Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > 5.

Lendo e aprendendo

Por lgarcia em 13/01/2004 na edição 259

CAIXOTINS

Carlos Brickmann (*)

OK, OK, está certo: os veículos de comunicação enfrentam problemas financeiros, as redações estão esquálidas, falta gente em todos os setores. Ah, claro: com o advento do computador, desapareceu a santa figura do revisor, que evitava uma boa parte das bobagens.

Mas vejamos algumas coisas que saíram nos últimos dias:

1. “O antigo prédio da Fiesp, no viaduto Maria Paulina”. Em São Paulo, onde o jornal circula, existe o Viaduto Maria Paula, e há também o Viaduto Dona Paulina. O Viaduto Maria Paulina seria, talvez, a esquina dos dois ? mas até aí ficaria errado: o prédio da Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, ficava do lado oposto ao da junção dos viadutos.

2. Fiesp, ainda. E saiu em área especializada: “(…) mais de 40 sindicatos (patronais), que votarão para a Presidência do sistema Fiesp-Ciesp (…)”. Bom, sindicato vota na Fiesp, mas não no Ciesp: quem vota no Ciesp, o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, são as empresas, não os sindicatos. Em compensação, como alguma boa vontade, pode-se dizer que o resto da frase está certo: são mais de 40, com certeza. Precisamente 126.

3. Legenda de foto, que mostra um temporal em Brasília: “(…) chuva, típica da estação chuvosa”.

4. “(…) a empresa (…) , que neste ano faz aniversário (…)”. Veja só que coincidência: este colunista também faz aniversário neste ano! E, mais coincidência ainda, com certeza o caro leitor nos acompanha: também faz aniversário neste ano!

5. “(…) cuja data-limite se espira (…)”. Sim, está escrito deste jeitinho, e num jornal destinado à classe A. Em seguida, segue-se uma sentença com onze linhas. Ainda bem que o jornal é para a classe A ? gente que talvez entenda o que se esconde por trás do que foi escrito, gente que vai à academia, malha muito e ganha fôlego para ler frases deste tamanho.

Tudo aquilo que foi dito no início deste caixotim é verdade: falta dinheiro, falta gente etc., etc. Mas as múltiplas pós-graduações hoje exigidas de um jornalista, para que é que servem?

 

Está na reportagem, aliás muito boa, sobre as verbas secretas gastas pelo governo. Em determinado momento, fala-se num “míssil anti-radiação”. Alguém tem idéia do que seja um “míssil anti-radiação”? Um foguete, talvez, que mate os cidadãos antes que ocorra uma explosão nuclear, evitando que seja a radiação que os mate?

 

O Laboratório Roche acaba de lançar um concurso internacional de reportagens sobre obesidade, com dois prêmios de 7.500 euros (quase 30 mil reais). Tudo muito bom, tudo muito bem, mas um dos principais geradores de renda dos Laboratórios Roche é um remédio contra a obesidade, o Xenical. Algum repórter que escreva a respeito de problemas causados por remédios contra a obesidade teria qualquer chance de ganhar o prêmio?

Nada contra prêmios de jornalismo: a Esso, por exemplo, patrocina há décadas uma série de prêmios, sem que ninguém possa fazer-lhe qualquer reparo ético. Mas prêmios que selecionam reportagens sobre a área em que atuam os patrocinadores são eticamente muito discutíiacute;veis. E, ao despertar a cobiça dos repórteres, envolvem não apenas a concessão do prêmio: envolvem toda a cobertura do setor [veja remissões abaixo].

 

O jornalista Luciano Martins Costa, comentando a nota desta coluna sobre o racismo de um artigo de Marilena Felinto na revista Caros Amigos (aquele, no qual a autora criticava pessoas com “nomes estrangeirados”), manda o seguinte bilhete:

“Vixe, Carlinhos! E como fico eu, que sou bisneto de judia com africano? Pois minha bisavó, Hanna, fugiu da casa do pai, em Iguape, e foi viver com um negão ? no bom sentido, brothers. Minha avó, Thomasia, casou com um judeu, Pedro, mas ele morreu cedo e as crianças foram criadas numa colônia japonesa. Minha mãe, que aprendeu japonês antes do português, casou com um descendente de huguenotes que era comunista. Tenho primos mestiços, do meu tio Benjamin com a tia Virgínia Setsuko. Tenho sobrinhas mulatas, sobrinhos loiros de olhares nórdicos, sobrinhos-netos americanos da Califórnia.”

 

O senador Eduardo Suplicy, do PT paulista, lutou 12 anos para aprovar o projeto de Renda Mínima. Uma das características de sua idéia é o caráter universalista: todos os cidadãos brasileiros têm direito à renda mínima, do Antônio Ermírio de Morais ao mais pobre entre os pobres. Por que entregar dinheiro para todos, e não apenas para os necessitados? Dois são os motivos principais: evitar discriminação contra quem recebe, evitar a montagem de uma enorme e caríssima infra-estrutura burocrática para determinar quem é que tem direito à renda.

Tudo bem, o projeto foi aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Lula. Mas ? e a imprensa parece não ter notado este detalhe ? “enquanto não houver verbas” a renda sairá apenas para os mais pobres. Resultado: a montagem da caríssima infra-estrutura burocrática (além, claro, da discriminação contra quem a receber). Monta-se a burocracia agora para desmontá-la depois?

Alguém já viu qualquer engrenagem da burocracia ser desmontada?

(*) Jornalista; endereço eletrônico <carlos@brickmann.com.br>

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