Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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Liberdade plena, desarvoramento completo

Por lgarcia em 08/05/2002 na edição 171

ARGENTINA, MÍDIA E DRAMA

Jorge Marcelo Burnik (*)

Os sucessivos governos argentinos têm-se caracterizado por sua parcimônia na comunicação com seus representados. Desde o começo dos anos 90 até a atualidade muita coisa mudou na mídia argentina, algumas para melhor outras para bem pior. A herança dos governos militares das décadas de 60 e 70 e começo dos 80 era uma mídia supercontrolada (quase autocensurada), que com o tempo passou a tomar posição diante dos fatos, e não só a apresentá-los com leviandade. A onda privatista do governo Menem atingiu também a mídia, e assim muitas rádios e emissoras de TV foram privatizadas, sem que o poder perdesse sua função censória.

Um novo fenômeno começou a se espalhar em meados dos 90. Com epicentro nas terras portenhas, atingiu o país todo. Trata-se da criação (aparentemente) descontrolada de estações de rádio, TV e jornais, muito com capitais vindos de algum endinheirado (quase sempre um político) que viu na mídia uma ótima ferramenta manipuladora das massas. Até que no começo o esquema teve sucesso. Porém, o furor era tal nesta "liberdade" que pseudo-homologou a situação da Argentina entre os países desenvolvidos. A sensação era de que a quantidade midiática daria, de uma maneira inexplicável, uma qualidade midiática ? porque a lógica indicava que o governo não poderia manipular a um só tempo todas as estações de rádio e TV e todos os jornais do país. Mas isto não passou de uma esquisitice. Infelizmente, o poder político na mídia enraizou-se ao longo dos anos e o tempo demonstrou que o raciocínio, quase positivista, foi enganoso.

Na forma de publicidade oficial no começo, e para aquelas que não precisavam do assistencialismo governamental, o esquema foi "negociar": troca de impostos atrasados por direcionamentos ideológicos. A mídia estava condenada aos "arranjos" dos funcionários da hora, e o que é pior, ainda o estão alguns. Mas, nos últimos meses, aconteceu algo que fugiu ao controle de quem tem o plantão do poder político-econômico: os fatos que se sucederam de dezembro até hoje suscitaram em todo mundo o desejo do furo, para aliviar a necessidade de contar o que acontecia.

A indignação social desviou a atenção governamental para a multidão que, com implacável clareza, explanou o que desejava, "que se vayan todos!" (cai fora todo mundo!), contra os políticos que hoje prejudicam a vida de milhões de pessoas na Argentina. Atualmente, os canais de TV (principalmente a cabo, pois a TV aberta é tão ruim como em qualquer país latino-americano) denunciam a desqualificação e a cooptação de alguns no processos de esvaziamento da "coisa pública", que foi durante anos sistematicamente desrespeitada e impunemente furtada.

Mas a pergunta que não quer calar é: por que se deu esta virtual recuperação da função da mídia agora, e não antes? Durante anos os políticos argentinos funcionaram como uma confraria, funcionários investidos de uma inaceitável mística evitavam falar ao povo ? pela mídia, principalmente ? sobre o que estava acontecendo realmente no país. A alternativa era ir à procura de um livro específico de pesquisa jornalística sobre a questão de interesse. Porém, como na Idade Média, o verdadeiro conhecimento e a informação mais fecunda ficavam reclusas nos "mosteiros do poder". Fora isso os políticos apareciam na mídia como alegres cúmplices de programas passadistas, falando das maiores futilidades.

Era o tempo da grana doce das privatizações, e qualquer furo que pudesse sugerir um escândalo era sepultado no túmulo de magnânimos subornos. Assim invernamos até que a grana acabou. Mais conscientes uns que outros, todos sabíamos que algum dia o que passou a ser conhecido como a "Festa Menemista" acabaria, e chegaria a hora de pagar a conta. Nossa hora chegou, só que quem mais festejou agora se recusa a abrir mão e sugere que a conta seja paga pelos mais pobres.

Um novo papel

Isto tinha que explodir, e o fez da única maneira possível, com as pessoas nas ruas e um redescobrimento do papel da mídia argentina ? que, mesmo com alguns sintomas da velha guarda política, está começando a revelar a doença da propina fácil e as ideologias enlatadas.

As denúncias começaram a ser o tema de quantos programas ? jornalísticos ou não ? flutuam no ar. Da televisão são lançados insultos, acusações, apelações e propostas a uma casta política que não reage, como se a crise argentina não tivesse nada a ver com eles, como se a ausência de respostas fosse a solução a tudo. E uma cena já vivenciada muitas vezes se apresenta como a proposta única: os verdadeiros culpados estão tão longe no tempo que do poder se induz a esquecer tudo, e sofrer hoje para estar bem amanhã (mesmo que o amanhã nunca seja hoje).

Mas, desta vez, o povo é quem não quer abrir mão.

Tão importante acabou sendo o papel da mídia atualmente que as pessoas antes de denunciar um fato na justiça preferem ir a um jornal, a uma rádio ou a um canal de TV, fato não raro num país em que a principal suspeita de injustiça cai paradoxalmente no Poder Judiciário. Então o povo usa as telas na procura de ? ao menos ? uma condenação social aos autores de crimes de todo tipo. Em jornalismo, a crítica sem proposta é quase tão perigosa como a falta de senso critico, mas infelizmente as propostas não estão sendo ouvidas porque as instituições estão fragmentadas. Numa explicação tão simplista como denotativa poder-se-ia dizer que ultimamente na Argentina há uma sobreposição de atribuições, a ponto de o Poder Executivo fazer o exercício de legislar; de seu lado, o Legislativo executa a vontade do Executivo em leis adaptadas ás necessidades da política do momento, e o Poder Judiciário faz política negociando o que deve ser entendido como crime e o que não o é em condições geralmente artificiais.

Este intríngulis é uma visão simples de um intricado esquema que resiste a morrer, e que mantém viva a disputa entre novos e velhos conceitos de política. E tem um país bipersonalizado como ator-espectador na vitrine da mídia, que hoje ficou mais séria e poderia estar à procura de sua revanche pelos anos de manipulação. Se for assim, o processo está apenas começando, e o tempo dará o veredicto final.

Nova chance para a mídia

Nos últimos dias do governo De la Rua, muitos foram os jornalistas que apelaram para que o então presidente aparecesse na mídia e explicasse ao povo o que estava acontecendo. Por que o confisco das poupanças? Mas o resultado foi negativo, possivelmente seria uma ousadia que a mídia sugerisse ao governo, contrariando o esquema unidirecional institucionalizado durante anos, no qual eram os detentores do poder os que sugeriam verticalmente o que devia ser dito ou calado pela mídia, enfim, De la Rúa percorreu seu caminho calado, e sem palavras sumiu das páginas dos jornais, para denunciar quatro meses depois um complô contra seu governo. Mas então, como demorou quatro meses para perceber a existência do tal complô? Como não o percebeu na hora e aproveitou a mídia, nem pediu apoio ao povo que o tinha escolhido? Este é um enigma que passará à historia, senão como enigma como absurdo.

Hoje a mídia acusa e revela coisas que as bocas dos políticos nunca falariam abertamente. Foi pela TV que o povo ficou sabendo que a grana das poupanças depositada nos bancos era quase imediatamente emprestada a firmas fantasmas, cujos donos eram os mesmos donos dos bancos que as emprestavam, para logo declarar falência e aguardar o salva-vidas financeiro do Banco Central, cúmplice inexpugnável nesta manobra de esvaziamento. É na mesma mídia que o povo aprende todos os dias que a questão de base é que como as coisas são feitas segundo o cardápio do FMI virão mais ajustes num país que regrediu anos em questão de meses.

Pesquisa da mídia mostrou cruamente que o presidente do Banco Central da Republica Argentina, Mario Bleger, mantém muito boas relações com o FMI por ter sido até algum tempo atrás funcionário direto da instituição monetária internacional. E lá vem a impetuosa pergunta outra vez: como alguém que tem tão boas relações com o FMI pode representar objetivamente os interesses financeiros da Argentina precisamente ante instituição internacional tão demonizada pela maioria da população Argentina?.

Também foi a memória da mídia que lembrou a passagem do atual ministro da Economia, Roberto Lavagna, pelas fileiras do Partido Radical, no governo que acabou na hiperinflação argentina do fim dos 80. É na televisão nacional que aparece um sinal de alerta a respeito da ultraortodoxia de Lavagna e sua simpatia com a sugestão do FMI de encarar um novo ajuste das contas públicas (traduzido politicamente como ajuste social).

Porém, estamos diante de uma grande oportunidade para a mídia argentina de começar a decolar e se afastar da teimosia dos políticos oportunistas, processo que levará tempo sem dúvida, mas que está hoje ás portas de uma nova maneira de encarar sobretudo o jornalismo investigativo, e manter algo da confiança de um povo que bóia no niilismo à beira do desespero…

(*) Jornalista graduado na Universidade Nacional de Misiones, Argentina

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