Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > GUIAS DE COMIDA

Kafka na bandeja

Por lgarcia em 01/08/2001 na edição 132

GUIAS DE COMIDA

Renato Albuquerque (*)

Guias e roteiros de bares e restaurantes são qualquer coisa. Eles anunciam mundos e fundos, como se você tivesse as opções mais maravilhosas do planeta para comer e se divertir. São dicas sobre especialidades de determinadas casas, decorações, públicos etc. Você se sente no Primeiro Mundo. O que mais intriga, porém, é o caráter às vezes "marqueteiro", e outras, sem muito sentido de ser de seus textos.

Há algumas pérolas: "O lugar é minúsculo, mas a arte do sushiman Toshio Tanaka é grande", deu na revista Veja São Paulo. Não desconfio de que seja, mas quem garante que é? Qual o critério utilizado para chegar a essa "descoberta"? Parece propaganda "barata" ? não de barata, como você verá a seguir.

O Guia da Folha SP diz o seguinte sobre o South Place Grill: "Localizada em frente ao shopping Morumbi, a churrascaria serve o rodízio convencional antecedido por variada oferta de saladas". Convencional é pouco.

Outro dia fui a um dos "melhores bares de São Paulo" anunciados pela revista Veja São Paulo. Qual não foi minha surpresa ao esperar cerca de meia hora para ser atendido, numa mesa repleta de sujeira, com restos de comida e bebida. Aí, após esse "ligeiro aguardo", faço o pedido, o garçom vai, volta depois de alguns minutos e anuncia: "Infelizmente esse prato nós não temos hoje". Sei, então mais meia hora e nós começamos tudo de novo?

Há uma quantidade enorme de roteiros em jornais, revistas e internet. Mas o que falta, na realidade, é uma apuração mais elaborada das questões de atendimento, higiene, se as casas já sofreram algum tipo de fiscalização, punições etc.

Certamente um repórter identificado contará com um atendimento que poucas pessoas têm ao visitar quaisquer dos lugares anunciados. Além disso, a casa estará limpa, os garçons igualmente asseados e sorridentes, a comida chegará em pouco tempo, aceitará cheque sem conferência (caso haja cobrança da conta, o que é raro), não enfrentará fila, terá estacionamento fácil e muitas outras comodidades.

Casos criminosos

Não questiono o "conforto" de um colega de profissão. Muito pelo contrário. O que coloco em pauta é justamente a falta desse conforto para simples mortais. A mesma Veja SP, numa outra ocasião, realizou um trabalho digno de aplausos. O repórter da revista visitou várias casas noturnas como freqüentador comum. No final da noite, ele dizia "haver perdido" a tal "comanda" que contabiliza os gastos dos clientes. Naquela matéria foi possível perceber a postura grosseira e intransigente da maioria das casas, em outras épocas indicadas pela própria Vejinha.

Não raro um local é imediatamente alçado à condição de "moderno" e passa a ser "super freqüentado" por essa ou aquela "tribo". No entanto, há muito mais a ser mostrado, do que simplesmente mesas, paredes decoradas e pratos sugestivos. Em matérias desse gênero é fundamental que um repórter, "devidamente não-identificado", apure as qualidades, mas também as condições irregulares dos locais visitados.

Numa "visita" a um desses "famosos" bares, que saem todas as semanas nos guias e roteiros, há poucos dias pedi como entrada uma porção de polenta frita ? especialidade da casa ? e algumas cervejas. Apesar da vontade de pedir um outro prato, percebi a presença de uma "personagem kafkiana" ao meu lado. Então pensei: vou matá-la, pedir a conta e sumir daqui. Apesar de não me considerar violento, tratei de fazê-lo, assumir o crime e chamar o garçom. Este foi logo se retratando: "É que ontem nós tivemos uma dedetização." Ah, então está explicado. Agora, quem não gostou nada daquilo foi a família da pobre coitadinha.

(*) Jornalista

    
    
              

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