Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > Querem jornalistas melhores para melhorar o leitor. E isto não se impõe nem se ensina. É uma convocação.

Le Monde e El País derrubam mitos do Manual

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

LIVROS DE ESTILO

Alberto Dines

Há poucas semanas, o grande vespertino francês, um dos mais respeitados jornais do mundo, publicou um livro em grande formato, lindamente editado, com o título Le Style du Monde. É a versão gaulesa do clássico manual de redação que a nossa Folha de S.Paulo considera invenção sua e núcleo da sua revolução jornalística.

O Estilo do Mundo, seria o título em português (sem aspas), tem duas capas iguais, uma para cima e outra para baixo; e o conteúdo, dividido em duas partes, está igualmente paginado em posições antagônicas.

O leitor tem, portanto, dois livros sob o mesmo assunto: um com material sobre o jornal e, virando de ponta-cabeça, outro, com informações filológicas, geográficas e históricas.

As normas deontológicas ? não se menciona a palavra ética ? ocupam 18 páginas fartamente ilustradas. Nelas estão incluídos os princípios adotados pelo jornal, os códigos dos jornalistas, dos publicitários, a carta da Comissão de Supervisão, alguns estatutos jurídicos, informações sobre a empresa, a história do jornal, análise dos leitores, suplementos, cadernos, correspondentes no exterior. Seguem-se 55 páginas com informações gráficas.

Tudo extremamente sintético, simples, inteligente, sem qualquer caráter mandatório. Exceção (no tamanho e na qualidade da prosa) é a introdução assinada pelo diretor do jornal, Jean Marie Colombani, inteligente e sofisticada. Reporta-se ao texto de Marcel Proust intitulado Sur le style de Flaubert, o que revela um dado essencial: o livro destina-se a leitores e jornalistas bem formados e informados.

Elegante convite para a qualificação, sem qualquer tipo de arrogância. Os responsáveis pressupõem que os usuários são seres com formação moral básica, minimamente comprometidos com a decência. O mesmo fariam com um livro sobre procedimentos hospitalares ou gerenciamento de fábricas.

Virando-se de cabeça para baixo, a outra parte é mais alentada: são 145 páginas de informações utilitárias, combinação de gramática, dicionário e enciclopédia.

Em nenhum lugar da obra pretende-se converter o manual em peça promocional da empresa, salvo-conduto para o sucesso ou certificado de competência. Acreditam que o Le Monde, sendo uma instituição (tem 58 anos), dispensa badalações.

O Libro de Estilo do diário El País foi publicado pela primeira vez em 1977, como um folheto, poucos meses depois de lançado o jornal. Só agora, um quarto de século depois, com mais de 70 mil exemplares vendidos, lembrou-se a direção do jornal de apresentá-lo ao seu publico. E o fez por meio de uma matéria com um anexo assinado pelo fundador Juan Luís Cebrián, publicada na edição de 25 de maio, no caderno cultural "Babelia" [clique em próximo textoveja remissão abaixo].

O título de Cebrián resume a idéia central da obra: "Estilo de hacer y de ser". As diferentes equipes que dirigiram o grande jornal espanhol (incluído hoje entre os 10 melhores do mundo) também não pretendem impor modos ou modas. Querem jornalistas melhores para melhorar o leitor. E isto não se impõe nem se ensina. É uma convocação.

Quando Pompeu de Souza lançou seu pequeno folheto com novas regras de redação do Diário Carioca, no início da década de 1950, não pretendia abalar o mundo. E acabou revolucionando nossa imprensa. O mesmo aconteceu com Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa e Lago Burnett com o seu folheto interno, no Jornal do Brasil.

Manual deve ser produto de um clima intelectual, moral ou técnico que impera numa instituição jornalística. Assim como os costumes fazem as leis. Perigoso é quando dá-se o contrário: o manual impondo um padrão de jornal. Será furado em todas as oportunidades. Exemplos não faltam.

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