Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / LORENA CALÁBRIA

KJ e Renata Gallo

Por lgarcia em 12/02/2003 na edição 211

ENLATADOS NA TV

“O custo-benefício dos enlatados”, copyright O Estado de S. Paulo, 9/02/03

“Se a Globo comemora ao anunciar que sua Escrava Isaura foi vendida para mais de 80 países, o que faria se tivesse produzido a açucarada Maria do Bairro, trama mexicana comercializada para 180 países? Você pode xingar à vontade, dizer que não gosta, mas o fato é que, cada vez mais, as novelas ?enlatadas?, aquelas que vêm prontas do exterior, invadem a nossa praia e criam seu público fiel. Na verdade, a Globo exporta para menos países que os mexicanos até porque seu preço de venda é, assim como no custo de produção original, bem mais alto. A diferença entre a qualidade de uma e de outra é evidente.

Mas acreditar que o público que assiste a essas novelas estreladas por atores com camadas extras de pancake é formado pelas classes mais baixas é bobagem. Um bom exemplo disso é a colombiana Betty, a Feia, da Rede TV! De acordo com o Ibope, 40% do público da novela está entre as classes A e B (veja quadro ao lado). A história da menina feia que se apaixona por um bom partido já foi vista em cerca de 70 países e garante à rede uma média de 6 pontos de audiência.

Ensaiando há anos retomar seu núcleo de teledramaturgia, a Record também passou a investir nas enlatadas, exibindo Joana, A Virgem, desde o ano passado. Com média de 5 pontos de audiência e todo seu espaço comercial vendido, a trama abriu espaço para mais uma enlatada, Um Amor de Babá, que estréia em março.

Para não ficar para trás, Silvio Santos trouxe para seu canal Viva as Crianças, uma espécie de Carrossel 2, continuação do fenômeno que chegou a incomodar a trama das 8 da Globo, O Dono do Mundo (1991). Há apenas duas semanas no ar, a novelinha infantil vem registrando média de 16 pontos no horário. Também é impossível ignorar o resistente Chaves, que há quase 20 anos na programação do SBT e com apenas 160 capítulos, consegue manter médias de 14 pontos, muitas vezes, vencendo a Globo no Ibope.

Feitiço Cucaracho – Então a pergunta é: por que um país com uma tradição em novelas como o nosso se mantém enfeitiçado por essas produções?

Para o representante da distribuidora de novelas latinas Tepuy, Roberto Filippelli, é um erro nos chocarmos com a invasão cucaracha, pois os folhetins brasileiros nada têm a ver com o folhetins mexicanos, colombianos e venezuelanos. ?São produtos diferentes e existe público para todos?, diz ele. Filippelli, que já foi diretor da Globo na Europa, explica que a diferença crucial está na narrativa e no número de tramas paralelas que existem nos dois tipos de novela. ?A trama brasileira tem 40 personagens e milhares de núcleos interligados por uma trama principal. Se um núcleo não der certo, o autor aposta em outro. A trama mexicana é bem mais simples?, continua. ?Há poucos núcleos e a história é focada nos personagens principais. Também não há mudança drástica: a mocinha sempre será boa e a vilã, má. O que não quer dizer que a história seja ruim, pelo contrário, ela é de fácil entendimento e prende mais a atenção.?

O fenômeno mexicano já criou frutos no SBT, que tem uma sólida parceria com a rede Televisa – a maior produtora de teledramaturgia do mundo. A emissora brasileira decidiu temperar o enlatado com algumas pitadas tupiniquins e passou a refazer as tramas com atores nacionais. Amor e Ódio, Marisol e Pícara Sonhadora circularam pelo horário nobre da rede. A Pequena Travessa, que está no ar atualmente, tem média de 14 pontos de ibope. Até abril, o SBT deve colocar no ar sua quinta produção, Jamais Te Esquecerei.

A Globo tentou fazer o caminho inverso e se deu mal. Para tentar entrar no mercado internacional, fez uma parceria com a rede Telemundo. Juntas, fizeram uma adaptação hispânica de Vale Tudo, que foi exibida nos EUA. O que era sucesso garantido se transformou em mico. A trama brasileira acabou mais cedo que o previsto e foi batida no ibope por O Privilégio de Amar, da Televisa, exibida pelo SBT no final de 1999.

Para o diretor Jaques Lagoa, do SBT, as novelas enlatadas não podem ser consideradas subproduto. ?Há um grande preconceito em relação à novela mexicana, mas o público está nos mostrando que estamos no caminho certo.?

Lagoa rebate as críticas sobre o excesso de melodrama nos enlatados dizendo que não há enredo sem conflito. ?Como contar uma história em que tudo é um mar de rosas?? No entanto, Lagoa admite alguns truques, como diminuir os gestuais, eliminar chapéus e amenizar a maquiagem para aproximar a trama enlatada do paladar do brasileiro.

A grande vantagem de se comprar uma obra pronta, de acordo com ele, é que não se corre risco algum. ?As novelas já foram testadas e é possível fazer um estudo mais detalhado da história.? No ato da compra, a emissora já sabe quantos cenários irá utilizar, quantas locações irá fazer, o gasto que terá, e os atores já sabem o começo, o meio e o fim de seus personagens. ?Não corremos o risco de ter de mudar a linha do personagem ou de autor?, diz ele, referindo-se à tumultuada saída de Benedito Ruy Barbosa da novela Esperança, da Globo.

Tudo é dramalhão – O autor do livro A Hollywood Brasileira e doutorando em teledramaturgia pela USP, Mauro Alencar, é fã confesso das tramas enlatadas. ?As histórias são bem contadas, têm temas universais e interessantes.? Uma de suas preferidas é A Usurpadora, exibida pelo SBT em 1999. ?É provado que o povo latino adora melodramas e o dramalhão é o melodrama levado ao extremo. Está na A Usurpadora, na Mel enfurecida, de O Clone, e na Helena se jogando aos pés do Atílio, em Por Amor.?

Aliás, Alencar lembra que as primeiras novelas nacionais nada mais eram do que cópias das mexicanas. Na década de 60, a cubana Glória Magadan, que deu origem à teledramaturgia brasileira, era a encarregada de fazer as adaptações das tramas para a Rede Globo. ?O padrão usado pela Televisa é o mesmo usado por Glória, que introduziu a telenovela no Brasil.?

Para ele, não há como negar a qualidade das novelas globais, que são insuperáveis, mas na TV brasileira há espaço para todo mundo. ?Nossas novelas são de tirar o chapéu, mas podemos ficar com a mexicana, com a brasileira e com a brasileira-mexicana.?

Renata Pallottini, do Núcleo de Pesquisa de Telenovela da ECA/USP, tem opinião diferente. ?Se o produto fosse melhor ou se emparelhasse com o nosso, tudo bem, mas a qualidade é inferior.? Para ela, as enlatadas são piores tecnicamente, repetitivas e pobres. ?A iluminação é ruim, a maquiagem é over, parece que todo mundo é laqueado de tanto spray de cabelo que se usa?, completa.

A visão estética dos mexicanos, argumenta Renata, é diferente da nossa, assim como a sociedade, por isso as tramas são estranhas aos brasileiros. O ideal, diz, seria que as emissoras tentassem investir em obras genuinamente nacionais. ?Éramos Seis, do SBT, foi muito boa, assim como Pantanal, da extinta Manchete. Se criarem um bom núcleo, qualquer emissora pode fazer um bom trabalho.?

Protecionismo é mito – Filippelli, da Tepuy, que é sócia de várias emissoras hispânicas pelo mundo, discorda. ?Não adianta falar que as mexicanas tiram emprego de atores brasileiros e que o espaço que elas ocupam poderia ser preenchido por produção nacional?, diz ele. ?A verdade é que, tirando a Globo, as outras emissoras não têm condições de produzir a mesma cota de dramaturgia que elas importam. Não haveria mais novelas nacionais.?

Comprar enlatados realmente dá lucro. Enquanto um capítulo de novela da Globo consome cerca de R$ 100 mil, um da mexicana Televisa não custa mais que R$ 60 mil e é vendido aqui por cerca de R$ 5 mil. Enquanto a trama das 8 da Globo ganha cerca de R$ 170 mil por cada 30 segundos em seu intervalo comercial, uma cucaracha do SBT não rende mais do que R$ 45 mil. Mas o lucro é certo e imediato.

Tamanha economia na produção das mexicanas é fácil de entender. Não há construção de cidades cenográficas, como aqui. Os cenários são poucos, mal acabados e parecidos com os de peças teatrais (só com fachadas). Quase não há cenas externas. Quando o personagem viaja, um pôster ao fundo do estúdio indica onde ele estaria. Os figurinos são reaproveitados e é normal ver o galã com o mesmo terno em 30 capítulos. O enquadramento das cenas também é sempre o mesmo: cheio de closes nos rostos das personagens para disfarçar a precariedade da produção. Ah, os atores não decoram os textos, usam ponto eletrônico.

Na opinião do diretor Nilton Travesso, que entre outras empreitadas fora da Globo comandou o núcleo de dramaturgia do SBT nos idos de Éramos Seis e integrou o comando da Manchete na era Pantanal, o que atrapalha a produção nacional é justamente a ânsia da emissora em ter retorno imediato. ?A Globo tem 35 anos de tradição, não há como brigar com ela na primeira tentativa. TV é hábito?, diz.

A pressão por bons resultados, segundo ele, não é só da rede, mas também dos patrocinadores, que não querem investir num alvo duvidoso. ?Os anunciantes querem saber apenas da audiência.?

A maior dificuldade de fazer algo competitivo, para Travesso, é montar toda a estrutura necessária à telenovela. Quando fez Serras Azuis (1998) na Band, ele gastou cerca de R$ 80 mil por capítulo. ?Tivemos de começar do zero. Não há como readaptar figurino ou cenário. Tem de construir e fazer tudo novo e isso encarece a obra.?”

 

ENTREVISTA / LORENA CALÁBRIA

“?Fui uma espécie de pré-VJ?”, copyright O Estado de S. Paulo, 9/02/03

“Muito antes de a MTV lançar a moda ou pensar em fazer concurso para achar novos VJs, a apresentadora Lorena Calábria já falava de música.

Lorena, que teve de fazer aula de teatro para conseguir vencer a timidez e olhar de frente para a câmera, diz que foi uma espécie de pré-VJ e acompanhou o começo dos videoclipes quando trabalhou no programa Clip Clip, da Globo.

Depois de ficar à frente do Metrópolis, da Cultura, por sete anos, há três Lorena diz que recebeu a proposta de seus sonhos: comandar um programa de entrevista e outro de MPB, com total liberdade. Seu Ensaio Geral, no Multishow, é o carro-chefe do canal e, apesar de o Bate-Papo Digital não voltar à grade este ano, ela já tem planos para mais dois novos projetos na rede.

Atualmente, a carioca aguarda em seu apartamento em São Paulo a chegada de Dora e Catarina – está no oitavo mês de gestação e fala sobre sua carreira e do prazer que sente em trabalhar.

Estado – O que você trouxe da Cultura para o Multishow?

Lorena – Eu sempre procurei dar meu toque pessoal no Metrópolis e não respeitar tanto o que estava escrito. Mesmo porque eu não enxergo direito. Tinha o TP (teleprompter: aparelho onde aparece escrito o texto do apresentador), mas não conseguia ler. Eu lia o texto antes e falava meio de cabeça, achava melhor do que ficar apertando o olho para enxergar. E com isso sempre falei de um jeito muito coloquial. Até hoje converso com os entrevistados muito à vontade.

Estado – Como foi sua saída da Cultura?

Lorena – Adorei trabalhar no Metrópolis, mas depois de sete anos comecei a sentir que fazia muito tempo que estava fazendo a mesma coisa. Na época, já estava fazendo um programa de cinema no canal USA. Era uma versão brasileira de um programa pronto e recebi um convite do Multishow. Ficou acertado um programa de entrevista e um de MPB. Só pensei: obrigada, era tudo o que eu queria.

Estado – Você inaugurou na TV um ?talk show? diferente, o ?Bate-Papo Digital?. Como foi?

Lorena – O início foi um pouco complicado. O programa era ao vivo para a internet e eu tinha de digitar a entrevista e sentia que os convidados não ficavam muito à vontade, falavam pausadamente para eu poder acompanhar. Não escrevia tudo o que eles diziam, tentava resumir, mas, muitas vezes, saía com erro para a internet. Depois mudamos e colocamos uma pessoa em outra sala para digitar a conversa. O legal é que na internet a conversa tinha bastidores, porque, às vezes, parávamos de gravar, mas o áudio continuava valendo e ia para a internet. Era engraçado porque parava a gravação e começava a fofoca.

Estado – Por que o ?Bate-Papo? não volta à grade este ano?

Lorena – Depois de dois anos e meio, os convidados começaram a se repetir. E na TV a cabo não podemos fazer muita coisa factual porque os programas são reprisados várias vezes. E é difícil ter novidade, vai parecer sempre que é o mesmo programa.

Estado – Quais foram as melhores entrevistas?

Lorena – Foram muitas. A com o Paulo José foi emocionante, a do Paulo Autran e Raul Cortez também foram ótimas. E a do Mojica (José Mojica Marins, o Zé do Caixão), que é sempre divertido.

Estado – O que você faz no ?Ensaio Geral??

Lorena – Faço tudo, mas o que mais gosto é da pesquisa. Minha preocupação, desde o início, foi fazer um programa que não fosse pautado na agenda do artista, porque fica sempre a mesma coisa em todos os canais.

Estado – Como você inicia suas pesquisas para o programa?

Lorena – Tenho uma memória muito boa e sempre faço uma lista de coisas que tem a ver com a carreira do artista. Este trabalho demora, no mínimo, duas semanas. O programa, muitas vezes, é retalhado. Uso várias coisas do acervo do canal, que já é bem legal. Peço coisas para os artistas trazerem. Tem também os temáticos, como o que relacionou música com futebol, o de funk e soul brasileiro, e as partes fixas. Os artistas adoram a Hora do Bis, já sabem o que vão pedir, e a Canja, quando eu peço para cantar uma música – nunca a que estão trabalhando, porque esta, a gente já escuta na rádio.

Estado – Na Cultura, você também fazia entrevistas com artistas. É a mesma coisa?

Lorena – Não, porque tinha muito pouco tempo, uns cinco minutos. Fazia duas perguntas e já estava na hora de acabar.

Estado – Como vai ser a rotina de conciliar trabalho e maternidade?

Lorena – Gravei muitos programas no fim do ano. Fevereiro é mês de reprises, depois terão alguns inéditos. Acredito que volte a gravar em maio. E meu trabalho depende só de mim, trabalho muito em casa, posso me programar.

Estado – Você tem vontade de se aventurar por outra área?

Lorena – Em 90, quando fui fazer um teste na Cultura, tinha a possibilidade de trabalhar em áreas distintas: no Metrópolis e no jornalismo. Até fiquei tentada, mas sempre quis trabalhar na área cultural. Fui uma pré-VJ, quando fiz o Clip Clip, na Globo. A gente usava material importado e era uma espécie de pré-videoclip. Tinha muita banda começando e acompanhei esta cena, conheci muita banda alternativa e também fiz produção de shows. Acho que a desvantagem é que trabalho em uma área que é cada vez mais restrita, mas, por outro lado, fico cada vez mais especializada. Enquanto tiver campo, continuo.”

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