Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Leitura caolha?

Por Os Observadores em 20/09/1998 na edição 53


 

E

m tempos de eleição, tudo o que se diz, escreve, produz ou seja lá que verbo for acaba sendo olhado sob lentes um tanto quanto desconfiadas. “Teria havido influência de um ou outro grupo? Foi tendencioso? Foi eleitoreiro?”

Muita pergunta se faz ao ler ou ouvir uma notícia. A pesquisa da ONU sobre índice de desenvolvimento humano (ou qualidade de vida), recentemente divulgada no Brasil, entra na lista dos temas “sob suspeita” quanto ao tratamento dado pela imprensa.

Não se trata de tirar os méritos dos avanços conquistados pelo Brasil nem de lançar voto de desconfiança sobre as Nações Unidas. O IDH aumentou, alguns estados alcançaram patamares elogiáveis e até em regiões castigadas do Nordeste percebe-se evolução. Mas, daí a pintar integralmente de cor-de-rosa a interpretação dos números vai a mesma distância que separa o Brasil e o Canadá no ranking da ONU.

É claro que subir para o 62º lugar merece comemoração. Mas é imperioso lembrar que se trata de um contra-senso a 7ª economia do planeta não ser nem a número 50 em qualidade de vida.

Também ficou estranho deixar nas entrelinhas que o estudo foi feito com base em indicadores de 1991, quando o Brasil – e o mundo – era outro, sem globalização nem 8% de desemprego, mas com inflação e Collor (do ponto de vista da ONU, é explicável usar dados de 91, pois foi o ano do último Censo).

Esta leitura, digamos caolha, dos números ficou mais estranha ainda para os leitores gaúchos. Um dia depois de a Folha de S. Paulo furar todo mundo com um caderno especial sobre a pesquisa, nada menos que a Zero Hora fez do assunto manchete e matéria de cinco páginas, usando os mesmos ganchos, gráficos, argumentos (só os positivos) para uma ode ao Rio Grande, campeão brasileiro de IDH, segundo a ONU.

Que um jornal acanhado do interior repita a notícia que saiu um dia antes em um veículo nacional, tudo bem (ressalve-se que, quando fazem isso, os jornais pequenos normalmente dão a notícia em notinha discreta). Mas que o quinto maior jornal do país (único no seu estado) faça isso e ainda dê manchete, nem a liderança do estado no ranking justifica.

Para os gaúchos da linha ufanista, foi um deleite passear pelas páginas que só pinçaram da pesquisa a parte boa de um estado que só tem se desenvolvido na região da capital, enquanto o interior sofre. Mas, para quem costuma, por escaldado, ler tudo acompanhado de uma pulga atrás da orelha, sobram duas suspeitas: 1) a tal manchete foi uma barbeiragem jornalística de entrar para a antologia, ou 2) aí tem coisa…

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