Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > BAIXARIA & VIOLÊNCIA

Karla Monteiro

Por lgarcia em 06/06/2001 na edição 124

ASPAS

BAIXARIA & VIOLÊNCIA

"Pega pobre", copyright no. (www.no.com.br), 4/06/01

"Às segundas, a partir das 22h45, vale tudo pelo Ibope na Rede TV. É dia de João Kleber. Comandando o programa ?Eu vi na TV?, o humorista apostou na batida fórmula dos ?reality shows? americanos e tem faturado a audiência. Quando ele entra no ar, a nanica emissora, criada há pouco mais de um ano, salta para o segundo lugar no Ibope e já chegou até mesmo a bater a Globo. O ápice do programa fica por conta do ?Teste de Fidelidade?, o quadro onde uma esposa insegura assiste ao vivo a gravação de uma pegadinha com o marido.

A vítima, sempre o homem, é persuadida por uma atriz do tipo popozuda a escorregar no juramento máximo do matrimônio – ser fiel para sempre. Daí em diante, fica por conta do apresentador esmerar-se no sensacionalismo para promover a guerra entre o casal na frente das câmeras e com platéia. João Kléber é bom nisso, diga-se de passagem. Ratinho deve estar se mordendo de inveja. ?A imprensa critica o meu programa. Mas todo mundo assiste, desde a alta sociedade até a classe Z?, comemora o humorista.

No programa de hoje a produção do ?Eu vi na TV? tem um grande desafio pela frente: superar o ?Teste de Fidelidade? exibido na semana passada. Na opinião de João Kléber, o ?mais sensacional de todos os tempos?. Leia-se por ?sensacional? os sopapos e safanões que Helena, a esposa da vez, tentou dar no marido, o pedreiro Sebastião, após assistir a gravação da pegadinha. No vídeo que foi ao ar, entre declarações do gênero ?eu sou seu vampiro?, ?vou te chupar inteirinha? e ?espera para ver entre quatro paredes?, o pedreiro chegou a dar um beijo – sem língua – na atriz contratada do programa.

Enquanto a gravação era exibida, Helena fazia cara de poucos amigos. No final do vídeo, Sebastião, escondidinho nos bastidores, recusou-se a entrar no estúdio para discutir a relação, como sempre acontece. João Kléber foi para o backstage convencê-lo, arrastando com ele os câmeras. Os telespectadores, claro, não viram o humorista fazer sinal para continuar sendo filmado. Sebastião não teve o direito de escolha de aparecer ou não. Neste momento, a glória de João Kléber: Helena saiu correndo do estúdio, invadiu os bastidores e partiu para o ataque literal. Sobrou empurrões também para o apresentador. A noite terminou com João Kléber dizendo – com ar de sincera preocupação – que faria a reconciliação do casal.

É difícil não se perguntar como as pessoas autorizam a exibição da pegadinha e ainda aparecem na sede da Rede TV para pagar o mico ao vivo nas noites de segunda. Fica fácil entender, no entanto, quando se penetra na produção do programa. Por ali, os participantes são abertamente chamados de ?vítimas?. O diretor de cena do teste, Raul Garin, é mestre na arte de persuadir os maridos e sabe estimular a ilusão de que aparecer na televisão é um privilégio. Segundo ele, a persuasão depende apenas do ?jeitinho?.

?Depois de pronta a gravação, saio do meu esconderijo, me apresento e digo que quem mandou fazer o teste foi a esposa?, conta Garin. ?Aí começo a convencer a vítima. Digo coisas do tipo: sua mulher me garantiu que você ia agarrar a modelo, beijá-la e levá-la para um motel. Parabéns. Você foi ótimo?, completa. No final do papo, o maridão sai todo prosa, achando que o que fez não foi nada diante da beleza e competência da modelo contratada para seduzi-lo. Vale lembrar: sempre um mulherão com pouca roupa. ?Eu peço sensualidade. Nunca baixaria?, garante o diretor. E para garantir a privacidade das ?vítimas?, Garin dá uma colher de chá: não revela os sobrenomes dos participantes.

Para colocar o ?Eu vi na TV? no ar, os oito integrantes da produção de João Kléber suam a camisa. Trabalham das 10h até o final do programa, por volta da meia-noite. ?Não dou trégua. No início da manhã, já ligo para saber se todo mundo chegou?, conta o humorista, apelidado nos corredores da Rede TV de Gugu (Liberato, apresentador do SBT), pelo hábito de checar o Ibope a cada intervalo do programa. Só para o teste de fidelidade são cerca de 80 ligações por dia. Os encarregados da triagem têm na ponta da língua as característica da vítima ideal: não assiste o programa; tem uma profissão que facilita o trote, como eletricista, bombeiro e pedreiro; extrovertido e assanhado. ?Não pode ser um açougueiro, por exemplo. Ele não vai sair do açougue para encontrar a modelo. Tem que ser alguém que possamos atrair para as locações?, explica Garin. ?Quando marcamos o teste, já sabemos exatamente como é o marido e a vida do casal?, comenta. De acordo com ele, as esposas imploram para testar os maridos.

Claque

O programa do humorista João Kléber é o modelo de como se fazer televisão sem gastar dinheiro e ainda ganhar a atenção da audiência. O cenário é de arrepiar – painéis com imagens de várias cidades brasileiras são o pano de fundo para o grupo Lambatuque rebolar ao som de uma trilha sonora para lá de cafona. Nem a performance e nem os modelitos das meninas lembram o bons tempos das Chacretes. Chacrinha, aliás, foi um dos padrinhos de João Kléber no início dos anos 80. O ?querido auditório? é formado por menos de 80 pessoas, que se espremem em uma arquibancada improvisada.

O melhor no conjunto da obra, no entanto, é o ?animador de platéia?, Manoelito, de 34 anos, um sujeito magrelo e caricato que se aboleta em cima de duas caixas de madeira para comandar os sorrisos, as palmas e as caras fúnebres – às vezes necessárias nos momentos dramáticos – dos convidados. Se você algum dia se aventurar nos estúdios da Rede TV, vai encontrá-lo e, com certeza, ele vai se apresentar assim: ?Eu sou aquele que desceu do avião para despistar a imprensa quando o Michael Jacskon veio ao Brasil, em 1986. Aqui todo mundo me chama de Michael. Mas meu nome é Manoelito. Só Manoelito.?"

"Ser diferente é fazer tudo igual no domingo", copyright O Estado de S. Paulo, 2/06/01

"A disputa pela audiência incomoda muita gente, especialmente Fausto Silva. Isso ficou claro no domingo, quando o gordo foi colocado na berlinda por Xuxa – integrante da força-tarefa Xuxa-Faustão, convocada pela emissora para enfrentar ao vivo o adversário do SBT, o Domingo Legal – e abriu para o espectador o que ele percebia pelos comentários dos colunistas da fofoca: o desespero que ronda a Globo aos domingos.

Ao questionar espontaneamente (dizem que orientada pela diretora Marlene Mattos) o colega sobre seu estado de espírito – ?Você está de mau humor? -, Xuxa provocou o desabafo, cuja reclamação central foi a marcação de um setor desqualificado da imprensa que, segundo Faustão, mente e não perde o emprego.

Desconcertado (?Pô, Xuxa, só você mesmo para me fazer essas perguntas?), o apresentador mostrou que sofre com a insistência da mídia em compará-lo com os concorrentes, dizendo que se nega a explorar a miséria e o choro gratuito para levantar sua audiência. O show de confidências, no entanto, não alterou o quadro na disputa pela liderança: mais uma vez, Gugu Liberato venceu a Globo por 28 a 23.

Quem acompanhou a contenda pôde entender que uma coisa é o discurso, a outra é a prática. Com pequeníssimas exceções, o menu dos programas foi igual e concomitante. Explico: enquanto Luciano Hulk, vestido de camareira ?invadia? a suíte nupcial do boxeador Popó e da mulher para mostrar a intimidade dos pombinhos, o Domingo Legal exibia uma longa entrevista gravada com o casal. Zezé de Camargo e Luciano estavam no estúdio de Xuxa – ao vivo, e na tela do SBT participando em videoteipe.

Espionagem pode ser um pouco forte, mas o espectador percebeu claramente a bisbilhotice recíproca quando Gugu chamou ao palco a cantora-aniversariante Ivete Sangalo e imediatamente Xuxa interrompeu sua fala para mandar beijos para Ivete pela data querida.

O choro que Faustão buscou promovendo uma espécie de ?esta é a sua vida? com o técnico vitorioso Wanderley Luxemburgo pode não ter sido tão gratuito para os corintianos, mas pareceu um pouco forçado para outras torcidas.

E levar ao estúdio a mulher à procura do filho biológico, trocado há 22 anos na maternidade, e promover o encontro dela com um garoto nascido no período para abrir um exame de DNA, enfraqueceu a sobriedade retórica de Faustão ao criticar a concorrência. Por mais que um assunto seja lapidado, maquiado, ou o que quer que seja, é visível que a batalha pela audiência mata uma possível diversificação na TV dominical. Fica meio cínico afirmar ?eu sou diferente? e fazer igual, mas o perigo de errar (entenda-se ir mal de audiência) provoca uma paralisia criativa e joga todas as equipes de produção na mesma vala.

E quem sai perdendo, como sempre, é aquele que gostaria de variar o cardápio do domingo. Pelo menos, de vez em quando."

"Globo intimada por copiar Saraiva", copyright O Estado de S. Paulol, 4/06/01

"Pode acabar em um acordo de cavalheiros a audiência, marcada para amanhã à tarde, do processo dos herdeiros do humorista Ary Leite contra a Globo.

Impetrado na 15? Vara Cível do Rio, em 1999, o processo é uma reivindicação da família do humorista sobre os direitos autorais do quadro Saraiva, exibido no programa Zorra Total, mais conhecido pelo bordão ?Tolerância zero?.

Segundo o advogado da família de Leite, Eduardo Pimenta, o personagem Saraiva e seus bordões foram criados pelo humorista na década de 50 e estão sendo utilizados pela Globo desde 1999 sem nenhum direito autoral pago à família. A versão atual do quadro do Saraiva é feita por Franscisco Milani e Stella Freitas, que faz a personagem Carolina, mulher de Saraiva. Leite morreu há 15 anos.

?A dívida da emissora com a família já deve estar acima dos R$ 30 milhões, mas sinto que estamos perto de um acordo. A Globo tem interesse em resolver esse processo.?

O advogado alega que o próprio Chico Anysio, criador do Zorra Total, já concedeu entrevistas dizendo que Ary Leite é o criador do personagem e a família dele deve exigir seus direitos."

"Botocudos em slow motion", copyright no. (www.no.com.br), 31/05/01

"A campanha Paz no Futebol, da Globo, tem o depoimento de vários astros do esporte pedindo que não se entre mais de sola na bola. Justo. Nas arquibancadas e no gramado o pau está comendo. A Globo, no entanto, poderia dar sua colaboração parando de reproduzir em câmeras lentas, em câmeras exclusivas, em câmeras +, os lances de falta dos botocudos. Até mesmo nas chamadas para os jogos a Globo usa imagens de carrinhos, principalmente aqueles que levantam grama em slow motion. No outro dia, o Juninho deu um drible por debaixo da perna de um sarrafeiro desses. Sabe quantas vezes o lance foi repetido? Nenhuma. Lance de estilo no meio de campo nunca merece replay. Faltas, todas. Paz no futebol e na tela da Globo.

O som da Mamãe Dolores

Já é espantoso que se coloque no ar novamente a família do Albertinho Limonta, Mamãe Dolores, Don Rafael, Jorge Luis, Maria Helena e outros, gente que assombra os brasileiros desde meados dos anos 50 quando estreou o primeiro capítulo de O Direito de Nascer. Mas é coerente com a dramaturgia que Sílvio Santos quer para o SBT. Nada de modernidades da linha global de telenovela. Sílvio curte o dramalhão mexicano. O mais tosco da volta, esta semana, de O Direito de Nascer, em sua nova fase SBT, é o inacreditável uso da trilha sonora. Violinos tocam do início ao fim da novela. Não importa se a cena é de tristeza ou alegria. Eles seguem na mesma lenga-lenga charoposa.A ação passou da estação de trem para a fazenda? Não importa. Os violinos seguem tocando a mesma melodia. O operador de áudio tem o único cuidado de dar uma abaixada no som na mudança do cenário mas logo aumenta de novo e o som segue, sem qualquer sentido, sem comentar nada, apenas atrapalhando a audição das falas. É de morrer de rir.

Apagaram o Stevie Wonder

A peruca da Sonia Abrão fazendo merchandising de cemitério no A Casa É Sua, da Rede TV!, foi dose. A Babi na propaganda do Sempre Livre Adapt, deixando pingar uma gotas azuis, de princesa, no absorvente também. Mas o nada supera em ruindade televisiva, no bom sentido, claro, Os Piores Clipes do Mundo, do impagável Marcos Mion. Esta semana ele radicalizou no politicamente incorreto e tascou Stevie Wonder, coitado, como exemplo de escuridão a que se chega depois de muito tempo desperdiçando energia. Era um especial sobre apagão. Rola um clipe das Spice Girls e surge a tabuleta informativa: Você sabia que a energia que as Spice Girls gastam só em secador de cabelos daria para iluminar toda a cidade de São Paulo? Por isso, reforça-se a campanha: nãatilde;o caia, Mion, no papo da Globo. Fica frio na MTV.

?Documentos, documentos?

O programa Cidade Alerta, da Record, poderia ser um semelhante televisivo de uma tendência de imprensa: jornais populares mas editorialmente equilibrados, sem deixar que o sangue escorra no colo do freguês. Trazem audiência e não assustam o anunciante. Mas o Cidade Alerta ainda tem muito chão pela frente. Policialesco, o apresentador José Luis Datena investe em qualquer assunto como se fosse um policial pedindo ?documentos, documentos?. Sempre aos berros. Na pautaaparecem assuntos de cidade, gente e política. Mas o tom é de que tudo foi editado na mesma mesinha de alguma velha delegacia. Datena, que em outros tempos era conhecido como Datrena, por invadir gramados de futebol com uma trena para marcar a distância de onde o craque tinha feito, Datrena cansou e não mede mais nada: grita demais, força a mão no valor das notícias e mete sempre o dedo na cara do espectador. Nesta quinta-feira ele anunciou a vitória de Guga em Roland Garros balançando o dedo em riste na frente da câmera. Depois de gritar ?documentos, documentos?, parecia trocar de veemência: ?Confessa, Guga, confessa?.

Chocalho na burrice

Não são só os candidatos do Show do Milhão. Em qualquer game show que exija respostas de conhecimentos gerais o resultado é o mesmo: estamos ficando mais pobres, sem luz e burros demais. O Interligado Games, da Rede TV!, para adolescentes, tem um desses quadros. Perguntaram a um estudante de 16 anos: Nome da cobra que tem um chocalho no rabo? Silêncio. Estado em que fica a cidade de Olinda? Goiás. O programa, aliás, é um esforço monumental para que o país piore. Como prêmio por ter errado as perguntas, estoura-se uma bomba de farinha de trigo na cara do candidato. Nem uma cascavel em Pernambuco faria tanto estrago."

    
    
                     

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