Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISTAS AMEAÇADOS

Luiz Alberto Weber

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

JORNALISTAS AMEAÇADOS

"Imprensa sob fogo cerrado", copyright Correio Braziliense, 12/6/02

"Maior correspondente de guerra da atualidade, o inglês Robert Fisk escreveu um artigo no jornal inglês The Independent onde criticou colegas americanos e ingleses que se travestiram de militares para cobrir o conflito no Afeganistão.

Há 20 anos trafegando pelas zonas mais perigosas do mundo, seja cobrindo guerras declaradas ou guerrilhas, Fisk nunca deixou de carregar o crachá de jornalista, de se identificar como repórter. Costuma dizer que não está à caça de inimigos, mas da História e que, portanto, não precisa se disfarçar ou ocultar gravadores e microcâmeras para fazer seu trabalho.

No artigo, escrito depois do assassinato pelos talibãs [grupo muçulmano radical que governava o Afeganistão e deu guarida ao terrorista Osama Bin Laden] do correspondente do Wall Street Journal, Daniel Pearl, Fisk tentava mostrar por que jornalistas se transformaram em vítimas de guerras – ocorram elas no Oriente ou nas comunidades dominadas pelo tráfico de drogas nas principais cidades da América Latina.

Segundo Fisk, tecnologias e artifícios jornalísticos que se assemelham às artimanhas militares estão ajudando a ?erodir o escudo de neutralidade e decência que nos salvava?. Para ele, a boa história deve ser escrita às claras. ?Somos convocados a escrever a História, não a tomar partido ou revelar apenas parte dela?.

O uso de câmeras ocultas (normalmente carregadas por repórteres disfarçados) está, agora, com o brutal assassinato do jornalista Tim Lopes por traficantes cariocas, mais uma vez em questão. A microcâmera seria um meio pouco ortodoxo – e parcial – de se obter informação.

Pesquisa do Instituto Poynter (especializado em questões da imprensa dos Estados Unidos), mostrou que a maioria dos jornalistas americanos reprova o disfarce, a ocultação da identidade e o uso de câmeras ocultas. Para eles, a microcâmera só deve ser usada quando todas as outras alternativas para obter a mesma informação estiverem esgotadas.

Ou seja, a publicação de uma consistente reportagem na imprensa sobre o tráfico de drogas em bailes funk do Rio serviria – caso os mesmos princípios fossem aqui adotados – para desqualificar as imagens obtidas do baile por uma microcâmera porque as cenas não acrescentariam informações, apenas seriam mais espetaculares.

?A tradicional investigação jornalística toma um atalho muito mais fácil e conveniente pelas novas trilhas abertas pela tecnologia da câmera oculta?, critica Antônio Brasil, coordenador do Laboratório de Vídeo e professor de Telejornalismo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Brasil já alertara, no ano passado, em artigo publicado no Observatório da Imprensa (site dedicado a discutir questões que envolvem a pratica jornalística), que a utilização de tecnologias poderosas como a câmera oculta sem qualquer tipo de controle poderia provocar suas primeiras vítimas em breve. ?E essas vítimas podem não ser necessariamente bandidos ou corruptos?, previu.

Outro problema apontado pelos estudiosos da imprensa é que a microcâmera e a ocultação da identidade leva o jornalista para a fronteira da arapongagem e o aproxima do mundo do crime. ?Muitas vezes o repórter é peça fundamental na prática do crime que pretende denunciar?, manifestou, no editorial A câmera oculta é um recurso honesto do jornalismo?, o Instituto Gutemberg, especializado em discutir questões éticas na imprensa.

Fato é que imagens obtidas com câmeras ocultas estão por detrás de importantes reportagens da TV Globo e outras emissoras. Com microcâmeras cada vez menores (algumas podem ser escondidas até na armação dos óculos), jornalistas escondem sua identidade profissional e filmam de tudo, de uma sessão de cartomante ao conluio de óticas com oftalmologistas para vender óculos. E muitas vezes induzem seus personagens ao crime.

A revista Veja, na reportagem ?Flagrante Forjado?, concluiu que ?criar flagrantes forjados não é uma boa opção para o trabalho da imprensa?. O presidente do Supremo Tribuna Federal (STF), Marco Aurélio de Mello, afirma que ao se fazer passar por outra pessoa o repórter pode incidir em crime de falsidade ideológica.

Não se deve, porém, desprezar a microcâmera como recurso de uma boa e responsável reportagem. O código de ética da Sociedade dos Jornalistas Profissionais dos Estados Unidos faz objeções ao uso de microcâmeras, mas a admite ?quando a reportagem for de interesse público vital, tal como revelar um grande fracasso do sistema em alto nível ou para prevenir dano profundo a indivíduos?.

Em várias ocasiões, no Brasil, câmeras ocultas estiveram a serviço do interesse público. Em 1998, um grupo de dez policiais militares torturava, espancava, constrangia e assassinava quem passasse pela Favela Naval, em Diadema, na Grande São Paulo.

Com competência, a Rede Globo mostrou o que todo o país sabia mas não via na TV. ?Em decorrência da gravidade das imagens e da força transformadora da mídia?, analisa o Instituto Gutemberg, os bons efeitos foram imediatos: o governo criou a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, o Congresso aprovou a Lei da Tortura, sucederam-se denúncias de arbitrariedades da PM.

Ex-secretário-geral do Ministério de Justiça e integrante do Conselho de Comunicação Social, o jurista José Paulo Cavalcanti acha mais conveniente se discutir, primeiro, os limites da privacidade no Brasil e a existência de zonas proibidas no país ao exercício profissional do que avaliar o caráter ético ou não das microcâmeras.

?Devemos discutir a existência de áreas de risco, de duas sociedades que não se comunicam. A morte do repórter Tim Lopes será útil para debater a existência e permanências desses guetos em nossa sociedade?, diz Cavalcanti.

A Rede Globo, através de sua assessoria de imprensa, disse ao Correio que a emissora continuará a usar o expediente das câmeras ocultas sempre que for do interesse público. O vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Everaldo Gouveia, afirmou que a entidade ainda não tem posição definida sobre o uso de microcâmeras por jornalistas.

Adesivos com a palavra Imprensa (em vários idiomas) nos carros costumavam ser tão protetores quanto o símbolo da Cruz Vermelha. Jornalistas de todo o mundo aventuravam-se em regiões conflagradas com certa segurança. Sempre houve riscos, é verdade. Mas nos últimos anos a profissão de repórter de guerra ou investigativo tornou-se especialmente perigosa.

Daniel Pearl, correspondente do Wall Street Journal, seqüestrado em 23 de janeiro passado no Paquistão, foi assassinado por extremistas islâmicos. O consulado dos Estados Unidos na cidade recebeu um vídeo mostrando o momento da execução.

O seqüestro ocorreu quando ele tentava fazer contato com grupos extremistas islâmicos. O fez de peito aberto, sem artifícios. Mas o simples fato de ser ocidental (em meio a uma guerra midiática, de versões) o tornou um soldado inimigo.

Em troca de sua vida, os criminosos exigiram a libertação de todos os paquistaneses presos durante a guerra contra o terrorismo, detidos em condições precárias na base norte-americana de Guantánamo, localizada em território cubano.

Menos convencional do que Pearl, usando um disfarce, o jornalista francês Michel Peyrard (foto), da revista Paris Match, entrou no Afeganistão durante a guerra. Com uma burka (veste imposta pelos talibãs às mulheres, que cobre todo o corpo), Peyrard iludiu vários postos de checagem policial e realizou algumas entrevistas.

Quando descoberto, por debaixo da burka percebeu-se que ele levava um telefone via satélite, um gravador e outros equipamentos de espionagem, segundo a agência de notícias afegã. O repórter foi acusado de espionagem, mas escapou da morte.

No Brasil, um dos casos mais emblemáticos de violência contra jornalistas foi o assassinato do repórter policial Mário Eugênio, do Correio Braziliense, em 1984. Ele investigava, então, a existência de um esquadrão da morte em Brasília. Foi morto por eles. A guerra do repórter brasiliense era contra o estado paralelo fundado pelo crime. Do mesmo tipo que matou o repórter Tim Lopes, no Rio.

Morrer em combate jornalístico é comum na América Latina, principalmente na Colômbia. Ali até os pacifistas morrem. Em 1998, Amparo Jimenez foi executada com cinco tiros por pistoleiros. Aos 37 anos, ela trabalhava num programa destinado a ajudar ex-guerrilheiros que trocavam às armas pela vida civil."

"Mais um jornalista é vítima de ameaças", copyright Comunique-se, 11/6/02

"Aluyisio Abreu Barbosa, diretor de redação da Folha da Manhã, de Campos (RJ), é mais uma vítima de ameças. Depois de escrever artigos sobre a história do policial federal Otávio Benjamin de Paula, preso por adulteração de combustíveis e porte ilegal de arma, Barbosa vem sofrendo ameaças pelo telefone. Com medo dos últimos acontecimentos envolvendo profissionais da imprensa, como foi o caso de Tim Lopes, A Associação Nacional de Jornais (ANJ) pediu, na última sexta-feira (07/06) ao ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, proteção ao jornalista de Campos.

Barbosa diz que não tem certeza se o policial está envolvido nas ameaças, mas acha estranho tudo acontecer depois das denúncias e dos editoriais escritos por ele. ?Venho sendo observado?, conta. Funcionários do jornal afirmaram ter visto carros e motos sem placas rondando a sede do diário. ?Eu também já vi. Saio daqui todos os dias entre 22h e meia noite. Vi um Tempra verde e um gol preto, ambos com vidros escuros, parados em frente à porta da empresa?.

Tudo começou quando um depósito de combustível de Campos explodiu. A Folha da Manhã descobriu que o depósito pertencia ao policial Benjamin de Paula. ?Como a perícia não confirmou nada, deixamos a história de lado?, conta. Mas a prisão do policial por porte ilegal de arma e adulteração de combustíveis retomou espaço nas folhas do periódico. ?Eu questionei nos editoriais como pode um homem acusado de adulterar combustíveis ser responsável por monitorar a adulteração na região?.

O que mais assustou Barbosa foram as ameaças ao filho e à sobrinha, ambos com dois anos e meio. Isso foi motivo suficiente para o jornalista se afastar por um mês do jornal.

Mas mesmo a distância não evitou que as perseguições cessassem. ?Um carro parou um prestador de serviço aqui da Folha e perguntaram onde eu estava?.

Em nota enviada à imprensa, a ANJ diz que as ameaças devem estar relacionadas à posição do jornal e pede ao Ministério da Justiça proteção ao jornalista."

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