Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > FOGO NO XUXA PARK

Liana Melo

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

QUALIDADE NA TV

FOGO NO XUXA PARK

"Cheiro de negligência", copyright IstoÉ, edição 1634

"O incêndio que atingiu o estúdio F do Projac, da Rede Globo, no último dia 11, poderia ter sido evitado se a segurança fosse a preocupação número um dos técnicos da emissora. O fogo que destruiu o estúdio de um dos maiores centros de produções da América Latina e deixou 84 pessoas feridas, entre elas crianças, foi provocado por um acidente termoelétrico. O resultado parcial da perícia – ainda não concluída pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), do Rio – aponta irregularidades nas instalações e equipamentos do estúdio. Foram encontrados, entre os escombros, fios emendados com fita isolante, quando deveriam estar inteiros. O laudo oficial deverá ser divulgado no início desta semana, mas os peritos do ICCE estão convencidos de que foi um ato de negligência que motivou a tragédia.

Na última quarta-feira, o delegado Zaqueu da Silva Teixeira, da 32ª Delegacia de Polícia recebeu cópias de oito fitas com cenas do incêndio. Além de descobrir a origem do fogo, Zaqueu quer saber se o estúdio estava ou não superlotado, se a roda gigante seguia as normas técnicas e se a natureza do material usado no cenário era adequado para aquele fim. Peritos envolvidos na investigação estão desconfiados de que o material plástico encontrado no local não era apropriado. Por isso, o incêndio teria se propagado de forma tão rápida. ‘Este incidente mostrou que devemos nos preocupar mais com o público e menos com a beleza do ambiente’, disse um dos peritos do ICCE. Outra dúvida é se o mecanismo de segurança da emissora foi acionado sem perda de tempo. ‘Os equipamentos e os procedimentos de combate a incêndio também entraram em operação imediata’, garantia o comunicado oficial da emissora. Devido à fumaça negra, as fitas de vídeo com as imagens do incêndio não deixam ver se todo o equipamento foi utilizado.

‘O fogo começou por volta das 21h06 devido a um provável curto-circuito no mecanismo da nave espacial que faz parte do cenário, atingindo todo o teto do estúdio’, dizia o comunicado oficial da Rede Globo. ‘Não foi bem assim. A nave da Xuxa foi alvo de um incêndio’, disse um dos peritos. O fogo teria começado no teto do estúdio, onde estão instalados refletores e spots de luz. O registro do acidente foi feito às 21h49 na Polícia Civil. Existem dúvidas ainda de quando e por quem o Corpo de Bombeiros foi acionado. Quando o fogo começou, entrou em ação a brigada de incêndio da emissora e da empresa de segurança Resgate Plus. Segundo a Globo, o Corpo de Bombeiros chegou no local às 21h10.

Estado grave – A menina Thamires Gomes Valleja, de 7 anos, que ficou presa na roda gigante, está em estado grave: 34% do corpo apresenta queimaduras de 2º e 3º graus. O segurança Leonilson Vieira de Oliveira, que tirou Thamires da roda gigante, teve as funções cardiorespiratórias atingidas, assim como Silvana Oliveira de Souza, 38 anos, que continua no CTI, com insuficiência respiratória aguda. Ao todo, seis pessoas estão em situação grave. A apresentadora tem visitado durante a madrugada as vítimas hospitalizadas. Até a quinta-feira 18, 13 pessoas prestaram depoimento, mas Xuxa ainda não havia sido intimada pelo delegado. Ela foi convidada a depor duas vezes, mas não compareceu à delegacia alegando que não estava se sentindo bem.

O incidente no Xuxa Park modificou a rotina dos estúdios da Globo em São Paulo, onde todo o sistema é supervisionado por computadores. Foram reforçados o treinamento do pessoal envolvido na segurança e as instruções para o público. Nas demais emissoras, as gravações seguiram o ritmo normal, sem medidas adicionais de segurança. Mas o SBT e a Record garantem que uma maior cautela nas áreas de risco já existe. Os cenários em Osasco (Grande São Paulo) do SBT, por exemplo, são feitos com madeira forrada de alumínio ou aço, para evitar a rápida propagação das chamas ou a intoxicação pela fumaça. A parte de iluminação e motores elétricos no programa infantil Eliana e Alegria, da Rede Record, é mantida longe dos bonecos e de outras animações. ‘A responsabilidade sobre o modo de se fazer o cenário fica com a emissora’, explica o capitão Jolan Eduardo Filho, chefe da seção de fiscalização do Corpo de Bombeiros de São Paulo, referindo-se, por exemplo, ao excesso de material inflamável sem uma dose extra de equipamentos antiincêndio. ‘A vistoria feita se refere àquele dia. A manutenção da segurança cabe à empresa’, completa Clayton da Costa, diretor do Contru, órgão da prefeitura paulista para a fiscalização de imóveis. (Colaborou Adriana Souza Silva)"

"Polícia apura superlotação no estúdio do ‘Xuxa Park’", copyright Jornal do Brasil, 26/01/01

"O delegado Zaqueu Teixeira, da 32ª DP (Jacarepaguá), disse ontem que está investigando a possibilidade de superlotação no estúdio do programa Xuxa Park, que pegou fogo há quinze dias . ‘Temos depoimentos afirmando que havia mais de 300 pessoas no local, sem contar com as equipes de gravação, quando a própria direção do Projac informou que a capacidade era de 84 pessoas sentadas ou 125 de pé’, disse Teixeira. Ontem foi divulgado o laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) que atribui as causas do incêndio a um curto circuito no spot de luz da nave.

‘A situação foi agravada pelo grande número de materiais inflamáveis usados no local, que colaboraram para a rápida propagação das chamas’, explicou o diretor do ICCE, Sérgio Henriques. Segundo ele, foram encontrados também fios emendados, desencapados ou cobertos com fita adesiva, revelando a falta de segurança nas instalações elétricas.

O delegado aguarda para os próximos 15 dias o resultado de um novo laudo, questionando a segurança da roda gigante, os extintores, o número de saídas de emergências e os planos para evacuação do estúdio. ‘Preciso saber por que demoraram tanto a retirar a menina Thamires e por que as pessoas não conseguiam deixar o local pela porta de emergência’, observou.

Curto – O diretor do ICCE negou que houvesse vestígios de falta de manutenção no equipamento que causou o acidente, mas afirmou que o incêndio poderia ter conseqüências menores com o uso de tintas com menor capacidade de combustão. O laudo conclui que houve ‘um incêndio de médias proporções, com foco único e progressão uniforme de origem acidental, causado por acidente termo-elétrico (curto-circuito)’. Foram examinadas 90 fotos.

Até o final da tarde de ontem, mais de 30 pessoas já haviam prestado depoimento, três delas entraram com queixa na 32ªDP por lesões corporais. Segundo Teixeira, há indícios de que houve falha por parte dos técnicos do Projac. ‘Estamos avaliando para ver se encontramos novas falhas na questão da segurança do público’, disse. Segundo o delegado, o público era formado por crianças, que foram assistir à gravação de um programa infantil e tiveram sua integridade física exposta.

Feridos – Mais dois pacientes deverão ter alta hoje no Hospital Barra DOr, permanecendo internado apenas o segurança Leonilson Vieira de Oliveira, 47 anos. O menor Flávio Luiz Olímpio dos Santos, 15 anos, e a dona de casa Maria Cristina Resende Araújo, 36 anos, melhoraram e poderão sair do hospital. Eles continuarão o tratamento em casa.

Embora tenha dado sinais de melhora, o estado de Leonilson ainda é considerado grave pelos médicos. O mesmo acontece com a menina Thamires Gomes Vallejo, 7 anos, que está internada no Hospital da Força Aérea, na Ilha do Governador. Ontem, ela foi submetida a um procedimento de limpeza do local danificado pelas queimaduras com retirada dos tecidos mortos. No local foi feito um curativo com pele de cadáver. Segundo o boletim médico divulgado na tarde de ontem, Thamires está sedada e respirando artificialmente. .

Outros dois pacientes, Reinaldo Alves Teixeira, 37 anos, e o sobrinho, Marcos Vinícius Ventura, 5 anos, ainda estão internados na Clínica São Vicente, na Gávea. Eles deverão receber alta na próxima semana."

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