Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Luciana Moherdaui

Por lgarcia em 12/09/2001 na edição 138

EXCLUSÃO DIGITAL

"Sociólogo conta como acabar com a exclusão digital no Brasil", copyright Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 6/09/01


"Atualmente, dos 169 milhões de brasileiros, apenas 6.030 milhões têm acesso à Internet. Em todo o Brasil há apenas 2,7 milhões de computadores domésticos. Como acabar com a exclusão digital num Páis que ainda não conseguiu exterminar a fome e o analfabetismo? O sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira conta, em seu novo livro livro ?Exclusão Digital – A Miséria na Era da Informação? como acabar com esse abismo social

É possível pensar a inclusão social a partir da inclusão digital? A inclusão digital seria uma preocupação relevante em um País que ainda vive com fome? E um País que nunca realizou a reforma agrária? Que convive com milhares de crianças fora da escola? Que aceita um desemprego alarmante? Que não construiu um atendimento de saúde de fato universal? A inclusão digital não seria um modismo?

O sociólogo e coordenador do programa de exclusão digital da Prefeitura de São Paulo Sérgio Amadeu da Silveira pensa como resolver essa equação desde 1995, quando escreveu sua tese de mestrado sobre o assunto. Enquanto traça os planos para montar cerca de mil telecentros até 2004 na cidade, ele conta em seu novo livro ?Exclusão Digital – A Miséria na Era da Informação? como o Brasil, pela Fundação Perseu Abramo, pode diminuir o abismo tecnológico da população.

Acabar de vez com a exclusão digital no País é uma árdua tarefa. Dos 169 milhões de brasileiros, apenas 6.030 milhões têm acesso à Internet, segundo levantamento do instituto Ibope eRatings referente a julho. Para se ter uma idéia do tamanho do abismo tecnológico no mundo, apenas cerca de 6% da população mundial tem acesso à rede, ou seja, 400 milhões de pessoas, sendo que os EUA seguem líderes em número de usuários: 54,3%.

Em todo o Brasil há 2,7 milhões de computadores domésticos, o que representa 6,3% dos domicílios que possuem energia elétrica, segundo dados do IDC (International Data Corporation) referentes a dezembro de 2000. Ainda assim, o número de casas com computadores é pequeno a julgar pela quantidade de telefones fixos instalados até março passado: 40.387.388 milhões, segundo Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

?Quanto custa se conectar à sociedade da informação? Para acessar a Internet, a rede mundial de computadores, é preciso pagar mensalmente um provedor de acesso e gastar com conta telefônica. Além disso, é preciso ter um computador que custa mais de R$ 1000. Em um País com quase um terço da sociedade abaixo da linha da pobreza, gastar algo em torno de R$ 40 por mês pelo uso mínimo de conexão em conta telefônica é impossível para a maioria da população?, escreve.

O autor compara a exclusão social à fome na infância e defende que a exclusão digital impede a redução da exclusão social porque as principais atividades econômicas, governamentais, e boa parte da produção cultural da sociedade migraram para a rede.

?Dos mais de cinco mil municípios brasileiros, menos de 300 (ou menos de 6%) contam com infra-estrutura mínima necessária para que possam ser instalados serviços locais de acesso à internet. Os cerca de cinco milhões de usuários de Internet no Brasil são menos de 3% da população. O Brasil é de longe o pior colocado em números per capita de usuários, computadores pessoais, linhas telefônicas e servidores de Internet (hosts) entre as nove maiores economias do mundo. Os circuitos que conectam os provedores de serviços à Internet estão entre os mais caros do mundo, inviabilizando o pequeno provedor de serviços em áreas menos ricas?, conta.

O sociólogo defende que a melhor forma de oferecer acesso à tecnologia e à Internet é a criação de telecentros. Segundo ele, essa experiência foi amplamente empregada na Escandinávia e dali se espalhou para vários países do mundo. O Peru também tem uma experiência bastante extensa de implementação de telecentros e já existe uma comunidade virtual que congrega as experiências desses centros, principalmente na América Latina e no Caribe.

Até agora, a Prefeitura de São Paulo implantou um telecentro na Cidade Tiradentes, zona leste, com 20 computadores com acesso à rede para as pessoas que moram no bairro, num prédio da Cohab que foi totalmente reformado. Segundo Sérgio Amadeu, o projeto custou R$ 80 mil e a Microsoft distribuiu o Windows de graça para os telecentros. A idéia inaugurar 40 centros até o final do ano. [Lançamento: Exclusão Digital – A Miséria na Era da Informação (Fundação Perseu Abramo) Quando: 24/9 das 19 às 21 horas Onde: Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 925, Vila Madalena) Quanto: R$ 8]"

"Tecnologia para todos", copyright No. (www.no.com.br), 5/09/01

"Nos pouco mais de 500 anos desde que o Brasil foi encontrado pelos portugueses, não fomos capazes de acabar com a fome nem de exterminar o analfabetismo. Mesmo assim, já estamos sendo provocados a eliminar uma desigualdade recente: o abismo que separa os brasileiros que acessam a rede por modernos computadores e boas conexões daquelas dezenas de milhões que nunca viram uma dessas máquinas. É o que se chama de exclusão digital. O sociólogo paulista Sérgio Amadeu da Silveira pensa nisso desde 1995, quando escrevia tese de mestrado a respeito. Hoje, ele comanda o setor de Governo Eletrônico da Prefeitura de São Paulo e coordena a execução do Plano de Inclusão Digital, programa que pretende inaugurar 1000 telecentros na periferia até 2004. Enquanto traça as diretrizes do projeto, alinhavou as últimas linhas do recém-lançado ?Exclusão Digital – A Miséria na Era da Informação?, que sai com o selo da editora da Fundação Perseu Abramo. Deixada nas mãos do mercado, ?a tecnologia avança e melhora a conexão dos já conectados, melhora a capacidade dos já capacitados. E, portanto, não é democratizadora?, diz ele nesta entrevista a Tito Montenegro, de no.

O que é a miséria na era da informação?

Sérgio Amadeu da Silveira – É as pessoas estarem sendo privadas do direito de acesso ao que há de mais moderno nas tecnologias da inteligência. Hoje em dia, existe uma divisão muito grande entre aqueles que têm a possibilidade de trabalhar com uma quantidade de informações muito maior do que os sujeitos que não estão conectados em rede. E isso reproduz e amplia o distanciamento entre quem já tinha condições sociais melhores e as pessoas mais pauperizadas da nossa sociedade. Não é uma diferença qualquer, é uma questão de capacidade cognitiva. Por isso eu digo que a miséria na era da informação é a miséria da incapacidade de processar, visualizar e trabalhar com um conjunto de informações que possam virar conhecimento. Então, essa miséria, se não for estancada, ampliará muito mais a distância social das pessoas.

É uma questão de alguns terem computador e outros não?

Silveira – Não é só isso. Esse é um elemento básico, pois você tem que ter o computador, a linha telefônica e a conexão. Sem isso, não é possível ir para o segundo passo, que é ter direito à orientação. Isso é importante porque somos inundados por um dilúvio de informações e é necessário que as pessoas tenham um mínimo de orientação para que possam navegar. A terceira coisa é que há uma disputa dentro da rede. Ela vai permitir que as pessoas tenham acesso às informações importantes ou não? Cada vez mais você enfrenta cercas eletrônicas e a comercialização de informação em áreas da rede. E isso começa a ser um problema. Então, é claro que não é só disponibilizar os computadores. O computador é um elemento daquilo que é básico para você estar na chamada sociedade da informação. Temos, depois, o direito a você ter uma formação, uma orientação. E a pergunta é quem deve permitir ou assegurar isso.

O senhor já tem a resposta?

Silveira – Eu, particularmente, acho que isso é um problema social e aquele que organiza a convivência na sociedade, que é o Estado, tem que estar preocupado com isso também.

A tecnologia é capaz de combater a pobreza?

Silveira – Se nós deixarmos o mercado disseminar a tecnologia ela estará a serviço do que qualquer empresa quer em relação a qualquer mercadoria: a busca do lucro. Mas o lucro requer que exista um mercado consumidor. E nós estamos falando de pessoas incapazes de consumir, por não ter renda suficiente. Então, a tecnologia avança e melhora a conexão dos já conectados, melhora a capacidade dos já capacitados. E, portanto, não é democratizadora. Ela só será democratizadora se houver uma ação de incluir as pessoas que estão apartadas, que estão isoladas e afastadas desse mercado consumidor. Portanto, não se trata de uma questão de mercado. Os países do primeiro mundo estão mais conectados, produzem tecnologia e os outros vão ficando distanciados. Ou seja, a tecnologia não eliminou a desigualdade mundial pelo fato de agora o mundo estar ligado em rede. As elites do mundo é que estão ligadas em rede. Então, pra você resolver isso, é preciso ter uma ação do Estado e das Ongs. Senão, nós não vamos conseguir que a tecnologia seja usada também para diminuir essa distância. A tendência dela, se for levada apenas pelo mercado, é ampliar enormemente essa distância. Essa é a tendência que eu capto.

Mas a tendência não é a de que os computadores se tornem cada vez mais baratos até atingir preços insignificantes?

Silveira – Eu concordo que o preço vai cair e que os chips vão se disseminar para o máximo de aparelhos ao nosso redor. Todos os procedimentos automatizados ou repetitivos serão informatizados e haverá cada vez mais máquinas fazendo o que hoje se faz manualmente. Com tudo isso eu concordo. Mas eu estou preocupado com uma coisa mais séria. A história da humanidade não é essa. A pobreza pode ter cada vez menos intensidade, mas ela continuará existindo. E, provavelmente, com um distanciamento cada vez maior daqueles que não são pobres. Peguemos o exemplo dos alimentos hoje em dia. Nunca os alimentos foram tão baratos. Mas então por que a África, países da Ásia e bolsões de miséria no Brasil e no primeiro mundo ainda passam fome? E você quer coisa mais barata que alimentos? Outra coisa: você quer tecnologia de inteligência com menor necessidade de suporte do que o alfabeto? E hoje você tem gente que não é alfabetizada. E só conseguimos alfabetizar em larga escala porque o Estado assumiu essa responsabilidade. Porque se fosse o mercado, nem o alfabeto as pessoas que não têm dinheiro para pagar uma escola dominariam. Essa minha hipótese se baseia no nosso passado. No futuro será diferente? Talvez, mas nada indica isso.

O que fazer na prática?

Silveira – Eu acho que nós temos que assegurar que nas áreas onde existe a pobreza mais intensa, onde as pessoas não tenham computador nem no trabalho, a gente faça uma política de implantação de telecentros. E ao mesmo tempo, para a classe média-baixa, temos que fazer uma ampla campanha e abrir a possibilidade dessas pessoas comprarem computadores e conexão baratos e financiados. O Estado tem que assegurar isso. É preciso combinar a política de telecentros com o financiamento de equipamentos baratos. E também é necessário assegurar também que o conjunto das escolas e bibliotecas estejam plenamente informatizadas e conectadas em rede. Isso porque a escola não substitui o telecentro nem o telecentro substitui a escola. Em Cidade Tiradentes, onde implantamos o primeiro telecentro da capital, um dos maiores sonhos dos meninos que conheceram a Internet é comprar um computador. Assim que eles tiverem dinheiro, se houver uma polítca de financiamento de equipamento, certamente vão querer ter um micro em casa.

Mas não é muito caro implantar telecentros para tantos excluídos digitais?

Silveira – Você sabia que não? Vou dar alguns números para você pensar a respeito. Nós somos capazes de montar um telecentro como o que fizemos em Cidade Tiradentes – com 20 computadores e utilizando prédios abandonados de escolas ou entidades comunitárias – com apenas R$ 82 mil. Isso paga os equipamentos, as conexões, as bancadas e tudo o mais, com exceção do software, que a Microsoft distribui de graça para telecentros. Se nós fizermos 1000 telecentros de uma vez, gastaríamos R$ 82 milhões. E essas instalações atendem, por baixo, de 2 a 3 milhões de pessoas. E esse custo significa 1% do orçamento anual de São Paulo, que é de cerca de R$ 8 bilhões. Aí eu pergunto: não é uma grande coisa você assegurar esse acesso com 1% do orçamento? E isso se nós implantássemos tudo de uma vez, o que não é o plano. Isso não é caro.

O Brasil seria capaz de acabar ou reduzir drasticamente a exclusão digital se em 500 anos não conseguimos extinguir nem o alfabetismo nem a fome?

Silveira – Eu acho que essa política de inclusão digital, se for feita intensamente, cria nas áreas de pobreza a possibilidade de se ampliar a cidadania. E esse cidadão, ao se sentir uma pessoa com direitos e sabendo que o país tem uma história grande de exclusão, vai virar uma outra pessoa. E é por isso que eu digo que não adianta jogar o computador lá, tem que levar formação também – e a principal é a da cidadania. Primeiro, é falar que ele tem um direito ao acesso, tem direito a se comunicar com velocidade, tem o direito a cobrar do poder público. E com o poder público cada vez mais na rede, ele vai se conectar de lá. Ele tem o direito de saber o que está acontecendo no mundo. Tudo isso eu acho que cria um outro ambiente. Não vai resolver a pobreza secular, mas coloca os pobres numa outra situação, na qual têm possibilidades que não existiam antes. Eu vejo que é uma aposta que pode ser cumprida e que seria um salto de qualidade. Essas novas tecnologias de inteligência iriam distanciar demais os que estão conectados, os que estão informatizados, os que já estão conseguindo transformar informação em conhecimento. Aí você vai permitir que essas pessoas, ao se tornarem cidadãs, possam reivindicar, brigar, trabalhar para ter direitos básicos que antes eles não tinham. Desde quando eu iria poder levar o pessoal da Universidade de São Paulo a conversar com jovens em Cidade Tiradentes? Agora, isso é possível porque há programas como a Cidade do Conhecimento. A pessoa lá na periferia extrema vai continuar talvez comendo pouco, com subnutrição. Essa comunicação mediada por computador não resolve isso, mas será que não altera o posicionamento dela frente à sociedade, frente ao poder? Eu acredito que sim.

Nesse cenário, como o senhor imagina que vai ficar a relação entre os cidadãos e o governo?

Silveira – Eu não posso falar de verdade em governo eletrônico sem falar de inclusão digital. Senão, estaria falando para um governo eletrônico para 10% da população. Agora, eu só democratizo de verdade a relação entre o cidadão e o governo se realmente esse cidadão tiver a possibilidade de acessar esse governo e puder participar de processos decisórios dentro desse governo que o meio eletrônico assegura. Mas se eu falar em processo decisório só para quem tem computador em casa, estarei criando um novo tipo de voto censitário. Estarei beneficiando as classes A e B. A democracia, que podia usar o meio eletrônico para se ampliar, a deliberação pública que poderia ser feita por ferramentas tecnológicas, como os fóruns eletrônicos, ela só não se dissemina porque pára no limite da inclusão."

    
    
                     

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