Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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La bête noire e a Justiça

Por lgarcia em 20/10/1999 na edição 77

“Uma série de debates com Bernard Cassen inaugurou em alto estilo a longa jornada que o Attac pretende promover para mobilizar a sociedade brasileira contra a Rodada do Milênio da Organização Mundial de Comércio (OMC). Convidado pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais, Cassen, que é diretor do jornal Le Monde Diplomatique e presidente do Attac na França, enfrentou uma autêntica maratona de atividades. Concedeu inúmeras entrevistas. Encontrou- se com o governador Itamar Franco. Participou de três debates no plenário da Assembléia, todos transmitidos ao vivo pela TV Legislativa.

No último deles, realizado na manhã do dia 30 de setembro, qualificou a Rodada como ‘a tentativa de impor um novo padrão de civilização, no qual os direitos das grandes corporações serão considerados superiores aos do ser humano’. Disse, porém, confiar na reação das sociedades. Lembrou que é possível explorar as contradições que há mesmo entre as posições apresentadas pelos países ricos à OMC.

O elo fraco

À tarde, Cassen participou de uma reunião do Enlace Nacional do ATTAC, na qual foram definidas as primeiras iniciativas contra a ‘Roubada’ no Brasil. Falou então, em detalhes, sobre as iniciativas já adotadas na França contra esta tentativa de radicalizar a globalização. Destacou as ações desencadeadas pela Confederação Camponesa (Confederation Paysanne). Em repúdio contra os Estados Unidos, que dificultaram a importação de queijos Roquefort para forçar os europeus a comprar carne com hormônios, a Confederação promoveu atos simbólicos de protesto diante de lanchonetes McDonald’s. As ações entusiasmaram a opinião pública e despertaram um sentimento de repúdio à OMC, que deu respaldo aos EUA.

Cassen imagina que a França pode ser ‘o elo fraco’ no esforço dos países ricos e das grandes corporações para eliminar direitos sociais. Ele está convencido de que nenhum governo francês teria condições, hoje, de impor ao país os acordos previstos numa eventual Rodada do Milênio. A crise desencadeada por uma eventual reação da França poderia se transformar no estopim para a rejeição global da Rodada.

Feijoada completa

Horas antes de retornar à França, no sábado, dia 2, o diretor do Le Monde Diplomatique participou em São Paulo de um debate seguido de feijoada. Mais de 60 pessoas –integrantes dos movimentos sociais, intelectuais, jornalistas e sindicalistas, na maioria – abarrotaram a sede da revista Caros Amigos para conversar tanto sobre a Roubada quanto sobre o lançamento da edição brasileira do jornal que Cassen dirige.

Le Monde Diplomatique, que é hoje a publicação internacional mais importante na resistência ao neoliberalismo e no debate das alternativas, deverá surgir no Brasil em novembro. Uma equipe de redação traduzirá e editará mensalmente as matérias publicadas originalmente em francês. Elas serão reproduzidas tanto por jornais comerciais quanto por publicações ligadas aos movimentos sociais. A edição brasileira completa estará disponível, mediante assinatura, na Internet. Em ocasiões especiais, poderão ser publicados cadernos temáticos, que incorporarão artigos produzidos no Brasil.

O Brasil se move

A reunião do Enlace Nacional do ATTAC realizada no dia 30 confirmou a primeira série de atividades que o movimento promoverá contra a Roubada do Milênio. Iniciadas com os debates em Belo Horizonte e São Paulo, as ações prosseguem nesta e nas próximas semanas. Por sugestão do ATTAC e por requerimento do deputado Nilmário Miranda (PT-MG), as comissões de Direitos Humanos e de Economia da Câmara dos Deputados promoveram na manhã desta quarta-feira uma audiência pública para debater a posição brasileira em relação à Rodada.

Convocado a depor, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, foi obrigado a falar, pela primeira vez, sobre as posições sustentadas pelo governo em relação ao tema. Durante boa parte da audiência, procurou esquivar-se das perguntas que lhe foram feitas, o que o deixou em situação desconfortável.

Pela abertura do debate

A ofensiva do ATTAC prossegue, em São Paulo. Articulados pela associação, movimentos sociais e parlamentares progressistas farão ato simbólico no Hotel Renaissance, onde autoridades e empresários do setor exportador estarão debatendo a Rodada a portas fechadas. O protesto consistirá na entrega de um documento [ver acima] exigindo ‘que este assunto seja discutido abertamente com a opinião pública, em vez de ficar restrito a pequenos círculos’.

Assinam o texto, entre outros, o MST, a CUT, a Associação Brasileira das ONGs e a Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania (Cives). Prevista anteriormente, a possibilidade de uma manifestação de rua paralela acabou não se confirmando, devido à concentração de esforços dos movimentos sociais em Brasília, que será ‘ocupada”, a partir de hoje, pela Marcha dos Sem-Terra.

Sábado de luta em Brasília

A semana de mobilizações do ATTAC será encerrada sábado, dia 9. A convite do MST, militantes de diversos núcleos do movimento estarão em Brasília para falar da Roubada em dois fóruns destacados. À tarde, o tema será debatido numa assembléia nacional da ‘Consulta Popular’, uma articulação nacional liderada pelos sem-terra para apresentar um projeto alternativo para o Brasil. Diante de milhares de lideranças populares, de todos os estados, o ATTAC lançará também, no país, o abaixo-assinado mundial contra a Roubada. À noite, representantes do movimento farão nova exposição sobre o mesmo assunto durante reunião latino-americana da Via Campesina, uma frente continental de organizações camponesas.

A primeira etapa do esforço para esclarecer e mobilizar a sociedade brasileira sobre a Roubada estará concluída. A luta, porém, continuará em seguida. Na próxima semana, chega ao Brasil o economista francês François Chesnais. Além de lançar em três estados seu livro Tobin or not Tobin, co-editado pelo ATTAC e Editora Unesp, ele fará debates em que abordará também a tentativa da OMC de impor a hiper-globalização.”

“A Roubada do Milênio”, copyright Conjuntura, 6/10/99

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