Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Luis Fernando Verissimo

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"Antiamericanismo", copyright O Estado de S. Paulo, 13/10/01

"A crítica mais pertinente aos Estados Unidos é feita dentro dos Estados Unidos. O próprio movimento erradamente chamado de antiglobalização – que quer outro tipo de globalização, não essa de uso exclusivo do capital financeiro – não é uma invenção do ?Le monde diplomatique?, mas nasceu, cresceu e tem seus principais articuladores e defensores entre os americanos, nenhum dos quais se considera antiamericano por ser contra um modelo econômico que privilegia os já privilegiados e perpetua injustiças e uma assimetria trágica no mundo. Existe uma imprensa ativa, de esquerda ou apenas independente, nos Estados Unidos, que contesta as mentiras bem vendidas do poder corporativo dominante, além de uma tradição acadêmica de heréticos e provocadores intelectuais que se manifestam sem restrições.

Você não precisa ler mais do que analistas culturais e políticos americanos, ou radicados nos Estados Unidos, para ter um retrato crítico do império, e não estou falando só do Chomsky. Fora alguns soluços – as perseguições macartistas na época da guerra fria, ou concessões voluntárias a um certo controle em épocas de guerra quente como a atual, quando até a CNN se cuida – o pensamento contrário é no mínimo respeitado, nos Estados Unidos.

Diferente do Brasil, onde, pelo que tenho lido, depois dos atentados tem gente cobrando devoção patriótica inquestionável à pátria dos outros.

Herbert Block que, com o pseudônimo de Herblock, foi durante anos chargista do ?Washington Post?, onde anarquizou presidentes, denunciou hipocrisias oficiais, ironizou mitos nacionais, muitas vezes discordou radicalmente da linha política dos seus empregadores e foi xingado de comunista e traidor, morreu, há poucos dias, homenageado como exemplo do melhor jornalismo americano. Um Joseph Stiglitz, economista do Banco Mundial que, quando deixou o emprego, disse sobre o Banco, o Fundo Monetário Internacional e sua submissão ao Departamento do Tesouro americano exatamente o que dizem os críticos da globalização de um beneficiário só, não pode ser, nem por ilação doentia, chamado de cúmplice do ódio que destruiu o World Trade Center.

Continua ensinando na Universidade de Columbia e prestigiado pelos seus pares. Aliás, acaba de ganhar o Premio Nobel de Economia.

As atrocidades de 11 de setembro foram um triste episódio na história da estupidez humana. Senti-o profundamente, não só porque estava lá e vi de perto o drama de uma população atordoada e comovida, mas porque tenho uma ligação afetiva antiga com os Estados Unidos, onde morei por um tempo e é, afinal, a terra de alguns dos meus heróis culturais (além de alguns familiares). Mas, se os ataques mudaram muito mais coisas no mundo do que a silhueta de Nova York, não há porque mudarem convicções, ainda mais convicções de solidariedade e entendimento, ou encurtarem o raciocínio, ou transformarem todos em americanistas de ocasião. Mas, enfim, uma das características da estupidez humana é que ela nunca pára de nos surpreender."

"Guerra aquece a indústria da mídia", copyright O Globo, 12/10/01

"O empresário dos meios de comunicação Rupert Murdoch disse ontem que os ataques terroristas aos Estados Unidos, em 11 de setembro, e a conseqüente reação americana estão animando a indústria de mídia nas últimas semanas, aquecendo o meio publicitário, ainda que timidamente. Homem forte da News Corporation, Murdoch fez um discurso durante o encontro anual dos acionistas da empresa, em Adelaide, na Austrália.

Embora as condições do mercado ainda sejam difíceis e os ataques tenham resultado em perda de US$ 100 milhões no faturamento com publicidade da News Corporation, Murdoch pareceu otimista com o cenário:

– Nas últimas semanas, as nossas receitas ficaram mais fortes que nos últimos meses – disse ele.

Venda da Telemundo reforça tese de Murdoch

O império de mídia de Murdoch inclui a rede Fox e os estúdios cinematográficos Twentieth Century Fox, nos Estados Unidos, jornais na Austrália e a cadeia de televisão Star, na Ásia. Na Grã-Bretanha, a empresa de Murdoch é responsável pelos tradicionais jornais ?The Sun? e ?The Times?.

A idéia de que a indústria de mídia estaria recuperando espaço foi reforçada pelo anúncio de que a NBC estaria comprando a Telemundo, rede americana de televisão em língua hispânica, por US$ 1,98 bilhão (leia acima). É o primeiro grande negócio do setor de mídia desde os ataques terroristas a Nova York e Washington.

Compra da DirecTV pode ser fechada em breve

Murdoch disse aos acionistas que a News Corporation continua negociando a compra da DirecTV, empresa líder no setor de transmissão via satélite dos Estados Unidos, mas preferiu não fazer maiores comentários a respeito.

Executivos da News Corporation envolvidos nas conversas com a DirecTV, entretanto, parecem mais otimistas e dizem que a operação – estimada em US$ 25 milhões – poderia ser fechada dentro de um mês."

"Casa Branca pede restrição também aos jornais", copyright O Globo, 12/10/01

"Assim como fez na última quarta-feira com as redes de TV americanas, o governo dos EUA solicitou ontem que os jornais do país se abstivessem de publicar na íntegra as declarações de Osama bin Laden e outros terroristas. O objetivo é o mesmo: evitar que os discursos transmitam mensagens cifradas que possam ser captadas por criminosos, pondo em risco a segurança nacional.

O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, declarou que o presidente George W. Bush estava satisfeito com ?a reação dos executivos das grandes redes de TV nos EUA?, que comprometeram-se a fazer uma autocensura.

– Nossa solicitação não tem como objetivo deixar de informar os americanos sobre os acontecimentos, mas sim não deixar que os discursos sejam publicados integralmente. Há a preocupação que mensagens preparadas por Bin Laden possam ser lidas por pessoas que as entendam de forma diferente de nós – disse Fleischer.

?New York Times? diz estar disposto a ouvir governo

Os editores dos principais jornais do país, no entanto, declararam que ainda precisam conversar com o governo sobre o assunto, e não se comprometeram em atender aos pedidos integralmente. O diretor-executivo do ?Washington Post?, Leonard Downie Jr, disse que ?escutar o governo é um procedimento padrão para o jornal?. Mas ressaltou que as decisões editoriais serão tomadas caso a caso.

Já o editor-executivo do ?The New York Times?, Howell Raines, publicou ontem um editorial no qual declarava que ?se um alto funcionário do governo deseja falar conosco sobre assuntos relacionados à segurança nacional, estamos sempre dispostos a ouvi-lo?.

O pedido da Casa Branca, feito pela conselheira de Segurança Nacional Condoleezza Rice, partiu depois de a rede de TV al-Jazeera, com sede no Qatar, ter transmitido, no último domingo, declarações na íntegra de Bin Laden e de outros integrantes da al-Qaeda, nas quais palavras fortes e ameaçadoras foram usadas contra os EUA. As declarações foram retransmitidas pelas principais redes de TV americanas.

As emissoras, como a CNN e a Fox News, comemoraram a decisão conjunta de evitar a divulgação dos discursos integrais dos terroristas. De acordo com a Fox News, ?trata-se de uma decisão sem precedentes porque o tipo de guerra (ao terrorismo) também não possui precedentes?.

Para o especialista em propaganda Randall Bytwerk, do Calvin College, os pedidos de autocensura são apenas o início de uma longa discussão.

– Nós não temos escolha se não travarmos uma guerra na propaganda tão bem quanto o país trava sua guerra militar. Os que se opõem a nós farão o mesmo. Vários ajustes precisarão ser feitos daqui para frente. Enquanto ao meu ver a propaganda da guerra é tão importante quanto o confronto em si, nesta guerra, ao contrário das demais, o nosso inimigo encontra-se espalhado – explica o especialista.

No Brasil, o ombudsman da ?Folha de São Paulo?, Bernardo Ajzenberg, escreveu, sobre a censura às emissoras de TV, afirmando ?que os meios de comunicação têm o direito de optar por divulgar ou não aquilo que considerem adequado?. Para o jornal, a abertura de um debate é necessária. Procurada pelo GLOBO, a diretoria de redação do jornal ?O Estado de São Paulo? não se pronunciou sobre o tema.

As Organizações Globo entendem que, em caso de guerra, governos podem fazer este tipo de solicitação, que não caracteriza uma tentativa de censura à imprensa. Mas cabe a cada veículo de comunicação, com base em seus princípios e valores, decidir se atende ou não ao pedido feito. Em tempo de guerra, segundo a empresa, a segurança nacional é um dos fatores que os meios de comunicação devem levar em consideração na avaliação do que pode ou não ser divulgado."

"Redes vão revisar fitas dos discursos", copyright O Globo, 12/10/01

"O pedido de censura aos jornais foi feito menos de 24 horas depois que as cinco maiores redes de TV americanas (CNN, NBC, ABC, CBS e Fox News) concordaram – seguindo orientação da conselheira de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Condoleezza Rice – em revisar os vídeos gravados por Bin Laden ou qualquer outro membro da al-Qaeda antes de exibi-los.

Embora apóiem a medida, os diretores dos principais grupos de comunicação americanos ainda não estão totalmente convencidos de que os vídeos dos terroristas possam conter mensagens em código. Contudo, todos são unânimes em dizer que o acordo nasceu da natureza única e nova da ameaça terrorista.

– Esta é uma nova situação, uma nova guerra e um novo tipo de inimigo – disse Andrew Heyward, presidente do grupo CBS News.

Em nota, a direção da CNN declarou que não transmitirá discurso algum de Bin Laden ao vivo e prometeu ?levar em conta a ajuda das autoridades competentes? na hora de decidir o que exibir.

O magnata da comunicação Rupert Murdoch, presidente do News Corp., quinto maior grupo de comunicação no mundo, que controla o canal de notícias Fox News, também assegurou que se houver riscos de que os vídeos de Bin Laden e seu grupo possam conter mensagens terroristas, sua cadeia de televisão não os exibirá.

– É nosso dever patriótico – declarou o empresário australiano em entrevista após a reunião anual do News Corp.

Já o jornalista Hafiz al-Mirazi, chefe do escritório da rede de TV árabe al-Jazeera em Washington, colocou-se contra o acordo feito entre o governo americano e a imprensa do país. Mirazi disse ontem que a Casa Branca não deve asfixiar a cobertura da guerra:

– Não devemos atirar no mensageiro só porque não gostamos da mensagem. É nosso dever decidir sobre o que vamos divulgar, mas não obedeceremos ordens de Washington ou do Talibã.

Mirazi não acredita que a al-Qaeda use táticas tão sofisticadas como a inserção de mensagens codificadas nas fitas. A al-Jazeera foi a primeira rede de TV a transmitir a gravação em que Bin Laden aparece dizendo que ?a América não terá paz até que os palestinos a tenham?. A fita foi entregue no escritório do canal em Cabul. Sediada no Qatar, a rede é a única a ter acesso direto ao terrorista.

Na Grã-Bretanha, decisão compete às emissoras

Em Londres, um porta-voz do primeiro-ministro Tony Blair disse que qualquer decisão sobre as fitas de Bin Laden compete às cadeias de televisão e que o governo não vai interferir. Em geral, as grandes emissoras não concordaram em deixar de transmitir os vídeos. A TV NOS, da Alemanha, declarou que só mostrou alguns trechos. Os japoneses da NHK disseram que também usaram poucos segundos do vídeo para evitar que a notícia se convertesse em propaganda. Só a francesa TF1 decidiu não veicular as fitas."

    
    
                     
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