Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Karla Dunder

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

QUINTO DOS INFERNOS

"?O Quinto? distorce personagens históricos", copyright O Estado de S. Paulo, 3/02/02

"A minissérie da Globo, O Quinto dos Infernos, de Carlos Lombardi, anunciada como uma versão bem-humorada da História do Brasil, vem sendo reprovada por historiadores desde a estréia, no dia 8. Para eles, trata-se de uma pornochanchada, devido ao uso de nus masculinos e femininos e à linguagem escrachada, que está muito distante da verdade dos fatos. A série garante 30 pontos no ibope, uma média respeitável para o horário das 22 horas.

A distorção dos fatos históricos é o que preocupa os historiadores.

Por meio do achincalhe, Lombardi faz uma caricatura dos personagens, retirando-os do contexto da época. Para o professor da Universidade de São Paulo Elias Tomé Saliba, a série apenas repete estereótipos grosseiros. ?Dom João VI é visto apenas como um glutão, Carlota Joaquina como uma devassa e o marquês de Marialva surge como uma eminência parda.?

Para Mary del Priore, também da USP, as figuras históricas representadas na série são apenas caricaturas. ?Essa imagem foi inspirada na bibliografia republicana e positivista do final do século 19 que, para afirmar a identidade do novo regime, enxovalhou o anterior.? Ronaldo Vainfas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, observa que uma caricatura não é construída de uma hora para outra, ela surge a partir de situações e fatos.

?É uma amplificação de traços críticos, às vezes ligados à História, outras, à memória.?

O Quinto apresenta d. João VI como uma criatura apática, sem opinião, covarde, à mercê dos acontecimentos. Mas, tanto para Saliba como para o professor Jobson Arruda, o comportamento de d. João foi uma saída estratégica diante das pressões que sofria. ?A neutralidade foi uma atitude sábia para lidar com a disputa exercida pelas duas potências, França e Inglaterra?, explica Arruda.

De acordo com Saliba, o comportamento ambíguo de d. João possibilitou a sua sobrevivência. ?Foi uma figura central para a compreensão do período. O imperador vivia entre a decadência e a crise da monarquia e enfrentava as pressões internacionais; a sua personalidade e suas atitudes permitiram a vinda da corte portuguesa e ele foi ainda um gestor do Estado brasileiro.?

Vainfas entende que o imperador foi a salvação de Portugal diante de Napoleão. ?A caricatura distorce a sua importância, ele conseguiu manter o Estado português e a unidade territorial no Brasil.? E Mary complementa: ?D.

João fez muito pelo País: criou a Imprensa Régia, o Banco do Brasil e trouxe a missão francesa que promoveu uma série de mudanças no campo das artes.?

Vainfas defende que uma das raízes desse tipo de visão distorcida foi a imagem negativa criada na época. ?Quando a corte chegou ao Rio de Janeiro, muitas pessoas foram expulsas de suas casas para dar lugar à nobreza.

Pregavam as letras ?P? e ?R? nas portas – que significava a tomada do imóvel para o príncipe regente – o que a população transformou em anedota e criou a expressão ponha-se na rua.? D. João também era adepto de algumas modas românticas, como o piquenique, o que para a sociedade brasileira da época foi um verdadeiro choque, uma vez que comer no chão, ao ar livre e com as mãos era um hábito de escravos.

Também d. Pedro I poderia ter recebido um tratamento mais sério. Na minissérie, o príncipe interpretado por Marcos Pasquim aparece boa parte do tempo vestindo ceroulas. A idéia é apresentar um personagem conquistador e muito sensual. ?Há registros dos traços compulsivos de d. Pedro, porém, se analisarmos os Bourbons, por exemplo, encontraremos mais escândalos, mas a questão não é essa. Ele não foi apenas um conquistador, foi um articulador político das elites, que assumiu o processo da Independência?, afirma Saliba.

?Posso afirmar que pesquisas recentes, com base em uma documentação inédita, atestam que foi d. Pedro, ele mesmo, o grande articulador da Independência.

Foi ele quem fez a ?costura? do movimento que decidiu os destinos do Brasil?, conta Mary. De acordo com Vainfas, d. Pedro foi um elo entre a monarquia portuguesa e o Brasil independente. ?É interessante observar que há dois momentos distintos, um em que ele é visto com simpatia como um jovem príncipe rebelde, que deflagra a Independência e, depois, como uma pessoa intransigente, que não se curvava à Assembléia. Seu governo foi marcado pela truculência, criou uma série de atritos e ressentimentos que ficaram enraizados no imaginário.?

Vista apenas como uma mulher sedutora na minissérie, a relevância histórica de Carlota Joaquina ficou em segundo plano. ?Carlota era tida como uma rainha católica, tradicional, contrária às reformas liberais e uma defensora do antigo regime?, observa Vainfas. Segundo ele, a idéia de uma mulher impulsiva nasceu a partir do romance A Rainha Devassa, de João Felício dos Santos. ?Esse livro não possui rigor factual, não pode servir de base para uma pesquisa. Carlota pode ser considerada uma referência política, ligada aos interesses conservadores e responsável por uma série de articulações na região do Prata.?

Toda a caricatura, afirma Saliba, serve como elemento narrativo da história, desde que consiga, através do exagero e do contraste, trazer ou sugerir elementos do contexto histórico mais geral. ?A narrativa histórica, quer esteja imbuída de ficção televisiva ou da busca da verdade, é subjetiva, mas, os fatos continuam lá, esperando serem desenterrados pela melhor narrativa, que será aquela que melhor conseguir reatar os laços do passado com o tempo presente.?"

 

GLOBO EM XEQUE

"?A Globo assume poder divino?", copyright Folha de S. Paulo, 3/02/02

"Insatisfeito com seu papel na minissérie ?O Quinto dos Infernos?, o ator Ewerton de Castro, 56, resolveu pedir demissão da Globo. A seguir, a entrevista que ele concedeu ao TV Folha em sua escola de teatro, em São Paulo.

Por que você pediu demissão da Globo?

Não fui respeitado artisticamente. Meu personagem em ?O Quinto? [Cauper, um comerciante? não tinha falas e nunca era enquadrado pela câmera. Não pensei que eles chamariam a mim, um profissional com 34 anos de carreira, para fazer praticamente uma figuração.

Como a emissora reagiu?

Perguntaram milhares de vezes se eu tinha certeza do que estava fazendo. A relação que existe entre a Globo, todo-poderosa, e os atores é tão injusta que, quando alguém diz ?não?, eles dizem que não ouviram direito. Eles não acreditam que alguém não queira trabalhar lá. Sabem que há uma fila na porta implorando para entrar a qualquer preço.

Qual é o efeito dessa postura da Globo no mercado de teledramaturgia?

A Globo está mal-acostumada. Acaba sucateando o mercado. Eles pensam assim: ?Todo mundo quer trabalhar aqui, então não precisamos tratar bem ninguém.? Isso, de certa forma, é repetido por outras emissoras. Há atores que já tiveram muita fama e são tratados como mendigos quando vão pedir trabalho.

Por que eles não conseguem?

A Globo acaba assumindo uma espécie de poder divino. Mas eles fazem isso para sua auto-estima cair e você começar a aceitar qualquer coisa que eles oferecerem. Abençoados são os que não precisam da TV para viver.

Você voltaria à Globo?

Se me respeitarem artisticamente, posso até voltar. O que tenho recebido de parabéns de colegas meus…"

 

GLOBO CABO EM CRISE

"Globo Cabo continua a provocar dor de cabeça à família Marinho", copyright Cidade Biz, 29/01/02

"A troca de comando da empresa mais problemática da constelação de negócios da família Marinho, a Globo Cabo – operadora de TV por assinatura e de acesso à internet em banda larga, Vírtua – não foi suficiente para estancar a sangria no caixa e as perdas de clientes. Em setembro, Luiz Antonio Viana, deixou a presidência da BR Distribuidora com a missão de tentar reconstruir o desastroso negócio em que a Globo Cabo se transformou.

De lá pra cá, a empresa registrou queda de 1,5% em sua base total de assinantes na comparação com o trimestre anterior, de acordo com o balanço de resultados operacionais enviado à Bovespa nesta terça. No fim do ano, a empresa tinha uma carteira de 1,447 milhão de assinantes, incluindo os temporariamente desabilitados. A base de pagantes encerrou o quarto trimestre em 1,428 milhão, 1,4% a menos que os 1,449 milhão do período entre julho e setembro.

Mesmo assim, o resultado, segundo a operadora, está de acordo com as expectativas de suas expectativas por conta da estagnação da economia brasileira desde o segundo trimestre de 2001. O desempenho da taxa de desconexão, o chamado churn rate é um sinal disso, informa a Globo Cabo. O indicador anualizado do trimestre ficou em 19,3%, contra 24,9% do terceiro trimestre.

Após a elevação no terceiro trimestre em função do reajuste de mensalidade o churn rate voltou para os patamares que vinha sendo apresentado anteriormente, abaixo de 20%, e dentro de um quadro que a Globo Cabo entende como normal, diz a empresa em comunicado.

Dentre os motivos das desconexões solicitadas pelos assinantes da operadora, 37% justificaram a decisão por questões financeiras e pessoais. A mudança de cidade e para aéreas sem cobertura representou 23% do total. A migração para a concorrência ficou em 5%.

No Vírtua, as vendas do último trimestre de 2001 cresceram 10,2% na comparação com o trimestre anterior. A penetração sobre a base de assinantes de TV por assinatura subiu de 3,3% para 3,7%. O churn rate no período, no entato, caiu para 13% ante 16,2% no anterior.

A operadora admite que o lucro operacional antes do pagamentos de juros, impostos, depreciação e amortização – Ebitda – de 2001 deve ficar 5% menor do que o esperado. Ou seja, entre 280 milhões de reais e 300 milhões de reais. O motivo é o lançamento de uma provisão de custo extraordinário no balanço, que terá impacto negativo na margem do quatro trimestre.

Para justificar esse lançamento, a Globo Cabo considera a hipótese de reaizar um pagamento de curto prazo às programadoras de canais de filmes. O objetivo, esclarece a empresa no comunicado, é tornar o principal custo mais previsível no longo prazo."

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