Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > O CLONE

Leila Reis

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

ESPERANÇA

"?Didatismo? evidencia falta de confiança", copyright O Estado de S. Paulo, 23/06/02

"Pode escrever: a chiadeira contra a deturpação do modo de vida dos marroquinos será substituída por protestos da comunidade dos oriundi. Assim como a sua antecessora, Esperança (que a turma do Casseta & Planeta apropriadamente batizou de Semelhança) troca o folclore dos véus e chibatadas em adúlteras por um italianês que (a produção da novela acha) é falado na Mooca.

Certa de que o telespectador é por definição ?monoglota?, a Globo repete o cursinho já inaugurado na outra viagem à Terra Nostra e revivido em O Clone.

Essa pedagogia manda duplicar as falas de cada personagem para não deixar dúvidas. A heroína diz ?Dio Mio!?, para emendar com ?Meus Deus!?, da mesma maneira que a odalisca dizia ?haram!? e traduzia no ato, ?pecado!?.

Além de maçante, esse ?didatismo? indica a subestimação da capacidade de compreensão do público e acaba expondo algo mais profundo. Na concepção dos que fazem e dirigem TV, tudo tem de ser simplificado sob pena da rejeição.

Se o sujeito que está do outro lado do vídeo não conseguir entender, cai fora do canal.

Se assim é, revela-se um preconceito ainda maior. Além de ignorante, o telespectador é um ser preguiçoso que se recusa a aprender. Ou seja, para não afugentá-lo, tudo tem de ser muito bem explicadinho. É por isso que teremos pelos próximos oito meses a recordação da matéria do telecurso superbásico ensinada há dois anos em Terra Nostra.

Essa certeza dos capi da TV, infelizmente, é reforçada pela massa. Esperança estreou com 46 pontos de média no Ibope (na Grande São Paulo) e, apesar de ter caído para 39 na terça-feira, indica que vai ter um desempenho parecido com o de sua irmã (Terra Nostra) e similar ao do Clone.

Não que a novela da Globo seja ruim. Tem uma produção esmerada, atores bons, direção acima da média (em se tratando de Luiz Fernando Carvalho, quase autoral) e um autor competente. A história, mesmo sendo revisão de outra, será bem contada. Chato é esse cacoete do fala e traduz.

Mas, se o filé da programação dá indícios de que não confia na capacidade de sua platéia, imagina como são pensados os programas menos nobres? Ao examinar o menu, é possível aferir que há uma equação tida como infalível: público pouco exigente + atrações medíocres = sucesso garantido. Isso talvez possa explicar o desempenho de shows como Big Brother Brasil ou Casa dos Artistas/Tietes.

Olhar a vida dos outros pela janela é um hábito que corre o mundo e rende.

No Brasil, a primeira edição do BBB terminou com média de 57 pontos no Ibope (Grande São Paulo) e o da temporada tem registrado 40. Bom para a produção e ótimo para os personagens escolhidos. Mas qual é a qualidade desse show?

Qual o valor que o telespectador agrega à sua vida ao ver cenas absolutamente banais protagonizadas por um bando de pessoas sem nada a dizer. Não se sabe se é uma forçada de barra da edição, mas tudo lá é muito raso. Os conflitos, a vulgaridade da banda feminina, a cafajestada dos machos e a encenação de momentos vibrantes. Como o troglodita Bam Bam cunhou a expressão ?faz parte? – não é brinquedo, não -, todos querem deixar sua marca. E para isso caem no maior ridículo.

E as pessoas sonham com o dia em que vai chegar a sua vez de entrar para o estrelato por esse caminho. No fim de semana passado, um rapaz do interior de São Paulo, inscrito para a terceira edição do BBB, treinava entre amigos um bordão que (ele acha) vai destacá-lo entre seus pares quando for selecionado: ?Agora que a vaca vai deitar.?"

 

O CLONE

"?O Clone? e o simulacro", copyright Folha de S. Paulo, 17/06/02

"Desde o começo da transmissão da novela ?O Clone? foi possível afirmar que o público brasileiro vibrava com a evocação de Marrocos e com tudo que tem a ver com o mundo árabe-muçulmano, a ponto de que se pudesse falar em ?clonomania?.

O próprio Carnaval, maior evento popular brasileiro, foi invadido por esse modismo, manifestado no uso de fantasias que imitavam o vestuário dos principais protagonistas da novela, razão pela qual viram-se inúmeras personagens Jade e vários tios Ali em meio à multidão que lotava o sambódromo.

No entanto, paralelamente a este movimento de simpatia ou até mesmo de adoção, pudemos notar que a novela ?O Clone? foi uma falsificação grosseira, transmitindo imagens medíocres e um simulacro da realidade e da cultura árabe-muçulmana.

Ademais, o que poderia ter sido motivo de grande satisfação por parte dos marroquinos e de toda a comunidade árabe-muçulmana residente no Brasil tornou-se uma grande decepção, pois, desde o primeiro capítulo da novela, parte do seu elenco carregava a imagem de gente cruel, de corações obscuros e privados de qualquer sentimento de clemência e piedade. Esta visão procura ignorar, talvez propositalmente, o aspecto humano conhecido e reconhecido na civilização árabe-muçulmana -ou até mesmo, tentando passar uma imagem de vida de luxúria e indolência, descrita nas histórias d? ?As Mil e Uma Noites?, nas quais se inspiraram desastrosamente alguns autores.

Sob essa ótica, qualquer pessoa árabe ou muçulmana é associada aos personagens da novela. As mulheres devem, como Latifa, ser submissas, dóceis e conformistas com seus maridos, polígamos por essência; caso contrário serão obrigadas a enfrentar as imprecações e outras ameaças de chibatadas de um tal tio Ali ou um Said qualquer.

Família anacrônica, de modelos ultrapassados, carregando a marca da onipresença de um tio autoritário e da ausência absoluta do papel da mulher -esta última submetida, no máximo, ao bem-querer dos homens-, a poligamia correndo a solta e paisagens, por mais encantadoras que fossem, oferecendo a imagem de um Marrocos beduíno ou até mesmo primitivo. Tudo isso e mais outros clichês que seriam difíceis de enumerar, constituíram um pano de fundo exótico para essa novela.

Assim, os produtores desse seriado deram uma demonstração de credulidade, superficialidade e falta de cultura flagrantes, que surpreende, por se tratar de profissionais que, em princípio, deveriam se preocupar em ser suficientemente informados e mais bem assessorados quando diante de um trabalho dessa envergadura, a exemplo do que fizeram ao abordar a questão da clonagem humana.

Ocultando a verdadeira face de Marrocos -país considerado, unanimemente, ponto de encontro das civilizações, tanto passadas como atuais, com raízes fincadas na história e, ao mesmo tempo, aberto à modernidade-, esse trabalho sacrificou a veracidade, a autenticidade e exaltou o exotismo barato.

As cenas do deserto, das caravanas de camelos e das tinturarias tradicionais das ruelas de Marrakech, embora transmitissem, através das câmeras, um mundo de magia e encantamento, não deveriam se sobrepor à importância e à beleza de uma cidade como Casablanca, capital econômica do reino e verdadeira jóia da arquitetura moderna livre, nem à realidade de Marrocos como produtor e exportador de tecnologia de ponta, consumida inclusive no Brasil.

Graças a sua competência, a mulher marroquina tem conquistado muitos espaços, onde consegue expressar seu talento, ao lado de companheiros homens, seja na política, na cultura ou nas ciências. Ministra, embaixadora, artista, jornalista, magistrada são alguns dos cargos que a mulher marroquina ocupa com pleno direito.

A imagem de Marrocos e do mundo árabe-muçulmano, tal como foi apresentada na novela, é tão deplorável quanto a dos produtores desse trabalho, que optaram por soluções fáceis, na tentativa de conseguir uma grande audiência, sem o menor receio de estarem induzindo o público ao erro. Na verdade, pior do que a decepção do público árabe só a dos telespectadores brasileiros, as maiores vítimas da desinformação e da armação, o que pode custar aos produtores a própria credibilidade.

Seria oportuno saber desses produtores que reações teriam diante de uma obra qualquer, que reduzisse o Brasil a um simples país do Carnaval e do futebol, ofuscando o seu verdadeiro brilho e ocultando as diversidades de seu povo.

Em sua trajetória, Marrocos, a exemplo dos demais países em via de desenvolvimento, vive ao ritmo dos debates e enfrenta inúmeros desafios, entre os quais figura justamente o do desenvolvimento. É o debate do estático versus o dinâmico, do futuro e do progresso contra o passado e a estagnação, é a luta que envolve todas as camadas da sociedade marroquina, sem distinção entre homem e mulher.

Para mim, foi este aspecto que a novela ?O Clone? omitiu, deixando escapar a oportunidade de apresentar ao seu público a realidade de outro país, de outra civilização e de outra experiência. A experiência de uma luta diária dos partidários do progresso por objetivos tais como o desenvolvimento, a dignidade do ser humano e a luta contra o preconceito e a discriminação.

De acordo com a opinião compartilhada entre a comunidade marroquina e árabe no Brasil e os brasileiros que visitaram Marrocos e o conhecem bem, a novela o clone mostrou um Marrocos muito distante da realidade, um país que só poderia existir na imaginação dos autores. (Abdelmalek Cherkaoui Ghazouani é embaixador do Reino de Marrocos no Brasil.)"

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