Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > Com isto criou-se nestes países uma separação orgânica e, através dela, uma consciência crítica capaz de colocar em campos opostos e inconciliáveis o jornalismo e a comunicação comercial.

Justiceiros também pecam

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

CASO JOELMIR BETING

Alberto Dines

Joelmir Beting aceitou a proposta de protagonizar o comercial do Bradesco porque a leniência da mídia é generalizada e institucionalizada. A incompatibilidade entre o exercício do jornalismo e a participação numa peça publicitária jamais foi criticada na mídia brasileira. Ao contrário, é tolerada.

Pior do que isso: muitos profissionais são obrigados pelas empresas a fazer comerciais dentro de suas matérias. Não ganham tostão e ainda passam pelo supremo vexame de parecer infratores.

Dois exemplos num veículo do Grupo Estado, a excelente Rádio Eldorado: o repórter Geraldo Nunes, na cobertura do trânsito pela manhã, em São Paulo, era, até recentemente, obrigado a mencionar as qualidades de um lançamento imobiliário toda vez que o seu helicóptero sobrevoava o local de um empreendimento. Trata-se de um dos melhores repórteres de Cidades, um dos maiores conhecedores da história de São Paulo, orgulho de qualquer equipe que, não obstante, era obrigado a emitir com a sua chancela pessoal uma mensagem comercial disfarçada, sem qualquer característica de publicidade, no meio da sua cobertura jornalística.

Aqueles que demitiram Joelmir Beting porventura perguntaram a Geraldo Nunes se aceitava infringir de forma tão evidente as normas deontológicas e os códigos de comportamento profissionais?

Outra violação é irradiada diversas vezes ao longo do dia na mesma emissora com uma das "estrelas" da sua programação informativa: a meteorologista Josélia Pegorin, da ClimaTempo. Ao fim dos seus boletins, Josélia lê uma inconfundível mensagem comercial patrocinada por uma fábrica de produtos eletrônicos.

Alegarão os ilustres castigadores de Beting que a meteorologista não é jornalista, portanto desobrigada de seguir as normas de comportamento de jornalistas. Ela certamente não é jornalista, mas a sua informação é um dos esteios do noticiário do dia. Todo colunista, diplomado em jornalismo ou não, é um jornalista. E a meteorologia é uma coluna ? aliás das mais importantes ? do radiojornalismo.

Alhos e bugalhos

Joelmir Beting não gostou do comentário deste Observador [remissão abaixo] e esperneou num site (que, aliás, foi criado para veicular releases comerciais de empresas). Erro tático e moral: esta poderia ser a sua única defesa. Só pode ser considerado como infração o procedimento que a comunidade estabelece como infração. Se a comunidade admite, aceita e convive com a violação das normas, estas deixam de ser consideradas como infração. São, no máximo, impropriedade.

No último domingo num intervalo comercial dirigido à audiência paulista, o Fantástico (do Grupo Globo, que também puniu Joelmir) exibiu um comercial da Universidade de Guarulhos (privada) protagonizado pelo jornalista Hermano Henning (do SBT). Para Sílvio Santos, presidente, principal acionista e atração máxima da rede, não há conflito de interesses. Ele próprio faz propaganda comercial escancarada nos seus programas. Mas, por uma questão de coerência, para reforçar seus princípios, a Rede Globo deveria ter recomendado ao cliente a substituição do garoto-propaganda. A divulgação de uma infração sem qualquer reparo crítico ? mesmo que de outros ? pode ser entendida como aprovação. Um atento leitor deste Observatório flagrou o mesmo Henning fazendo um comercial numa TV mineira para o BMG Poupança [veja carta sob o título "Não entendi", Caderno do Leitor desta edição].

Nos seus badalados seminários, a ANJ jamais manifestou-se a respeito da participação de jornalistas em mensagens publicitárias. Muito menos a Fenaj, que vai muito além ao considerar o trabalho de assessoria de imprensa como atividade jornalística regular, assim legitimando o conflito de interesses.

Em Portugal, na Espanha, França ou Alemanha qualquer jornalista associado ao seu Sindicato sabe que no momento em que for convidado para trabalhar como publicitário, assessor de comunicação ou garoto-propaganda está obrigado a licenciar-se formalmente da agremiação. Só poderá retornar depois de um período de quarentena. Nos EUA e Inglaterra, este licenciamento é sequer considerado.

Com isto criou-se nestes países uma separação orgânica e, através dela, uma consciência crítica capaz de colocar em campos opostos e inconciliáveis o jornalismo e a comunicação comercial.

Uma palavra final aos missivistas que sentiram-se no direito de deblaterar contra os veículos que aceitam mensagens comerciais no seu espaço (ou tempo). Confundem alhos com bugalhos: um veículo jornalístico é uma instituição ou entidade comercial que, para garantir a sua continuidade, vende anúncios. Graças a esta receita a empresa jornalística paga os salários dos seus funcionários de modo a impedir que sejam seduzidos por ganhos extra por intermédio de negócios pessoais.

A caracterização visual da publicidade num veículo jornalístico é conquista recente porém definitiva, porque permite ao leitor distinguir a informação isenta da publicidade paga. O meio não se confunde com a mensagem.

Já o jornalista é o meio e, também, a mensagem. Não pode faturar sua credibilidade.

Leia também

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