Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > VEJA & MST

Linguagem truculenta

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

VEJA & MST

Dioclécio Luz (*)

Carta aberta a um jornalismo sonso

Sr. Tales Alvarenga, Diretor de Redação da Veja

Escrevo por causa de algumas declarações desta revista, contidas na edição n? 1813, 30/7/03.

Primeiro, espanta-me o tipo de jornalismo feito pela Veja, que, infelizmente, pode servir de exemplo para algum estudante inocente, crente de que isso que vocês fazem é jornalismo.

Lembro: não estamos nos idos de 1960, quando a "Aliança para o progresso" vinha nos dizer que o comunismo seria o fim do mundo. A Veja, no entanto, ainda se inspira nos textos daquela época, ou, modernamente, nas lições medievais da Tradição Família e Propriedade (TFP). No editorial da edição citada a revista se mostra indignada com o fato de o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, "ter ido tomar chimarrão com os sem-terra num acampamento de nome Che Guevara". Fala sério, Tales, você ainda acha que comunista come criancinha? Ora, isso é terrorismo, Tales. Não deixe as pessoas ? seus milhões de leitores ? com medo.

No Brasil, ter crença religiosa ou ideológica diferente da sua não é crime. O fato de o ministro visitar um acampamento chamado Xuxa ou Che Guevara não configura crime. E mesmo que Rosseto seja (não sei) defensor do socialismo, isto não é crime. Ainda mais que Lula foi eleito com o voto de muita gente ? incluindo o MST ? que defende o socialismo. O espantoso seria Rosseto não ir a um lugar intitulado Karl Marx, Lênin ou Che Guevara, atendendo a pedido da Veja. Espantoso não é Rosseto entre os sem-terra. Espantoso é um governo popular como o de Lula ter um ministro neoliberal convicto, Roberto Rodrigues, defensor da mesma linha de FHC. Isto sim, é estranho. Quem votou em Lula esperando mudanças acha um absurdo a presença de RR e defende Rosseto. Você não sabe disso, Tales? Ou se faz de sonso?

Mas, Sr. Editor, o que me preocupou mesmo foram as declarações da revista na matéria (não-assinada) na página 50: "Stedile declara guerra". Leio que o MST é "um movimento baderneiro que prega a violência e se alimenta de um combustível que mistura os excluídos do campo e da cidade, o complexo de culpa da elite e da classe média e a falta de firmeza das autoridades contra as ilegalidades praticadas".

Não sou do quadro do MST, apenas faço parte de um contingente de milhares de pessoas, entidades, ONGs, empresários, estudantes, trabalhadores, jornalistas, que colaboram com o Movimento. Por isso senti-me constrangido com essa ofensa. Não sou baderneiro e nem apoio nenhum grupo de baderneiros, como você dá a entender. Peço a gentileza de dobrar a sua enorme língua e respeitar os outros, principalmente quando bota uma matéria anônima. Ainda mais que o abuso de adjetivos fere o bom jornalismo (e falo de competência jornalística) e agride a noção de respeito.

A Veja, como todo veículo de comunicação (ou propaganda), tem todo o direito de expressar sua opinião. Mas o autor anônimo desse texto usa de uma linguagem tão truculenta que não se pode chamar isso aqui de crítica e muito menos de matéria. Aqui se inclui até uma curiosa análise psicológica da classe média brasileira. Baseado em que estudos a Veja chegou à conclusão de que há um complexo de culpa da classe média capaz de permitir o avanço do MST? Leu as teses da psicóloga Míriam Leitão ou as do antropólogo Arnaldo Jabor?

Há, porém, algo que vai além dessa truculência e agride o bom jornalismo: a manipulação de expressão. Aonde o MST fala em "latifundiários" (donos de grandes extensões de terra), a Veja substitui por "agricultores e pecuaristas". Ora, o MST não luta contra "agricultores e pecuaristas", como dá entender a Veja. "Agricultores e pecuaristas", diz a nossa cultura, produzem, geram alimentos ? a princípio não são inimigos do povo brasileiro ou dos sem-terra. O Movimento quer acabar com o "latifúndio", sim, porque terra tem uma função social e não pode ser motivo de especulação ? conforme diz a lei maior brasileira. Portanto, a Veja deseduca, confunde o leitor, o povo brasileiro, quando informa que o MST quer acabar com "agricultores e pecuaristas".

Mas há outras manipulações…

Quanto às declarações de João Pedro Stedile no Rio Grande do Sul. Vamos supor que ele tenha dito que seu "exército" (os sem-terra) "vai acabar com eles" (os latifundiários, e não os pecuaristas e agricultores, como desinforma a Veja). Ora, o jornalista, por mais burro que seja, deve fazer as perguntas óbvias: "Vai acabar como? Com o quê? Com que armas?" São perguntas do jornalismo mais primário, que Veja não faz. Não faz porque sabe a resposta: não existem armas. As armas que eles têm é "ocupar, resistir, produzir".

Não se trata aqui nem de defesa do MST. Mas de defesa de um jornalismo de qualidade. Há apelações rasteiras, típicas de um panfleto da "Aliança para o progresso". A Veja vai em busca do dicionário para informar (manipular) ao leitor que "acabar", como propôs Stedile, é o mesmo que "matar". E oferece a conclusão: Stedile mandou os sem-terra matarem os latifundiários.

A revista vai mais além e coloca a fala de Stedile como uma fala histórica, uma declaração de guerra: "Pela primeira vez se testemunhou o líder político admitindo que sua intenção não é conseguir terra para plantar feijão ou milho, mas ?acabar? (matar!) com uma fatia da sociedade". A Veja pratica o terrorismo. Acabar com o latifúndio não significa matar fazendeiro, como a revista diz ao seu leitor desavisado.

Cá pra nós, Tales, se fosse esta a estratégia do MST, que existe há 15 anos, eles seriam muito incompetentes, não achas? Porque, curiosamente, não conseguiram matar ninguém até hoje; quem morre é sempre sem-terra. Povo ruim de guerra esse, não é, Tales? Propõem acabar com fazendeiro, mas armados de enxadas… Que tal a Veja continuar insistindo em que o MST está sendo treinado em Cuba, paraíso dos comunistas? Ou que tem ligação com as Farc colombianas? Ou com o governo de Hugo Chávez, do eixo do mal? Insiste, Tales, um dia, quem sabe?, isso pega.

Confesso, eu vou mais além do que João Pedro teria dito. Na minha opinião a gente tem que acabar com o latifúndio da terra mas, principalmente, com o latifúndio da comunicação ? que é bem pior para o país. Mas, antes que você vá ao pai-dos-burros para traduzir minha fala e afirmar que eu quero matar seu patrão, seja ele Marinho, Sarney, Collor, Sirotski, Silvio Santos, Civita ou Bush, quero deixar bem claro que não pretendo matar ninguém.

Quando duas empresas concorrem, dois times disputam um jogo, duas idéias estão em disputa, acabar significa uma superar a outra. Entendeu, Tales? Comigo, n&atildatilde;o precisa se fazer de sonso. Eu sei que você não é burro, pelo contrário. Eu sei que você sabe que quando Stedile falou que acabaria com os fazendeiros não era necessariamente usando faca, punhal ou bala de revólver. Todo mundo sabe que não era isso que ele queria dizer. Então, por que você traduziu isso como uma declaração de morte? Eu sei. Você sabe. É o jeito que você encontra para satanizar essa gente. Mas fica feio, Tales, para um jornalista como você dizer ao leitor o que todos sabem que não é verdade: que a expressão "acabar", ali, não é no sentido de matar ninguém, e que Stedile sempre disse essas coisas ? não foi a primeira vez como você panfleteia.

Talvez parecer idiota seja a linha editorial dessa revista. Não foi assim com o ataque dos Estados Unidos ao Iraque? Todos nós, jornalistas mais ou menos informados, sabíamos que não havia armas de destruição em massa, e que Saddam não preparava bomba atômica, e que Bush queria mesmo era roubar as riquezas do Iraque. A gente sabia disso, não é, Tales? E, no entanto, sua revista (e a grande imprensa de um modo geral) preferiu fazer papel de idiota, sendo porta-voz de um ladrão e neonazista, feito presidente dos Estados Unidos de forma ilegal. Como você se sente, Tales, sendo porta-voz de um criminoso que pretende dominar o mundo na base das armas?

Eu sei que a revista tem uma linha editorial determinada ? a defesa dos interesses do grande capital. Tudo bem. É normal. Agora, não minta para o seu leitor. Não confunda. Não manipule. Ainda tem gente que acredita nessa revista. Tem estudante de Jornalismo ? insisto ? que vai achar que isso é jornalismo. Vocês podem fazer melhor que isso, e sustentando a posição de vocês. Que seja uma revista de direita, tudo bem, mas pelo menos com inteligência e sem mentir, sem manipular, sem fazer papel de idiota. Para que a gente possa debater com vocês. Nesse nível ? trazendo o medo medieval do comunismo e manipulando expressões ? não há como.

O que você está fazendo é uma agressão à inteligência, uma violência contra o jornalismo, um panfleto mascarado como revista. Sim, eu pretendo acabar com jornalistas como você, e revistas como a sua. Acabar quer dizer: disputar e ganhar de vocês, e permitir que o bom jornalismo vigore, que a boa imprensa se espalhe, e não essa coisa ruim que é a Veja. Não precisa contratar segurança e nem me denunciar na polícia pelo que estou afirmando. Pretendo acabar com esse jornalismo que você pratica e esse latifúndio da comunicação usando de inteligência, e, principalmente, sensibilidade com os destinos deste país. Seu compromisso, o compromisso da Veja, é com uma elite que representa 500 anos de atraso, o meu é com uma vida melhor para todos.

Agora, cá para nós, uma revista que usa um personagem de desenho (Arc, o marciano), como subeditorial da revista, e ainda faz matéria satanizando os movimentos populares usando o medo do comunismo, não pode ser levada a sério. Por isso, junto com a Caras e a Contigo!, a Veja faz o maior sucesso nos salões de beleza desse país.

(*) Jornalista, integrante da Comissão de Acompanhamento da Mídia da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados

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