Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Leila Reis

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

A GRANDE FAMÍLIA

“Público está apto a rir com qualidade”, copyright O Estado de S. Paulo, 15/12/02

“A série A Grande Família foi escolhida como o melhor humor da TV no ano pela APCA, associação dos críticos paulistas . Marco Nanini, do elenco fixo do programa, mereceu o prêmio de melhor ator. O prestígio do programa semanal vai além da crítica especializada.

A Grande Família, uma exceção no campo das reedições (foi sucesso dos anos 70), tem sido reconhecida pelo público que lhe garante sobrevida na grade de programação. O humorístico tem registrado a média de 34 pontos no Ibope (na Grande São Paulo) colocando-se no mesmo patamar da atração mais nobre da Globo, a novela Esperança.

O bom desempenho da Grande Família, de Marco Nanini, Marieta Severo e Rogério Cardoso, serve para mostrar aos que decidem a programação que, em primeiro lugar, há público com inteligência para consumir um humor que prescinde de apelações e dos jargões preconceituosos – aqueles dos quais são vítimas mulheres, gays, negros e velhos.

Por que o humor que se vê na TV – mesmo na Globo – não tem primado pela sutileza e pela inteligência? O Zorra Total é um deles. As piadas são gastas e o modelo jurássico. O curioso é que um dos quadros mais sem graça e preconceituoso do humorístico de sábado é estrelado por um membro da Grande Família. Lúcio Mauro Filho, que às quintas dá um show interpretando o filho Tuco, constrange como o filho gay de Jorge Dória no Zorra, dando voz a um texto caricato e extremamente grosseiro. Esse exemplo demonstra que não há talento individual capaz de salvar um produto concebido por autores e diretores de mão pesada.

O tom do Zorra é quase o mesmo da Praça é Nossa, de Carlos Alberto de Nóbrega, que, além de usar uma fórmula antiquada até não mais poder, esparge mau gosto nas noites de sábado do SBT.

O bom é constatar que nesse mar de bobagens submerge um programa como A Grande Família que, além de ter um elenco notável, é bem dirigido e bem escrito. As confusões em que se metem dona Nenê, Lineu, seu Flor, Agostinho, Bebel e Tuco são deliciosas porque são passíveis de acontecer às melhores famílias brasileiras. Os personagens – delineados originalmente por Oduvaldo Vianna Filho – são reciclados a cada episódio. E as histórias atualizadas pela produção que permite que o cotidiano do Brasil – o poder paralelo entrou na casa de Lineu e Nenê esta semana – toque de maneira muito bem-humorada a vida da família.

A Grande Família usa a inteligência para criar situações bem divertidas e agradáveis a todos os tipos de telespectadores que comportam uma família, sem ser ingênuas. Ou seja, os profissionais que criam a série entendem que sutileza não é conflitante com a capacidade de compreensão do telespectador.

E o público, por meio da fidelidade, que está pronto para ser melhor tratado pela TV.”

 

VIOLÊNCIA / TV VESPERTINA

“Tardes trágicas”, copyright Folha de S. Paulo, 15/12/02

“Já vai longe o tempo em que a tarde na TV era dedicada às crianças. Capitão Aza, a turma da Vila Sésamo, do Sítio do Picapau Amarelo, Shazan e Xerife, Capitão Furacão, Xuxa, Angélica e outros ícones dos anos 60, 70 e 80 deram lugar a cenas de linchamento, tentativas de suicídio, reconstituições de crimes bárbaros e tiroteios de verdade. Apesar dos programas de Eliana (Record, 14h) e da tarde da TV Cultura, totalmente composta por atrações infantis, muitos meninos e meninas preferem as atrações mais pesadas. Cerca de 16% do público de Márcia Goldshimidt (?Hora da Verdade?, 16h30), por exemplo, é composto por pessoas que têm entre quatro e 17 anos. O ?Cidade Alerta? (Record, 17h45) foi visto em novembro por cerca de mais de 110 mil telespectadores nessa faixa etária, segundo o Ibope. Para o ex-vice-presidente de Operações e atual consultor da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, a globalização encolheu as verbas publicitárias para programas infantis. ?Mas isso não justifica a exploração da violência, do sexo e das fofocas. É evidente que a cobertura de polícia, serviços, direitos e defesa do consumidor são temas populares e importantes, mas não podem ser tratados de forma apelativa?, diz Boni. O novelista Walter Negrão, criador de ?Shazan e Xerife?, um dos maiores sucessos juvenis da década de 70, critica a violência como cultura. ?Nenhuma violência dramatúrgica se compara aos programas de vampiros e urubus, feitos em cima da desgraça alheia?, diz ele. Para o psiquiatra Marcio Bernik, coordenador do ambulatório de ansiedade da faculdade de medicina da USP, a audiência desses programas torna-se cativa por causa de um processo químico. ?Para quem gosta de adrenalina, o efeito prazeroso dessas informações provoca vício. Com isso, a TV aumenta o teor para que a pessoa não consiga desgrudar os olhos da tela. É como a dependência do cigarro, com igual liberação de dopamina nas mesmas estruturas cerebrais?, afirma.

Reação No Colégio Equipe, na zona sul de São Paulo, alunos do ensino médio se uniram a organizações não-governamentais e associações de moradores de áreas como Capão Redondo e Jardim Ângela, para lançar um manifesto que propõe um Centro de Defesa do Telespectador.

A psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, que integra a ONG TVer, afirma que a exposição de violência na TV prepara as crianças para responder violentamente a conflitos que poderiam ser tratados com civilidade.

?A TV banaliza o mal; se deseduca o adulto, imagine a criança?, questiona ela.

A pedagoga e terapeuta familiar Lena Bartman, que há 25 anos trabalha com crianças, vê outro problema. ?Exposta a um bombardeio de notícias violentas que ainda não tem maturidade para entender, a criança passa a ter uma visão catastrófica do mundo?, diz. O juiz Siro Darlan, titular da 1? Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, está convicto da influência maléfica do festival vespertino de violência. ?Já ouvi depoimentos de crianças que furtaram porque viram na TV e acharam fácil?, afirma. Segundo ele, outros países já estão se prevenindo: ?Isso é tão grave que a comunidade européia, que é a sede da liberdade de expressão, proíbe cenas dessa natureza. Todos têm consciência dos males que essa veiculação causa às crianças e mesmo aos idosos?.

Outro Lado

?Meu programa não é policial, ele discute questões sociais e cidadania?, diz Marcelo Rezende, apresentador do ?Repórter Cidadão? (Rede TV!, 16h30), explicando que, semanas atrás, apareceu manuseando armas de grosso calibre para denunciar a inferioridade do armamento policial.

Segundo Rezende, a ?abordagem social? de seu programa aumentou a audiência e atraiu um público em que 83% são maiores de 18 anos.

Na Bandeirantes, Roberto Cabrini, à frente do ?Brasil Urgente? (18h), diz que é imoral mostrar só violência. ?Mas, se for de forma crítica, cobrando das autoridades e apontando soluções, então é um serviço à sociedade?, afirma.

Para José Luis Datena, do ?Cidade Alerta? (Record, 17h45), a violência está nas ruas, e a culpa é do governo. ?A TV está ali pra ser ligada; quem quiser, assiste, quem não quiser, mude de canal?, diz.

Mas o deputado federal Orlando Fantazzini (PT-SP), que lidera uma campanha contra a baixaria na TV, afirma que o problema está justamente nessa visão.

?Esses programas estimulam a sociedade a ser mais violenta e a exigir mais violência estatal. Não quero ser censurado no meu direito de ter canais que ofereçam programação educativa e que favoreçam a paz. As emissoras ditam o que devo assistir: se mudo de canal, a programação é a mesma. Espero que o novo governo estabeleça um código de ética na TV?, afirma.

Procurados pelo TV Folha durante a última semana, Márcia Goldshimidt e João Kléber não retornaram as ligações.”

***

“Cultura resiste; na Globo, sexo”, copyright Folha de S. Paulo, 16/12/02

“Única entre os canais abertos a dedicar nove horas diárias ao público infantil, a TV Cultura registra audiência crescente nos últimos meses. A assessoria de imprensa da emissora informa que, atualmente, das 10h às 19h, a média é de três pontos, com picos de seis (cada ponto equivale a 47 mil domicílios da Grande São Paulo). Em outubro, os números oscilavam entre um e três.

Mas mais da metade do público com idades entre quatro e 17 anos sintoniza a Globo no horário das 14h30 às 19h. A receita da emissora carioca inclui novelas originalmente escritas para as 20h, filmes e a novelinha ?Malhação?, que aborda o sexo entre adolescentes com incrível naturalidade.

Na opinião da escritora Ruth Rocha, autora de histórias infantis e que já vendeu 10 milhões de livros, o governo deveria exigir dos concessionários respeito aos jovens.

?Aí fica essa geração de meninas pintadas com um comportamento sexuado que não condiz com sua etapa física e emocional.?”

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