Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Lobby cultural contra o jornalismo

Por lgarcia em 10/10/2001 na edição 142

MUNDO DOS MUSEUS

Ebenezer de Menezes

Sou jornalista e editor do EducaBrasil, site para educadores, que também atua como agência de notícias para outros sites. No final de agosto deste ano, trabalhava no balanço de um evento ? o Simpósio Internacional Museu e Educação ? e, para apurar algumas informações e opiniões, liguei para palestrantes de diversos museus em São Paulo. Além disso, contatei a professora Maria Cristina Bruno, do MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia da USP), para pedir informações e algum depoimento. Ela foi indicada pelo MAE como a única pessoa apta a responder perguntas por ser a coordenadora do evento.

Durante a entrevista por telefone, após três ou quatro perguntas, a professora interrompeu: "Não sei se devo responder às suas perguntas"; "Tenho medo do que vocês vão falar"; "Eu desconfio do que você vai escrever". Depois de eu falar sobre a proposta ? tratava-se de um balanço para um público de arte-educadores ? e de explicar que ela estava falando com um profissional, a professora argumentou: "Mas você nem foi no evento." Em função da resistência, agradeci e encerrei a entrevista.

A diretora e coordenadora do EducaBrasil, Thais Helena Santos, que estava do meu lado observando a dificuldade em obter informações, resolveu escrever uma carta a Paula Monteiro, diretora do MAE, relatando o ocorrido, repudiando tal postura e pedindo a indicação de uma pessoa com que pudéssemos contar para a divulgação de atividades daquela instituição.

A direção do MAE não se manifestou até hoje (5/10/2001) nem por carta nem por telefone. Isso não é uma forma de censura? No entanto, a diretora do EducaBrasil recebeu ligação de uma pessoa de outro museu dizendo ser um absurdo um jornalista incompetente (eu!) querer falar com um dos maiores nomes da área de museus, referindo-se à professora. Ou seja, a carta enviada à diretoria do MAE "vazou" para outro museu. Imediatamente, liguei para a professora tentando esclarecer o mal-entendido. Ela disse que o evento foi "infinitamente" mais significativo do que as minhas perguntas, e que eu não estava capacitado, já que as perguntas eram inadequadas. Disse ainda que eu deveria ler sua bibliografia para saber um pouco sobre o assunto. E que o trabalho da imprensa era lamentável.

No dia seguinte, a redação do EducaBrasil recebeu um fax dizendo que as perguntas formuladas pelo jornalista revelavam "uma grande dificuldade de compreensão em relação aos conceitos de educação em museus". Além disso, o fax expressava "total solidariedade" à professora, afirmando que era improcedente a suposta resistência a fornecer informações. Assinaram o fax representantes do MAM (Museu de Arte Moderna), Museu Lasar Segall e MASP (Museu de Arte de São Paulo), profissionais que dias antes deram entrevista a mim sobre o mesmo evento. Aliás, só consegui fazer o texto final com a ajuda deles. Ou seja, a carta à direção do MAE "vazou" para vários outros museus. Seria uma espécie de lobby cultural? Como esses profissionais podem afirmar que é improcedente a resistência da professora? Estavam todos numa foneconferência no momento da entrevista? Além disso, também enviaram o fax à direção de um outro site que recebe informações do EducaBrasil.

Diante de tudo isso, resolvi escrever para este Observatório da Imprensa. Reconheço a importância da professora citada, seus méritos com as questões da museologia e o seu papel fundamental na realização do simpósio. No entanto, o fato que considero pertinente, motivo pelo qual foi enviada uma carta à diretoria do museu, consiste em um porta-voz do MAE (representado pela professora citada) fazer juízo das perguntas, mostrando resistência para fornecer informações e, conseqüentemente, criando uma tensão no trato com a imprensa.

Sabemos da existência de meios legais para punição de jornalistas que comentem injúria, calúnia e difamação, além de haver direito de resposta no caso de declarações erradas, o que consta em leis de nosso país. O problema foi justamente julgar antecipadamente e preconceituosamente o trabalho jornalístico pelas perguntas. Imaginem se os políticos fossem juízes do trabalho da imprensa, pautando o que deve ou não ser perguntado. Vale salientar que o domínio da pergunta e da pauta como um todo pertence ao jornalista. Em contrapartida, o domínio da resposta e do sentido como um todo pertence ao entrevistado.

Como foi dito no fax, as perguntas "revelam uma grande dificuldade de compreensão em relação aos conceitos de educação em museus". Esta afirmação é verdadeira: não sou especialista. Quanto a não ter participado do evento, justamente por isso, como aliás informei à professora, consultei várias pessoas que pudessem não esclarecer a respeito de conceitos de educação em museus, mas fornecer alguns depoimentos sobre a participação nos grupos de trabalho, como palestrante ou como parte da coordenação. Além disso, a professora nem chegou a responder, como os outros entrevistados fizeram.

Vale citar algumas perguntas que foram pautadas para questionar os entrevistados que constam do balanço: "Poderia dar um destaque do evento?"; "Identificou alguma contribuição para a arte-educação?"; "O que você abordou em sua fala?". À professora Maria Cristina também fiz perguntas genéricas: "Quais os destaques do evento?"; "Quantos foram os participantes?"; "Poderia fazer um balanço do evento?"; "Qual a contribuição do evento para a arte-educação?".

Se a professora considerou essas perguntas impertinentes, que demonstravam incompetência, poderia me encaminhar às questões pertinentes, que contribuiriam para um adequado trabalho, evitando qualquer constrangimento. Considero que os agentes culturais de museus, caso tenham restrições quanto a atender e fornecer informações a jornalistas leigos na área de museus, podem recorrer a um órgão especial que lida com esses profissionais: a chamada assessoria de imprensa. Como, no contato com o MAE, não fui encaminhado a uma assessoria, e sim para o celular da professora, realmente a única opção que tive foi tentar obter informações com ela, que também não me indicou outra pessoa ou departamento de comunicação do museu que fornecesse informações.

É importante ressaltar que a carta enviada à diretoria do MAE reafirma o compromisso do jornalismo com os princípios da universidade pública, com a divulgação de informações para a comunidade em geral ? inclusive leigos ? e com a socialização do conhecimento. Em função disso, a carta relatou o ocorrido à diretoria do MAE e pediu uma pessoa que pudesse divulgar informações sobre a instituição.

Vejo este problema como algo positivo para os dois lados, pois jornalistas e agentes culturais de museus precisam repensar sua relação e seu papel na sociedade, sem elitismo ou acusações de classe. Se os museus têm grande importância para a sociedade, não é diferente o papel da imprensa, seja ela especializada, acadêmica ou para um público de massa. Entendo, portanto, que este caso seja um dos muitos exemplos de preconceito contra jornalistas no exercício de sua profissão. Espero que este esclarecimento transforme a queixa dos agentes culturais em um problema que merece discussão e reflexão: o trato dos museus com a imprensa.

    
    
                     

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