar a tirania da economia, assim como ontem cabia rejeitar o controle do Estado.

Na realidade, é preciso ter concorrência entre setor público e setor privado, e revalorizar a idéia de serviço público, o qual não deve ser confundido com propriedade pública. Os meios de comunicação nacionais desempenham um papel essencial para a identidade e cabe evitar a dominação exclusiva do mercado sobre a mídia, pois a função desta vai além da economia.

Na batalha mundial gigantesca que se travará em torno da comunicação, da mídia e da Internet, teremos de revalorizar a problemática do serviço público, sem resumir serviço público à estatização. A idéia geral é que amanhã o conceito de serviço público, de interesse geral, será o meio de manter a comunicação ao abrigo da dominação econômica e do poder político.

– Mas o conflito ocasionado pelos atentados de 11 de setembro não põe fim ao processo de globalização em curso?

Wolton: Sim, o conflito atual põe fim a um certo modelo de globalização liberal que foi dominante ao longo dos últimos 20 anos, pelo qual se desqualificava toda idéia de regulação, de interesse geral, de políticas públicas e de Estado. Seattle e Porto Alegre, de um lado, e o 11 de setembro, de outro lado, mostram que a globalização econômica liberal é muito perigosa.

Precisamos de política, de valores, de regulamentação. Para contrabalançar os desgastes da globalização econômica que reforça as desigualdades industriais e culturais entre Norte e Sul, precisamos reintroduzir a importância de uma política mundial e considerar os interesses culturais dos povos e das nações, mesmo se estes não são ricos e poderosos. É o fim do liberalismo mundial, que se fortaleceu com o desabamento do comunismo. Hoje, a crítica vem de dentro do modelo capitalista. É essencial ouvi-la.

– Viu-se muita gente insinuar que os Estados Unidos bem que mereceram os atentados de 11 de setembro, justamente porque eles seriam o resultado de uma globalização selvagem. Passados dois meses do choque do World Trade Center, pode-se realmente considerar Bin Laden porta-voz dos excluídos do mundo?

Wolton: Sim, o 11 de setembro é o resultado de uma globalização selvagem e sem regulamentação. É sobretudo o símbolo da dificuldade que tem o Norte para compreender e respeitar as outras culturas e civilizações. A humilhação, antes de ser cultural, é econômica. Não que o Sul tenha ?razão?, mas o que reclama é um certo reconhecimento à dignidade.

A globalização da comunicação, pela exportação dos produtos culturais do Norte, aumenta o abismo cultural, em vez de diminuí-lo. Historicamente a comunicação aproxima os indivíduos e as sociedades, mas com o progresso técnico e a globalização econômica, a comunicação é percebida no Sul como um fator suplementar de dominação, pois diz respeito ao essencial: identidade, valores, religião.

O risco da comunicação globalizada é, portanto, pela velocidade da circulação das informações e das imagens, não de aproximar os povos, mas de aprofundar as disputas. É nisso que o 11 de setembro é emblemático do fosso cultural. Bin Laden não é o porta-voz dos pobres, tampouco o herói da guerra de religiões, mas simplesmente o símbolo da incompreensão entre as culturas. Precisamos compensar a velocidade e a performance dos sistemas de informação com a lentidão da intercompreensão entre os homens.

– Em Internet, e Depois?, o senhor questiona os limites das novas tecnologias da comunicação. Há um discurso excessivo sobre o papel do virtual em nossas vidas? A técnica não pode substituir a política. Mas poderia existir um Bin Laden sem as novas tecnologias da comunicação?

Wolton: Defendo uma visão humanista e política da comunicação contra uma visão técnica e econômica. Não é por que o progresso técnico é gigantesco nesse setor, sendo as indústrias da comunicação primeiras no mundo, que isso basta para aproximar os indivíduos e os povos. Ao contrário. Descobrimos que a comunicação hegemônica pode tornar-se um fator de divisão e de ódio.

As técnicas não servem para nada sem um projeto. Prova: Bin Laden utiliza a mesma rede, mas numa perspectiva terrorista. Hoje, a técnica e a economia estão adiantadas em relação a um projeto de comunicação. Com urgência, devemos sair do fascínio técnico e responder a esta questão: internet para qual projeto? A mídia para qual projeto?

A comunicação torna-se um setor explosivo se, ao lado da técnica e da economia, não se definem orientações humanistas. É a própria explosão das indústrias da comunicação que obriga a dar orientações democráticas. Em contrário, a técnica e os lucros ligados à comunicação se voltarão contra a comunicação, entendida noutra dimensão, a de valor.

– O mundo caminha para uma sociedade de controle total através de tecnologias do olhar, uma espécie de realização das previsões de George Orwell?

Wolton: Não, não penso que exista realmente uma ameaça de totalitarismo através das tecnologias de comunicação. Elas podem favorecer a cibercriminalidade ou a ciber-repressão, mas as contradições humanas, sociais, culturais e políticas serão mais fortes que a racionalidade técnica.

Entrementes, pode, contudo, haver muito desgaste. E, mais do que tudo, acentuar-se o abismo Norte/Sul, com o aumento da ira do Sul, justificada ou não, contra o Norte. A desigualdade econômica é uma coisa. O sentimento de uma desigualdade cultural e de uma dominação do pensamento, da religião, é ainda pior.

– As liberdades individuais, pilares do Estado de Direito, estão em perigo em função das medidas de segurança tomadas pelos governos para evitar novos atentados ou o pior já passou?

Wolton: Os Estados Unidos ilustram o perigo de uma política ultraliberal, a deles, em matéria de comunicação, que consiste, há 20 anos, em recusar qualquer regulamentação. Aparentemente em nome da ?liberdade?, em realidade porque a ausência de regulamentação favorece a dominação das indústrias americanas. Mas, de repente, com a ameaça dos terroristas se corre o risco de passar ao outro extremo: do ciber-indiferença ao cibercontrole.

Por isso, em nível internacional, deve-se criar, ao mais rápido possível, um quadro jurídico mínimo para evitar a cibercriminalidade, proteger as liberdades individuais e coletivas, garantir a vida privada e organizar a cooperação ao nível mundial entre as polícias e as justiças. A assinatura da convenção internacional de Barcelona, em dezembro de 2001, contra a cibercriminalidade é um primeiro ato.

A globalização da informação impõe uma regulamentação mundial. O direito existe, mas faltam as vontades políticas. Talvez a utilização da internet pelos terroristas vá enfim convencer as democracias da necessidade de construir o quadro jurídico para colocar a Internet dentro da legalidade.

Repito: a lei não elimina a liberdade de comunicação, mas a protege. Isso é verdade, nos dois últimos séculos, com as sucessivas batalhas na imprensa, no rádio e na televisão. E, agora, também para a internet. As novas tecnologias da comunicação saem de uma lógica do não direito.

– A solução para o conflito entre os Estados Unidos e os terroristas passa, por exemplo, na criação de um Estado palestino?

Wolton: É certo que o conflito entre árabes e Israel alimenta o terrorismo internacional, pois, graças à mídia, mais uma vez, o mundo inteiro vê como os Estados Unidos defendem de maneira unilateral Israel e caucionam uma política violentamente antipalestina.

A injustiça em relação aos palestinos torna-se o símbolo da arrogância e da dominação americanas. A paz no Oriente Médio, com a criação de um Estado palestino seria evidentemente um meio poderoso de reduzir o terrorismo que encontra na incapacidade de achar uma solução política para os palestinos a prova de que não existem outros meios, além da violência e do terrorismo, para lidar com os adversários.

– O senhor concorda com Paul Virilio, que prevê um mergulho numa sociedade do terrorismo global, com a utilização crescente de armas biológicas, químicas e talvez até mesmo atômicas?

Wolton: Não, eu sou menos pessimista que Paul Virilio. Ele tem razão em denunciar a ideologia da velocidade, tipicamente ocidental e que faz muitos estragos, pois a velocidade é incompatível com a necessária lentidão para compreender outros sistemas de valores e de racionalidade. Em outras palavras, a velocidade dos sistemas de informação, se não é compensada por uma regulamentação e por projetos democráticos, pode tornar-se um fator de guerra cultural.

Ao contrário, os riscos ligados às armas biológicas, químicas, nucleares, é tanto que os Estados serão obrigados a construir um novo quadro de cooperação e de regulamentação. É o próprio perigo que criará uma nova situação e relançará o jogo. Há sempre uma margem de manobra. O que me separa de Paul Virilio é o seu pessimismo, que não leva em consideração as contradições como fator de mudança. Enquanto não há guerra, as nações podem reagir e evitar o pior.

O único verdadeiro desafio da política é evitar que uma situação caia numa lógica de guerra civil ou de guerra entre nações. É, de resto, esse risco que faz a grandeza e a dificuldade da política. Nesse espaço reduzido entre a paz e a guerra se encontra toda a importância da comunicação. Não da comunicação técnica, mas da comunicação humana e social, aquela que tenta garantir um mínimo de compreensão entre diferentes povos que decidiram conviver pacificamente."

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