Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > HORROR BANAL

Lições matinais de tortura

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

HORROR BANAL

Luiz Egypto

Na manhã de quarta-feira (17/2), parte dos ouvintes de rádios FM sintonizadas na área da Grande São Paulo receberam mais um exemplo de como a introjeção da violência deu-se mesmo nos juízos emitidos por âncoras que se pretendem diferenciados da baboseira homicida e policialesca que grassa em outra faixa de onda, nas emissoras AM, onde a defesa da lei de talião é diária e o apelo à pena de morte, comum.

Ao dar a notícia de um roubo havido na farmácia do Hospital das Clínicas, no centro do maior complexo hospitalar da América Latina, o condutor do programa Pulo do gato (Band FM, das 6h às 7h), José Paulo de Andrade, defendeu que a ação só foi possível porque entre os assaltantes havia "gente de dentro" do hospital; e sugeriu, num arroubo de metáforas médicas, que se fizesse com o suspeito "uma cirurgia daquelas em que ele desova tudo o que sabe". Não mencionou que tipo de bisturi consideraria mais apropriado para a sessão de abra-a-boca-e-fale-tudo-senão-morre.

Mais adiante no dial, na rádio Cultura FM, especializada em música erudita, ao comentar a entrevista coletiva do "falcão" Donald Rumsfeld a respeito da prisão de Saddam Hussein, Salomão Schwartzman pegou mais leve no seu programa Diário da manhã (8h às 9h), embora tivesse o cuidado de descer aos pormenores da receita do suplício. O secretário americano da Defesa mencionara que Saddam seria interrogado pelo pessoal da CIA e Schwartzman apressou-se em propor a "tortura da cabra".

Consiste no seguinte, segundo o apresentador: ajeita-se um balde de água salgada e uma cabra; o prisioneiro é imobilizado com os pés descalços, que são molhados na água salgada. A cabra, atraída pelo sal, lambe os pés do sujeito. No primeiro minuto, a vítima acha graça; no segundo, ri às bandeiras despregadas; a partir do terceiro minuto, o riso é fora de controle, convulsivo e asfixiante, e Saddam falaria tudo o que os agentes gostariam de saber. Conclusão sobre o método, de acordo com o aprendiz de feiticeiro: "É mais barato e não deixa marcas comprometedoras".

Tudo muito edificante.

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