Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > COLUNAS COVARDES

Líliam Raña

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

PESQUISA / MÍDIA NOCIVA

“Pesquisa americana alerta para riscos da mídia dentro do quarto”, copyright O Estado de S. Paulo, 29/11/03

“Pesquisa divulgada em outubro pela Fundação Kaiser para Família, uma instituição filantrópica independente com sede na Califórnia (EUA), realizada com 1.065 pais, com filhos de até 6 anos, nos Estados Unidos, alerta para um problema crescente: a mídia dentro do quarto. Cerca de 36% das crianças possuem TV no quarto, 1 em cada 4 (27%) tem vídeo, 1 em cada 10 possui videogame e 7% têm computador. Ali, bem próximo da cama.

Os pais entrevistados admitiram que TV dentro do quatro dificulta a monitoração. Resultado: essas crianças assistem à TV 22 minutos a mais que as outras, e lêem menos, cerca de 6 minutos. A co-autora do estudo, Elizabeth Vandewater, professora assistente da Universidade do Texas (EUA), ressalta que essa invasão das mídias no quarto terá impacto sobre pesquisas futuras.

Esses números e muitos outros dados estarão em debate no Seminário TVQ, que acontecerá de 9 a 11 de dezembro, em São Paulo, sob coordenação da presidente da TVE Rede Brasil e do Centro Brasileiro de Mídia para a Criança e Adolescentes (Midiativa), Beth Carmona. Responsável pela abertura do evento, a coordenadora científica da UNESCO para estudos sobre as Crianças e a Violência na Tela, Cecília von Feilitzen, que é investigadora do departamento de jornalismo e meios de comunicação da Universidade de Estocolmo, na Suécia, acredita que ?crianças acostumadas ao entretenimento solitário crescerão jovens e adultos mais solitários?. ?Por outro lado, nós não podemos ignorar que existem qualidades adquiridas nessse contato.?

O seminário reunirá especialistas para debater a influência da programação no comportamento dos jovens e é considerado uma prévia para a 4.? Cúpula Mundial de Mídia para a Criança e Adolescente, em abril, no Rio. Telefone para inscrições: (11) 5080-3000. Mais informações: www.midiativa.tv”

 

CINEMA BRASILEIRO

“Teia de números”, copyright Carta Capital, 03/12/03

“O ano de 2003 será marcado como aquele em que o cinema brasileiro foi mais festejado por seus números do que por seus méritos culturais. Os resultados nas bilheterias, que não eram tão bons há pelo menos 15 anos, atrelaram, mais do que nunca, a discussão sobre os filmes a seu potencial de sucesso.

O olho pregado nos cifrões se justifica: de janeiro a outubro, as produções nacionais venderam 21 milhões de ingressos, o que significa um crescimento, até agora, de 220% em relação ao ano passado.

Já que os números têm dado o tom aos debates e que qualquer crítica a sucessos é rebatida com a justificativa de que são válidos todos os filmes que levem o público às salas, não estaria na hora de colocar uma lupa sobre esses números?

CartaCapital tentou destrinchar a equação da economia cinematográfica. Mas não é simples resolvê-la. Em filmes que envolvem negociações internacionais, como Carandiru e Cidade de Deus, as cifras são enormes, mas diluídas em tantas cláusulas, impostos e receitas ainda não contabilizadas, que a matemática quase não fecha.

O que já é possível dizer é que Fernando Meirelles não teve nem R$ 1 de volta dos R$ 19,5 milhões arrecadados por Cidade de Deus no Brasil, e que Hector Babenco, apesar de ainda não ter recebido o relatório da Sony Pictures, não poderá se queixar dos lucros de Carandiru. No caso das produções exclusivamente nacionais, como Deus É Brasileiro, Lisbela e o Prisioneiro ou Maria, Mãe do Filho de Deus, as contas são menos intrincadas, mas não menos surpreendentes.

A primeira informação que chama a atenção diz respeito à GloboFilmes. Apesar de ter sua marca ligada a 30% dos filmes lançados em 2003 e de responder por 92% dos ingressos vendidos pelo cinema nacional este ano, o lucro da empresa ainda seria mínimo. O dado, revelado por diversos representantes do mercado a CartaCapital, não pôde ser confirmado, já que, mais uma vez, o diretor de operações da GloboFilmes, Carlos Eduardo Rodrigues, não se manifestou, apesar dos pedidos de entrevista.

Antes de explicar a questão dos lucros, a Central Globo de Comunicação justifica as freqüentes dificuldades para entrevistá-lo: ?É muito desconfortável para a TV Globo participar de matérias que partem de premissas muito equivocadas ? como já aconteceu outras vezes?.

Em seguida, no texto enviado por e-mail explica: ?Dar lucro ou não dar lucro não faz parte do desenho estratégico desta área que tem como missão apoiar e estimular a retomada do cinema nacional, contribuindo para a geração de conteúdos de qualidade que agradem o público e tenham projeção e também para a valorização do talento nacional?.

Se a GloboFilmes não está preocupada com lucros, quem não consegue ter a empresa como aliada precisa se preocupar é com eventuais prejuízos. ?Os filmes que não têm a chancela da Globo mal conseguem pagar a comercialização?, diz Luiz Fernando Noel, superintendente de desenvolvimento industrial da Agência Nacional de Cinema (Ancine). ?Os filmes pequenos só não dão prejuízo porque foram incentivados?, completa.

Para se compreender o significado dessa frase é preciso lembrar que todos os filmes nacionais são produzidos com leis de incentivo, ou seja, não se tira dinheiro do bolso para bancar a produção. ?Nenhum filme se paga. Se dá lucro, é porque é feito com dinheiro incentivado. Ou seja, se não existisse lei de incentivo, não haveria filme?, frisa Diler Trindade, o produtor que mais gente levou ao cinema este ano, com títulos como Didi, o Cupido Trapalhão e Maria, Mãe do Filho de Deus.

Cacá Diegues, 21 filmes no currículo e diretor de Deus É Brasileiro, dá prosseguimento ao raciocínio de Diler e retorce a pergunta sobre os lucros: ?É possível fazer cinema no Brasil? Não. Deve-se fazer? Sim?, sentencia. ?O cinema está dando dinheiro? Não, o cinema ainda não é uma atividade sustentável, mas isso é algo para longo prazo, algo como 20 anos.?

Paulo Sérgio Almeida, diretor do boletim FilmeB, que coleta os dados do mercado, lembra que, mesmo nos mercados auto-sustentáveis, como o americano e o francês, raros filmes dão lucro. ?Nos Estados Unidos, que têm o mercado mundial, apenas 5% dos filmes dão lucro?, assegura. ?A questão é que eles rendem tanto que cobrem os fracassos.?

Esclarecida a produção, chega-se à comercialização, ponto em que reside a parte polêmica da divisão de lucros. No ano em que os filmes nacionais foram lançados com grande número de cópias, chegando a mais de 200 ou 300 salas ao mesmo tempo, e que tiveram vários minutos de comerciais na Rede Globo, os valores envolvidos na comercialização incharam.

No caso de Carandiru, a Columbia injetou R$ 5 milhões no lançamento. Mas esse dinheiro, que banca cópias e propaganda, configura-se como um adiantamento, ou seja, assim que começa a entrar a receita nas bilheterias, ele é devolvido à distribuidora. Em qualquer lugar do mundo, as distribuidoras são mesmo as primeiras a receber os resultados da bilheteria. Mas aqui o mecanismo causa certo desconforto.

?A diferença, no Brasil, é que elas não pagam pelos direitos do filme?, ressalta André Sturm, presidente do Sindicato da Indústria Cinematográfica de São Paulo e dono da distribuidora Pandora Filmes. ?O erro está no sistema, que permite que a mesma empresa que produz através de incentivos, tenha de graça a comercialização. Isso gera uma concorrência impossível para os distribuidores nacionais.?

Através da renúncia fiscal possibilitada pelo artigo 3? da Lei do Cinema, as majors viram sócias do filme e adquirem os direitos de distribuição. Como distribuidoras, abocanham, automaticamente, de 18% a 25% da bilheteria. Como sócias, ficam também com parte da renda líquida destinada aos produtores.

Rodrigo Saturnino Braga, diretor-geral da Columbia Pictures, co-produtora de títulos como Carandiru e O Homem que Copiava, diz que essas críticas são exatamente as mesmas que eram feitas à Embrafilme. ?O que fazemos está previsto na lei e vem correspondendo às expectativas, ou seja, estamos entrando na produção de filmes nacionais?, diz Braga.

De acordo com ele, de cada R$ 100 investidos, R$ 28 são procedentes da renúncia fiscal e outros R$ 72 são recursos próprios. ?Ora, esse dinheiro que a empresa investe, e que é uma operação de risco, tem de voltar?, afirma. Entre 1998 e 2003, a Columbia movimentou R$ 62,9 milhões em operações de distribuição de filmes nacionais ? R$ 17,8 milhões incentivados e R$ 45,1 milhões em recursos próprios.

?Esse dinheiro adiantado para a comercialização é uma alavanca fundamental. Se o filme não der bilheteria, não recuperamos o dinheiro e temos prejuízo?, observa Braga. Pelo que apurou CartaCapital, o único dos sete filmes lançados este ano que deu prejuízo à empresa foi Desmundo, de Alain Fresnot.

?O risco do distribuidor é muito pequeno, até porque ele investe proporcionalmente às possibilidades de retorno que o filme demonstra?, diz Sturm. ?Não há nada de ilegal, mas é um sistema que faz também com que sobre pouco para o produtor?, completa o dono da Pandora.

Luiz Carlos Barreto, que já produziu mais de 40 filmes no Brasil, partilha dessa opinião. Ele diz que, à época de Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), que fez 12 milhões de espectadores, cerca de 34% da bilheteria ia para o produtor. Hoje, esse porcentual bate, no máximo, na casa dos 18% ou 20%. ?O dinheiro de Dona Flor me possibilitou produzir Bye Bye Brasil e Amor Bandido. Isso não seria mais possível?, diz Barretão, que nos últimos anos não emplacou nenhum sucesso.

?Hoje, o produtor paga anúncio de jornal, tevê, cartazes, material de divulgação. Os grandes beneficiários desse sistema são os exibidores e distribuidores, que participam das receitas, mas não entram nas despesas. Tudo o que elas adiantam para a comercialização, são as primeiras a recuperar?, reforça o produtor.

Barreto observa ainda que os exibidores, que abocanham, de cara, 50% da bilheteria, são os maiores beneficiários. ?Eles arrecadam tudo isso e mais o lucro com a venda de refrigerantes, pipocas, etc. e a publicidade na tela.?

Valmir Fernandes, presidente da Rede Cinemark e da Associação Brasileira das Operadoras de Multiplex (Abraplex), observa que o mercado vai crescer 10% este ano, graças aos filmes brasileiros, mas pondera: ?Essa estrutura de custos é equivalente no mundo todo. Esse mercado não é uma concessão pública e se não fossem as receitas acessórias nenhum cinema sobreviveria. Agora, se o negócio é tão bom, outras empresas aparecerão e levarão o mercado a se ajustar?.

Já Barretão defende que está na hora de haver uma negociação entre as partes para corrigir essas distorções. ?Até aqui, foi necessário trabalhar assim para mostrar que o cinema pode ser um bom negócio. Mas agora é preciso começar a discutir essas questões?, afirma, para, em seguida, pontuar que isso não se deve dar por lei, mas sim no nível empresarial. ?Estamos numa situação absolutamente perversa, mas acho que há condições de se conversar sobre isso.?

Se os produtores reclamam, apesar de, ao menos teoricamente, serem remunerados na produção, o mesmo não se pode dizer dos investidores que entram nos filmes através de renúncia fiscal. Ainda assim, é curioso observar o quanto a Lei do Audiovisual, que prevê abatimento de 100% no Imposto de Renda e transforma os investidores em detentores de certificados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), rende tão poucos trocados.

De acordo com Sérgio Bandeira de Mello, gerente de comunicação da Petrobrás Distribuidora, o maior investidor em cinema do País, a empresa recebeu, como retorno de cotas da Lei do Audiovisual, R$ 37,5 mil e, este ano, estima ganhar R$ 100 mil ? uma ínfima parcela do que investiu.

Os baixos valores e as implicações burocráticas e contábeis dessa lei farão com que, a partir do ano que vem, os investimentos da Petrobrás se dêem apenas por meio da Lei Rouanet, que não tem dedução integral e configura-se como simples patrocínio. ?O retorno importante para o patrocinador ou investidor é o ganho de imagem?, diz Mello. ?A Petrobrás nunca quis ganhar dinheiro com cinema, mas sim atrelar sua marca à atividade e aos bons filmes.?

Quem quis ganhar e não conseguiu foi Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus e um dos sócios da O2 Filmes. Ele garante que, até agora, o resultado foi zero. Trata-se de um caso atípico, já que apenas R$ 1,5 milhão chegaram via leis de incentivo. Os outros R$ 5,5 milhões foram bancados pela própria O2.

?Fomos punidos porque investimos no nosso próprio negócio?, lamenta Meirelles. ?Deveríamos ter recebido aporte da Miramax e da Wild Bunch, mas às vésperas da filmagem o dinheiro não chegava e eu estava num embalo tão grande que fiz a coisa mais idiota da minha vida: colocar as economias da O2 no filme.?

Com o filme pronto, Meirelles conversou novamente com a Miramax e fechou um contrato que cedia à empresa o direito de distribuição no Brasil e na América e que lhe garantia o retorno de dois terços investidos na produção. ?Se eu suspeitasse do sucesso, não teria fechado negócio. Agora, eles alegam que a propaganda consome todo o dinheiro ganho e esse valor nunca acaba?, explica. ?Mas aprendi, não caio nessa de novo.?

Hector Babenco, mais experiente, se deu bem no contrato internacional. A produção foi viabilizada graças a R$ 7 milhões adiantados pela Sony Pictures e a R$ 1,3 milhão aplicados pela Columbia, via renúncia fiscal. ?Eu não teria dinheiro para fazer o filme, então a Sony me adiantou. É natural que, na primeira renda do filme, recuperem 100% do que avançaram?, diz o diretor de Carandiru.

Cacá Diegues é outro que observa que não se pode desprezar esses adiantamentos. ?Quem poderia colocar o dinheiro de comercialização que as majors adiantam? Elas correm um risco que eu não corro?, avalia. Ele defende, porém, que o governo estimule consórcios de distribuição de filmes brasileiros. ?Só assim haveria um equilíbrio e os produtores poderiam negociar as taxas de distribuição.?

Diegues diz que a má divisão de receitas no Brasil se deve também ao modelo americano que aqui se segue. ?A diferença é que, nos Estados Unidos, somente 25% da renda vem das salas. A exibição nos cinemas é somente uma vitrine para os outros 75% da receita, que vêm do mercado de vídeo e das vendas para a televisão?, explica. No Brasil, o vídeo e a tevê ainda são pouco significativos.

?Também não podemos nos esquecer de que só de três anos para cá as diferentes etapas da economia cinematográfica passaram a se integrar?, diz Diegues, que na semana passada anunciou uma parceria com uma gigante da publicidade, a Jodaf, para criar a Mixer, uma empresa de audiovisual que incluirá cinema, tevê, vídeo e internet. ?O mesmo técnico que faz um vídeo, poderá também fazer cinema. Só assim o negócio anda?, diz o cineasta.

As saídas para que a equação mude e os filmes passem a se pagar são apresentadas em coro por todos os ouvidos nesta reportagem: um crescimento do parque exibidor, que deveria saltar das atuais 1,7 mil salas para 3 mil, a regulamentação do mercado de vídeo e a melhor remuneração dos filmes vendidos para a tevê e uma produção que coloque na tela, em média, 80 filmes por ano ?hoje são cerca de 30. O caminho é longo, mas está aberto.”

 

COLUNAS COVARDES

“Abaixo o colunismo covarde!”, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 30/11/03

“Gilberto Braga é uma espécie de Jô Soares da teledramaturgia brasileira. Ninguém tem coragem de falar mal de um ou de outro pela frente. ?Ninguém?, que eu digo, é essa corja de colunistas como eu, gente que já não tem a menor paciência para apurar coisa nenhuma, até porque acha ? em certos casos com muita propriedade, diga-se de passagem ? que tudo o que se descobre através da pergunta hoje em dia é mentira. No caso de Jô e Gilberto, convencionou-se elogiá-los publicamente e destratá-los em ocasiões mais reservadas, em geral nas mesas de bar.

Depois do terceiro chope, já ouvi neguinho com grife de primeiro escalão da imprensa brasileira dizendo que o Jô não se dá conta do ridículo de seus figurinos ou dos números de strip-tease que simula na abertura do programa. Dia desses, dois medalhões do colunismo paulista discutiam no Fasano se ele é pior no trompete ou no bongô. A tese de que as pessoas crescem ao redor das orelhas e a revelação de detalhes do romance entre Alex e o general Pinochet também despertam controvérsias. Nessas ocasiões sou, em geral, o único a defender o modo como o colega conduz as entrevistas em seu talk show.

Com Gilberto Braga é a mesma coisa. Não há jornalista, celebridade, morador do Andaraí ou telespectador da novela das oito que não esteja indignado com suas respectivas imagens projetadas pelo autor em Celebridade. Tá na moda falar mal do meu querido amigo pelas costas. Desculpem o tom de desabafo desse artigo, mas dia desses quase fui linchado ao elogiar numa mesa de jornalistas o desempenho de Márcio Garcia e de Paulo Vilhena na trama da novela.

Compreendo em parte a reação dos coleguinhas ? um em cada dois jornalistas decentes de Celebridade é alcoólatra ?, mas não dá para entender por que profissionais com liberdade para escrever o que bem entenderem não manifestam publicamente suas broncas. Lanço aqui um desafio aos colunistas de todo país: escrevam o que realmente pensam sobre Jô Soares e Gilberto Braga ou calem-se para sempre. Deixem meus amigos em paz!”

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