Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Último Segundo

Por lgarcia em 19/03/2003 na edição 216

COBERTURA DE GUERRA

“Exclusivo: Nosso homem em Bagdá informa: ?Iraquianos estão recebendo comida para 6 meses e fuzis para lutar?”, copyright Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 14/03/03


“O jornalista Sérgio Kalili, 34 anos, é o único repórter brasileiro em Bagdá, capital do Iraque. Ele mandará relatos sobre o país e a guerra para o Último Segundo. Kalili chegou à capital do Iraque na última segunda-feira, 10, enviado pela revista ?Caros Amigos?.

Ele diz que a cidade não aparenta estar às vésperas de uma guerra, ao contrário, ?está tranqüila?. Mas as notícias dão conta de que o governo de Saddam Hussein distribui fuzis para a população e cestas básicas com alimentos fundamentais para seis meses de guerra.

Para chegar ao Iraque, Kalili passou por um demorado processo para obtenção de visto de entrada, incluindo a exigência de teste de Aids que teve de ser reconhecido oficialmente pelo governo brasileiro. Depois, viajou para Amã, capital da vizinha Jordânia, e de lá foi de táxi para a capital do Iraque.

Ele diz que os brasileiros são tratados com muita cordialidade. Além de ter sido um parceiro comercial importante antes da guerra do Golfo (1991), os iraquianos adoram futebol e identificam o Brasil com o esporte.

Apesar da iminência da guerra, nas ruas de Bagdá quase não se nota a presença de militares, conta o jornalista em entrevista. Eles só são vistos ao sul do país. ?Durante toda a semana a capital está tranqüila. As pessoas levam as suas vidas normalmente. Todos dizem que querem a paz, mas que estão dispostos a lutar por sua terra.?

É muito difícil falar com o Iraque, as comunicações por telefone são muito precárias. Kalili diz que ?o país ainda está em reconstrução dos esgotos, rede elétrica, destruídos com a guerra do Golfo, em 1991?. Com os 12 anos de embargo, o país não se beneficiou de avanços tecnológicos comuns no Brasil e em outros países, como computadores e terminais telefônicos mais modernos.

Os iraquianos, segundo o jornalista, estão apreensivos com a iminência da guerra. Há uma convicção de que os primeiros alvos dos bombardeios serão as usinas de energia elétrica. E têm medo de morrer nos abrigos anti-aéreos, pois em como contou a ele um estudante, em 1991, durante os bombardeios dos EUA, mais de 200 civis morreram num abrigo bombardeado pelos americanos.

Os filhos de um taxista escaparam porque não dormiram naquela noite ali. ?É comum que nessa época as pessoas vão para os abrigos, até porque só ali costuma ter energia elétrica nas blitzes, e as crianças querem ver televisão?.

Leia abaixo trechos de entrevista de Sérgio Kalili ao repórter Cláudio Tognolli, da rádio Jovem Pan:

Sérgio Kalili: Olha, as pessoas estão vivendo normalmente, mas a gente sente que elas estão um pouco angustiadas. O governo iraquiano distribui uma cesta básica todo mês para o povo. Eles distribuíram uma quantidade de comida que dá para seis meses, já prevendo que, se houver a guerra, eles podem ficar seis meses se alimentando. É uma cesta básica que é autorizada pelo embargo. Eles recebem açúcar, sal, trigo, óleo de cozinha. O leite é só para as crianças. Eles continuam vivendo normalmente, mas eles têm muito medo. Se você é cidadão iraquiano, o governo distribui rifles AK-47, Kalashnikov. Depois da guerra você tem que devolver.

Cláudio Júlio Tognolli: E o dia-a-dia da população?

Sérgio Kalili: As pessoas continuam a viver normalmente. Houve uma corrida para comprar mantimentos no mercado municipal por medo que a guerra estourasse. Mas a pessoas continuam a viver normalmente porque elas não sabem quando vai começar. Elas tentam se proteger um pouco, só que elas vivem normalmente, trabalham, compram… A cidade continua se movimentando como se nada tivesse acontecendo. Mas, claro, a gente vê que eles têm medo. Se perguntamos sobre a guerra eles têm medo, mas dizem que vão lutar para proteger o país que eles amam. O país é deles. Mas vivem normalmente.

Cláudio Júlio Tognolli: Como é a cidade de Bagdá?

Sérgio Kalili: Olha, por causa desses doze anos de embargo que os iraquianos estão vivendo, a gente pode dizer que a cidade de Bagdá se parece com a periferia de São Paulo. São casas inacabadas, construções inacabadas… Agora, a cidade, são cinco milhões de pessoas vivendo aqui, é espalhada, quase não tem prédios. Tem alguns edifícios do governo, palácios, mas o iraquiano não gosta de viver em prédios, eles gostam de viver em casa mesmo… Mas acontece que por causa desses doze anos de embargo, a população e o governo não tiveram dinheiro para reconstruir o país. Eles estavam começando a reconstruir agora a estrutura do país: a estrutura de comunicações, telefonia, os edifícios e o sistema de água e esgoto. A gente vê que tem muitos pontos da cidade em que as casas estão inacabadas, um pouco destruídas.”

“Jornalista brasileiro vira escudo humano no Iraque”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 13/03/03

“Cláudio Bulgarelli, ex-editor de Turismo da Gazeta de Alagoas, é um dos pacifistas mundiais que participarão da formação de um escudo humano contra os ataques americanos no Iraque. Atualmente, ele trabalha na SOS Internacional, uma ONG italiana.

Segundo informações enviadas pelo próprio Cláudio, a guerra está cada vez mais próxima. As tropas americanas estão quase prontas para o primeiro ataque. Países europeus como Inglaterra, Itália e Espanha assinaram carta de apoio aos Estados Unidos, dividindo não somente a opinião pública, mas a unidade política da Europa. Do outro lado, estão França, Alemanha e Bélgica, que não apóiam uma ação militar, com o reforço da Rússia, de Putin, e China, que também são contra a guerra.

Grupos de pacifistas do mundo inteiro estão partindo para o Iraque para servir como escudos humanos em pontos estratégicos em caso de guerra por parte dos Estados Unidos e seus aliados. Fazem parte de associações e organizações não-governamentais dos Estados Unidos, Canadá, dos países árabes e da Europa. Associações como People Association e Universal Kinship, da Inglaterra; Voices Wilderness e Iraquepeaceteam, dos Estados Unidos; e SOS International e Fermiano la guerra, da Itália. Elas pretendem levar centenas de pacifistas para o teatro da guerra. Da Inglaterra e da Itália os primeiros grupos já partiram com mais de 300 ocidentais.

O jornalista Cláudio Bulgarelli, atualmente morando em Roma, Itália, está disposto a enfrentar as bombas americanas com a própria vida. ?É um ato de denúncia?, disse.

* Fonte: Gazeta do Alagoas ? AL”

 

GUERRA & NARCOTRÁFICO

“Sérvia, mais uma vez”, copyright Jornal do Brasil, 15/03/03

“Dois tiros de uma Browning automática disparados pelo estudante nacionalista sérvio, Gavrilo Princip, deram inicio à 1? Grande Guerra. O assassinato do príncipe herdeiro, o arquiduque Francisco Ferdinando, e de sua mulher, no dia 28 de junho de 1914, em Sarajevo (Bósnia), levou o Império Austro-Húngaro a dar ultimato ao governo da Sérvia, implicado no assassinato. A Rússia declara-se solidária com a Sérvia, a Alemanha e Áustria invadem a Sérvia, Inglaterra e França apóiam a Rússia e no dia 4 de agosto começa o maior banho de sangue da história da humanidade. Interrompido em 1918 e reiniciado em 1939, em dimensões ainda maiores, com a 2? Guerra Mundial.

A Sérvia e a sua tradição de magnicídios foi relembrada na última quarta, quando seu primeiro-ministro, Zoran Djindjic, foi assassinado em Belgrado, com dois tiros de grosso calibre disparados por fuzil com mira telescópica. Os suspeitos fazem parte dos grupos de paramilitares fascistas do ex-ditador Slobodan Milosevic que dominam o crime organizado.

Quando assumiu a chefia do governo, há dois anos, Djindjic prometeu acabar com as máfias e para encerrar o ciclo de massacres da Croácia, Bósnia e Kosovo, teve a coragem de enviar o sanguinário antecessor, Milosevic, para ser julgado no Tribunal Penal Internacional de Haia com o irrestrito apoio da União Européia. A história dos Bálcãs sangrentos parecia estar encerrada quando em fevereiro foi criada a Sérvia-Montenegro, democrática, comprometida com a paz e o respeito aos direitos humanos.

A morte de Djindjic provavelmente não provocará outro conflito mundial como aconteceu há quase 90 anos. Nem deve reacender a fúria xenófoba e caudilhesca naquele triste pedaço da Europa. Mas, com toda a certeza, mostrará que a paranóia de Bush pode conduzir-nos à guerra errada.

Todas as guerras são equivocadas e, esta que agora ocupa as manchetes, mais ainda, porque ignora o grande inimigo da humanidade: o narcoterrorismo, mafioso e paramilitar, que se infiltra pelas frestas de Estados fracos e articula-se insidiosamente na gigantesca malha internacional da violência política.

Fernando Beira-Mar não é apenas o Inimigo Público N? 1, bandido cevado nas manjedouras da incompetência e da corrupção. É o delegado brasileiro à Internacional do Crime Organizado que opera ostensivamente no ramo de drogas e armas (inclusive proibidas) e indiretamente no ramo da fabricação do medo e degradação das instituições.

A ligação das milícias paramilitares com o crime organizado é um fenômeno político que não se circunscreve ao vulcão balcânico da última década. Esteve presente no primeiro conflito da Chechenia, está presente na Colômbia, na África e, certamente, esconde-se nas matas da Oceania e do Oriente entrelaçando terrorismo político, tráfico de entorpecentes, contrabando e pirataria.

Não se sabe quem matou o professor de história da arte, Gustavo Armando Schnoor, sábado passado, à porta da sua casa em Laranjeiras e o analista de sistemas Alexandre Iglesias Ribeiro, na quarta-feira, no Túnel do Joá. Os autores podem fazer parte do Comando Vermelho, do Primeiro Comando da Capital ou do Grupo de Facínoras Autônomos, é indiferente. Importante é olhar a questão sob o ponto de vista institucional e identificar os culpados como parceiros da máfia paramilitar de Milosevic que há tempos ameaçava Djindjic e sua família.

São cínicos, grosseiros e ofensivos à dor das famílias das vítimas, os brios do casal Garotinho que, em nome da ?soberania estadual?, recusa a participação federal no combate ao narcoterrorismo fluminense.

O Rio de Janeiro está dominado pelo crime organizado que só não pode ser classificado como paramilitar porque com o calor reinante torna-se impossível usar uniforme camuflado, botinas e boina vermelha. Não é uma corporação castrense, mas está montado e opera como grupo guerrilheiro em disputa pelo poder.

É óbvio que as Forças Armadas não têm condições materiais, legais ou psicológicas para fazer o policiamento ostensivo de uma cidade e proteger os seus cidadãos. Mas é evidente também que o sítio imposto ao Estado do Rio pelas milícias criminosas pede um tipo de energia e um tipo de ação que as trapalhadas e a demagogia dos cônjuges Mateus jamais poderão substituir.

Nunca é demais repetir que os primeiros êxitos da política econômica do presidente Lula podem dissipar-se rapidamente se o mesmo rigor e a mesma determinação não forem empregados para enfrentar as forças que, neste momento, solapam a estabilidade e a governabilidade do Estado brasileiro.

A impunidade da legião de bandidos é um fator de risco que, a qualquer momento, pode refletir-se nas cotações, índices e rankings. A insegurança nos grandes centros urbanos é mais destrutiva e perniciosa do que a inflação.

O país está coeso em defesa da paz mundial, quer o fortalecimento dos organismos de controle, está comprometido com o respeito à vida. Não pode transformar-se na velha e ensangüentada Iugoslávia sem lei onde o crime politizou-se e a política submetia-se ao crime.”

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