Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > QUASE CENTENÁRIO

L’Humanité

Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

QUASE CENTENÁRIO

Leneide Duarte-Plon, de Paris (*)

Não foi propriamente uma revolução. Apenas uma reforma como requer a nova ordem do mundo, pouco afeita a rupturas. Afinal, vivemos tempos pós-URSS e as revoluções comunistas são coisa de um passado já distante. Com a cautela que exigem os novos tempos ? revoluções implicam sempre um grande risco ? o jornal comunista francês L?Humanité se limitou a uma maquiagem para enfrentar o aniversário de 100 anos, em abril do ano que vem.

A reforma gráfica inaugurada na segunda-feira, 12 de maio, faz parte de uma campanha para conquistar novos leitores. Ou pelo menos para manter os fiéis, que garantem a tiragem de cerca de 50 mil exemplares em toda a França. Ser leitor do L?Huma é antes de tudo ser um militante que não quer ver seu jornal desaparecer do cenário da mídia francesa no qual ele ocupa um lugar histórico.

Em plena crise financeira, ameaçado de ter que fechar antes de comemorar o centenário, o diário comunista fundado por Jean Jaurès (em 18 de abril de 1904) resolveu tornar-se mais leve e fácil de ler. Mas, antes, lançou a "campanha de subscrição do centenário", pois o jornal foi duramente atingido pela crise que se abateu sobre a imprensa escrita há cerca de dois anos.

Os cheques que chegaram à redação já somavam 618 mil euros no fim da segunda semana de maio, representando doações de mais de 12 mil leitores. Essa mobilização militante é o grande trunfo do jornal, que tem nos eleitores comunistas o suporte para levar adiante o sonho de Jean Jaurès de um jornal "feito para transformar a sociedade" ou "trabalhar pela realização da humanidade".

A reforma veio depois de um período em que o jornal não parava de perder profissionais, páginas e leitores.

Se é verdade que as pequenas reformas das páginas internas facilitam a leitura, a diagramação da capa conseguiu transformar o L?Humanité num jornal tão parecido com o Libération que, para não se enganarem, os leitores de um e do outro vão ter que prestar muita atenção ao logotipo antes de pegá-los nas bancas. A fórmula de divisão da capa em uma grande chamada que ocupa cerca de três quartos do espaço de alto abaixo e as pequenas chamadas da coluna à direita têm um ar de déjà vu para o leitor de Libération.

As mudanças de conteúdo deverão agradar aos leitores, que ficam mais próximos da redação. Como a moda é a interação, foi criada a coluna "Le fil rouge" (algo como "Linha direta") para a qual os leitores são convidados a escrever fazendo denúncias de discriminações de que foram vítimas ou abordando temas de interesse geral que não foram tratados pela imprensa. O mundo da comunicação ganhou mais espaço com a nova rubrica "Médias Télé", na qual o foco da notícia estará sobre todas as mídias.

Palavra de ordem

No artigo em que apresenta a reforma do jornal, o diretor Patrick Le Hyaric diz que L?Huma tem um engajamento claro com as lutas da esquerda e quer ser "mais dinâmico e mais solidário". Ele lembra as próximas batalhas mobilizadoras da opinião pública, como o protesto contra o G-8, que se reúne em Evian, no início de junho, e contra a globalização, no Fórum Social Europeu, em novembro. É nesses grandes eventos aglutinadores de toda a esquerda ? como as passeatas do 1? de maio do ano passado, contra a ida de Le Pen para o segundo turno ? que L?Humanité encontra o élan que empolga seus leitores comunistas, que se transformam em vendedores de jornal e desfilam exibindo a capa nas grandes passeatas em Paris.

Apesar de não ter mais a foice e o martelo no logotipo nem a apresentação de "órgão oficial do Partido Comunista Francês" , L?Humanité não pretende ser um jornal neutro. Mas também não pode ser acusado de estalinista. O noticiário político é mais ou menos objetivo mas todos os assuntos são devidamente analisados para que o leitor tire conclusões críticas sobre a política interna da França e sobre o que se passa no mundo.

No caso da condenação dos jornalistas e intelectuais cubanos e na execução dos seqüestradores do ferry boat, por exemplo, L?Humanité não tomou o partido de Fidel Castro. Noticiou as condenações e as críticas que foram feitas por todo o mundo, a começar pela França. Todos os dias, o jornal publica entrevistas com filósofos sociólogos e cientistas políticos de alto nível que aprofundam temas da atualidade nacional e internacional.

No jornal da segunda-feira, dia 12, a manchete principal da capa era a mobilização nacional do dia seguinte contra a reforma da Previdência do governo Jean-Pierre Raffarin, contra a qual tanto o setor público quanto o privado eram convocados a sair em passeatas gigantes por todo o país.

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