Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

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Lígia Formenti

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

BAIXARIA NA TV

“Um xerife contra a baixaria na TV”, copyright O Estado de S. Paulo, 26/10/03

“Nada de novelas, programas de auditório, filmes ou seriados. O homem que está à frente da campanha contra a baixaria na televisão, o deputado federal Orlando Fantazzini (PT-SP), prefere o aparelho de TV desligado. ?Não gosto. São poucos os programas que valem a pena?, diz o deputado, autor de um projeto que prevê a criação de um Código de Ética para as emissoras. Fantazzini só abre algumas exceções: telejornais e, esporadicamente, documentários, principalmente os exibidos em canais por assinatura.

Da novela das 8 exibida pela Rede Globo, Celebridades, Fantazzini diz que não viu nenhum capítulo. Mesmo assim, não gostou. ?Soube que foram exibidas cenas de violência. Um seqüestro, acho.? Da anterior, Mulheres Apaixonadas, viu apenas alguns episódios. ?Aquela personagem que apanhava, francamente…

Quando perceberam que a audiência era grande, eles arrastaram a trama.?

Mesmo sem gostar da TV, Fantazzini durante anos planejou organizar um movimento pela ética na programação. No início desencorajado por colegas parlamentares, ele resolveu incorporar no ano passado o papel de xerife da baixaria. ?Numa viagem pelo interior, vi adolescentes prostitutas que se referiam a uma dona de prostíbulo, personagem de uma novela, como se fossem íntimas. Ficou claro o poder da TV para direcionar comportamentos.?

Ranking – Em novembro, lançou a campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania, que reúne informações sobre programas e mantém contato com responsáveis pelos piores colocados num ranking de qualidade. A estratégia é apelar para patrocinadores caso nada seja feito para melhorar o nível.

?Ainda não chegamos a esta fase. Já conversamos com representantes de alguns programas, como o do João Kleber e o do Gugu.? Com esse último, Fantazzini confessou ter ficado satisfeito. ?Depois do encontro, eles mudaram parte do programa, dando maior ênfase ao jornalismo. Ficou ótimo.? Mas logo veio o episódio da entrevista forjada com membros do PCC. ?Não sei por que a estratégia degringolou. Sorte que nunca fui ao programa, como me pediram depois das modificações.?

A campanha coleciona até agora 6 mil manifestações e 3 mil denúncias. Pouco, diante da legião de telespectadores. Mas o deputado diz estar animado. ?Vou começar uma nova etapa, fazendo contatos com representantes das emissoras.?

Ele também pretende ampliar a divulgação do trabalho. Prepara uma versão com nova linguagem do manual da campanha, com informações sobre objetivos e formas de fazer denúncias. ?A idéia é que o material seja distribuído nas pastorais da Igreja.?

Para debater sobre algo que lhe é tão pouco familiar, o xerife Fantazzini se vale de uma estratégia pouco ortodoxa. Formou uma rede de ?olheiros?, da qual fazem parte assessores, amigos e até mesmo o filho Maurício, de 20 anos. ?Eu, que sempre falei para ele se afastar-se dos programas de baixa qualidade, agora peço para que assista.? Maurício com freqüência protesta. A filha mais velha, Maíra, de 22, escapou da incumbência. Há mais de um ano mora no Canadá.

Fantazzini garante que os filhos sempre viram pouca TV. E orgulha-se de dizer que, quando crianças, eram incentivados a ler, praticar esportes e a passar horas com brinquedos educativos. ?Minha mulher é psicopedagoga.? Ele mesmo não é muito fanático por leituras. Nem por cinema. Ou teatro. ?A última peça que fui ver, dormi no meio?, admite.

Aos 45 anos, Fantazzini cumpre o segundo mandato como deputado, pelo PT.

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, considera a televisão um mecanismo poderoso, seja para educar, seja para difundir preconceitos.

?Por isso avalio ser indispensável um Código de Ética. Não podemos permitir que a televisão seja veículo para preconceitos, de gênero, raça ou orientação sexual.?

O deputado afirma que o projeto, sob avaliação de duas comissões da Câmara, é bastante semelhante ao código da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). ?TV é concessão pública. Não podemos deixar que a atividade seja auto-regulamentada.?

Entre as alterações propostas em seu projeto está a restrição do horário de propaganda de produtos destinados ao público infantil. Fantazzini quer que os comerciais sejam veiculados só no horário em que adultos assistem à TV.

?Imagine o quanto é difícil para uma mãe ter de negar um brinquedo, uma roupa para o filho.?

O deputado diz que nunca enfrentou dificuldade semelhante com Maurício e Maíra – ?houve um ou outro episódio, coisas simples, como exigir roupas de grife.? -, mas passou ele mesmo pela experiência. ?Lembro-me que durante muito tempo sonhava em tomar iogurte, logo que foi lançado. Mas minha mãe não tinha como comprar. Era isso ou a passagem de ônibus para eu e meu irmão irmos à escola.? Passou um bom tempo até ele experimentar a novidade. ?Sorte que não gostei.?

Caminhoneiro – Nascido em Guarulhos, Fantazzini foi funcionário público. Fez o curso de Jornalismo até o penúltimo semestre, mas abandonou para trabalhar como caminhoneiro. Depois de um ano viajando, retomou os estudos, formando-se em Direito.

Vez ou outra, Fantazzini assiste a fitas de vídeo com seleções de programas acusados de baixaria. Mas um deles o deputado se recusa a ver. ?O programa do Ratinho não dá. Sei que ele exibe alguns cartazes, dizendo que deputado que não tem o que fazer fica vendo televisão.? Para o xerife, o pior em programas do gênero é o fato de participantes serem expostos ao ridículo.

?Também detesto aqueles que, para chamar audiência, fazem concurso das melhores pernas ou coisas do tipo. A mulher é sempre vítima preferencial. Elas são tratadas como coisas.?

O deputado está convicto de que, como ele, a maioria dos telespectadores considera degradante esse tipo de programa. E tem uma teoria para os altos índices de audiência: ?Se você come arroz com feijão durante cinco anos, vai dizer que a melhor comida que existe é arroz com feijão. Se o nível de qualidade melhorar, certamente vão sentir a diferença.? E a baixa audiência das emissoras públicas? ?Só tem repeteco. Ninguém agüenta ver sempre o mesmo documentário.?”

 

VILA SÉSAMO

“Garibaldo & cia., agora em cores”, copyright O Estado de S. Paulo, 26/10/03

“O Garibaldo amigo de Sônia Braga era azul. Nos Estados Unidos, era amarelo. Para a maioria das crianças brasileiras, o bicho metade galinha metade avestruz era cinza escuro. Sucesso na década de 70 no programa Vila Sésamo – exibido em preto-e-branco por aqui – Garibaldo vai voltar à TV brasileira falando português e da cor que as crianças quiserem, a partir de uma série de pesquisas.

Dos anos 70 para cá, não foram poucas as ameaças de canais brasileiros dispostos a trazer a turma da Vila Sésamo de volta. Nada foi além das boas intenções. Agora, o canal pago Futura acaba de fechar contrato com a Sesame Workshop, detentora dos direitos do programa, para a produção de uma nova safra do Vila Sésamo para 2004. O projeto inicial prevê a exibição de 52 programas de meia hora de duração cada e algumas mudanças em relação à primeira versão. Uma das principais preocupações, agora, é dar um conteúdo mais brasileiro ao formato e permitir que o público opine.

Garibaldo, Gugu, Ênio e Beto ganharão novo visual e um novo colega. O novato na turma deve refletir a realidade de nossas crianças e será criado de acordo com os gostos e a cultura do brasileiro. Também não haverá atores contracenando com os bonecos, como na primeira versão.

?A produção do programa mistura pesquisa e avaliação de resultados feitas por especialistas e pedagogos preocupados com desenvolvimento infantil?, conta a coordenadora de Aquisições e Parcerias Internacionais do Futura, Paula Taborda. ?Já estamos montando uma equipe, que terá o apoio da Sesame, para pesquisarmos como será esse novo personagem, qual o visual e as características emocionais dele?, continua. ?Tudo será baseado nos gostos das crianças. Só sabemos que boneco brasileiro deve ser pequeno, porque já basta o Garibaldo de grandalhão?, brinca a diretora.

Mas por que demorou tanto para trazer Garibaldo de volta? Exibido no Brasil entre 1972 e 1976 pela TV Cultura e Globo, o programa é uma criação da Sesame Workshop, empresa americana que comercializa programas educativos para o mundo inteiro e que é subsidiada por algumas entidades. Os países que exibem o infantil devem seguir um manual que é uma verdadeira ?bíblia? dos princípios da fundação, a fim de manter as características pedagógicas, e são fiscalizados a lupa pela Sesame.

E há os custos. Além dos bonecos, todos submetidos à aprovação da matriz americana, há uma equipe de produção enorme por trás do programa – professores, pedagogos, técnicos – o que encarece muito a atração. Na primeira versão, há 20 anos, cada episódio custava US$ 7 mil.

?A Sesame costuma financiar os custos de produção do programa, que são bem altos, nos países mais pobres, e cobra daqueles países que podem pagar?, conta a coordenadora do Futura, Paula Taborda. ?Não conseguíamos chegar a um consenso sobre a situação do Brasil, pois possuimos uma TV muito forte e o programa será exibido em uma TV paga, porém educativa. Acertamos que será uma parceria, com divisão de custos.?

Segundo a diretora, no primeiro ano, a prioridade de renovação de contrato será do Futura. Hoje, o canal está disponível para 47 milhões de espectadores, somando os 39 milhões que têm acesso à Banda C (o Futura tem sinal aberto para parabólicas convencionais e cerca de 10 mil escolas recebem o canal gratuitamente) e os 8 milhões que assistem aos canais pagos do sistema Net e Sky.

?Além dos programas gravados em nossos estúdios, exibiremos alguns quadros internacionais e produziremos minidocumentários com crianças brasileiras?, conta Paula Taborda. ?Temos certeza de que o programa dará certo. É claro que vamos tentar renovar o contrato, mantê-lo em nossa programação[TEXTO]. Mas nada impede que, após a primeira temporada, um canal aberto também o compre.?

Sem comerciais – O Futura ainda não definiu quem interpretará o novo Garibaldo, mas o original, vivido pelo ator Laerte Morrone, está feliz com a volta do programa. Ele se orgulha muito de ter participado da primeira edição do infantil e diz que carregar aquela fantasia cheia de penas e uma cabeça gigante (que ele segurava com o braço estendido) e que pesava 5 quilos foi a coisa mais importante de sua vida.

Junto dele, um elenco de primeira faz qualquer marmanjo ter saudade do programa: Aracy Balabanian, que vivia Gabriela, Flávio Galvão (Antônio), Armando Bógus (Juca), Manoel Inocência (Almeida) e Sônia Braga (Ana Maria). No texto e nas músicas, obras assinadas por nomes como Renata Palotini e Chico Buarque de Holanda, que, segundo Morrone, costumavam colaborar com o programa de graça.

?Todos queriam participar e não havia dinheiro para pagar todo mundo. O programa consumia muito e não ganhava quase nada. Havia uma cláusula no contrato que proibia a veiculação de qualquer comercial cinco minutos antes e cinco depois da atração. Nem durante podia?, conta ele. ?O programa é mantido por entidades nos EUA e tem boa parte de sua renda revertida para instituições de caridade e voltadas para educação infantil. Eles fazem questão de dizer que não ganham nenhum centavo?, continua. ?É tudo muito lindo, mas nada funciona sem dinheiro na TV. Foi por isso que o programa acabou, sobraram saudades e muitas histórias de um Garibaldo velho para contar.?

As histórias vividas por Morrone como Garibaldo são sensacionais, ainda mais contadas na voz dele. Em um show num estádio de Belo Horizonte (MG), havia 10 mil crianças. ?Abriram a porta do estádio e mandaram o Garibaldo correr em direção ao centro do campo. Entrei, mas não imaginava que as 10 mil crianças estavam no gramado?, conta ele. ?Correram todas atrás do pobre Garibaldo e começaram a arrancar as penas, a roupa, fiquei desesperado. Só pensava em cobrir meu rosto, afinal, não podia revelar a minha identidade. Garibaldo ficou depenado, mas não mostrei o meu rosto.?

Morrone conta que o Garibaldo da versão americana (lá chamado como Big Bird) possuía um monitor que o ajudava a se guiar no palco, já que a cabeça do ator fica tapada pela malha. O primo pobre brasileiro não tinha nada disso. ?Eu contava com a boa vontade dos amigos para me guiar. Vivia com nariz machucado, de tanto dar cabeçada no estúdio?, conta Morrone. ?Sônia Braga costumava dizer que era insuportável trabalhar comigo. Ela cansou de tomar pancadas e empurrões daquele pássaro gigante?, conta, rindo.

Só alguns anos após o fim do programa é que Morrone revelou sua identidade como Garibaldo. A princípio, conta, era uma cláusula de seu contrato que o impedia de falar, depois, foi a magia do personagem que o calou. ?Queria manter Garibaldo vivo, fiz tudo o que pude.? E conseguiu.”

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“Personagens hoje valem um bom negócio”, copyright O Estado de S. Paulo, 26/10/03

“Ninguém sente mais a falta de Garibaldo e seus amigos que a indústria de produtos infantis. Um ano antes da volta do Vila Sésamo ao Brasil, fabricantes de brinquedos, alimentos e roupas para os pequenos já começaram a se agitar na criação de produtos da marca.

Garibaldo, Ênio e Beto já estão estampados em bicicletas e triciclos da Bandeirantes, jogos da Grow e a Toyster, brinquedos de praia da linha Rosita, e até em artigos de festa da empresa Festcolor. Os números ainda não estão fechados, mas há expectativa de que a marca já movimente esse ano cerca de R$ 10 milhões no Brasil.

?Sabendo da possibilidade da volta do programa, o mercado já se antecipou e lançou uma série de produtos, e é só começo?, garante o gerente de Negócios da Redibra, que licencia produtos da Vila Sésamo no País, Celso Rodrigues.

?São geralmente produtos dos mais variados tipos para crianças de até 4 anos.?

Entre os produtos campeões de venda estão os DVDs do Vila Sésamo, que foram lançados aqui há poucos meses. São ao todo quatro títulos, o primeiro deles, Brincando com Ênio e Beto (foto), já apareceu em outubro na lista dos dez DVDs mais vendidos no País.

?Já esperávamos que os DVDs vendessem bem, afinal, o forte da marca é o seu conteúdo educacional, é a sua imagem de programa bem conceituado?, fala Rodrigues.

Além de brinquedos e DVDs, os fabricantes de bolachas e iogurtes são os que mais têm procurado a Redibra atrás da marca Vila Sésamo. Ao que tudo indica, no próximo ano haverá um ?boom? de produtos de Garibaldo & cia.

Para Celso Rodrigues, boa parte dessa procura e do sucesso dos produtos já lançados estão ligados à memória saudosista das pessoas, pais e avós de hoje que eram apaixonados pelo programa no passado.

?Quem não viu, ouviu falar coisas boas e ficou com uma imagem bacana na cabeça. Quem viu tem uma recordação boa e quer que os filhos e netos conheçam?, explica Rodrigues. ?As pessoas querem muito que o programa volte. Nós, da Redibra, mais do que qualquer um.?”

***

“Infantil é engajado: versão africana tem boneco soropositivo”, copyright O Estado de S. Paulo, 26/10/03

“A mais querida vila do mundo fará 35 anos em 2004. Vila Sésamo está em sua 34.? temporada na TV americana e desde sua estréia, em 1969, fez mais de 100 milhões de crianças nos 148 países por onde passou cantarem junto com Garibaldo, Ênio e Beto. Mais do que música e diversão, Vila Sésamo – Sesame Street como é conhecida em seu lugar de origem – ganhou muitas adaptações e versões em 15 idiomas. Criada para auxiliar no desenvolvimento das crianças, a atração também passou a ser socialmente engajada, abordando causas específicas em cada país.

A mais polêmica delas é a criação do personagem Kami, boneco da versão sul-africana do programa, que parece um urso, adora a natureza e é portador do vírus HIV. Sim, Garibaldo tem um amigo soropositivo na África. Kami, que significa ?aceitação? na língua local, estreou no Vila Sésamo africano (Takalani Sésamo) no ano passado como mais um esforço do governo local para conter a epidemia de aids no país e o preconceito.

Kami foi rejeitado em 2001 como membro oficial da comunidade original do Vila Sésamo nos EUA. Na África, apesar de alguns protestos, o personagem continua no ar e é um dos campeões de cartas do programa.

Judeus e palestinos – Bem antes disso, em 1993, o programa ganhou uma versão produzida em conjunto por israelenses e palestinos. Os bonecos viviam histórias que mostravam que, apesar das diferenças, os povos poderiam ser amigos. O projeto ficou no ar até 2000, quando novos ataques terroristas retomaram o clima de intolerância na região. A equipe de produção, que reunia israelenses, jordanianos e palestinos, se separou. O programa passou a ter histórias separadas de cada etnia criadas por cada uma das equipes, que nem conversavam mais umas com as outras.

No México, Pláza Sesamo ganhou todos os prêmios de programação infantil enquanto esteve no ar (1972/81), mas o que chamou atenção, de fato, era a abordagem da questão das crianças portadores de algum tipo de deficiência.

Além da atenção de Abelardo (o Garibaldo mexicano) para com essas crianças, o programas passou a exibir minidepoimentos otimistas de crianças portadoras de algum tipo de deficiência, ou que possuem algum caso assim na família.

O exemplo mais recente de engajamento é o Projeto Liberdade, que o Sesame Street encabeça nos EUA para ajudar as crianças a superarem o medo do terrorismo que se instalou no país após os atentados do 11 de setembro. Os bonecos estimulavam os pequenos a falarem com os pais sobre os seus medos e esclareciam dúvidas sobre o tema. Depois da guerra no Iraque, a campanha ganhou mais força.

No Brasil, a criação de um personagem local só será definida após a realização das pesquisas que o Futura e a Sesame Workshop pretendem encomendar por aqui.”

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