Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES >

Laura Mattos e Alvaro Leme

Por lgarcia em 11/11/2003 na edição 250

TELEDRAMATURGIA

“20 anos com Janete Clair”, copyright Folha de S. Paulo, 9/11/03

“Dica a quem quer conhecer ou recordar o estilo de Janete Clair, cujas novelas bateram os primeiros recordes de audiência da TV: veja ?Celebridade?, na Globo.

Morta há duas décadas, em 16 de novembro de 1983, a autora segue como forte influência da teledramaturgia brasileira e tem como principais seguidores Gilberto Braga, autor da atual novela das oito, e Glória Perez, de ?O Clone? (2001/02). Hoje no time VIP de escritores, os dois iniciaram a carreira sob os ensinamentos ?clairianos?. Braga, 57, assinou ?Bravo!? (1975/76) com ela. Perez, 55, era sua colaboradora em ?Eu Prometo? (1983). Com a morte da autora, escreveu o desfecho da história com Dias Gomes (1922-99), marido de Janete.

?A Glória é mais próxima pelo estilo passional. Ela pode sacrificar a coerência em função da emoção. Em ?O Clone?, o personagem ia ao Marrocos e voltava em dois dias. Já o Gilberto herdou os conflitos bem amarrados, personagens que, mais tarde, revelam uma ligação do passado com outros?, diz Mauro Ferreira, autor de ?Nossa Senhora das Oito – Janete Clair e a Evolução da Telenovela no Brasil? (editora Mauad), a ser lançado na próxima semana.

Braga tem da novelista a crítica social, as cenas de ação, o mistério. ?Quem matou Odete Roitman??, de sua ?Vale Tudo? (88/ 89), recriava o ?Quem matou Salomão Hayala??, de ?O Astro?, escrita por Janete Clair em 78.

Perez ficou com os romances impossíveis, dilemas da ciência. Seus ?O Clone? e ?Barriga de Aluguel? (90/91) têm como antepassado ?O Homem que Deve Morrer? (71/ 72), que falava de um transplante de coração, cirurgia nova no Brasil da época.

O fim dos castelos

Janete Clair nasceu em 1925 e foi batizada Jenete (o escrivão não entendeu o sotaque árabe de seu pai) Stocco Emmer. Começou a atuar como radioatriz e autora de radionovelas nos anos 40 e adotou o nome artístico em razão da música ?Clair de Lune?. Em 45, conheceu o dramaturgo Dias Gomes, à época radioator, com quem ficou casada até morrer.

Criou 31 radionovelas, principalmente na Rádio Nacional. Em 64, escreveu a primeira história televisiva, para a Tupi. Mas foi na Globo que se consagrou, com 18 novelas. Na emissora, inaugurou a era pós-Glória Magadan, autora cubana das histórias de castelos, com heróis de capa e espada.

Os originais da obra de Janete, guardados por Dias Gomes até sua morte, estão atualmente no guarda-roupa de um de seus filhos, Alfredo, 43. É uma pilha interminável de pastas, com originais datilografados pela escritora nas únicas duas máquinas que usou na vida. Os papéis sofrem ação do mofo e de traças. ?Tentamos parcerias para guardar o material em local adequado. Seria ótimo se algum instituto nos ajudasse a preservá-lo?, diz Alfredo.

Na semana passada, equipe do ?Fantástico? registrou a montanha de papéis. Se não for cortada, a imagem estará em reportagem sobre a autora, na edição de hoje.

“Neta faz cinema e tentará seguir carreira na TV”, copyright Folha de S. Paulo, 9/11/03

“Ela se chama Renata Dias Gomes e tem 20 anos. Aos 6, sua redação sobre uma viagem imaginária ganhou o concurso de a melhor do colégio. Foi a primeira vez que sentiu o que era ser neta de Dias Gomes e Janete Clair.

?A pressão vinha por dois tipos de comentários: ?Os professores só escolheram a dela porque é neta dos dois? ou ?Será que vai ser uma nova Janete Clair??. Era horrível?, conta Renata, que está no último ano da faculdade de cinema e deseja seguir os passos da avó na televisão.

Aos dez anos, parte do acervo de Janete Clair foi para a casa de Renata, e ela passou a devorar originais de capítulos e capítulos de radionovelas e telenovelas.

Sempre teve adoração pela avó e por seu trabalho, apesar de ter nascido apenas dois meses antes da morte dela. Na infância, escrevia quase diariamente. Suas poesias, contos e peças teatrais era enviadas secretamente pelo pai, Alfredo Dias Gomes, ao avô dramaturgo.

Coruja, ele dizia que a neta tinha talento e chorou certa vez quando assistiu à montagem de uma peça escrita por Renata na escola.

Mas foi uma novela de Dias Gomes que quase a fez desistir de ser escritora. ?Ficavam me perguntando se eu sabia o que ia acontecer em ?Fim do Mundo? [Globo, 96]. Descobri um pouco mais sobre a obra de meu avô e vi que, infelizmente, tinha semelhança com o que gosto de fazer: textos engajados, sobre política, religião.?

Pouco depois, Dias Gomes foi ao colégio de Renata dar palestra sobre ?Santo Inquérito? e ?Pagador de Promessas?, adotados pelo professor. ?Ele chorou, eu chorei e tudo passou. Voltei a escrever.? Recentemente, enviou um roteiro seu a Gilberto Braga, discípulo da avó. ?Achei a Renata uma ?dialoguista? bastante boa para a idade dela?, diz o autor de ?Celebridade? à Folha.

Renata está grávida. O médico diz que deverá ser menina e nascer em 25 de abril, data do nascimento da avó. Coisa de novela.”

 

CELEBRIDADE

“Café soçaite solúvel”, copyright Revista Bravo, 11/03

“Gilberto Braga voltou à TV sem lifting e sem botox, bem ao contrário de sua galeria de retratados, ela, sim, indiscutível campeã do silicone. Traz do exílio involuntário a vitalidade de uma teledramaturgia que pretende afirmar, em abundância de flashes, spots e espelhos, que o mundo se divide entre os que perseguem ansiosamente a fama – e, por tabela, os famosos – e os que, com a mesma ânsia, fingem desprezá-los – a fama e os famosos.

O que Gilberto Braga diz, portanto, não vai além do que a gente já não soubesse e do que ele próprio já não tenha dito. Deve estar aí o charme perfumado de sua rentrée, artesão que é de filigranas narrativas em que as redundâncias têm pedigree e o clichê vem com chantilly. Arrisca-se a perceber, no corpo a corpo com o Ibope, que o fervor celebrity já perdeu o seu momentum, por mais que a revista Caras, brindada por citação gráfica, resista há uma década aos solavancos da conjuntura, e por mais que continue a imperar, na maratona das bocas-livres, a insaciável Narcisa Tamborideguy, igualmente festejada em cena aberta, ícone de uma futilidade resfolegante, sorridente e incapaz de completar uma frase.

A Globo guardou Celebridade na gaveta por quatro anos e temo que, na demora excessiva, a vertigem warholiana aqui tenha se banalizado e a peruagem explícita, perdido a graça, com divisor de águas fincado naquele dia em que a notória Vera Loyola cedeu seus anéis para o Fome Zero. Aliás, se há algum star system em franca operação no Brasil, é o que desfila na ribalta planaltina de um ex-metalúrgico.

A sociedade do espetáculo (apud Guy Debord) é como se o mundo estivesse sob os desígnios do demônio midiático, despudorado em seu afã de estender o tapete vermelho, acender os holofotes e, assim, ofuscar a realidade da vida social. Mas eu me pergunto se quem está sempre bisbilhotando, pelas frestas da curiosidade, não é, afinal, o olho hipócrita de todos nós, eu, tu, eles, em deleite só às vezes culpado dos umbigos exibidinhos, acobertado, à vista das alpinistas de um café soçaite cada vez mais solúvel, pela desculpa clássica – ?imagina, eu estava só de passagem…?

Vítima ele mesmo das páginas de celebridade, Gilberto Braga age, en privé, como quem acredita em precedências de sangue, invariavelmente fotografado em cenários de laliques e lambris, mas, no ofício da ação e do entretenimento, ele se filia à turma do pop e corn. Gilberto Braga conhece a soberania do folhetim e faz desse conhecimento uma cenografia de ritmo e intensidade. O enredo atropela com tal velocidade, a ferro e fogo, que é compreensível que, já nos capítulos iniciais, espectadores mais suscetíveis tenham recorrido, como uma dondoca de novela, a seus sais aromáticos.

Na passarela do trendy set armada sobre o paradoxo de estrelas que encarnam estrelas (Malu Mader é a Audrey Hepburn que guia sua própria limusine), a bordo de um veículo que nada mais é do que usina de criaturas fúteis e momentos descartáveis, Gilberto Braga, com destreza turbinada, serve um frenético coquetel de maldades. Dessa vez, caprichou. Mais Nelson Rodrigues do que Janette Clair, desfila o cordão de canalhas do subúrbio, subalternos sorrateiros, jornalistas inescrupulosos, talentos fracassados e grã-finos anedóticos sem, por ora, incorrer na tentação do juízo final.

Seja em Angra, al mare, ou no George V, com vista para a Torre Eiffel, invade a festa com a lente do paparazzo e, como único comentário de pé de página, ressuscita o colunista que, respingando uma ironia de duplo sentido, dizia apenas ?sorry, periferia?.”

“Globo corta palavrões de ?Celebridade?”, copyright Folha de S. Paulo, 9/11/03

“Está proibido falar palavrões nos programas da Globo, principalmente nas novelas. Em um e-mail distribuído a diretores e roteiristas de programas da emissora, no último dia 28, Mário Lúcio Vaz, diretor da Central Globo de Controle de Qualidade (CGCQ) e principal executivo da área artística da rede, listou 16 deles.

?A empresa chegou a seu limite de suportar os pretensos avanços que nossos programas insistem em consagrar. Desculpe pelas expressões, mas elas estão poluindo nosso vídeo?, escreveu Vaz na introdução da reprimenda coletiva.

Além dos palavrões, Vaz determinou que todas as cenas de sexo das novelas passem por sua avaliação antes de ir ao ar.

O e-mail do executivo foi endereçado principalmente aos responsáveis pelas novelas ?Kubanacan? e ?Celebridade?, pelo humorístico ?Zorra Total? e pela série ?Cidade dos Homens?.

Já surtiu efeito. A Folha monitorou os capítulos de ?Celebridade? exibidos entre segunda e quinta passadas e não encontrou um só palavrão. Antes, expressões como ?merda?, ?porra? e ?dar? (no sentido sexual) eram rotineiras.

?Não estou lembrado se, nos últimos capítulos, havia palavrões que tenham sido alterados na hora da gravação. De qualquer forma, não houve necessidade de reescrever nada. Apenas ficou combinado com o Dennis [Carvalho, diretor da novela] que palavras mais fortes que aparecessem seriam trocadas?, disse à Folha o autor de ?Celebridade?, Gilberto Braga.

O discurso oficial da Globo é que ações como essa não são novidade na emissora. Tanto que existe em sua estrutura uma central de Controle de Qualidade.

O fato é que, avalia-se na emissora, ocorreram alguns abusos recentemente. O e-mail de Mário Lúcio Vaz serviu para lembrar que há limites.

É uma reação também à pressão de telespectadores e autoridades, descontentes principalmente com cenas de violência e sexo. No último ranking da campanha Quem Financia a Baixaria É Contra a Cidadania, da Câmara dos Deputados, divulgado no final de setembro, seis dos dez programas mais denunciados eram da Globo. Só no dia seguinte à exibição do capítulo de estréia de ?Celebridade?, recheado de cenas picantes, a campanha recebeu 20 reclamações contra a produção.

No primeiro capítulo, em uma cena de sexo, o personagem Otávio (Thiago Lacerda) aparecia tirando a calcinha de Maria Clara (Malu Mader). Em seguida, no meio de uma multidão, a manicure Jaqueline (Juliana Paes) mostrou os seios. Alguns capítulos mais tarde era a vez de Deborah Secco, que fez ?topless? na praia.

Braga diz que já havia decidido amenizar as cenas de sexo da novela antes de receber o e-mail do diretor da CGCQ. ?Ouvimos reclamações de espectadores mais convencionais, e não é nossa intenção chocar ninguém. É muito difícil lidar com um público de formação tão diversa?, afirma.

?Celebridade? vem sendo monitorada por técnicos do Ministério da Justiça e deve ter sua classificação revista.

Em seu e-mail, Vaz afirma que o veto a palavrões e ao sexo não são censura nem restrição à criação, mas respeito aos telespectadores.

Cita indiretamente, como exemplo a ser seguido, a novela das seis, ?Chocolate com Pimenta?: ?Não se ama só na cama. Não se ama só pelado. Temos no ar uma novela que prova com sobras o quanto valem a sensibilidade e o sentimento valorizados?.”

***

“Novela deve ser reclassificada”, copyright Folha de S. Paulo, 9/11/03

“A novela das oito da Globo, ?Celebridade?, deve ser reclassificada para imprópria para menores de 14 anos, inadequada para exibição antes das 21h. Inicialmente, a novela foi classificada pelo Ministério da Justiça como apropriada para as 20h (12 anos).

A novela vem sendo monitorada por técnicos do ministério desde sua estréia, em 13 de outubro. O monitoramento dura um mês. O ministério, segundo sua assessoria de imprensa, tem recebido muitas reclamações de telespectadores incomodados com cenas de sexo e violência, o que deve justificar a reclassificação.

A reclassificação indicativa, segundo a assessoria do ministério, deverá ser direta, sem negociação prévia com a Globo. Isso porque a mudança não irá causar impacto na grade da emissora, que, na maioria dos dias, já a exibe após as 21h -menos às quartas, quando há futebol às 21h40.

A classificação indicativa do Ministério da Justiça para novelas não leva em consideração palavrões, porque é feita a partir de sinopses (texto que resume a história e apresenta os personagens). Mas, como os programas de TV são monitorados, a classificação pode ser revista.

Em filmes, palavrões são critério para limitação de idade. O vocabulário, de acordo com o ministério, foi o que mais pesou na decisão de vetar para menores de 14 anos, nos cinemas, ?Os Normais -O Filme?, da Globo Filmes.

Não é o caso de ?Celebridade?. A novela deverá ser reclassificada por causa do erotismo e da violência. Segundo o Ministério da Justiça, não houve reclamações por causa de palavras chulas. A coordenação da campanha Quem Financia a Baixaria É Contra a Cidadania também desconhece denúncias por causa de palavrões.

?Mulheres Apaixonadas?, que antecedeu ?Celebridade?, também teve sua classificação revista das 20h para as 21h.

No caso da novela das sete, ?Kubanacan?, houve negociação, e a Globo reduziu ou mudou o tratamento dado às sequências de ação e sexo, mantendo-a livre.”

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem