Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > TV DESEDUCATIVA

Karine Rodrigues

Por lgarcia em 22/07/2003 na edição 234


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“Muitas propagandas de remédio ferem a lei”, copyright O Estado de S. Paulo, 20/07/03

“Monitoramento patrocinado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostra que 90% das 930 peças publicitárias de medicamentos analisadas entre outubro de 2002 e maio deste ano ferem a legislação que regulamenta o setor. Entre as infrações mais freqüentes estão a omissão da contra-indicação principal, o uso de mensagens dirigidas a crianças e adolescentes, a ausência do número de registro do produto e a inclusão de termos como ?aprovado?, ?recomendado por especialistas?, ?seguro? e ?produto natural?.

A resolução 102, principal regulamento da propaganda de medicamentos, foi elaborada pela Anvisa em novembro de 2000, após consulta a 42 entidades dos setores envolvidos. Mas o que diz a resolução parece letra morta diante do alto porcentual de irregularidades detectado no monitoramento, feito por 14 universidades.

Para o tecnologista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, Álvaro Nascimento, o dado demonstra falhas no modelo regulatório aprovado pela agência. ?A indústria farmacêutica, a mídia e os publicitários voltaram para suas pranchetas e estão fazendo a mesma coisa que antes da resolução?, observa Nascimento, que também monitora propagandas de medicamentos para uma dissertação de mestrado no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio (Uerj).

Das 60 peças que ele já coletou, todas apresentam pelo menos uma irregularidade. Nascimento acredita que multar os infratores não é a solução e propõe que a publicidade seja restrita aos profissionais da saúde, como em países da Europa.

Maior controle – A proposta de proibição sugerida por Nascimento é defendida pela Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (Sobravime). ?Vender remédio não é como vender geladeira?, alerta José Ruben de Alcântara, coordenador da entidade. ?A natureza da publicidade, seja qual for o produto, é não destacar o lado negativo. Não dá para fazer isso com medicamentos. É preciso divulgar as contra-indicações.?

Ainda que a publicidade fique restrita aos consultórios, ressalta, a Anvisa precisa manter a fiscalização, já que também foram encontradas irregularidades nas publicações médicas.

De 2000 até maio deste ano, a Anvisa emitiu 446 autos de infração e recolheu pouco mais de R$ 500 mil em multas. ?Equivale ao valor de um merchandising em novela de horário nobre da Rede Globo. Por melhor que seja a regulação da Anvisa ela é pós-crime?, diz o pesquisador. Segundo o Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária (Conar), o tempo médio para tirar uma propaganda do ar após a autuação é de seis meses.

A gerente de Fiscalização e Controle de Medicamentos da Anvisa, Maria José Delgado, considera que o alto índice de irregularidades é ?natural?, já que, até a criação da resolução 102, segundo explica, o País não tinha nenhuma fiscalização. ?É o início do processo. As irregularidades vão diminuir com o tempo. Uma parte absorve o regulamento, outra resiste.?

Multas – Apesar das inúmeras peças publicitárias que iludem o consumidor, Maria José diz que proibir a propaganda de medicamentos ou submetê-la à análise prévia é ?rasgar a Constituição?. Ela discorda que a principal função da Anvisa seja emitir multas. ?O governo fará campanhas em rede nacional que vão orientar a população sobre a publicidade de medicamentos.?

Segundo o presidente do Conar, Gilberto Leifert, a instituição que dirige é solidária com a Anvisa no cumprimento da legislação. Ele admitiu, porém, as dificuldades da fiscalização. ?Num país da dimensão do Brasil é impossível monitorar tudo o que é veiculado.? Procurada pela reportagem do Estado, a Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma) não quis se pronunciar.”

 

TV BREGA

“Para Ver Sem Preconceito”, copyright O Estado de S. Paulo, 21/07/03

“Quarta-feira, 21h30. Entra no ar o Programa do Ratinho, um pouco diferente do habitual. Os mais desavisados podem achar estranho. Não há resultados de testes de DNA nem brigas e pancadarias, muito menos discussões polêmicas – sobre religião, fofocas ou qualquer outro assunto que esteja na boca do povo. A começar pelo cenário, tudo muda um pouco. Carlos Massa, o Ratinho, mexeu no perfil de seu programa às quartas-feiras, mas não altera seu estilo de apresentar. Ele continua desbocado e abusado, sem papas na língua, e seus assistentes de palco capricham nos tombos e palhaçadas. E, no fim, tudo vira um grande circo.

No estúdio 6 do SBT, o cenário e o clima são bem diferentes às quartas-feiras. Os sofás, onde, em outros dias, casais separados discutem sua vida particular publicamente são trocados por mesas, cadeiras e um balcão de bar. No lugar dos anônimos que buscam ajuda para provar a paternidade dos filhos, quem ocupa o palco são ex-famosos, tentando reconquistar um lugar ao sol. O programa é regado a músicas, mas as palhaçadas da ?turma do Ratinho? não perdem espaço. No programa que foi ao ar na última semana, com o tema Jovem Guarda, Vanderléia não pôde participar, mas a produção deu um jeitinho: ?Marquito? imitou a cantora. Mais tarde, ele também encarnou Roberto Carlos.

?Depois de seis anos, a gente pensou em fazer uma coisa diferente. A princípio, pensamos em fazer só com o pessoal da Jovem Guarda, mas resolvemos ampliar?, conta Ratinho. Nas últimas cinco semanas, o programa já recebeu cantores como Perla, Patrick Dumond, Milionário e José Rico, Cláudio Fontana, Newton César, Jerry Adriani, Luiz Airão, Gilson, Os Vips, Renato e seus Blue Caps, Ed Carlos, entre outros. São pessoas que estão fora da mídia, mas que já fizeram muito sucesso em outros tempos. ?O Newton Cesar vendeu 1 milhão de cópias?, lembra o apresentador. Esta semana, o encontro promete ser inusitado. A dupla sertaneja Bruno e Marrone participa do programa ao lado dos cantores Ovelha, Luiz Américo e Gilson.

A escolha do dia da semana também foi proposital. ?Na quarta-feira tem jogo na Globo, daí pensamos em fazer um programa para o público feminino, que normalmente não gosta de futebol?, acredita Ratinho. ?E o povo gosta de lembrar.?

Sim, deve gostar, porque a audiência vai bem e chega a superar a média de outros dias da semana. Na última quarta-feira, conseguiu média de 18 e pico de 25 pontos no Ibope da Grande São Paulo. ?Estou provando para aqueles que sempre criticam meu programa, dizendo que eu faço sucesso em cima da miséria dos outros, exatamente o contrário: que posso fazer um programa diferente e dar audiência.? Ratinho não descarta a possibilidade de mudar o estilo do programa em outros dias da semana. Mas acabar com o original, nunca. ?Gosto de ver quebrar o pau, não de machucar, mas de ver a confusão. Não existe quem não goste. O ser humano gosta disso, desde os tempos das arenas de Roma?, alega.

Desde que estreou no SBT, há seis anos, Ratinho é um dos principais artistas da emissora. Há algum tempo, o apresentador resolveu mudar sua postura, transformando o programa num grande circo. ?Pode ser trash, mas não faz mal a ninguém. Eu quero divertir sem fazer mal.?

Silvio Santos? – Dono de uma linha totalmente diferente da de Ratinho, Rinaldi, titular do programa de auditório que ocupa as tardes de domingo na TV Gazeta, também acaba divertindo sua platéia inofensivamente. Qualquer semelhança com Silvio Santos é mera coincidência.

O sorriso largo, a entonação da voz, os trejeitos com as mãos e o hábito de usar terno e gravata, garante Rinaldi, são características próprias. ?Acho que a roupa transmite credibilidade para o público?, diz.

O jeito de falar com o auditório e com as donas de casa também lembra o dono do Baú. Mas engana-se quem pensa que Rinaldi se incomoda com a comparação.

?É uma honra ser comparado com ele. Quando meu programa estreou, muita gente falou que eu era o novo Silvio Santos. Não tenho essa pretensão. Ele é único, um gênio.?

Rinaldi diz não querer ?copiar? Silvio Santos, mas confessa que se espelha no ídolo e acredita ter vários pontos em comum. ?Além de comunicadores, somos homens de negócios, empreendedores.?

Mas o sonho de Rinaldi vai além. Ele tem certeza de que será um dos maiores comunicadores da televisão. ?Sou um louco.? E banca sua aposta: ?gasto R$ 100 mil por mês e apenas R$ 20 mil são de anunciantes?. Só para se ter idéia, a verba do Programa do Ratinho é de R$ 240 mil mensais. E são 20 programas por mês. Mas convém considerar que o Programa do Rinaldi tem produção independente e paga pelo horário que ocupa na Gazeta.

Inacreditável – Sem fugir dos programas que produzem uma dose de humor acidental, o Vídeos Incríveis, da Band, está quase sempre entre os cinco programas mais vistos da emissora. Cenas reais mostram pessoas que sofreram todos o tipos de acidentes fantásticos e (inacreditável!) sobreviveram para contar a história. ?Lembro de dois ou três incidentes que resultaram em morte?, diz o dublador Gutemberg de Oliveira Barros, narrador do programa. ?O tom é cômico e debochado?, admite.

Gutemberg conta que é impossível lembrar de todas as pérolas da atração, mas conta um caso trágico, porém com desfecho fantástico. ?Na Coréia, um carro e uma moto seguiam atrás de um caminhão que carregava canos de ferro. Um dos canos se soltou e atravessou o peito dos dois motoristas, que ficaram espetados?, fala. E nenhum dos dois morreu e ainda foram a um programa de auditório comentar o milagre. E o texto final era: ?Esse churrasquinho é uma brasa!?

Outro programa da sessão inacreditável é o Ponto de Luz, religioso que vai ao ar na Record e na Rede Mulher. Mesmo sem crer na religião pregada no culto, o telespectador pode ser atraído para a frente da tela com a Sessão de Descarrego e, pasme, com uma entrevista exclusiva. Encostos falam porque estão acabando com a vida de alguns possuídos.

Funciona assim: o possuído, ou possuída, sobe ao palco para relatar todo o seu sofrimento. De repente, como que por encanto, baixa o encosto. O entrevistado muda o tom da voz, fala mais grosso e diz algo como ?aqui é o encosto?. Então, o encosto fala há quanto tempo e porque está naquele corpo.

Mais crédulos são os adolescentes que elegeram como ?ídolo? John Knoxville, do Jackass, programa da MTV americana, exibido aqui pela MTV Brasil e pelo Multishow. O moço em questão, com ajuda dos amigos, comete atos altamente masoquistas e, muitas vezes, se dá mal. Atenção: esse foge da linha inofensiva. Ele já colocou uma água-viva no rosto, entrou com uma sunga embebida em mel em área de apicultura, ateou fogo ao corpo, testou em si armas de defesa como aparelhos de choque e spray de pimenta…

Má influência? Talvez. Em Santo André, uma turma de amigos decidiu criar o Jackass Brasil na internet (www.jackassbrasil.com.br). Rafael Reserte, de 17 anos, faz parte do grupo, que já fez uma manobra com carrinhos de supermercado que rendeu uma torção no pulso de um dos integrantes. As peripécias da turma estão no site, que pode sair do ar por abandono do patrocinador. ?O legal é que fazemos coisas em locais conhecidos de Santo André?, diz Rafael. ?Já tiramos a roupa em uma locadora, essas coisas.

Então, sempre junta gente para assistir.?

Os argumentos de Rafael dão razão a Ratinho. Mas, para quem consome mais tempo diante da TV com esse tipo de cardápio, vale uma advertência como a do Ministério da Saúde nos comerciais de remédios: ?Ao persistirem os sintomas, procure um médico?.”

 

KUBANACAN

“Violência de novela é mais branda que a real”, copyright O Estado de S. Paulo, 20/07/03

“O departamento do Ministério da Justiça que cuida da classificação da programação da TV por faixa de horário está incomodado com o excesso de violência na novela Kubanacan. Acha que 7 horas da noite é muito cedo para o telespectador ver cenas de brigas e sangue cenográfico e, por isso notificou a Globo e pediu uma ?readaptação? da novela.

A emissora, claro, vai recorrer, mas essa atitude joga luzes sobre uma questão interessante: quer dizer que crianças e jovens precisam ser protegidos da violência de mentira da novela, mas estão liberados para assistir às caçadas policiais, tiroteios e o sangue de verdade que aparece diariamente nos programas policiais antes das 7?

O ministro Márcio Thomaz Bastos admitiu em recente entrevista ao Estado que sua Pasta não tem critérios para decidir o que era ruim ou bom na TV e que prepara uma ampla consulta à sociedade para estabelecer padrões de avaliação do conteúdo da programação. Então, é bem possível que a providência do ministério em relação a Kubanacan tenha sido provocada por alguma manifestação da sociedade civil.

A novela de Carlos Lombardi, que comemora um ibope importante na casa dos 40 pontos de média (na Grande São Paulo), entrou no ranking da baixaria do site www.eticanatv.org.br, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, por outro motivo. A comissão que promove a campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania recebeu 32 reclamações de cidadãos brasileiros sobre cenas de sexo ?inadequadas para o horário?.

É correto e justo ouvir os apelos do consumidor, mas quando se abre um canal para o público é natural que surjam manifestações que refletem preocupações até mais realistas do que o rei. O cidadão tem o direito de dizer o que quiser a respeito do que o incomoda na TV. A função do poder público é atendê-lo, claro, mas antes de tudo deve olhar a programação como um todo, não só o pedacinho que desagradou alguém.

No entanto, parece ser mais fácil (ou conveniente) pinçar o que foi levantado do que passar a programação a limpo. Ao se ater ao detalhe, o ministério dá uma satisfação ao público, sem se comprometer com a qualidade da TV que classifica.

Aqui entre nós, achar que uma novela vai estimular a infância e a adolescência a sair arrebentando tudo e socando o próximo é desmerecer a inteligência do telespectador. As confusões em que o protagonista de Kubanacan se mete estão mais para desenho animado do que para barbárie. Da mesma maneira, as sandices dos personagens Heloísa e Marcos, de Mulheres Apaixonadas, estão longe de tornar homicidas esposas e maridos ciumentos.

Se tivéssemos uma programação impecável, até se poderia chegar ao requinte de fiscalizar a ficção da TV em suas min&uacutuacute;cias para detectar desvios. Como é consenso que a qualidade da programação não é defensável por quem tem algum juízo, seria melhor olhar com mais rigor para os programas que realmente exploram a violência para extrair dela o seu sucesso no ibope, como Cidade Alerta, Brasil Urgente, Repórter Cidadão, Linha Direta, etc.

E deixar as novelas sossegadas, porque o público brasileiro é grandinho o suficiente para diferenciar a ficção da realidade.”

 

TV DESEDUCATIVA

“Há quem consiga viver sem televisão?”, copyright O Estado de S. Paulo, 20/07/03

“É dever da TV educar ou apenas entreter? Para o professor Valdemar Setzer, do Departamento de Ciências da Computação da USP, ?a solução é não ter TV?.

Simpatizante da pedagogia Waldorf (que valoriza o estímulo à imaginação), Setzer acredita que o aparelho produz um estado de sonolência no telespectador. ?A imagem é pequena e fixa, assim como o som e o ambiente, fazendo com que, nesse estado de sonolência, o telespectador não pense e passe a agir sob influência das imagens armazenadas no cérebro?, salienta Setzer, que é engenheiro eletrônico e professor do Departamento de Ciências da Computação da USP.

Autor do livro Meios Eletrônicos e Educação: Uma Visão Alternativa, Setzer, de 62 anos, diz que viu TV pela última vez no 11 de Setembro e no debate entre Serra e Lula. E nunca permitiu que seus filhos vissem TV. ?Só comprei TV em 91, quando um dos meus filhos praticava equitação e precisava assistir a vídeos de treinos?, fala.

Para o professor, a televisão não exerce nenhum tipo de função educativa.

?Além disso, acabou com a família, que deixa de conversar para ficar parada diante daquele aparelho. Se for inevitável ter o aparelho, que o deixem trancado. Se ficar num lugar acessível, a situação ficará incontrolável.?

Sim, a TV pode educar – ?A TV não acabou com a família, porque na maioria das vezes ela se reúne para assistir a algum programa?, rebate a educadora Márcia Leite, que acaba de concluir sua dissertação de mestrado sobre a televisão.

Há dois anos, ela iniciou uma pesquisa entre professores e educadores de todo o País para saber o que eles acham da TV. ?É uma perspectiva acadêmica achar que tudo na TV é ruim. Com essa pesquisa, ficou claro que todos assistem à televisão e são pouquíssimos os que não assistem por opção?, argumenta.

?E, como a variedade de programas é muito grande e a forma como cada um assiste também é diferente, o sujeito não pode ser considerado passivo, porque muitas dessas pessoas constroem seus conhecimentos a partir do que vêem na TV?, analisa.

Para ela, os professores que assistem à TV reproduzem modelos de programas no cotidiano da escola. ?No Nordeste, há uma escola onde os professores utilizam a dinâmica do Show do Milhão (SBT) para organizar a reunião de pais, e agora o encontro é um sucesso?, exemplifica.

Educadora e mãe de três filhos, Márcia crê que o ideal seja o adulto acompanhar a programação a que a criança assiste. ?Não digo que a programação seja ótima, mas, em vez de desligar, o pai ou mãe deve se sentar ao lado do filho e explicar as coisas que estão vendo juntos. É a forma de a criança desenvolver um olhar crítico diante do mundo.?”

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