Segunda-feira, 27 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 847

PRIMEIRAS EDIçõES >

Laurindo Lalo Leal Filho

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

ROBERTO MARINHO (1904-2003)

"O legado do poder", copyright Jornal do Brasil, 10/08/03

"Roberto Marinho, que morreu na quarta-feira, aos 98 anos, personificou o senso de oportunidade. Duas circunstâncias históricas fizeram dele o arquiteto da mais poderosa rede de comunicação existente no país: a tibieza da legislação e a derrocada do império Associado.

O frágil controle da concentração dos meios de comunicação existente no Brasil permitiu que ele montasse um conglomerado capaz de impor suas vontades à economia e à política. Antes, Chateaubriand já havia exercido poder semelhante, mas foi Roberto Marinho quem deu uma racionalidade capitalista às suas empresas, algo desconhecido pelo dono dos Associados. Disso se apercebeu também o grupo Time-Life ao investir na Globo e servir como alavanca para a conquista da hegemonia nacional.

O resultado foi o surgimento de uma rede de televisão de ponta em termos de qualidade técnica, mas sofrível do ponto de vista cultural e político. Se Roberto Marinho não repetiu os erros administrativos de Chateaubriand, foi um bom aluno nas relações com o poder. Interlocutor privilegiado de todos os governos, soube deles tirar amplo proveito. Uma relação que em quase toda a história da Rede Globo obscureceu o seu jornalismo e os exemplos das distorções são por demais conhecidos.

Embora tenha criado uma área de teledramatugia competente, o saldo são momentos brilhantes cercados por um cotidiano de produções rasas e repetitivas. Não que lhe faltem talentos, o que falta é liberdade para criar sem maiores sujeições ao mercado. Uma lógica perversa que exclui da tela importantes manifestações culturais brasileiras.

O legado de Roberto Marinho à nação é reduzido, desproporcional ao poder que enfeixou em suas mãos durante tanto tempo."

 

"Os desafios de um homem", copyright Jornal do Brasil, 10/08/03

"Roberto Marinho. Foram 25 anos de convívio. A Globo era o nosso cotidiano. Tive dele uma delegação de confiança que acabaria se convertendo num dos patrimônios da minha carreira profissional. No trato pessoal, nossa relação foi igualmente proveitosa pra mim. Na hora de qualquer contratempo existencial, sempre encontrei nele um ombro amigo. Ele preferia dar conselhos, usando, sempre, a infalível retórica das parábolas. Ilustrava sua opinião, contando um caso do qual fosse personagem ou apenas testemunha.

Um dos prazeres de Roberto Marinho era conversar. Ia dos assuntos mais prosaicos às cogitações mais densas. Falava com impressionante esmero verbal. Tinha o senso da palavra exata. O jeito pausado de se expressar era próprio de quem tinha o cuidado de pensar antes de abrir a boca. De repente, no meio da conversa, surpreendia o interlocutor com uma pergunta, sempre, pertinente. Era uma pausa preconcebida a que recorria pra dar ao ouvinte a chance de também falar.

Conversar, me dizia ele, é uma arte de raro sabor. Jamais será um bom conversador (ele gostava, também, da palavra ?causeur?) alguém que não tenha paciência pra ouvir outra voz que não a sua própria.

Um dos traços mais marcantes da personalidade de Roberto Marinho era a faculdade que ele tinha de dosar o rigor da hierarquia com a doçura da camaradagem. Levou pra Globo a expressão ?companheiro?, com a qual se referia aos colegas de redação, no Globo. Exercia sua liderança, com pulso forte, mas sem perder a serenidade. Puxava as nossas orelhas com dedos de veludo. Jamais elevou o tom da voz pra repreender um de nós. Amenidades ele gostava de compartir, em grupo; cobrança, porém, era como num confessionário: nada de testemunhas. Tinha o dom da conveniência.

Seu estilo suave de ser e de falar sugeria uma mente zen. Aliás, certa vez, almoçando na Globo com uma missão diplomática da China, um dos chineses perguntou-lhe se tinha raízes orientais. Respondeu que não. Era Pizzani, de sangue italiano. O convidado concluiu, então, que, com aquele ar de frade budista, o seu ilustre interlocutor haveria de ter vida longa. Eu, que também participava do almoço, percebi que o chinês acabara de tocar num tema da predileção do anfitrião: a longevidade.

Os dois logo começaram a trocar figurinhas sobre idade: o chinês confessou que tinha 80 anos muito bem vividos; Roberto Marinho retrucou: seus 80, mais cinco. Oitenta e cinco e com pressão arterial 12 por sete. Algumas vezes, dispensando o elevador, subia 11 andares, de escada, até chegar à sua sala, na Globo. Chegava inteiro.

Ambos concordaram com a teoria de que o homem é capaz de viver 140 anos, com relativo vigor físico. O chinês até contou o caso de um patrício dele que viveu 700 anos. Roberto Marinho brindou, com vinho, a boa notícia que lhe soava, quem sabe, como um aceno, embora duvidasse que alguém pudesse chegar tão longe, nos dias de hoje.

Chegaria ele pertinho dos 100. Mas, pensando bem, ter vivido com a intensidade com que viveu Roberto Marinho: um homem que batalhou a vida toda; um homem que não tinha medo de topar desafios e que sempre soube distinguir os desafios impossíveis dos improváveis, preferindo, sempre, os impossíveis; enfim, um homem, que aos 65 anos, decidiu desdobrar uma vida já de tantos êxitos pra criar, do nada, uma das maiores redes de televisão do planeta; um homem que transformaria seu império pessoal numa instituição nacional – pensando bem, repito, esse homem transcendeu as medidas do tempo. Já viveu e viverá muito vezes mais que o invejado chinês de 700 anos."

 

"Condenado ao êxito", copyright O Estado de S. Paulo, 10/08/03

"?Condenado ao êxito? seria o título que o jornalista e empresário Roberto Marinho (1904-2003) escolhera para sua autobiografia, quatro anos atrás.

Documento que ficou nos devendo. Não chegou a publicá-lo, se é que chegou a escrevê-lo.

Autobiografia com título adequado, sem afetação. Vocacionado para ?transformar sonhos em realidades?, serviu-se de 70 anos corridos de batente pesado e iniciativa a mil para fazer das Organizações Globo um conglomerado de comunicação de ponta, quarto maior do mundo, do tamanho hoje de 15 mil empregos diretos.

Quando o cientista político Albert Fishlow observa que Roberto Marinho penetrou na globalização antes da eclosão da própria, ele está querendo dizer que a Rede Globo vislumbrou um ?hiato de mercado? dentro e fora do Brasil para uma produção televisiva de qualidade, tecnicamente viável e economicamente sustentável.

Nos anos 80, Roberto Marinho, filhos e colaboradores próximos cuidaram de investir talento e esforço nos preparativos de absorção e desfrute de uma revolução tecnológica que já se desenhava na linha do horizonte da cadeia telecom/datacom/midiacom. Antevisão da Idade Digital e da multimídia global.

Com sua matéria-prima, a informação, dando de explodir em quantidade, diversidade, conectividade, intangibilidade, velocidade.

Não deu outra. A informação passou a dar a volta ao mundo em um segundo e a cobrir o Brasil inteiro em apenas um clique. Na televisão, o milagre de uma inclusão social acima de 90% da população brasileira, caso único no planeta dos emergentes. O grupo cuidou de estabelecer a rede nacional pelo atalho da parceria com emissoras e repetidoras associadas, enquanto ganhava musculatura de produção, excelência de produto e inovação de mercado para liderar aqui dentro e desbravar lá fora.

A revolução das Tecnologias da Informação (TI), ainda em curso, apresentou-se desde logo como faca de dois gumes. Ela acabou sendo fatal para as empresas de comunicação, em meio mundo, que não puderam, não souberam ou não quiseram embarcar na transformação mercadológica desencadeada pela revolução tecnológica. Transformação que resultaria em dramáticos reajustes na estrutura patrimonial, na qualificação profissional e na cultura corporativa das empresas.

Sem aviso prévio, deu-se nos negócios da mídia a chamada batalha da ponte, a que decide a guerra. Batalha em dois tempos: 1) o paradigma dos mercados, vertiginosamente, mudou; 2) o paradigma das empresas, necessariamente, não.

Grandes grupos do ramo arrebentaram-se nesse embate inaudito.

Com o já octogenário Roberto Marinho e filhos, o conglomerado encarou o risco de acidentes de percurso do empreendedorismo e realizou a mudança.

Afinal, ele já estava de há muito se antecipando a isso, no grifo de Albert Fishlow."

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem